domingo, 23 de setembro de 2012

Deus Não Mudou

Por Jaci Regis

 
Fomos convencidos de que um Deus humano, sentado num trono no céu governava tudo. O céu, dentro do sistema geocêntrico, ficava encima e o inferno, embaixo. Mas, embora não exista nem encima nem embaixo, a ideia permanece nas nossas estruturas mentais arcaicas.
 

Recentemente, a doença e a morte do governador Mário Cova mobilizaram a população em oração. Padres, pastores, rabinos, umbandistas, espíritas, rogaram ao Todo Poderoso pela saúde e pela vida do homem que governava o Estado de São Paulo.


A televisão mostrou milhares de crianças, mulheres e homens arrebatados à morte e à miséria em Moçambique, devido às chuvas que provocaram enchentes arrasadoras, aumentando a miséria daquele país africano, envolto, como os demais, em nebulosos processos de maturação, disputas tribais e de poder.


Lembro-me bem da amargura de um amigo que, endurecido e revoltado, em vão implorara a Deus que salvasse sua filha. O Governador morreu, os moçambicanos estão na pior e a filha do amigo partiu. O silêncio dos céus foi ensurdecedor.


Essa postura diante de Deus, repetida em vários idiomas e religiões, remete-nos, mitologicamente, ao homem primitivo, que se postava temeroso e trêmulo perante o trovão ou diante das lavas dos vulcões, tomados como manifestação da ira divina. Desde então, acostumou-se a fazer oferendas ao Todo Poderoso, para aplacar suas iras.


Poucos são os que neste mundo não creem na existência de Deus. Cada povo, cada época, cada instante da evolução pessoal e coletiva, enfim, na marcha das civilizações, em permanente trânsito para as mutações constantes, defrontou-se com a questão da divindade.


Os judeus, pastores primitivos, definiram, afinal, um deus único, invisível. Foi esse deus vulcânico, incompetente, mas Todo-Poderoso, que nos foi ensinado, conforme o cristianismo, e que definiu o fluxo das concepções vitais, a partir do feito deslumbrante de Moisés no Monte Sinai.


Consolidado na cultura do Império Romano, o cristianismo, atendendo ao impositivo mitológico, transformou Jesus de Nazaré na versão visível de Deus, na confusão da Santíssima Trindade, além de fazê-lo ocupar o lugar do Cristo, no mito judaico do Messias.


Afinal, com exceção dos judeus, todos os povos materializaram, fizeram formas expressas de seus deuses para prestar-lhes culto. Os egípcios viam seus deuses em formas semi-humanas. Os gregos humanizaram de tal forma o Olimpo, onde Zeus reinava, que criaram toda uma linguagem e toda uma mitologia que está presente na cultura ocidental. Maomé, na linha do cristianismo, também tornou Alá invisível.


O DEUS BÍBLICO


Os tempos mudam, mas nossa postura diante da divindade permanece estanque. Continuamos, no fundo, apegados aos padrões que a bíblia judaica nos trouxe, na tumultuada relação entre Javé, o deus de Abraão e o povo hebreu. Toda a concepção judaica de Deus está baseada no seu poder discricionário. Deus, criador imperfeito, sempre revisando sua obra e maldizendo o dia em que criou sua criatura.


Jesus de Nazaré usou outros termos referindo-se a Deus, chamando-o de “pai” e dizendo que “ele” amava as criaturas e era tão zeloso com elas que não lhe caía um só cabelo sem que “ele” soubesse...


Se antes Deus era temido, odiado e suportado sem alternativas, acendeu-se uma luz, relaxou-se o pensamento. Não estamos sós, Ele vela por nós... Na verdade, essas modificações aumentaram ainda mais o conflito.


O Nazareno, segundo o evangelho, afirmou que Deus amou tanto o mundo que enviou o seu filho primogênito. A expressão, como se vê é falsa. Em primeiro lugar, no nosso modo de entender, não há “filho primogênito”, concepção só cabível no horizonte restrito da Terra como o universo e o povo judeu como o escolhido.


Além disso, está subentendido que esse amor de Deus representava uma espécie de relaxamento da ira divina em relação à criatura. É o que depreendemos dessa outra afirmativa evangélica: “... Ora sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai Celestial....” Ou seja, a misericórdia divina é uma exceção dada pelo seu “coração” bondoso aos seus filhos, por ele criados, mas quase sempre desviados.


O deus de Jesus é, portanto, diferente do deus Jeová. Este teve ímpetos de acabar com a raça de víboras que somos todos nós. Aliás, tentou liquidar a humanidade com o dilúvio, segundo o relato bíblico. Mas, também até aí falhou.


Todavia, como foi dito que Deus ama, protege, providencia, cuida e é pai, nada mais natural que seus filhos que criou pela sua exclusiva vontade, a ele se dirijam pedindo providências particulares sobre doença, morte, o futuro e outros detalhes do dia-a-dia. Então, por que esse silêncio ensurdecedor quando a maioria esmagadora pede, suplica e não é atendida?


Para justificar esse silêncio, os sistemas religiosos afirmam que Deus bem que poderia atender, mas não faz porque as pessoas não merecem. A dor, o sofrimento, são remédios para a doença endêmica da maldade que domina os corações humanos.


A criatura desde o início pecou, criou a culpa, fez mau uso de seus instrumentos de vida e, por isso, Deus teve que castigá-la. E por todas as gerações. O homem comum é mau, não obedece a Deus.


A Doutrina Kardecista tenta avançar um pouco nesse espinhoso caminho.


Desenhou todo um esquema da atuação divina, mostrando um delineamento de progresso e evolução, do qual a pessoa é responsável por si, num tempo sem limites, na busca da relativa perfeição. A Providência Divina apenas propicia meios para que esse processo se realize, através, por exemplo, da encarnação/reencarnação, como instrumento de apreensão pela experiência de fatores externos e internos, basicamente centrados no relacionamento com o outro.


O sistema kardecista é racionalista. Tenta enquadrar a ação divina e mesmo o progresso espiritual dentro de critérios racionais. Entretanto, não é fácil desestruturar a mente, trabalhada por milênios de entendimento, conceituação e pressão cultural.


Milênios se passaram e nós, os Espíritos em processo de auto reconhecimento e crescimento espiritual, fomos ensinados a ver a divindade como a um poder invisível, senhor da vida e morte, de difícil comunicação, localizado em algum lugar inacessível, cheio de intermediários que falam, discursam e determinam em seu nome.


Qualquer um olhando as estrelas pensa que lá encima fica Deus. O que levou o astronauta russo Gagarin a dizer que não tinha encontrado Deus, mostrando que até os ateus pensavam no céu lá encima.


As igrejas sempre se mostraram arrogantes, criaram seus líderes como autênticos deuses. O papa católico é visto por milhões como representante desse deus, embora tenha sido eleito pelos demais cardeais. O aiatolá Khomeini criou um estado teocrático no Irã e agora o Taliban, no Afeganistão, pretende impor uma lei marcial-religiosa que cerceia a vida em nome de Deus.


Essa visão específica que criou Deus à semelhança do homem e vice-versa, criador de tudo, onipresente e onisciente, se tornou sufocante e deu um sentido inquietador ao coração humano.


Por isso mesmo a Doutrina Kardecista não pode livrar-se totalmente do Deus bíblico e cristão. Kardec tentou analisar a divindade dentro de padrões racionais. Mas, a razão humana é incapaz de fazer essa operação lógica e, além disso, o universo, a divindade, ou o que seja, não é apenas racional, mas afetivo.


DEUS É INDIFERENTE


Desde o momento que o mundo se livrou da tutela da Igreja que coagia o Espírito, filósofos, políticos, cientistas, alguns sacerdotes e teólogos, começaram a duvidar da forma como o deus Jeová se transplantou para o cristianismo, não obstante as modificações introduzidas por Jesus de Nazaré.


O Espiritismo apresenta uma interessante visão do processo evolutivo, mas na prática, os espíritas de modo geral, absorveram o “modus operandi” cristão e transformaram a reencarnação em pena de talião e a Justiça divina em contabilidade de erros e acertos; e a dor, o sofrimento, como moedas de pagamento dos débitos das pessoas e das coletividades.


A visão estática da vida prejulgou que toda verdade tinha sido revelada. Sem instrumentos e no nível de civilização agrária, as Igrejas acreditaram que tudo estava descrito, determinado.


O imenso vazio entre as esperanças e a realidade, as contradições entre o discurso moral e a realidade espiritual, eram “coisas de Deus”, que convinha não mexer, nem muito menos penetrar. O mistério era a chave mestra desse domínio total sobre as mentes.


Por exemplo, Ptolomeu era um astrônomo e, entretanto, seu sistema afirmava que a Terra era parada e centro do universo. Ele partiu da observação visual, pela qual, de fato, a Terra parece parada. Estamos sentados e não sentimos o globo rodar. Andamos e não percebemos o girar do planeta sobre si mesmo e, muito menos, em direção ao sol. Por isso ele concebeu seu sistema de acordo com sua visão e de suas observações práticas.


Estabelecida essa “verdade final” pela autoridade religiosa, guardiã da palavra de Deus, quem se atreveu a contraria-la foi submetido ao castigo, à humilhação e considerado herege. Entretanto, a Terra não está parada, gira em torno de si mesma, caminha para o sol e é apenas um pequeno planeta num universo de tamanho inconcebível pela mente humana. Portanto, é preciso compreender que a imagem e a atividade de Deus foram concebidas dentro de uma estrutura que não mais pode subsistir.


A incompreensão dessas mudanças conceituais, essa resistência às transições permanentes do processo evolutivo provocam atitudes que, guardadas as devidas proporções, é semelhante à da Igreja em condenar Galileu Galilei.


Segundo os conceitos difundidos pelas religiões (inclusive a espírita-cristã, roustainguista, chiquista e emmanuelina), a divindade é sensível à dor das pessoas e das coletividades. Entretanto, no dia-a-dia, a divindade é indiferente à dor das pessoas e dos povos.


Deus, certamente, não mudou. O Universo, a vida, apesar das descobertas, avanços e tecnologias são, basicamente, os mesmos. Aparentemente, a divindade é indiferente à dor, ao sofrimento. Isso decorre das posições estruturais desenvolvidas através dos tempos. Queremos um “pai” que nos dê colo, ansiamos por um ente superior que nos ampare, nos livre do mal e que nos ame.


Nós não sabemos nada da natureza desse “pai”. Pensamos nele como um homem, um Espírito ou que seja, um ser isolado, colocado em algum lugar, dando ordens, providenciando coisas.


Reflito na necessidade de mudarmos nossa estrutura mental, para nos adequarmos à nova visão da vida, mistificada, fraudada por ignorância e pelos sistemas religiosos de todos os tempos.


Não digo que “Deus não se importa”, nem que ele esteja à parte da criação. Existe um fio condutor na história, mas não da forma como gostaríamos. A identificação da divindade com cada um e com cada oportunidade parece definida por processos além de nosso entendimento racional.


Os cristãos autênticos criaram a escapatória da felicidade além-túmulo num céu estático, para premiar os bons e um inferno para punir os maus. Cada um que se esforce em passar pela vida terrena, sofrendo seus males, até alcançar a morte, que seria a aspiração suprema para os bons, pois só ela seria a porta da paz eterna, mas certamente nada desejada pelos maiores candidatos ao sofrimento sem fim.


Escrevendo essas coisas me sinto contando uma história da carochinha. Mas, os espíritas-cristão não ficam atrás. Estão absolutamente convencidos da inferioridade do ser humano e o culpam por não ter, nesses últimos dois mil anos, se tornado bom O sofrimento não é propriamente festejado, mas de certa forma exaltado, como uma espécie de sadomasoquismo moral, para purgar erros, pagar dívidas e aspirar a uma promoção além-túmulo ou na próxima vida. Também aí, tudo me parece extremamente sem base...


A CIÊNCIA E DEUS


A ciência avança na descoberta de elementos fundamentais da vida orgânica, dos sistemas celestes, na constituição genética e até mental das pessoas. Muitos ficam assustados porque, na imaginação da maioria, ela estaria ocupando o lugar que antes era reservado a Deus. Mas a ciência não cria, descobre. Ela desvenda o que existe e penetra em campos que eram, antigamente, exclusivos da divindade.


A ciência segue sem se importar com as crenças. Embora muitos cientistas se digam propensos a aceitar um poder espiritual, muitos deles pretendem desconhecer toda a história, querem reescrever a criação, desejam ter o poder de mudar, modificar e reconstruir as estruturas orgânico-mentais.


A subversão dos antigos conceitos sobre a criação levou a mudanças profundas no modelo moral da sociedade. A criatura humana, sempre vilipendiada pelas Igrejas, inclusive a espírita, quer ter seu direito de opinar sobre si mesma. Entra em conflito com padrões definidos como divinos, mas estabelecidos pelas igrejas, que afirmam que a vida pertence a Deus e o homem não tem poder sobre seu destino, traçado fora dele...


Amor, sexo, casamento, divórcio, aborto, eutanásia deixaram de ser zonas proibidas ou divinas. É o fruto do livre-arbítrio, ainda que leve, a princípio, à banalização que é a consequência primeira do rompimento da coação mental, social e religiosa.


No princípio a Terra era o centro. Depois o sol, e agora, não existe o centro do universo, mas uma multidão de galáxias se expandindo no Cosmo. Todavia, multidões e igrejas, inclusive a espírita, tentam manter as mesmas posições antiquadas e arcaicas, como se nada houvesse mudado. Não conseguem intervir para orientar. Recolhem-se na condenação ou no discurso repressor. Mas, parece que não há volta.


A expressão “coisas de Deus” confirma a manutenção de estruturas mentais arcaicas, separando o divino do profano, uma forma de se manter a ignorância. Na altura dos acontecimentos, qualquer profecia ou futurologia sobre como as próximas décadas serão é especulação sem sentido. O que tem que ser será.


Allan Kardec afirmou que Deus não faz milagres, porque isso seria derrogar a própria Lei que ele criou. Portanto, a impassividade e o silêncio divinos podem ser apenas formas que não conseguimos compreender dos mecanismos operacionais da Lei. Ou, para que saibamos que temos de resolver nossos problemas. Que a solidariedade é o instrumento de recíproco auxílio que permitirá a vida de relação; e haverá um limite para que a banalização desencadeie a reação para uma posição do meio, sem volta ao passado, por ser impossível e sem arrogância, que é destruída pela desestruturação das pessoas.


A PRESENÇA DE DEUS


Embora nos momentos de dor, sofrimento e angústia, a criatura possa se sentir abandonada por Deus, quando não é ouvida, se percebermos com serenidade veremos que, apesar desse silêncio, persiste uma ordem, uma ordenação no encaminhar das coisas, no decorrer dos tempos.


É como se fosse um grande quebra-cabeça, cujas peças vão aos poucos se encaixando, embora seja impossível determinar, não apenas a extensão, mas a profundidade desse quebra-cabeça.


Nessa altura, não podemos localizar um Deus-homem em um lugar específico do Universo. Não temos nem imagem, nem conhecimento da natureza da divindade. Mas, certamente, podemos compreender, ainda que limitadamente, que a imagem, a concepção e a forma como Deus foi mostrado, pelo menos no cristianismo, não pode ser mais mantida.


Existe uma Lei que abrange o universo, na qual todos estamos inseridos. Essa sensação de solidão decorre da inquietação sobre a morte e o desejo de persistência da maioria. Existem o mal e o bem, não como polos excludentes, mas como condições mutáveis em direção à plena satisfação pessoal, que a sabedoria divina condiciona ao harmonioso relacionamento com os outros.


O universo é baseado na solidariedade, nas leis de atração nos conjuntos estelares e nos conjuntos humanos. Pertencemos a nós mesmos, mas precisamos pertencer ao conjunto, nos inserir na relação afetiva com os outros.


Ninguém quer sofrer e é natural que recorra a um poder que lhe ensinaram ser arbitrário, que ora cede, ora endurece, que tem ira e castiga. Na verdade, muitas pessoas se julgam injustiçadas porque acreditam que não mereciam o sofrimento e as perdas que têm. Reclamam da Justiça Divina dada como sábia e misericordiosa, mas que, parece, muitas vezes premia o mau e castiga o justo.


As coisas, os problemas, enfim, os conflitos e contradições da vida acontecem não porque estão delineados em determinismos divinos, no sentido da alienação da pessoa, sob o império do destino, maktub ou karma. Mas porque decorrem dos mecanismos das leis ambientais e dos complexos processos mentais, nos quais o Espírito elabora o mapa de sua vida, a partir de como se posiciona no mundo e estrutura seu caráter.


As pessoas pedem a Deus que modifique o diagnóstico natural. Quase sempre não são ouvidas Não há uma presença, digamos, “pessoal” da divindade, mas tudo gira em torno de processo sincrônicos, atemporais, mostrando uma direção. Ainda assim, fica sem resposta a razão da vida.


Fonte: Abertura - Jornal de Cultura Espírita, abril de 2001 – Licespe, Santos-SP.



Jaci Regis (1932-2010), psicólogo, jornalista, economista e escritor espírita, foi fundador e presidente do Instituto Cultural Kardecista de Santos (ICKS), idealizador do Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita (SBPE), fundador e editor do jornal de cultura espírita “Abertura” e autor dos livros “Amor, Casamento & Família”, “Comportamento Espírita”, “Uma Nova Visão do Homem e do Mundo”, “A Delicada Questão do Sexo e do Amor”, “Novo Pensar - Deus, Homem e Mundo”, dentre outros.

sábado, 15 de setembro de 2012

O CÉTICO

Por Maria das Graças Cabral
 
 
Quando Kardec organizou a obra “O Que é o Espiritismo”, travou um diálogo com alguém que se colocava na condição de “cético”, ou seja, aquele indivíduo eivado de dúvidas que não acreditava em absoluto nos fenômenos espíritas. Observe-se que as questões por ele levantadas percorreram os séculos, e ainda persistem ecoando na mente de espíritos encarnados e desencarnados, já em meados do século XXI! Daí, oportuno acompanhar o desenvolvimento de alguns aspectos de seu pensamento, em razão da pertinência e atualidade.
 
 
Inicialmente, uma das questões suscitadas pelo incrédulo, referia-se ao vocábulo espírita e espiritismo, criado por Allan Kardec em substituição a espiritualista e espiritualismo, que seria “o oposto do materialismo”, segundo suas palavras na Introdução de O Livro dos Espíritos.
 
 
O Mestre esclarece que como nem todo o espiritualista crê nos Espíritos, nem na realidade de suas manifestações, a utilização do vocábulo suscitaria uma confusão por parte dos grupos de entendimentos diversos. Portanto, evitando a anfibologia adotou a palavra espiritismo para expressar as ideias codificadas na Doutrina dos Espíritos, e espíritas ou espiritistas aos adeptos do Espiritismo. Assevera o Codificador que “todo espírita é necessariamente, espiritualista, mas levará ainda muito tempo até que todos os espiritualistas se tornem espíritas.” (2001: p. 25).
 
 
Só que a anfibologia temida por Kardec, tomou conta dos vocábulos espiritismo e espírita, posto que, se vivencia hodiernamente uma verdadeira miscelânea de filosofias religiosas que se auto intitulam espiritas. Além do que é “moda” se dizer espírita, é “vendável”, psicografar livros espíritas, “elevam os índices de audiência” novelas espíritas, “lotam” cinemas e teatros filmes e peças espíritas. Ou seja, a palavra “espírita” tornou-se uma marca atraente e rentável e a anfibologia tão combatida pelo codificador, se consolidou.
 
 
Mas voltemos às argumentações do cético, quando ressalta que sendo o Espiritismo considerado uma ciência fundada em fatos positivos, não deveria haver dissidência ou diversidade de crenças entre seus adeptos, como estava ocorrendo na Europa e América.
 
 
A esse respeito, Kardec rebate observando que qualquer ciência no seu aparecimento, dá ensejo a dissidências até que seus princípios sejam definitivamente estabelecidos. Acrescenta que o descobrimento de cada doutrina ocasiona um choque entre os que desejam o progresso e os que teimam em permanecer estacionários.
 
 
Mais uma vez nos deparamos com a conveniência e efetividade do que preconiza o Mestre, quando vivenciamos nos albores do século XXI, as mais diversas dissensões no seio do movimento espírita, graças a um grande número de adeptos, que teimam em manter-se arraigados à idolatria e ao ritualismo religioso, temendo e ignorando a emancipação proposta pela Doutrina Espírita.
 
 
Daí, o interlocutor investe nas “fraudes dos fenômenos espíritas”, tão comuns à época de Kardec, como na atualidade. Em resposta à argumentação proposta, o Mestre indaga: - “Porque se pode imitar uma coisa, devemos acreditar que ela não exista?” Ou seja, se existem médiuns embusteiros, significa que todas as manifestações espíritas são falsificações? (2001: p. 28)
 
 
Aliás, hodiernamente, diante das frequentes notícias de médiuns fraudadores, observa-se um ceticismo crescente nas próprias hostes espíritas. Na realidade vivenciamos os dois extremos. De um lado companheiros de uma credulidade infantil, e de outro lado companheiros de um ceticismo exacerbado. Ou seja, para uns tudo o que provier de um médium e/ou espírito é verdadeiro, e para outros a incredulidade está se sobrepondo ao próprio fato mediúnico.
 
 
E então aonde devemos chegar? Diante da real possibilidade de fraude, que o espírita estude séria e aprofundadamente a parte experimental da doutrina espírita, objetivando obter conhecimento para avaliar e identificar a burla, como reiteradamente preconizava o Codificador.
 
 
Ainda a esse respeito, faz-se por oportuno observar que a mediunidade envolve um processo de alta complexidade, posto que, são individualidades em “planos” diversos que se comunicam através do pensamento e compatibilidade de fluidos. Não obstante, alguém abre mão por algum tempo de sua própria personalidade, para que o outro se manifeste, se mostre, se faça compreender.
 
 
É fato que vários elementos, como p. ex. questões espirituais, psicológicas, ideológicas, intelectuais, morais, dentre outras, afetarão na qualidade da manifestação que nem sempre será fiel ao pensamento e/ou objetivos do comunicante - podendo ser um entendimento equivocado, em razão da própria ignorância do espírito, ou de suas intenções íntimas de mistificar. Como também, poderá haver a dificuldade de alcance e compreensão por parte do médium.
 
 
Diante do exposto retorno a Kardec, quando assevera que não é pelo fato de haver fraudes, que o indivíduo deixa de ser médium. Vale lembrar Eusápia Paladino, que mesmo com fraudes comprovadas, Kardec não deixou de considerá-la uma grande médium.
 
 
Outra questão suscitada pelo opositor incrédulo se referia - na sua concepção - que o espiritismo estava buscando “ressuscitar” as “crenças sobrenaturais.” Afirmava o interlocutor de Kardec, que em um mundo positivista, não haveria mais espaço para superstições e crendices advindas da ignorância popular.
 
 
Oportuno observar que tal argumento se faz muito comumente, quando as pessoas atribuem o “fantasmagórico” e as mais variadas superstições à condição de sobrenatural. Objetivando o esclarecimento da temática aproprio-me das palavras do codificador quando assevera:
 
“Sobrenatural, é o que está fora dos limites regidos pelas leis da natureza. O positivismo só admite estas - mais nada. Conhece-as, porém, todas? Em todos os tempos, os fenômenos cuja causa era desconhecida foram considerados sobrenaturais. Cada nova lei descoberta pela ciência veio dilatar os limites anteriores. O Espiritismo vem revelar uma nova. A comunicação com o espírito de um morto vem revelar uma nova. A comunicação com o espírito de um morto repousa numa lei tão natural quanto as da eletricidade, o que permite que dois indivíduos, separados por quinhentas léguas, estabeleçam contato. O mesmo dá-se com os outros fenômenos espíritas.” (2001: p. 32).
 
 
Finalmente, reporto-me a outra questão levantada pelo nosso companheiro cético, em razão de ser um entendimento defendido com veemência por parte dos que duvidam ou não acreditam na fenomenologia espírita.
 
 
Assevera o interlocutor de Kardec que “os fenômenos provocados são, especialmente, os mais criticados.” Acrescenta, que caso não houvesse charlatanismo e admitindo-se uma completa honestidade, haveria a possibilidade dos médiuns serem vítimas de “alucinação” - tese esta frequentemente defendida pelos que não dão crédito à mediunidade. Ao que o Codificador contrapõe, arguindo que caso o médium por efeito da imaginação acreditasse ver o que não existe, admitir-se-ia que toda a sociedade seria vítima da mesma miragem, e que isso se reproduziria em toda parte e em todos os países. Ou seja, a “alucinação” seria mais prodigiosa que o fato em si.
 
 
Adiante o Mestre comenta que os contraditores “buscam coisas cem vezes mais extraordinárias e difíceis de admitirem (o padre Quevedo que o diga!) do que as que combatem como inadmissíveis.” (2001: p. 38/39).
 
 
Portanto, pode-se observar que o interlocutor incrédulo levantou questões que ainda reverberam nos céticos do nosso tempo, ficando para todos nós a grande lição deixada por Allan Kardec, quando assevera que “o Espiritismo prende-se a todos os ramos da Filosofia, da Metafísica, da Psicologia e Moral, sendo um campo imenso que não podemos percorrer em poucas horas.” Ou seja, a Doutrina dos Espíritos exige do espírita estudo profundo e constante para que se possa esclarecer e desmistificar os inúmeros equívocos disseminados por críticos, céticos e religiosos. Como também pelos próprios espiritistas, que paulatinamente distorcem e minam os princípios doutrinários da codificação, transformando o espiritismo numa seita mística e descaracterizada.
 
 
 
 
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
 
KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo. Editora LAKE. SP/SP. 26ª edição. 2001.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Identidade dos Espíritos nas comunicações particulares

 
(Revista Espírita, julho de 1866)
 
 
 
 
Por que os Espíritos evocados por um sentimento de afeição muitas vezes se recusam a dar provas incontestáveis de sua identidade?

 
Compreende-se todo o valor ligado às provas de identidade da parte dos Espíritos que nos são caros. Tal sentimento é muito natural e parece que pelo fato dos Espíritos poderem manifestar-se deve ser-lhes muito fácil atestar a sua personalidade. A falta de provas materiais é, para certas pessoas, sobretudo para as que não conhecem o mecanismo da mediunidade, isto é, a lei das relações entre os Espíritos e os homens, uma causa de dúvida e de penosa incerteza. Embora tenhamos tratado várias vezes desta questão, vamos examiná-la novamente, para responder a algumas perguntas que nos são dirigidas.

 
Nada temos a acrescentar ao que foi dito sobre a identidade dos Espíritos que vêm unicamente para a nossa instrução, e que deixaram a Terra há algum tempo. Sabemos que ela não pode ser atestada de maneira absoluta e que devemo-nos limitar ao julgamento do valor da linguagem.

 
A identidade não pode ser constatada com certeza senão para os Espíritos que partiram recentemente, cujo caráter e hábitos se refletem em suas palavras. Nestes, a identidade se revela por mil particularidades. Algumas vezes a prova ressalta de fatos materiais, característicos, mas o mais das vezes de nuanças da própria linguagem e de uma porção de pequenos nadas que, por serem pouco evidentes, não são menos significativos.

 
Muitas vezes as comunicações deste gênero encerram mais provas do que se pensa, e que descobrimos com mais atenção e menos prevenção. Infelizmente, na maior parte do tempo, as pessoas não se contentam com o que o Espírito quer ou pode dar; querem provas à sua maneira; pedem-lhe para dizer ou fazer isto ou aquilo; que lembre um nome ou um fato, e isso num momento dado, sem pensar nos obstáculos que por vezes a isto se opõem, e paralisam a sua boa vontade. Depois, obtido o que desejam, muitas vezes querem mais. Acham que ainda não é bastante concludente; após um fato, pedem outro e mais outro. Numa palavra, nunca têm bastante para se convencer. É então que, muitas vezes, fatigado por tal insistência, o Espírito cessa completamente de se manifestar, esperando que a convicção chegue por outros meios. Mas muitas vezes também sua abstenção lhe é imposta por uma vontade superior, como punição ao solicitante muito exigente, e também como prova para a sua fé, porque, se por algumas decepções e não obtenção do que quer e pela maneira pela qual o quer, ele viesse a abandonar os Espíritos, esses por sua vez o abandonariam, deixando-o mergulhado nas angústias e nas torturas da dúvida, feliz quando o seu abandono não tem consequências mais graves.

 
Mas, numa porção de casos, as provas materiais de identidade são independentes da vontade do Espírito e do desejo que ele tem de as dar. Isto se deve à natureza ou ao estado do instrumento pelo qual ele se comunica. Há na faculdade mediúnica uma infinita variedade de nuanças que tornam o médium apto ou impróprio à obtenção de tais ou quais efeitos que, à primeira vista, parecem idênticos, mas que dependem de influências fluídicas diferentes. O médium é como um instrumento de muitas cordas, e não pode emitir som pelas cordas que lhe faltam.

 
Eis um exemplo notável:

 
Conhecemos um médium que pode ser posto entre os de primeira ordem, tanto pela natureza das instruções que recebe quanto pela aptidão para se comunicar com quase todos os Espíritos, sem distinção. Inúmeras vezes, em evocações particulares, obteve irrefutáveis provas de identidade, pela reprodução da linguagem e do caráter de pessoas que jamais tinha conhecido. Há algum tempo, fez para uma pessoa que acabava de perder subitamente vários filhos, a evocação de um destes últimos, uma menina. A comunicação refletia perfeitamente o caráter da menina e era tanto mais satisfatória porque respondia a uma dúvida do pai acerca de sua posição como Espírito. Contudo, só havia provas de certo modo morais. O pai achava que um outro filho teria podido dizer o mesmo; queria algo que só a filha pudesse dizer; admirava-se, sobretudo de que o chamasse de pai, em vez do apelido familiar que lhe dava, e que não era um nome francês, partindo da ideia de que se ela dizia uma palavra, podia dizer-lhe outra. Tendo o pai perguntado a razão, eis a resposta que, a respeito, deu o guia do médium:

 
“Embora inteiramente desprendida, vossa filhinha não estaria em condições de vos fazer compreender por que ela não pode fazer com que o médium repita os termos por vós conhecidos que ela lhe transmite. Ela obedece a uma lei em se comunicando, mas não a compreende suficientemente para explicar o seu mecanismo. A mediunidade é uma faculdade cujas nuanças variam ao infinito e os médiuns que de ordinário tratam de assuntos filosóficos só obtém raramente, e sempre espontaneamente, essas particularidades que fazem reconhecer a personalidade do Espírito de maneira evidente. Quando os médiuns desse gênero pedem uma prova de identidade, no desejo de satisfazer o evocador, as fibras cerebrais tensas por seu desejo já não são bastante maleáveis para que o Espírito as faça mover-se à sua vontade. Daí se segue que as palavras características não podem ser reproduzidas. O pensamento fica, mas a forma não mais existe. Não há, pois, nada de estranhável que vossa filha vos tenha chamado de pai em vez de vos dar a qualificação familiar que esperáveis. Por um médium especial obtereis resultados que vos satisfarão. E só ter um pouco de paciência.”

 
Depois de alguns dias, achando-se esse senhor no grupo de um dos nossos membross, obteve de outro médium, pela tiptologia, e em presença do primeiro, não só o nome que desejava, sem que tivesse pedido especialmente, mas outros fatos de notável precisão. Assim, a faculdade do primeiro médium, por mais desenvolvida e flexível que fosse, não se prestava a esse gênero de produção mediúnica. Ele podia reproduzir as palavras que são a tradução do pensamento transmitido, e não termos que exigem um trabalho especial. Por isso, o conjunto da comunicação refletia o caráter e a disposição das ideias do Espírito, mas sem sinais materiais característicos. Um médium não é um mecanismo próprio para todos os efeitos. Assim como não se encontram duas pessoas inteiramente semelhantes no físico e no moral, não há dois médiuns cuja faculdade seja absolutamente idêntica.

 
É de notar que as provas de identidade quase sempre vêm espontaneamente, no momento em que menos se pensa, ao passo que são dadas raramente quando pedidas. Capricho da parte do Espírito? Não; há uma causa material, que é a seguinte.

 
As disposições fluídicas que estabelecem as relações entre o Espírito e o médium oferecem nuanças de extrema delicadeza, inapreciáveis por nossos sentidos e que variam de um momento a outro no mesmo médium. Muitas vezes um efeito que não é possível num desejado momento, sê-lo-á uma hora, um dia ou uma semana mais tarde, porque as disposições ou a energia das correntes fluídicas terão mudado. Dá-se aqui como se dá na fotografia, onde uma simples variação na intensidade ou na direção da luz basta para favorecer ou impedir a reprodução da imagem. Um poeta faz versos à vontade? Não. É-lhe necessária a inspiração; se não estiver em condições favoráveis, por mais que cave o cérebro, nada obtém. Perguntai-lhe por quê. Nas evocações, o Espírito deixado à vontade aproveita disposições que encontra no médium, aproveita o momento propício. Mas, quando essas disposições não existem, ele não pode mais que o fotógrafo com a ausência de luz. A despeito de seu desejo, portanto, ele não pode sempre satisfazer instantaneamente a um pedido de provas de identidade. Eis por que é preferível esperá-las do que solicitá-las.

 
Além disto, é preciso considerar que as relações fluídicas que devem existir entre o Espírito e o médium jamais se estabelecem completamente desde a primeira vez, pois a assimilação só se faz com o tempo e gradualmente. Disso resulta que, inicialmente, o Espírito sempre experimenta uma dificuldade que influi na clareza, na precisão e no desenvolvimento das comunicações, ao passo que, quando o Espírito e o médium estão habituados um ao outro, quando seus fluidos estão identificados, as comunicações se dão naturalmente, porque não há mais resistências a vencer.

 
Vê-se por aí quantas considerações há que levar em conta no exame das comunicações. É por não fazê-lo e por não conhecer as leis que regem essas espécies de fenômenos que muitas vezes se pede o que é impossível. É absolutamente como se alguém que não conhecesse as leis da eletricidade se admirasse que o telégrafo pudesse experimentar variações e interrupções e concluísse que a eletricidade não existe.

 
O fato da constatação da identidade de certos Espíritos é um acessório no vasto conjunto dos resultados que o Espiritismo abarca. Se essa constatação fosse impossível, ela nada prejulgaria contra as manifestações em geral, nem contra as consequências morais daí decorrentes. Seria preciso lamentar os que se privassem das consolações que ela proporciona, por não terem obtido uma satisfação pessoal, pois isto seria sacrificar o todo à parte.

domingo, 2 de setembro de 2012

CONTROLE UNIVERSAL HOJE?

 
Por Sérgio Aleixo
 
Os reivindicadores de uma novíssima aplicação deste método esquecem que Kardec disse que o controle universal do ensino dos espíritos serviu para estabelecer os princípios mesmos do Espiritismo, e não se aplicava a “interesses secundários”.
 
Uma só garantia séria existe para o ensino dos espíritos: a concordância que haja entre as revelações que eles façam espontaneamente, servindo-se de grande número de médiuns estranhos uns aos outros e em vários lugares. Vê-se bem que não se trata aqui das comunicações referentes a interesses secundários, mas do que respeita aos princípios mesmos da Doutrina. Prova a experiência que, quando um princípio novo tem de ser enunciado, isso se dá espontaneamente em diversos pontos ao mesmo tempo e de modo idêntico, senão quanto à forma, quanto ao fundo.[1]
 
No século 19 foi assim. Poderia sê-lo hoje? Não sei. O problema para uma nova aplicação desse controle seria a “espontaneidade”. Com a Doutrina já amplamente difundida no mundo e a comunicação instantânea entre os habitantes do planeta, essa “espontaneidade” seria confiável? Haveria nos médiuns atuais a mesma isenção de ânimo anterior ao assentamento dos princípios da Doutrina por Kardec? Tem-se visto os próprios médiuns psicografando e defendendo o que eles mesmos pensam sobre os assuntos tratados nos livros que recebem dos Espíritos... E será coincidência que muitos deles conflitem frontalmente a Obra de Kardec, enquanto outros a contrariem ao mesmo tempo em que a aclamem? E mesmo supondo que novos princípios fossem transmitidos por um virtual novo controle, estes poderiam contradizer o controle kardeciano? Tão prevenido e perspicaz foi Kardec que, de revés, respondeu negativamente a isso, na introdução de A Gênese. Se não, vejamos:
 
Essa coletividade concordante da opinião dos Espíritos, passada, ao demais, pelo critério da lógica, é que constitui a força da Doutrina Espírita e lhe assegura a perpetuidade. Para que ela mudasse, fora mister que a universalidade dos Espíritos mudasse de opinião e viesse um dia dizer o contrário do que dissera. (Grifo meu.)
 
Ainda que novos princípios fossem ditados sob a eventual aferição de um novíssimo controle, não poderiam esses princípios contraditar os kardecianos, sob pena de admitir-se que os espíritos superiores necessitassem agora contradizer-se. Assim sendo, o padrão de aferição espírita das comunicações mediúnicas será sempre a Obra de Kardec. Eventuais novos princípios não contrariariam os anteriormente fixados. Kardec deve ser estudado e a sua filosofia, a espírita, acompanhada em seu minucioso desenvolvimento, ao longo de todos os seus trabalhos. Só isso pode garantir a qualidade daquilo que hoje escrevem os escritores do aquém e do além sob o epíteto de Espiritismo. Caso queiram, a exemplo de Emmanuel, divulgar filosofia espiritualista,[2] é que não têm compromisso com a Doutrina Espírita em si; se ainda assim afirmem tê-lo, mentem, porque não é legítimo um Espiritismo a contrariar os princípios kardecianos.[3]
 
O controle universal do ensino espírita serviu para estabelecer os princípios mesmos do Espiritismo. Os instrumentos para dar ao Espiritismo qualquer eventual novo contorno que se lhe faça necessário (e ainda assim, mais na linguagem que no conteúdo) são a pesquisa científica e a análise filosófica, sempre aliadas, nessa tarefa específica, aos princípios estabelecidos por Kardec. Ao que tudo indica, os espíritos não têm nada exatamente novo a dizer que já não tenham dito à época de Kardec, com a diferença de que agora a responsabilidade de filtrar esses informes há sido nossa e temos preterido Kardec mais que vilmente.
 
Dizem que André Luiz inovou, mas os espíritos já vinham relatando essas “ilusões” de uma vida praticamente física no além desde sempre, e Kardec enquadrou tudo isso devidamente, conforme os princípios do Espiritismo. Infelizmente, esses princípios por ele assentados não são usados para qualquer aferição, com a desculpa de que vêm aí “coisas novas”. Mas novas em quê, mais precisamente? Acaso os princípios fixados pela universalidade do controle kardeciano poderiam ser desmentidos hoje? Como disse Kardec, seria necessário que a universalidade dos espíritos mudasse de opinião e viesse agora dizer o contrário do que dissera. Onde a verdade?
 
Por exemplo: sabe-se que os espíritos não têm órgãos, nem podem satisfazer necessidades típicas do corpo terreno; que uma coisa é a ilusão em que muitos deles podem estar e, outra, bem diversa, é a realidade de sua verdadeira situação. Mas veio André Luiz e subverteu isso, desmentindo princípios estabelecidos pela universalidade do controle kardeciano. Que fizeram os espíritas em sua grande maioria? Encorajaram a mistificação com uma credulidade excessiva, por conta da quase santidade de Chico Xavier, e tentam hoje misturar água e óleo, dizendo que André Luiz completa Kardec.
 
Outros, mais ousados, e não raro fascinados, dizem que André Luiz o supera e mesmo o substitui, sendo que já existem até os que superam o próprio André Luiz. Sim, porque, afinal, mais não fazem estes novos cronistas que ir aonde André Luiz, tacitamente, os havia autorizado a irem. Se existem pássaros no além, porque não colocariam ovos em seus ninhos? Se os espíritos de homens e mulheres casam e coabitam no além, por que não teriam filhos? Não é de admirar o que publicam Bacceli e congêneres; mera consequência do secular federalismo febiano e do mito rustenista que nele surgiu e se alimentou: a infalibilidade mediúnica de Chico Xavier.

 
 
 
[1]

O Evangelho Segundo o Espiritismo. Introdução, II. Grifos meus.
[2]

Emmanuel. Explicando. F.E.B., 15.ª ed., p. 15.
[3]

Cf. Cap. 20: Kardec Versus Emmanuel em 12 Passos,


segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Reuniões Mediúnicas Espíritas, Fanatismo, rituais e a comunhão de pensamentos



Por Iso Jorge Teixeira
 
 
Disse JESUS: "Em verdade ainda vos digo: se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre quaisquer coisas que quiserem pedir, isso lhes será concedido por meu Pai que está nos céus. Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou no meio deles." (Mt 18,19-20).
 
Como realizar uma reunião mediúnica? Há diferença entre uma reunião mediúnica de uma seita religiosa qualquer e uma reunião mediúnica espírita? Uma reunião mediúnica deve obedecer a regras, humanas, para que não se torne uma reunião frívola; entretanto, devemos ter o cuidado para não transformarmos tais regras em dogmas para o Espiritismo, pois este não é UMA religião...
 
Reuniões mediúnicas espíritas e religião.


Apesar dos resultados da pesquisa neste site, acreditamos que muitos responderam sem conhecimento de causa e alguns com o conceito genérico de religião. A pergunta "O Espiritismo é uma religião?" foi tema de um discurso de ALLAN KARDEC numa Sessão comemorativa do dia dos mortos em 1.º/11/1868 na Sociedade de Paris, tal discurso foi publicado na Revista espírita - Jornal de estudos psicológicos de dezembro de 1868. Nele, vemos claramente que o Espiritismo tem conseqüências religiosas mas, repetimos, não é UMA religião.
 
Enfim, as regras para uma reunião mediúnica espírita como dia(s) da semana, horário, número de participantes, objetivos, etc. são humanas e flexíveis, servem basicamente para disciplinar, mas não para dogmatizar...
 
Não temos nada contra as seitas religiosas que realizam suas reuniões mediúnicas de tal ou qual maneira; entretanto, tais seitas religiosas muitas vezes intitulam-se espíritas. Ora, o Espiritismo não é uma religião e, muito menos ainda, uma seita religiosa... A questão não é simplesmente de palavras, mas de método. As palavras Espiritismo, espírita ou espiritista surgiram em 1857 com a publicação de O Livro dos Espíritos de ALLAN KARDEC, aliás já escrevemos um artigo mostrando as diferenças do Espiritismo em relação a outras crenças espiritualistas (no site millenium news)... A confusão feita com estes termos gera, muitas vezes, discussões que poderiam ser evitadas se houvesse um mínimo de estudo pelas pessoas...
 
Condições para a realização de reuniões mediúnicas espíritas.


Nosso propósito neste artigo é tentar esclarecer os pontos fundamentais que devem ser levados em conta quando realizamos uma reunião mediúnica espírita com objetivos sérios.
 
Em primeiro lugar para que tal reunião se realize é preciso que haja médiuns ; todos o somos, mas é necessário que haja mediunato na maioria das pessoas participantes; a propósito, leia-se o nosso artigo Mediunidade, Mediunato e evolução espiritual [Jornal O SEMEADOR (Órgão da FEESP) - abril / 02, p. 8 e 9]; assim, somos de opinião de que obsidiados e doentes mentais não devem participar de reuniões mediúnicas, pois não há neles o mediunato.
 
Outro aspecto importante é que haja evocação dos Espíritos Superiores para presidirem espiritualmente os trabalhos, contudo, devemos fazer a nossa parte, não devemos achar que eles tudo fazem, por isso é necessário que os médiuns tenham conhecimento doutrinário, principalmente aquele(s) designado(s) para ser(em) o(s) doutrinador(es). Ressaltamos este ponto, embora óbvio, porque temos conhecimento de reuniões mediúnicas, ditas espíritas, em que o doutrinador tem um conhecimento muito superficial de O Livro dos Espíritos (OLE) de KARDEC e que nunca leram a Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos; consideramos isso um absurdo, pois é querer brincar com fogo e esperar que os Espíritos Superiores ajudem e tudo façam, levando-se tudo na base da "intuição".
 
E, enfim, o mais importante, é que haja uma comunhão de pensamentos bons durante a reunião mediúnica; bem, disso falaremos mais adiante.
 
Fanatismo nos Centros espíritas.


No dia 21/12/01 recebemos mail de um leitor do jornal espírita, que nos fez várias perguntas, todas respondidas, que merecerão um artigo no JE, no final disse o confrade: "(...) Futuramente pode nos brindar com um artigo sobre o fanatismo na Casa Espírita?" ANDRÉ LUIZ P.S. São Paulo - SP.
 
Vamos tentar satisfazer aqui o pedido do leitor...
 
Há pessoas que superestimam uma idéia ou grupos de idéias com tal passionalidade que nem ouvem ou não entendem o que outros indivíduos dizem ou escrevem, contrariamente às suas idéias; negam-se a admitir idéias por mais racionais que sejam; são pessoas fanáticas.
 
O adágio popular brasileiro diz que religião e futebol não se discute, exatamente porque as pessoas polarizam sua afetividade para uma seita religiosa ou para o clube de seu coração e, consequentemente, as discussões religiosas são improfícuas e, algumas vezes, perigosas, tal a irracionalidade com que as pessoas defendem seus pontos de vistas sem enxergar ou ouvir o ponto de vista do outro e podem chegar à agressão física...
 
Infelizmente, algumas pessoas que se dizem espíritas estão seguindo o mesmo caminho das seitas religiosas e tornam-se fanáticas. Basta que se questione idéias de um Espírito, seu preferido, tornam-se extremamente agressivas, embora sem perder a pose e a linguagem melíflua, pseudo-evangélica e, curiosamente, rotulam as pessoas que delas discordam de obsidiadas, num claro mecanismo que os psicanalistas chamam de projeção, isto é, projetam no outro aquilo que é dele próprio...
 
Em um Centro, que se diz espírita, do Rio de Janeiro, tivemos conhecimento de uma pessoa que orava por seus parentes doentes, ajoelhada diante de uma foto de BEZERRA DE MENEZES !!... De uma certa feita levou o seu neto (deficiente mental) para uma sessão de psicometria (??) no tal Centro - realizada por uma Sra. que se dizia psicóloga - e, em dado momento da sessão, o rapaz entrou em intensa agitação psicomotora. A atitude da tal que se dizia psicóloga foi chamar a Polícia, que imediatamente levou o paciente para internação psiquiátrica... Quando questionamos a falta de cientificidade da psicometria, a tal que se dizia psicóloga, ficou extremamente irritada, irada mesmo, dizendo que aquele "trabalho" era uma "caridade", uma "mediunidade com JESUS" !!... Em resumo, não admitiu discussão sobre o seu método, como sempre fazem os fanáticos, agredindo verbalmente as pessoas "em nome de JESUS", exatamente como faziam os fanáticos da Idade Média que, inclusive, levaram pessoas para a fogueira, rotulando-as de feiticeiras, tudo "em nome de JESUS".
 
Enfim, os exemplos multiplicar-se-iam no mesmo estilo, ficaria cansativo citá-los.
 
O Espiritismo é uma Doutrina, com bases científicas e conseqüências religiosas, mas não é uma religião como opinamos. A excelência da Doutrina Espírita é que ela é racional e, por isso mesmo, não aceita dogmas, só admite como doutrinário aquilo que passe pelo crivo da razão e pelo criterium da concordância. Portanto, é inconcebível o fanatismo em um adepto do Espiritismo, mas desgraçadamente ele existe em alguns que se intitulam espíritas !...
 
Há vários tipos de fanáticos nos Centros Espíritas: aquele que procura o Centro unicamente para receber passes e acredita que eles lhes são benéficos, no entanto, não se observa nele nenhuma transformação íntima; muitas vezes, continuam sendo pessoas egoístas, rancorosas, agressivas, apesar dos passes. Julgam que indo ao Centro regularmente, sem faltar um só dia, e recebendo seus passes, estariam quites com DEUS e ponto final !...
 
Outro tipo de fanático é aquele que procura o Centro unicamente para levar "água fluidificada" para casa e alguns mesmo, pasme-se, levam seus familiares para um "banho de ervas" aconselhado por um dirigente "espírita". Ora, nada temos contra quem é adepto da Umbanda, Candomblé, etc., mas confundir-se Espiritismo com tais denominações é, no mínimo, ignorância das obras básicas do Espiritismo...
 
Outros, ainda, que se dizem espíritas, colocam defumadores em suas casas, querendo com isso afastar os maus espíritos; seria a "fumacinha" quem afastaria os maus espíritos. Ora, um espírito inferior, mas inteligente, desencarnado, acreditará que uma "fumacinha" lhe fará mal?! Certamente que não, inclusive tais espíritos estimularão a crendice das pessoas que se utilizam de tais rituais para se divertirem. Neste aspecto é trágico vermos homens inteligentes admitirem que a "fumacinha" funciona, porque os Espíritos inferiores assim o acreditariam!!...
 
 
 

Outra crença cega é a de que nos Centros Espíritas haveria uma "barreira fluídica", "eletromagnética", dizem os sabichões, para impedir a penetração de maus espíritos; isto é dito como verdade transitada em julgado, somente porque alguns Espíritos, idolatrados entre nós, o afirmaram para demonstrar que o Centro Espírita é um "templo", um "santuário". Ora, o que traz bons ou maus fluidos para o interior de um Centro Espírita são os pensamentos daqueles envolvidos no trabalho. Se, por exemplo, o Presidente de um Centro Espírita é hipócrita, corrupto e só vive com o nome de JESUS nos lábios, no interior do Centro; mas seu comportamento diário, fora dele, é dissoluto, que tipo de espíritos ele atrairá para o interior do Centro? Se não há "barreira fluídica" para impedir a entrada de um Espírito encarnado deste tipo, por que os desencarnados seriam impedidos de entrar? Seria uma injustiça de DEUS: o desencarnado inferior leva choque elétrico se tentar entrar no Centro e o encarnado inferior entraria em conluio com os Espíritos Superiores para enganar a boa fé alheia? Seria absurdo, pois quando os Espíritos Superiores percebem a sintonia de espíritos inferiores em determinados Centros, eles se afastam e, neste caso, a conseqüência é uma verdadeira obsessão coletiva...
 
 
Dispersão e a "falta danada de um ritualzinho" - A comunhão de pensamentos.


Em longo mail de 13/04/02, disse uma internauta, estudante de Psicologia, dentre outras coisas: "(...) Quanto ao ritual que a Doutrina alerta-nos para que dele prescindamos, eu, para lhe dizer a verdade, sinto uma falta danada de um ritualzinho. Hoje, como estudante de Psicologia, vejo o quanto ele tem sido importante para ajudar e manter a mente mais aglutinada, promovendo força mental. Vejo nos Centros como as pessoas ficam dispersas e o quanto tem sido difícil para nós, estressados de ultimamente, 'sacarmos' a importância do nosso templo e mantermo-nos condignamente no ambiente, dele aproveitando o melhor possível. (...) Não que eu pense que devamos incluir rituais em nossas casa, mas o que fazermos para que nós espíritas consigamos nos concentrar mais para orarmos, meditarmos etc., sem uma velinha, um mantrasinho, etc ?." R.P.S. Cuiabá - MT.
 
A leitora, estudante de Psicologia, portanto, com bom nível intelectual, sente a necessidade de "uma velinha, um mantrasinho" e a "falta danada de um ritualzinho" para se concentrar e reclama da dispersão de pensamentos nos Centros Espíritas; imagine-se o que acontece com as pessoas não intelectualizadas!...
 
Ainda somos inferiores, pois sentimos uma "falta danada de um ritualzinho", e neste sentido pronunciaram-se os Espíritos Superiores num trecho da resposta da questão 554 de OLE: " (...) Ora, é difícil que aquele que é tão simplório para crer na virtude de um talismã não tenha um objetivo mais material que moral. Qualquer que seja o caso, isso indica estreiteza e fraqueza de idéias, que dão azo aos espíritos imperfeitos e zombadores". No entanto, cabe-nos combater essa inferioridade através do estudo da Doutrina dos Espíritos e através da prática da caridade bem compreendida.
 
Obviamente, sentimos nosso pensamento disperso algumas vezes, mas se houvesse verdadeira educação mediúnica nos Centros Espíritas, com certeza tais fatos lamentáveis de fanatismo e necessidade de fetiches desapareceriam, pois seríamos médiuns prontos e saberíamos concentrar-nos efetivamente, sem necessidade de velinhas, mantrasinhos e outros objetos de qualquer tipo, pois o importante é o pensamento e não o objeto.
 
Certa vez disseram-me que 'médiuns videntes" tinham observado num Centro Espírita a entrada de Benfeitores Espirituais, que teriam derramado seus fluidos espirituais nas garrafinhas d'água colocadas pelos adeptos e que, inclusive "viram fluidos de várias colorações, etéreas, belíssimas". Apesar disso ser uma crença generalizada, vejamos a opinião do astrônomo CAMILLE FLAMMARION - aquele mesmo que ao pé do túmulo de KARDEC disse que este era "o bom senso encarnado" :

                                                                                                                                                                  CAMILLE FLAMMARION
(1842-1925)

 
 
 
"(...) Tendo o sensitivo bebido, em estado de vigília, um copo de água, com sugestão mental de ser um copo de kirsch, manifestou todos os sintomas de embriaguez durante vários dias. Foram os fenômenos deste gênero que fizeram crer aos magnetizadores poderem eles, magnetizando um copo de água ou um outro objeto, impregnar seus fluidos de diferentes qualidades físicas ou químicas (...)
" - os grifos são do autor - (CAMILLE FLAMMARION). O Desconhecido e os problemas psíquicos. Vol. II. 3 ed. FEB, Rio, 1980, p. 24). E conclui o grande cientista espírita: "(...) A magnetização é neste caso inútil, pois que é o pensamento que age sobre o cérebro do paciente e não sobre o objeto" - o grifo é do autor - (op. cit., p. 24). As palavras de FLAMMARION não são meras palavras, são fruto de pesquisas rigorosas...
 
 
 
Vejamos o que nos diz ALLAN KARDEC sobre a comunhão de pensamentos: "Todas as reuniões religiosas, seja qual for o culto a que pertençam, são fundadas na comunhão de pensamentos; é aí, com efeito, que podem e devem exercer toda a sua força, porque o objetivo deve ser o desligamento do pensamento do domínio da matéria. Infelizmente a maioria se afasta deste princípio, à medida que tornam a religião uma questão de forma. Disto resulta que, cada um, fazendo seu dever consistir na realização da forma, se julga quites com Deus e com os homens, desde que praticou uma fórmula. Resulta ainda que cada um vai aos lugares de reuniões religiosas com um pensamento pessoal, por conta própria e, na maioria das vezes, sem nenhum sentimento de confraternidade, em relação aos outros assistentes: isola-se em meio à multidão e só pensa no céu para si próprio." (o grifo é nosso).
 
 
 
E prossegue O Codificador: "Certamente não era assim que o entendia Jesus, quando disse: Quando estiverdes diversos, reunidos em meu nome, eu estarei em vosso meio. Mas não se pode estar reunido em nome de Jesus sem assimilar os seus princípios, a sua doutrina. Ora, qual é o princípio fundamental da doutrina de Jesus? A caridade em pensamentos, palavras e ação. Os egoístas e os orgulhosos mentem quando se dizem reunidos em nome de Jesus, porque Jesus não os conhece por seus discípulos" (ALLAN KARDEC. Revista Espírita- Jornal de estudos psicológicos. Ano VII,1864, EDICEL,São Paulo, p. 354-355).
 
 
 
Portanto, o pensamento é tudo a forma quase nada ou nada. As reuniões mediúnicas espíritas tem de ser realizadas com médiuns verdadeiros e estes não são reconhecidos por nenhum sinal exterior, como foi o caso, absurdo, de uma pessoa que dizia reconhecer o médium através das manchas das unhas das mãos. Uma tal pessoa numa reunião mediúnica conseguiria que JESUS estivesse entre eles reunidos?...


 

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Kardec e o perigo dos espíritos pseudo-sábios

Por Artur Felipe Azevedo
 


"Ora, a experiência mostra que os maus se comunicam tanto quanto os bons. Os que são francamente maus, são facilmente reconhecíveis; MAS HÁ TAMBÉM OS MEIO SÁBIOS, FALSOS SÁBIOS, PRESUNÇOSOS, SISTEMÁTICOS e até hipócritas. ESTES SÃO OS MAIS PERIGOSOS, PORQUE AFETAM UMA APARÊNCIA SÉRIA, DE CIÊNCIA E DE SABEDORIA, em favor da qual proclamam, em meio a algumas verdades e boas máximas, AS MAIS ABSURDAS COISAS.


SEPARAR O VERDADEIRO DO FALSO, DESCOBRIR A TRAPAÇA OCULTA NUMA CASCATA DE PALAVRAS BONITAS, DESMASCARAR OS IMPOSTORES, EIS, SEM CONTRADITA, UMA DAS MAIORES DIFICULDADES DA CIÊNCIA ESPÍRITA." NÃO BASTA SER ESPÍRITO


"Mas, dirão certos críticos, não tende, pois, confiança nos Espíritos, uma vez que duvidais de suas afirmações? Como inteligências libertas da matéria não podem levantar todas as dúvidas da ciência, lançar luz onde reina a obscuridade?


Esta uma questão muito grave, que se prende à própria base do Espiritismo, e que não poderíamos resolver neste momento, sem repetir o já dissemos a esse respeito; não diremos, senão algumas palavras para justificar as nossas reservas. Responder-lhes-emos, de início, que se tornaria sábio a bom preço se não se tratasse senão de interrogar os Espíritos para conhecer-se tudo o que se ignora. Deus quer que adquiramos a ciência pelo trabalho, e não encarregou os Espíritos de nos trazer tudo pronto para favorecer a nossa preguiça.

Em segundo lugar, a Humanidade, como os indivíduos, tem sua infância, sua adolescência, sua juventude e sua virilidade. Os Espíritos, encarregados por Deus de instruírem os homens, devem, pois, proporcionar seu ensinamento para o desenvolvimento da inteligência; nunca dirão tudo a todo mundo, e esperam, antes de semear, que a Terra esteja pronta para receber a semente, para fazê-la frutificar.


Eis porque certas verdades, que nos são ensinadas hoje não o foram aos nossos pais que, eles também, interrogavam os Espíritos; eis porque, verdades pelas quais não estamos maduros, não serão ensinadas senão àqueles que virão depois de nós. Nosso erro é crer-nos chegados ao topo da escala, ao passo que não estamos ainda senão na metade do caminho.


Dizemos de passagem que os Espíritos têm duas maneiras para instruírem os homens; podem fazê-lo, seja comunicando-se diretamente com eles, o que fizeram em todos os tempos assim como o provam todas às histórias sagradas e profanas, seja encarnando-se entre eles para aí cumprir missões de progresso. Tais são esses homens de bem e de gênio que aparecem, de tempos em tempos, como luz para a Humanidade e lhe fazem dar alguns passos à frente. Vede o que ocorre quando esses mesmos homens vêm antes do tempo propício para as idéias que devem propagar: são desconhecidos quando vivos, mas o seu ensinamento não se perde; depositado nos arquivos do mundo, como um grão precioso colocado em reserva, um belo dia sai do pó, no momento em que pode dar seus frutos.


Desde então, compreende-se que se o tempo requerido para difundir certas idéias não chegou, interrogar-se-ia os Espíritos em vão, eles não podem dizer senão o que lhes é permitido. Mas é uma outra razão que compreendem perfeitamente todos aqueles que têm alguma experiência do mundo Espírita.


Não basta ser Espírito para possuir a ciência universal, de outro modo a morte nos tornaria quase os iguais a Deus. O simples bom senso, de resto, recusa-se a admitir que o Espírito de um selvagem, de um ignorante ou de um mau, desde o momento que esteja livre da matéria, esteja no nível de sábio ou do homem de bem; isso não seria racional. Há, pois, Espíritos avançados, e outros mais ou menos atrasados que devem percorrer mais de uma etapa, passar por numerosos e severos exames, antes de estarem despojados de todas as suas imperfeições. Isso resulta que se encontram, no mundo dos Espíritos, todas as variedades morais e intelectuais que se encontram entre os homens, e muitas outras ainda; ora, a experiência prova que os maus se comunicam tão bem quanto os bons.


 
Aqueles que são francamente maus são facilmente reconhecíveis; mas há também, entre eles, os meio sábios, os falsos sábios, os presunçosos, os sistemáticos e mesmo os hipócritas; aqueles são os mais perigosos porque afetam uma aparência de seriedade, de sabedoria e de ciência, a favor da qual debitam, freqüentemente, no meio de algumas verdades, de algumas boas máximas, as coisas mais absurdas; e para melhor enganarem, não temem em se ornarem com os nomes mais respeitáveis.


 
Distinguir o verdadeiro do falso, descobrir a fraude escondida sob uma parada de grandes palavras, desmascarar os impostores, eis aí, sem contradita, uma das maiores dificuldades da ciência Espírita. Para superá-la é preciso uma longa experiência, conhecer todas as astúcias das quais são capazes os Espíritos de baixo estágio, ter muita prudência, ver as coisas com o mais imperturbável sangue frio, e se guardar, sobretudo, contra o entusiasmo que cega. Com habilidade e um pouco de tato chega-se facilmente a ver a ponta da orelha, mesmo sob a ênfase da mais pretensiosa linguagem. Mas infeliz o médium que se crê infalível, que se ilude sobre as comunicações que recebe: o Espírito que o domina pode fasciná-lo ao ponto de fazê-lo achar sublime o que, freqüentemente, é simples absurdo e salta aos olhos de todos quanto dele mesmo."


Em "O Livro dos Médiuns" lemos sobre as técnicas de fascinação utilizadas por boa parte dos espíritos pseudo-sábios: "Há, Espíritos obsessores sem maldade, que alguma coisa mesmo denotam de bom, mas dominados pelo orgulho do falso saber. Têm suas idéias, seus sistemas sobre as ciências, a economia social, a moral, a religião, a filosofia, e querem fazer que suas opiniões prevaleçam. Para esse efeito, procuram médiuns bastante crédulos para os aceitar de olhos fechados e que eles fascinam, a fim de os impedir de discernirem o verdadeiro do falso. São os mais perigosos, porque os sofismas nada lhes custam e podem tornar cridas as mais ridículas utopias. Como conhecem o prestígio dos grandes nomes, não escrupulizam em se adornarem com um daqueles diante dos quais todos se inclinam, e não recuam sequer ante o sacrilégio de se dizerem Jesus, a Virgem Maria, ou um santo venerado. Procuram deslumbrar por meio de uma linguagem empolada, mais pretensiosa do que profunda, eriçada de termos técnicos e recheada das retumbantes palavras caridade e moral. Cuidadosamente evitarão dar um mau conselho, porque bem sabem que seriam repelidos. Daí vem que os que são por eles enganados os defendem, dizendo: Bem vedes que nada dizem de mau. A moral, porém, para esses Espíritos é simples passaporte, é o que menos os preocupa. O que querem, acima de tudo, é impor suas idéias por mais disparatadas que sejam. (Cap. XXIII - Item 246 - Da Obsessão)


E abordando a necessidade imperiosa da análise crítica das comunicações dos espíritos, Kardec alerta: "Reconhece-se a qualidade dos Espíritos pela sua linguagem; a dos Espíritos verdadeiramente bons e superiores é sempre digna, nobre, lógica, isenta de contradições; respira a sabedoria, a benevolência, a modéstia e a moral mais pura; é concisa e sem palavras inúteis. Nos Espíritos inferiores, ignorantes, ou orgulhosos, o vazio das idéias é quase sempre compensado pela abundância de palavras. Todo pensamento evidentemente falso, toda máxima contrária à sã moral, todo conselho ridículo, toda expressão grosseira, trivial ou simplesmente frívola, enfim, toda marca de malevolência, de presunção ou de arrogância, são sinais incontestáveis de inferioridade num Espírito."




 
 
Fonte: http://espiritismoxramatisismo.blogspot.com.br/2008/10/kardec-e-o-perigo-dos-espritos-pseudo.html