quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

As Origens da Questão Roustaing



Por Chrysanto de Brito

 

Allan Kardec, escrevendo em 1866 na “Revue Spirite”, que dirigia, meramente urna noticia bibliográfica sobre a obra mediúnica de J.B. Roustaing, intitulada “Os Quatro Evangelhos” (Les Quatre Evangéles, Paris, 1866), não poderia imaginar o alvoroço que suas observações iriam provocar entre os espiritas, ao ponto de criarem para o Espiritismo urna grave questão, que ainda perdura e que trouxe incontestavelmente uma cisão entre eles.


As discussões sobre ela foram em França e são aqui sempre tão acerbas, que já fizeram dela um foco de malquerenças. Era uma situação que convinha acabar definitivamente. Os espíritas deviam procurar manter-se sempre em condições tais que não se afastassem dos preceitos da moral que rege o próprio Espiritismo.
 

Sabe-se que a questão Roustaing gira em torno de uma opinião de Allan Kardec sobre afirmativas de Roustaing a respeito da natureza do corpo de Jesus. É preciso dizer que Allan Kardec não condenou totalmente a obra de Roustaing. Ele achava que ao lado das coisas duvidosas que continha, existia nela coisas boas e verdadeiras; que era um trabalho que tinha o mérito de não estar em contradição com os princípios de “O Livro dos Espíritos” e de “O Livro dos Médiuns”. O que não estava de acordo era a aplicação que Roustaing fazia desses princípios à interpretação de certos fatos. Assim, por exemplo, ele dava ao Cristo em vez dum corpo carnal um corpo fluídico concretizado com todas as aparências da materialização. Jesus não seria, durante toda a vida, senão uma aparição tangível, um agênere. Seu nascimento, sua morte e todos os atos materiais de sua vida teriam sido apenas aparências.
 

Ainda que Allan Kardec não visse nisso um fato impossível, para quem conhecesse as propriedades do fluido perispiritual, ele não pronunciava sobre ele nem pró nem contra. Ele alegava que era, pelo menos, um fato hipotético, que tinha sido mesmo inoportuno aventá-lo, que a aceitá-lo ele só poderia valer por uma opinião individual, sem fazer parte integrante da doutrina espírita, desde que não tivesse a sanção do controle universal dos Espíritos. Eis principalmente o que encerrava a nota bibliográfica de Allan Kardec. Ele não censurou, não injuriou. Expediu a sua opinião fraternalmente.
 

Roustaing era natural procurasse responder a Allan Kardec. Não se sabe, porém, ao certo, se a resposta foi publicada. Seus discípulos muito tempo depois afirmaram que ele não conseguiu publicá-la. Allan Kardec não consta tivesse voltado à questão senão em 1868, quando deu à estampa “A Gênese” segundo o Espiritismo, discutindo-o objetivamente.
 

A questão Roustaing está hoje liquidada em França. Tendo sido criada e debatida pelos discípulos franceses de Roustaing, dela ficaram vestígios um pouco desonrosos para o Espiritismo. De fato, eles vêm mostrar os inconvenientes e os excessos a que chegaram os promotores da questão. É desses vestígios que pretendo falar aqui. O que quero fazer é antes expor os meios empregados pelos discípulos de Roustaing para apresentarem suas ideias, que propriamente discutir a questão em si. São principalmente suas origens que procuro mostrar aqui. É necessário asseverar que não tenho em mira, fazer reviver essa questão ainda tão irritante, procurando provocar discussões, nem mesmo julgo seja sua resolução indispensável ao nosso progresso espiritual. Penso com Allan Kardec que essa questão surgiu inoportunamente. Mas, já que isso se deu, pode-se continuar a falar sobre ela, sem que se possa dizer que isso importa em provocação. No interesse da verdade tudo se pode alegar, contanto que tudo se alegue serenamente e com probidade.
 

QUESTÃO DE HONRA
 

Foi principalmente depois da morte de Roustaing, estando, portanto, já Allan Kardec desencarnado, que a questão tomou vulto. Seus discípulos não puderam suportar que Allan Kardec não tivesse a mesma opinião que seu mestre. Viram nas suas observações propósitos que não estavam na sua intenção. A questão da natureza do corpo de Jesus apareceu então como uma questão de honra.
 

Foi dado a lume em 1882 uma brochura contendo uma memória intitulada “Os Quatro Evangelhos de J.B. Roustaing. Resposta a Seus Críticos e a Seus Adversários”. (Les Quatre Evangiles de J.B. Roustaing. Réponse à Ses Critiques el à Ses Adversaires. Bordéus, 1882), onde se procurava defender Roustaing de pretendidas injustiças de Allan Kardec e onde se dizia, ao mesmo tempo, que a memória, tal qual era publicada, tinha sido escrita em 1866 e legada em manuscrito pelo próprio Roustaing, a fim de ser publicada após sua morte, memória essa, entretanto, que não passa de um arranjo de seus discípulos, que não é integralmente da autoria de Roustaing.
 

Não é que nessa memória não se veja certa resposta dada pelo autor d'Os Quatro Evangelhos a Allan Kardec, mas não se deixa de ver também, com um exame detido, que ela está enxertada e tem apêndices. Segundo me informaram mediunicamente a resposta de Roustaing foi clara; não tinha as acomodações que foram feitas pelos seus discípulos. Assim, pretendendo prejudicar a honorabilidade de Allan Kardec, os discípulos de Roustaing atribuíram também a este, sentimentos que não abrigou. Não havia em Allan Kardec nenhuma má vontade com Roustaing, assim Roustaing não lhe votava encarniçada inimizade. A brochura de 1882 teve o grande prejuízo de excitar extremamente os ânimos dos espíritas em França, dando lugar a uma forte e dura polêmica entre eles.
 

Vai-se ver agora, embora ligeiramente, em que consistiu a defesa de Roustaing nessa brochura. Há, sobretudo, quatro temas em que ela se apoia. São a negativa da concordância universal como método de controle do Espiritismo, admitido por Allan Kardec, a apresentação de Roustaing como missionário de uma “fase teológica” no Espiritismo, a fenomenologia espírita, principalmente as materializações, como meio de prova na questão da natureza do corpo de Jesus e a acusação contra a aplicação da tese do Docetismo à mesma questão. Há outros pontos secundários que foram tratados pelos discípulos de Roustaing, que nada têm com a questão, mas que foram analisados por eles para terem, parece, a oportunidade de censurar Allan Kardec.
 

“Para falarmos afirmativamente nas questões, disse Allan Kardec na nota bibliográfica de 1866, e estarmos de acordo com a maioria, recolhemos documentos bastante numerosos nos ensinos dados de todos os lados pelos Espíritos. Assim temos procedido todas as vezes que se trata de formular um princípio capital. Nosso critério, para as coisas que não podemos controlar pelos nossos próprios olhos, está na concordância universal corroborada por uma rigorosa lógica”. Já anteriormente, em 1864, na introdução da “Imitação do Evangelho segundo Espiritismo”, ele tinha definido esse critério e ainda mais nas edições posteriores da mesma obra, que se sucederam com o título apenas de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”.
 

“A garantia séria do ensino dos Espíritos está na concordância que existe entre as revelações feitas espontaneamente por intermédio de grande número de médiuns estranhos uns aos outros e em diversas regiões”.
 

Era esse justamente o critério que Allan Kardec tinha adotado, como se sabe, para formar os princípios do Espiritismo, para preparar “O Livro dos Espíritos” e “O Livro dos Médiuns”. Eis porque julgava que no caso de ser admitida a tese da natureza do corpo de Jesus, como o queria Roustaing, a ela devia ser aplicada a sanção da concordância universal dos Espíritos. Agora, onde está a prepotência, o monopólio da verdade, a pretensão a infalibilidade, o sectarismo de Allan Kardec nessa afirmativa, como insinuaram os discípulos de Roustaing?
 

O consensus omnium, isto é, o acordo de todos os homens sobre certas proposições não é, em lógica, um critério considerado como prova da verdade? Por que não aplicá-lo também ao Espiritismo, como fez Allan Kardec? Se não se pode dizer que seja um critério infalível, pelo menos é lógico e que Allan Kardec tinha demais a experiência.
 

CRITÉRIO DE AUTORIDADE
 

Roustaing e seus discípulos insurgindo-se contra ele mostraram que se baseavam em Espiritismo, exclusivamente, no critério de autoridade. Mas não é também critério falível, mais falível ainda que o da concordância ou consentimento universal? Não é preciso discuti-lo aqui. Roustaing firmou-se demasiadamente na autoridade dos nomes que apareceram nas mensagens desde o começo da obra, que podiam não ser dos próprios evangelistas, pelo menos os nomes que revelaram a parte referente à natureza do corpo de Jesus. Devia ter havido um controle particular, devendo a identificação ser feita com interesse e cuidado, assim como o exame das condições práticas determinadas.
 

Não seria melhor que tivesse havido também o controle universal, de que falava Kardec, como outros elementos de prova? A esse controle se opunha talvez em sua excessiva boa fé, sua grande credulidade e ainda mais suas ideias preconcebidas sobre a necessidade de ser aclarada a questão do corpo de Jesus, quando a verdade é que não tinha chegado ainda o momento para isso, conforme dizem certos Espíritos.
 

Outro erro dos discípulos de Roustaing foi quererem fazer dele, por influência de Pezzani, sem que este tenha talvez concorrido, de uma “fase teológica” que sua obra viria a abrir. A. Pezzani, publicando em 1865, conforme se vê da própria brochura em 1882, um ano antes de ser dada à luz a obra de Roustaing, um livro intitulado “Les Bardes Druidiques, Synthèsé Philosophique du Dixneuvième Siécle” e referindo-se ao Espiritismo, emitiu opinião de que ele tem três fases distintas: a fase material, a fase espiritual e a fase teológica. Dizendo ainda que a fase material terminava com a moral, a espiritual com a síntese filosófica, ele afirmava que a fase teológica terminaria com a fusão de todos os cultos e com a “constituição do universalismo em religião”, o que é admissível por evolução e não repentinamente por intermédio de uma obra e muito menos de uma obra de comentários. Entretanto, Roustaing entendia, com seus discípulos, que “Os Quatro Evangelhos” começavam essa fase, porque a fase espiritual tinha sido terminada pelo próprio Pezzani e a fase material já tinha sido também fechada por Allan Kardec com “O Livro dos Es¬píritos” e “O Livro dos Médiuns”, o que quer dizer que Allan Kardec fora o missionário apenas para esses dois livros. Não é preciso mostrar aqui o erro da concepção de Pezzani, nem a inanidade de Roustaing.
 

Tratando da fenomenologia espiritual a propósito da natureza do corpo espiritual de Jesus, os discípulos de Roustaing disseram que Allan Kardec não gostava das manifestações físicas, e que “seus adeptos aprenderam com ela a lhes ter um santo horror”. É uma imputação inteiramente aérea. Não se encontra na sua obra nada que prove isso. Ao contrário, ele falou delas largamente n’O Livro dos Médiuns e na Gênese segundo o Espiritismo.
 

Fazendo, por exemplo, o estudo das aparições tangíveis ou materializações, ele traçou uma teoria que ainda está de acordo com os fatos, falando também daqueles que se davam por intermédio de médiuns poderosos como Home, que depois foi estudado por Crookes. Seu fim não foi alongar-se no estudo dos fenômenos físicos nem dos fenômenos intelectuais, mas estabelecer os fundamentos de uma doutrina que ficasse experimentalmente baseada sobre eles.
 

Já se vê que ele estudou desses fenômenos o que era suficiente para chegar aos seus fins, ficando, destarte, conhecendo e aceitando todos eles. Por aceitar mesmo os fenômenos físicos e conhecê-los, foi que Allan Kardec pôde dizer que admitindo-se Jesus com um corpo nas condições em que o queria Roustaing, era dar lugar a compará-lo com uma aparição tangível, um agênere, como chamava. Não fez o que fizeram os discípulos de Roustaing sofisticamente, isto é, tomaram essas próprias aparições tangíveis ou materializadas, principalmente as de Crookes, como prova de que Jesus podia manter-se com um corpo nas condições que alegavam.

Era certamente desconhecer-se o caráter dessas materializações, o meio em que se formam, as condições especiais de investigações em que se dão. Daí é absurdo dizerem os discípulos de Roustaing que as revelações sobre a natureza do corpo de Jesus estão de acordo com a ciência moderna.
 

ALTERAÇÃO FRAUDULENTA
 

Allan Kardec, adotando a mesma opinião que teve Pezzani, julgou que a concepção do Docetismo podia ser comparada com a que teve Roustaing sobre o corpo de Jesus. O Docetismo foi uma heresia dos primeiros séculos da igreja, que ensinou justamente o que prega Roustaing, isto é, que toda a vida material de Jesus, seu nascimento e sua morte não foram senão aparentes. Não era dizendo que o Docetismo é um erro, que Roustaing o conhecia ou que Allan Kardec o desconhecia, que os discípulos de Roustaing podiam negar a veracidade da comparação.
 

Mas não foi somente a publicação da brochura em 1882 que veio agravar a questão Roustaing, foi a alteração fraudulenta que fizeram os discípulos de Roustaing da edição d'Os Quatro Evangelhos. O prefácio e a introdução, contendo ao todo 108 páginas foram extraídos do primeiro volume da obra, para serem substituídos em muitos exemplares da mesma obra por outro prefácio e mais quatro partes da brochura, no total de 88 páginas. Este prefácio não é inteiramente novo, é o prefácio do volume que se pode chamar de autêntico, reproduzido com omissões e emendas contendo, além disso, pequenas interpolações. Assim, sem que tenha havido uma nova edição, existem da mesma obra exemplares com prefácios diferentes.
 

Para provar a fraude não é preciso mais que examinar o frontispício do primeiro volume, vendo-se a data de sua publicação, 1866, e depois vendo-se no fim das transcrições das partes tiradas da brochura, uma página antes de começar os comentários evangélicos, uma nota dizendo abertamente que elas tinham sido extraídas da brochura publicada em 1882, Como pode um livro publicado em 1866 conter fatos que se passaram em 1882? Além do papel e dos tipos de letras diferentes há ainda a errata que ficou no livro alterado e que não combina absolutamente com as páginas substituídas. Eis até onde chegaram as origens da questão Roustaing.
 

No Brasil, essa obra, assim alterada, passou como uma segunda edição e foi traduzida, quando se sabe que dela nunca foi tirada nova edição. Teria sido melhor fosse conservada a edição brasileira que fora feita, há alguns anos, da obra autêntica de Roustaing, tradução embora feita com menos elegância que a outra mais recente. Pelo menos ela não contém os males da obra adulterada.
 


Fonte: Mensário espírita “Opinião E.”, abril de 1995, ano I, nº 6 – Capivari-SP; editor e jornalista responsável: Wilson Garcia. Os intertítulos foram acrescentados para facilitar a leitura. A “Revista Espírita do Brasil”, que publicou inicialmente este artigo em 1936, era o órgão de divulgação da Liga Espírita do Brasil. (Nota do PENSE).
 


Chrysanto de Brito foi um antigo militante espírita, funcionário do Governo. De origem cearense, radicado no Rio de Janeiro, desencarnou sem deixar filhos. Era recluso, avesso aos auditórios espíritas e pouco participou do movimento espírita do início do século 20. Profundo conhecedor do Espiritismo, escreveu o livro “Allan Kardec e o Espiritismo”, lançado em 1935, reeditado em 1983, com edição digital pelo PENSE em abril de 2010.

 
Fonte: http://viasantos.com/pense/arquivo/1366.html

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Somos os Construtores do Mundo


Por José Herculano Pires

 

Os profetas da tragédia falam em cataclismos geológicos, guerra nuclear, guerra bacteriológica, pestes, epidemias arrasadoras para este último quartel do século 20. Aves agoureiras anunciam a fome mundial pelo aumento da população terrena, o desaparecimento da atmosfera planetária por efeito de explosões atômicas, da devastação das matas, da poluição ambiental. Estaríamos numa fase de contradições insanáveis. O progresso acelerado nos levaria fatalmente à desgraça total, ao cumprimento das profecias apocalíticas, ao fim do mundo.

Apesar deles e dos alarmistas que propagam as suas ideias mortíferas, dos terroristas do boato, há homens sensatos, cientistas ponderados, futurólogos que não se engajam no jogo dos trustes do medo. Estes procuram mostrar, através de dados concretos e raciocínios objetivos, que as crises atuais que enfrentamos são sintomas de desenvolvimento, comuns a todos os processos de crescimento. Outros, como Isaac Asimov, fazendo concessões às mentes delirantes, sugerem soluções curiosas de ficção científica: a colonização da Lua e de Marte, a construção de cidades submarinas e cidades espaciais, o controle maciço da natalidade, a aplicação de métodos químicos para a redução do tamanho do homem e assim por diante. Milhões de criaturas humanas poderiam viver em cidades metálicas, construídas em funis gigantescos localizados em zonas intermediárias da gravitação terrena e da gravitação lunar.

Não há dúvida que estamos numa era apocalítica, semelhante a que houve na Pa-lestina na antevéspera do advento do Cristianismo, quando as profecias da destruição constituíam o alimento preferido do sadismo coletivo. Foi precisamente dessas profecias que resultou o Apocalipse evangélico atribuído ao apóstolo João, que o teria recebido do próprio Cristo na ilha de Patmos. Essa visão judaica do fim do mundo foi considerada por Renan, Harnak, Guignebert e outros investigadores conscienciosos como um livro apócrifo, referente à queda do Império Romano, e por mero equívoco anexado às páginas do Evangelho. Mas quem poderia convencer disso os piedosos adeptos das religiões do terror, cuja fé nas desgraças vindouras é hoje alentada e alimentada pelas novas previsões de catástrofes?
 
O HOMEM É O PERIGO

Essas visões remotas de um tempo há muito superado são hoje exploradas pelos grupos interessados em manter o mundo nas garras. Há perigo, sem dúvida, numa fase de transição como a em que nos encontramos. Mas o perigo não vem do céu, da ira de Deus, da instalação do Tribunal do Messias entre as nuvens, com anjos tocando trombetas assustadoras nos pontos cardiais da Terra e os mortos ressuscitando sob nevoeiros atômicos, com seus corpos mortais reconstituídos pela vingança divina. Essas apreensões ilógicas e ridículas, muitas vezes pregadas do púlpito das igrejas cristãs, de tribunas espíritas e até mesmo de cátedras universitárias, devolvem-nos à era das civilizações primitivas, agrárias e pastoris, e aos terrores do mundo mitológico ou dos sermonários medievais. O perigo existe e esse perigo é o homem, somos nós mesmos. Uma guerra nuclear não seria desencadeada pelos astros ou pela ira de Deus, mas pelos homens responsáveis pelo equilíbrio do mundo social, do mundo humano. O mundo natural, constituído pela Natureza, sofreria as consequências da loucura humana, mas poderia recuperar, através de suas leis de equilíbrio e conservação, as zonas devastadas.


A ideia de que o homem pode destruir o mundo provém de dois elementos de concepções antiquadas, hoje inaceitáveis.

 
1) O orgulho humano, que pretende sobrepor a fragilidade da criatura à onipotência do Criador;
2) A crença ingênua nos poderes mágicos, segundo a qual os mágicos podiam destruir as coisas, os seres e o próprio mundo com simples sinais cabalísticos.

O aumento do conhecimento científico provoca vertigens em cérebros pouco estáveis, pouco seguros, e a vaidade natural da espécie faz certos homens pensarem que descobriram a chave da Natureza e podem manipulá-la com seus novos instrumentos técnicos, que lhes dão um acréscimo enorme de poder. Por outro lado, o pensamento mágico, sempre necessariamente contraditório, aceita a existência do Gênio Maligno de Descartes (simples hipótese de pesquisa) e transforma Deus numa espécie de Frankenstein, um ser dotado de dupla personalidade, capaz de amar e odiar ao mesmo tempo.


Mas se compreendermos, para começar, que Deus não é uma personalidade humana, mas um centro cósmico de inteligência e poder, que mantém não apenas o equilíbrio da Natureza, da Terra e do Sistema Solar, mas de todo o Cosmos, com sua infinidade de galáxias, em que milhões e milhões de mundos existem, então será fácil entendermos a falácia e o delírio dessas profecias terroristas. A Terra é um grão de areia no infinito, de maneira que o temporal desencadeado nela pelo homem seria bem menos do que uma tempestade num copo d’água.


UMA VISÃO REAL


Os estudiosos, os pesquisadores, os cientistas honestos advertem-nos contra os abusos do poder humano, que podem causar muitos males desequilibrando o meio ambiente. Mas reconhecem, como vimos ainda recentemente no Congresso Internacional de Belgrado sobre a questão populacional, que a situação desastrosa do planeta refere-se a determinadas zonas superpovoadas, como os grandes centros urbanos, as nações altamente industrializadas, e não a toda a Terra. Enquanto, por exemplo, as megalópoles crescem envenenadas pelos seus próprios excessos industriais, as vastas zonas campestres se despovoam. A Terra tem capacidade para uma população muitas vezes maior do que a atual e do que a prevista pelos futurólogos para os próximos anos. A falta de alimentos não decorre da falta de produtividade, mas da falta de transportes e distribuição equitativa do alimento produzido. Além disso, há o problema evidente da falta de distribuição dos recursos financeiros, da falta de revisão da estrutura econômica mundial, sujeita cada vez mais a colapsos provenientes de suas deficiências, de seus clamorosos desequilíbrios.


Cabe ao homem reestruturar os seus esquemas sociais, reajustando-os à necessidade de harmonia e equilíbrio da vida planetária. Cabe ao homem encarar esses problemas por um prisma humanístico, em que prevaleça o princípio do respeito à criatura humana, acima da defesa de princípios sociais e econômicos que estabeleceram regimes de privilégios desumanos em todo o mundo, ainda vigentes, sustentados e estimulados tanto na chamada área socialista, quanto na área do capitalismo ou neocapitalismo, tanto nos países desenvolvidos, quanto nos subdesenvolvidos ou em processo de desenvolvimento.


Delegar a entidades divinas o que nos compete ou querer investir contra as divindades, como novos Prometeus que pretendam roubar o fogo do céu, é simples manobra de fuga ao cumprimento de nossas responsabilidades imediatas. Os princípios evangélicos, a evolução do Direito, a Carta dos Direitos Humanos, o avanço do pensamento filosófico, o desenvolvimento científico e tecnológico, o amadurecimento da razão, todos esses fatores e muitos outros abrem perspectivas novas para a solução dos nossos problemas sociais, culturais e econômicos. Mas, os interesses constituídos e a cegueira da maioria das criaturas (ou a miopia coletiva) impedem a ação eficaz para essa solução. Não precisamos de cidades em funis metálicos no espaço sideral. Aqui mesmo, na Terra, há lugares de sobra para a multiplicação inevitável de nossos centros urbanos. O neomaltusanismo dos nossos dias é ainda mais desarrazoado que o de Malthus. Nossas possibilidades de produção de alimentos cresceram em progressão geométrica, graças ao desenvolvimento científico e tecnológico. O que nos falta é o controle, a ordenação precisa e rigorosa dessas possibilidades, para que os perigos humanos que nos ameaçam sejam superados.


ADMINISTRAÇÃO TERRENA


Dos seus voos heroicos, hoje insignificantes ante o progresso espantoso dos voos aeronáuticos e astronáuticos, Saint-Exupéry chegou à conclusão que deu título ao seu livro famoso: “Terra dos Homens”. Tinha razão o poeta-voador. A Terra é nossa. Foi o ninho em que nascemos e nos desenvolvemos. Mas ainda não aprendemos a administrá-la. A reduzida população terrena dos milênios transcorridos, confinada em zonas determinadas do planeta, com suas civilizações ilhadas, legou-nos a experiência das administrações locais, reduzidas a técnicas dispersivas, desligadas da visão universal que o Cristianismo nos traria. Aprendemos a administrar pequenas nações, mesmo quando situadas em grandes territórios, e a lei da inércia, dominante na estática social e anquilosada nas tradições regionais, consagrou princípios inadequados, impondo-os ao mundo mais vasto e rico do futuro (hoje convertido em presente) como se tivessem validade universal e eterna. Percebemos isso, sentimos o desajuste, mas os interesses criados e a ambição estimulada continuam a agir como meios de contenção do processo renovador.


A evolução cultural deu-nos a possibilidade de compreender Deus em plano superior, mas as nossas deficiências de formação impedem essa compreensão e ainda nos amarram a condicionamentos embaraçosos. Não somos capazes de entender a senha lírica de Saint-Exupéry e transformar o planeta na Terra dos Homens. Não compreendemos sequer a responsabilidade de organização e administração planetária, que decorre de nosso próprio livre-arbítrio, de nossa própria liberdade. Apelamos para esquemas rígidos e desumanos, baseados em processos de violência e opressão, esquecidos do princípio fundamental da fraternidade humana. Falamos em igualdade de direitos, em distribuição da riqueza, em oportunidades para todos, e continuamos a agir como barões feudais, sem forças para rejeitar os sistemas de escravidão e servidão que nos vêm do passado remoto.


Diante do sentimento de impotência gerado por essa situação e pelas dolorosas experiências recentes de soluções arbitrárias, impostas pela força, com o esmagamento das liberdades humanas, com o desrespeito à dignidade da criatura humana, apelamos para a descrença nos valores do espírito e mergulhamos no caos das concepções materialistas e pragmatistas.


Não é Deus, nem quaisquer outras divindades, que nos ameaçam com flagelos destruidores. Somos nós mesmos, os homens, os produtores de flagelos, os criadores de cataclismos.


DESENVOLVIMENTO DA INTELIGÊNCIA


Desenvolvemos a inteligência de maneira assombrosa. Reclamamos a falta de gênios, em comparação com as idades de ouro do passado, e não percebemos que temos mais ouro do que nunca e por isso mesmo os gênios não alcançam o destaque e a fama de outras eras. Aludimos ao inconsciente coletivo e não vemos o arejamento da consciência coletiva, o crescimento da inteligência no povo, nas massas.


Costuma-se atribuir à influência dos novos meios de comunicação a precocidade mental das crianças de hoje, esquecendo-se que a evolução natural da inteligência determinou o aprimoramento e a expansão dos meios de comunicação. As novas gerações manifestam-se inquietas, criando problemas, suscitando crises morais, políticas e sociais. Como afirma Ingenieros: “A juventude toca a rebate em toda renovação”. Dewey acentuou a importância da reelaboração das experiências pelas novas gerações. Cada jovem é um projeto de realizações renovadoras, em maior ou menor medida, e não temos o direito de frustrá-los com o nosso temor do futuro. Eles, os jovens, são o futuro e temos de ajudá-los na realização de suas aspirações, integrando-os nas experiências atuais e preparando-os para o amanhã.


A posição conservadora das velhas gerações decorre do instinto natural de conservação. Faz parte do processo evolutivo, como força moderadora dos impulsos de renovação. Mas os jovens representam a renovação em marcha e cabe-nos o dever de procurar compreendê-los, nunca o de exclui-los ou de querer reduzi-los a conservadores forçados ou fingidos. As velhas gerações vão passando e as novas poderão impor-se através de processos violentos, como reação às opressões sofridas.


O grau atual de desenvolvimento da inteligência humana permite-nos compreender perfeitamente esse processo da dialética da evolução e contribuirmos para manter o equilíbrio necessário na fase de transição que atravessamos. Muitos pedagogos, como Dewey, Kilpatrick, Hubert, Kerschensteiner, lutaram e vêm lutando para estabelecer um tipo adequado de educação a uma civilização em mudança. Essa adequação não pode prescindir de uma compreensão mais ampla do problema espiritual, superando o equívoco do laicismo e da formação sectária de tipo igrejeiro. A Educação Espírita apresenta-se como mediadora para a solução desse problema, oferecendo contribuições decisivas, mas infelizmente o próprio meio espírita não se mostra capaz de compreender o que seja educação espírita.

A única revista especializada do mundo, nesse setor de importância vital para este momento, foi lançada em São Paulo pela editora Edicel, sem finalidade comercial e não está podendo sustentar-se, ante o desinteresse geral, que abrange até mesmo a rede escolar espírita. A inteligência espírita, apegada a um misticismo antidoutrinário, revela-se tão inepta quanto os rabinos do Templo de Jerusalém, no tempo de Jesus, para compreender o seu dever na hora atual. Essa é uma responsabilidade muito mais grave do que geralmente se pensa, nesta hora de transição. E não só os espíritas devem arcar com ela, mas todos os homens de inteligência e cultura que podem contribuir para o esclarecimento popular.


UMA TOMADA DE CONSCIÊNCIA


O apego ao contingente, ao imediato, apaga na consciência dos nossos dias o senso da responsabilidade espiritual. Nem mesmo a ronda constante da morte consegue arrancar o homem atual da embriaguez do presente. O problema do espírito e da imortalidade só se aviva quando ligado diretamente a questões de interesse pessoal. O católico, o protestante e o espírita se equivalem nesse sentido. Todos buscam os caminhos do espírito para a solução de questões imediatistas ou para garantirem a si mesmos uma situação melhor depois da morte.


A maioria absoluta dos espiritualistas está sempre disposta a investir (este é o termo exato) em obras assistenciais, mas revela o maior desinteresse pelas obras culturais. Apegam-se os religiosos de todos os matizes à tábua de salvação da caridade material, aplicando grandes doações em hospitais, orfanatos e creches, mas esquecendo-se dos interesses básicos da cultura. Garantem os juros da caridade no pós-morte, mas contraem pesadas dívidas no tocante à divulgação, sustentação e defesa de princípios fundamentais da renovação da cultura planetária.


A imprensa, a literatura, o ensaio, o estudo, a fixação das linhas mestras da nova cultura terrena ficam ao deus-dará. Falta uma tomada de consciência, particularmente no meio espírita, da responsabilidade de todos na construção e na elaboração da Nova Era, que é trabalho dos homens na Terra.


Ninguém ou quase ninguém compreende que sem uma estruturação cultural elevada, sem estudos aprofundados no plano cultural, que revelem as novas dimensões do mundo e do homem na perspectiva espírita, o Espiritismo não passará de uma seita religiosa de fundo egoísta, buscando a salvação pessoal de seus adeptos, precisamente aquilo que Kardec lutou para evitar.


A finalidade do Espiritismo, como Kardec acentuou, não é a salvação individual, mas a transformação total do mundo, num vasto processo de redenção coletiva. Proporcionar aos jovens uma formação cultural apoiada na mais positiva e completa base espiritual, que mostre a insensatez das concepções materialistas e pragmatistas, dando-lhes a firmeza necessária na sustentação e defesa dos princípios doutrinários, não é só caridade, mas também realização efetiva dos objetivos superiores do Espiritismo nesta fase de transição. Sem esse trabalho não poderemos avançar com segurança e eficácia na direção da Era do Espírito. Temos de dar às novas gerações a possibilidade de afirmarem, diante do desenvolvimento das Ciências e do avanço geral da Cultura, como disse Denis Bradley: “Eu não creio, eu sei!” Porque é pelo saber, e não pela crença, pela fé racional e não pela fé cega, pelo conhecimento e não pelas teorias indemonstráveis que o Espiritismo, como revelação espiritual, terá de modelar a nova realidade terrena, apoiado na confirmação científica, pela pesquisa, dos seus postulados fundamentais. A revelação humana confirma e comprova a revelação divina.


Esse é o problema que ninguém parece compreender. Todos sonham com o momento em que a Ciência deverá proclamar a realidade do espírito. Mas, essa proclamação jamais será feita se a Ciência Espírita não atingir a maioridade, não se confirmar por si mesma, podendo enfrentar virilmente, no plano da inteligência e da cultura, a visão materialista do mundo e a concepção materialista do homem. Por isso precisamos de Universidades Espíritas, de Institutos de Cultura Espírita dotados de recursos para uma produção cultural digna de respeito, de Laboratórios de Pesquisa Psíquica estruturados com aparelhagem eficiente e orientados por metodologia segura, planejada e testada por especialistas de verdade, capazes de dominar o seu campo de trabalho e de enfrentar com provas irrefutáveis os sofismas dos negadores sistemáticos. É uma batalha que se trava, o bom combate de que falava o apóstolo Paulo, agora desenvolvido com todos os recursos da tecnologia.


Chega de pieguice religiosa, de palestras sem fim sobre a fraternidade impossível no meio de lobos vestidos de ovelhas. Chega de caridade interesseira, de imprensa condicionada à crença simplória, de falações emotivas que não passam de formas de chantagem emocional. Precisamos da Religião viril que remodela o homem e o mundo na base da verdade comprovada. Da caridade real que não se traduz em esmolas, mas na efetivação da fraternidade humana oriunda do conhecimento de nossa constituição orgânica e espiritual comuns, ou seja, da inelutável igualdade humana. De exposições sábias e profundas dos problemas do espírito, nascidas da reflexão madura e do estudo metódico e profundo. Temos de acordar os dorminhocos da preguiça mental e convocar a todos para as trincheiras da guerra incruenta da sabedoria contra a ignorância, da realidade contra a ilusão, da verdade contra a mentira. Sem essa revolução em nossos processos não chegaremos ao mundo melhor que já está batendo, impaciente, às nossas portas.


Não façamos do Espiritismo uma ciência de gigantes em mãos de pigmeus. Ele nos oferece uma concepção realista do mundo e uma visão viril do homem. Arquivemos para sempre as pregações de sacristão, os cursinhos de miniaturas de anjos, à semelhança das miniaturas japonesas de árvores. Enfrentemos os problemas doutrinários na perspectiva exata da liberdade e da responsabilidade de seres imortais. Reconheçamos a fragilidade humana, mas não nos esqueçamos da força e do poder do espírito encerrado no corpo. Não encaremos a vida cobertos de cinzas medievais. Não façamos da existência um muro de lamentações. Somos artesãos, artistas, operários, construtores do mundo e temos de construi-lo segundo o modelo dos mundos superiores que esplendem nas constelações. Estudemos a doutrina aprofundando-lhe os princípios. Remontemos o nosso pensamento às lições viris do Cristo, restabelecendo na Terra as dimensões perdidas do seu Evangelho. Essa é a nossa tarefa.



Fonte: Jornal “Mensagem”, órgão de divulgação do Grupo Espírita Cairbar Schutel, sob a direção de J. Herculano Pires - setembro de 1975 - ano I, nº 4 - São Paulo-SP.



José Herculano Pires (1914-1979), jornalista, poeta, filósofo, escritor e um dos maiores pensadores do espiritismo contemporâneo, é autor de mais de 80 obras sobre espiritismo, parapsicologia, educação, filosofia dentre outros temas.

 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Reflexões espíritas sobre a Tragédia de Santa Maria


Por Dora Incontri

A tragédia de Santa Maria me leva a algumas reflexões que considero importantes para o movimento espírita.

Recentemente participei de uma banca de doutorado na Universidade Metodista, em que o pesquisador José Carlos Rodrigues, examinou em ampla investigação de campo quais os principais motivos de “conversão”, eu diria, “migração” para o espiritismo, no Brasil. Ganhou disparado a “resposta racional” que a doutrina oferece para os problemas existenciais.

De fato, essa é grande novidade do espiritismo no domínio da espiritualidade: introduzir um parâmetro de racionalidade e distanciar-se dos mistérios insondáveis, que as religiões sempre mantiveram intactos e impenetráveis, sobretudo o mistério da morte.

Entretanto, essa racionalidade, que era realmente a proposta de Kardec, tem sido barateada em nosso meio, como tudo o mais, para tornar-se uma cartilha de respostinhas simples, fechadas e dogmáticas, que os adeptos retiram das mangas sempre que necessário, de maneira triunfante e apressada, muitas vezes, sem respeito pela dor do próximo e sem respeito pelas convicções do outro. Explico-me.

Por exemplo: existe na Filosofia espírita uma leitura de mundo de “causa e efeito”, que traduziram como “lei do karma”, conceito que vem do hinduísmo. Essa ideia é de que nossas ações presentes geram resultados, que colheremos mais adiante ou que nossas dores presentes podem ser explicadas à luz de nossas ações passadas. Mas há muitas variáveis nesse processo: por exemplo, estamos sempre agindo e portanto, sempre temos o poder de modificar efeitos do passado; as dores nem sempre são efeitos do passado, mas sempre são motivos de aprendizado. O sofrimento no mundo resulta das mais variadas causas: má organização social, egoísmo humano, imprevidência… Estamos num mundo de precário grau evolutivo, onde a dor é nossa mestra, companheira e o que muitas vezes entendemos como “punição” é aprendizado de evolução.

O assunto é complexo e pretendo escrever mais profundamente sobre isso. Aqui, apenas gostaria de afirmar que nós espíritas, temos sim algumas respostas racionais, mas elas são genéricas e não podem servir como camisas de força para toda a realidade. Que respostas baseadas em evidências e pesquisas temos, por exemplo, para essas famílias enlutadas com a tragédia de Santa Maria?

• que a morte não existe e que esses jovens continuam a viver e que poderão mais dia, menos dia, dar notícias de suas condições;

• que a morte traumática deixa marcas para quem fica e para quem foi e que todos precisam de amparo e oração;

• que o sofrimento deve ter algum significado existencial, que cada um precisa descobrir e transformá-lo em motivo de ascensão…

• que a fé, o contato com a Espiritualidade, seja ela qual for, dá forças ao indivíduo, para superar um trauma dessa magnitude.

Não podemos afirmar por que esses jovens morreram. Não devemos oferecer uma explicação pronta, acabada, porque não temos esses dados. Os espíritas devem se conformar com essa impotência momentânea: não alcançamos todas as variáveis de um fato como esse, para podermos oferecer uma explicação definitiva. Havia processos da lei de causa e efeito? Provavelmente sim. Houve falha humana, na segurança? Certamente sim. Qual o significado que essa tragédia terá? Cada pai, cada mãe, cada familiar, cada pessoa envolvida deverá achar o seu significado. Alguns talvez terão notícias de algum evento passado que terá desembocado nesse drama; outros extrairão dessa dor, um motivo de luta para mais segurança em locais de lazer; outros acharão novos valores e farão de seu sofrimento uma bandeira para ajudar outros que estejam no mesmo sofrimento e assim por diante.

Oremos por essas pessoas, ofereçamos nossas melhores vibrações para os que foram e para os que ficaram e ainda para os que se fizeram de alguma forma responsáveis por esse evento trágico. Mas tenhamos delicadeza ao tratar da dor do próximo! Não ofereçamos respostas fechadas, apressadas, categóricas, deterministas. Ofereçamos amor, respeito e àqueles que quiserem, um estudo aberto e não dogmático, da filosofia espírita.
 

Fonte: http://doraincontri.com/2013/01/28/reflexoes-espiritas-sobre-a-tragedia-de-santa-maria/

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O destino dos animais e a questão do "cão intercessor"



Por Artur Felipe Ferreira

 
O Espiritismo é uma doutrina espiritualista de caráter filosófico e, ao mesmo tempo, uma ciência experimental, segundo a definição de Allan Kardec. O objeto especial do Espiritismo é o conhecimento das leis do princípio espiritual, seguindo-se daí que o conhecimento acerca dos princípios da matéria, estudados pelas ciências ordinárias, lhe serve de complemento, uma vez que o conhecimento de um não pode estar completo sem o conhecimento do outro. Deste modo, Espiritismo e Ciência se completam reciprocamente.
 
Contrariamente a isso, certos simpatizantes da Doutrina Espírita preferem renegar os conhecimentos científicos e descambam para a tentativa de anexar ao conhecimento e práticas espíritas conceitos oriundos do Espiritualismo genérico, com o que intentam “enriquecer” o corpo doutrinário espírita. Desta forma, passam a disseminar, junto aos núcleos espíritas, ideias e conceitos que conflitam clara e diretamente com os mais básicos e elementares princípios espíritas, ocasionando, assim, grandes confusões entre os simpatizantes da Doutrina, conduzindo o Movimento, de maneira sub-reptícia, à perda de unidade e, consequentemente, provocando desinteligências entre os adeptos, o que facilita a formação e fortalecimento de redutos seitistas. Atuam, portanto, à feição de vírus perigosos, como já tratamos no artigo
Os Cavalos de Troia do Espiritismo”.
 

Uma dessas questões elementares a que nos referimos acima é aquela que trata do animal irracional e sua destinação após a morte, assim como o grau de evolução ao qual pertencem. Tal assunto é tratado de maneira clara na obra basilar da Doutrina Espírita, “O Livro dos Espíritos”. Da questão 592 até a de número 610, os Espíritos Superiores respondem às mais variadas perguntas formuladas pelo codificador Allan Kardec, onde chegamos às seguintes conclusões, que abaixo enumeramos:
 
1. Os animais possuem instinto, que é uma forma rudimentar de inteligência, e não são detentores de livre-arbítrio;
 
2. Os animais não podem analisar seus erros e acertos. Assim sendo, não podem sofrer penas nem gozos por não terem consciência de seus atos praticados no mundo físico. Não há neles senso moral, já que a inteligência não se encontra suficientemente desenvolvida para tal;

3. A alma dos animais, após a morte do corpo, é devolvida rapidamente ao mundo físico, seja em um planeta ou outro para que continuem sua evolução até chegarem ao estado hominal, donde daí para frente possuirão livre-arbítrio e sofrerão as penas e gozos do mundo espiritual.
 
Em “O Livro dos Médiuns”, cap. XXV, 283, itens 36 e 37, também podemos colher mais informações sobre a questão:
 
4. O princípio inteligente que anima o animal fica em estado latente após a morte, sendo que espíritos encarregados desse trabalho imediatamente o utilizam para animar outros seres. Não lhes sobra tempo disponível para se por em relação com outras criaturas. Sendo assim, não há espíritos errantes de animais, mas somente espíritos humanos.
 
5. Consequentemente, não há animais habitando o mundo espiritual, e nem é possível obter comunicações de animais por via mediúnica ou por quaisquer outros meios.

 
É isso, pois, resumidamente, o que ensina o Espiritismo sobre o destino da alma dos animais, assim como suas possibilidades e nível de adiantamento.


No entanto, volta e meia nos deparamos com declarações em evidente contraposição ao exposto acima sendo feitas em centros espíritas ou presentes em obras que dizem inspirar-se no Espiritismo. Decorrem, obviamente, de mera opinião pessoal de seus autores, mas que são consideradas, por certo número de desavisados, como autêntico ensinamento espírita. Isso ocorre mais comumente nos núcleos de orientação ramatisista, que se auto-intitulam “universalistas”, onde se pretende, a todo instante, “reformar” o Espiritismo a título de “modernidade” e “vanguardismo”. Porém, infelizmente, o que encontramos nesses redutos é um autêntico sincretismo, onde tudo se mistura, sem qualquer critério de aferição da Verdade. Opiniões individuais se mesclam a conceitos do orientalismo, cujas doutrinas jamais formaram um corpo uniforme, somadas a comunicações atribuídas a espíritos, que são logo cridas como autênticas e repositórios de verdades cristalinas, a título de contribuição ao corpo doutrinário espírita. Esquecem-se, contudo, que o critério espírita de aceitação das mensagens oriundas do mundo espiritual deve ser o da concordância universal, tendo como base a própria revelação espírita, toda ela consubstanciada nas obras da Codificação.


Um exemplo prático dessa triste realidade tem sido as mensagens atribuídas a um deus grego (!) pretensamente recebidas pelo “médium universalista” gaúcho Roger Bottini, que também diz psicografar Ramatis. Já realizamos uma abordagem crítica deste caso e assunto no artigo  "Médium universalista diz receber mensagens de deus grego" - 
o qual sugerimos a leitura para melhor entendimento do que agora escrevemos, sendo que, recentemente, causou-nos enorme perplexidade o comentário feito pelo Sr. Bottini sobre um suposto “cão intercessor” chamado Fiel. Segundo o médium supracitado, seus leitores estariam livres para orar ao cão e “pedir auxílio para seus ‘pets’ que estejam doentes ou tenham desencarnado.” Segundo o sr. Bottini, “Fiel é um cão do reino astral muito especial” e “vive junto a Hermes”, o deus da mitologia grega, e “atenderá aos pedidos feitos a ele com muito amor e carinho”. (...)
 
Desta feita, apelamos ao leitor que analise minimamente a declaração acima e compare com o que é ensinado pela Doutrina Espírita. Lembramos que o autor faz palestras em centros espíritas e se diz “espírita universalista” – uma maneira encontrada de não ter que divulgar fielmente os princípios espíritas e misturá-los a tudo que lhe venha na cabeça. O resultado disso é que, dentro em breve, certamente, teremos pessoas que se dizem “espíritas” declarando abertamente por aí que oram a um cão, que amorosamente atende aos seus pedidos. A impressão causada, com certeza, será a pior possível, passando o Espiritismo a alvo de chacota e desprestígio por parte daqueles com mínima capacidade de raciocínio e senso crítico.

Segundo as instruções dos Espíritos a Allan Kardec, principalmente as contidas na Introdução de “O Evangelho segundo o Espiritismo” e em “O Livro dos Médiuns”, faz-se necessário estarmos alerta a esses focos de grosseira mistificação e aplicarmos uma postura crítica que consiste em separar o verdadeiro do falso. É nosso dever submeter ao cadinho da razão e da lógica todas as comunicações, sobretudo aquelas que possuem um caráter exótico e exclusivista, geralmente advindas de indivíduos vaidosos que se auto-intitulam detentores de alguma missão especial ou conhecimento inacessível a maioria, que apresentam como verdades absolutas. Na mais das vezes, são vítimas de espíritos mistificadores ou pseudossábios, que se ornam com nomes pomposos para melhor enganar. O mal que tais entidades intentam causar é enorme, porque visam à desfiguração da mensagem espírita, expondo-a ao ridículo e ao vexame perante a opinião pública, enfraquecendo, assim, os magnos objetivos de esclarecimento e libertação da ignorância propostos pela Doutrina. A fim de atenuar a má impressão que causam, podem essas entidades espirituais até estimular seus medianeiros a erguerem alguma obra de caridade ou a desenvolverem alguma atividade de assistência social, intentando, assim, formar uma nuvem de fumaça em torno do médium e angariar a admiração dos incautos que lhes seguem os esdrúxulos ideários. Tais ideários, atualmente, estão geralmente ligados aos conceitos de salvação planetária, coletiva e/ou individual, onde se inserem “revelações” e previsões sobre futuras hecatombes apocalípticas, incutindo que seus seguidores serão salvos em função de suas crenças, preces ou ações determinadas pelo(s) líder(es) seitista(s). Tudo, obviamente, sugerindo muito amor, fraternidade e caridade em frases de efeito, que, na verdade, encobrem boas doses de presunção, e estímulo ao medo e ao misticismo.
 
O Espiritismo bem estudado e compreendido é seguramente o melhor antídoto contra tais ilusões e artimanhas, mas como cada vez mais se tem priorizado a leitura de obras romanceadas e as de abordagem superficial e simplista de pretenso caráter espírita, deixando-se de lado o estudo sério e metódico das obras kardecianas, tem crescido o número de adeptos que pouco ou nada sabem sobre a Doutrina, tornando-se, assim, presas fáceis dos espertalhões encarnados e desencarnados.

Já declarava Kardec em 1858, em “O Livro dos Médiuns”:


Os Espíritos são as almas dos homens, e como os homens não são perfeitos, há também Espíritos imperfeitos, cujo caráter se reflete nas comunicações. É incontestável que há Espíritos maus, astuciosos, profundamente hipócritas, contra os quais devemos nos prevenir.
 
Herculano Pires, em vista desses preciosos esclarecimentos, teceu comentários, tendo em mente o que vem ocorrendo no movimento espírita brasileiro:
 
“A malandragem dos Espíritos mistificadores ultrapassa às vezes tudo que se possa imaginar. A arte com que assestam as suas baterias e tramam os meios de persuadir seria digna de atenção, caso se limitassem a brincadeiras inocentes. Mas as mistificações podem ter consequências desagradáveis para os que não se previnam. Somos muito felizes por termos podido abrir os olhos a tempo a muitas pessoas que nos pediram conselhos, livrando-as de situações ridículas e comprometedoras.
 
(...) Devem também considerar desde logo suspeitas as predições com épocas marcadas e todas as indicações precisas referentes a interesses materiais. Toda cautela com as providências prescritas ou aconselhadas pelos Espíritos, quando os fins não forem claramente razoáveis. Jamais se deixar ofuscar pelos nomes usados pelos Espíritos para darem validade as suas palavras.


Desconfiar das teorias e sistemas científicos ousados. Enfim, desconfiar de tudo o que se afaste do objetivo moral das manifestações. Poderíamos escrever um volume dos mais curiosos com as estórias de todas as mistificações que têm chegado ao nosso conhecimento.


A falta de observação dessas instruções tem permitido a divulgação e aceitação de numerosas teorias pseudo-cientificas em nosso país e em todo o mundo, que contribuem para o descrédito do Espiritismo. A vaidade pessoal de médiuns, de estudiosos da doutrina e até mesmo de intelectuais de valor inegável, estes sempre dispostos a criticar e a superar Kardec, tem levado essas pessoas ao ridículo, inutilizando-as para o verdadeiro trabalho de divulgação e orientação. Essas instruções devem ser lidas e meditadas pelos que desejam realmente servir à causa espírita.”

 
Assim sendo, prezado leitor, se desejamos estar aptos a seguir a causa espírita, levemos em consideração tais instruções, precavendo-nos, assim, dos engodos que dão o ar da graça em nosso meio. Somente o estudo atento das obras kardecianas, somados ao desenvolvimento do senso crítico alicerçado na mais severa lógica, pode imunizar-nos desses vírus inoculados pelos inimigos secretos do Espiritismo e do bem geral. Amar ao próximo não é somente aliviar suas dores, mas preveni-las, e isso começa por libertá-lo de tudo que conduza ao erro e à ilusão, que, consequentemente, levará ao sofrimento. Na ignorância repousa a origem de todo o mal.

 
 
 
Fonte: http://espiritismoxramatisismo.blogspot.com.br/2013/01/o-destino-dos-animais-e-questao-do-cao.html?m=1

sábado, 12 de janeiro de 2013

Atualização de Cultura



Por Deolindo Amorim
 

Não é de hoje que nos preocupamos com este assunto no movimento espírita. Ainda há pouco tempo, em palestra proferida na “Mocidade Espírita do Estado de São Paulo”, cujo ambiente nos causou a melhor impressão possível, fizemos ver (e não dissemos com isto nenhuma novidade, bem o sabemos) que o Espiritismo é uma doutrina bastante arejada para nos fazer compreender certos fenômenos da nossa época.
 

Todavia, e nunca é demais insistir neste ponto, é indispensável que os responsáveis pela divulgação e apresentação da Doutrina procurem se atualizar, principalmente em relação às mais frisantes exigências do momento. A cultura desatualizada, ainda que tenha grande lastro de erudição, corre o risco de ficar estagnada diante de fatos novos. Muita gente pensa que a condição de espírita nos afasta do mundo ou nos põe completamente à margem das aquisições científicas e das descobertas do pensamento. Pensar assim é colocar-se em contraposição ao próprio espírito progressivo da Doutrina.


Se o Espiritismo não teme as descobertas da Ciência, como disse Allan Kardec, certamente os seus adeptos mais esclarecidos, os seus propagadores mais convictos devem acompanhar as atividades culturais, notadamente nos campos que ofereçam mais elementos de confronto com o Espiritismo. Não se deve, pois, abandonar a curiosidade intelectual, que é uma necessidade do espírito, é um meio de se ficar em dia, tanto quanto possível, com a evolução geral dos conhecimentos e das ideias.
 

Já se vê, portanto, que o Espiritismo, já pela sua estrutura, já pelas suas consequências, não pode ser limitado por uma concepção qualquer, como se realmente temesse os desafios da Ciência e do raciocínio claro. O Espiritismo é uma doutrina de natureza transitiva, porque procura comunicação com o mundo exterior a fim de interpretar os fenômenos da vida e da cultura em todos os seus aspectos. Não é, nem poderia ser uma doutrina hermética, nem muito menos devocional.


Todas as revoluções científicas, na Biologia como na Psicologia, na Astronomia como na Física, e assim por diante, interessam ao Espiritismo, uma vez que a sua doutrina estuda “um dos elementos constitutivos do Universo” e, por isso mesmo, “toca forçosamente na maior parte das ciências”. Quem o afirma é ainda Allan Kardec (“A Gênese”, cap. I, item 18). Estamos vendo, assim, que o Codificador encara o Espiritismo através de uma perspectiva universalista, sempre com o sentido de conjunto, pois a Verdade não é exclusivista nem se configura por inteiro dentro de um compartimento ou de um sistema de ideias. A Verdade manifesta-se em várias direções do espírito, e de vários modos, através de uma rede infindável de experiências e contribuições.
 

O Espiritismo tem, portanto, uma visão global do conhecimento. Dentro dessa concepção, que transcende a toda e qualquer posição unilateral, podemos muito bem considerar certos fenômenos à luz da Doutrina Espírita, ainda que esses fenômenos ocorram em searas estranhas. Não nos esqueçamos de que o Espiritismo tem relação com diversas ciências.


Se, por exemplo, surge um conceito novo de matéria, devido a uma pesquisa especial ou revolucionária, podemos e devemos testar esse conceito com o Espiritismo e verificar, depois disso, se há realmente alguma novidade ou se advém daí algum enriquecimento para a Doutrina. Há ocasiões em que certas novidades são apenas rótulos, mas também há ocasiões em que se colhe alguma coisa interessante para aumentar o cabedal que a doutrina já consagrou no tempo e no espaço; o que não está certo, o que não é atitude espírita é ignorar um fenômeno ou não tomar conhecimento de uma descoberta científica, seja lá onde for, venha por quem vier, desde que nesse fenômeno ou nessa descoberta haja um aspecto positivo, haja um ponto de interesse para o Espiritismo. Até mesmo no campo do materialismo — e nisto se vê a liberalidade e amplitude do Espiritismo — se aparecer uma verdade ou se alguém revelar um fato novo, essa verdade ou esse fato deve merecer a nossa atenção.


O Espiritismo não pode ignorar a desintegração atômica, como não pode ficar indiferente às viagens interplanetárias nem deve permanecer alheio às investigações da Parapsicologia ou de qualquer outra escola que estude o psiquismo humano, apesar das divergências de interpretação.


Cabe ao Espiritismo, nesta mesma ordem de ideias, mostrar os exageros e os equívocos da Psicanálise, mas não deve tomar atitude hostil ou repelir a investigação psicanalítica, a não ser quando essa investigação se desgarra do verdadeiro espírito científico, Enveredando pela desonestidade ou pelos recursos interesseiros. Fora disto, no terreno elevado ou imparcial da perquirição científica, o Espiritismo não pretende condenar coisa alguma, porque lhe cumpre observar e analisar sempre. Este, na realidade, é o espírito da Doutrina. Cabe, agora, aos seus adeptos a parte de execução, que é nada mais nada menos, a afirmação desse espírito em seus comportamentos perante as solicitações da cultura e as circunstâncias da vida.
 

Se aparece uma teoria nova, por mais discrepante que ela se nos afigure, o que devemos fazer é examiná-la, criticá-la se for necessário, mas nunca devemos chegar ao extremo das reprovações inquisitoriais, pois o Espiritismo também não receia a luz de nenhuma teoria ou ideia renovadora. Em nenhum caso, fosse qual fosse o pretexto, seria admissível o imprimatur no meio espírita.
 

O campo das ideias deve ser livre, tanto quanto é livre o campo da crítica e da discordância. Não importa que uma obra venha do Alto ou tenha origem terrena, pois todas as ideias, qualquer que seja a fonte ou o veículo, podem ser criticadas ou rejeitadas. Fora disto, não compreendemos o comportamento espírita.



Se assim procedemos, ou devemos proceder, em consonância com o caráter da Doutrina, é claro que temos condições para resistir a quaisquer teorias ou mensagens fantasiosas, evitando o perigo de se incorporar à Doutrina, como se com ela estivesse de completo acordo, o fruto de simples suposições particulares, tanto faz de espírito desencarnado como encarnado.


Justamente por isso é que nos preocupamos, há muito, com a atualização da cultura no meio espírita, a fim de evitar que certas terminologias impressionantes ou certas ideias fascinantes sejam aceitas em nosso meio como revelações incontestáveis ou como realizações científicas.
 

Duas necessidades, portanto, se impõem cada vez mais em nosso movimento: estudo sério da obra de Allan Kardec e atualização dos conhecimentos gerais, para que se compreenda bem a solidez do Espiritismo em face das revoluções científicas de nossa época. O Espiritismo, com isto, se tornará ainda mais respeitado e nunca deixará de ser, ao mesmo tempo, uma fonte de consolações e esperanças.
 

 

Fonte: http://viasantos.com/pense/artigos.html


domingo, 18 de novembro de 2012

Espíritos de Crianças na Erraticidade


Por Maria das Graças Cabral

 
O tema do presente artigo adveio do questionamento feito por um leitor do blog Um Olhar Espírita, quando indagou se seria possível a existência de crianças na erraticidade, posto que, no grupo espírita que frequenta muito comumente elas se apresentam nas reuniões mediúnicas desenhando flores.

Para alcançarmos o entendimento do assunto em pauta, precisamos pontuar e analisar alguns aspectos propostos em O Livro dos Espíritos. Inicialmente trataremos de “períspirito”. Asseveram os Mestres da Espiritualidade, que o Espírito é envolvido por uma substância vaporosa, denominada por Kardec de “períspirito”, que é retirado do “fluido universal de cada globo”.

Pode-se atribuir ao períspirito duas finalidades. Lembrando que ainda estamos longe de conhecer todos os seus atributos. Dizem-nos os Espíritos da Codificação, que na condição de encarnado, ele serve de liame entre o Espírito e o corpo material.

Já para o desencarnado, o períspirito funciona como o envoltório semimaterial, que toma a forma ao “arbítrio” do Espírito. Portanto, afirmam os Mestres Espirituais que é através do períspirito que aquele “aparece algumas vezes, seja nos sonhos, seja no estado de vigília, podendo tomar uma forma visível e mesmo palpável”. (O Livro dos Espíritos, questão 95)

Importante tais elucidações, para clarificar que o Espírito se apresentará tomando a forma a seu alvedrio, objetivando ser reconhecido por aqueles que o conheceram sob tal roupagem, ou para atender outras questões de seu interesse. Entretanto, comumente será visto sob a forma e identidade de sua última encarnação.

Senão vejamos o questionamento feito por Kardec a respeito: - “Como a alma constata a sua individualidade, se não tem mais o corpo material”. Respondem os Espíritos que através do períspirito representará a aparência da sua última encarnação. (O Livro dos Espíritos, pergunta 150-a) (grifos nosso)

No que tange a volta ao mundo espiritual, oportuno ressaltar que a consciência de si mesmo e de sua condição espiritual não se faz de pronto. Daí, grande parte dos Espíritos vivenciam o chamado “estado de perturbação”. Asseveram os Espíritos da Codificação, que tal estado varia de acordo com o grau evolutivo do desencarnado. “Aquele que já está depurado se reconhece quase imediatamente, porque se desprendeu da matéria durante a vida corpórea enquanto o homem carnal, cuja consciência não é pura, conserva por muito tempo mais a impressão da matéria”. (O Livro dos Espíritos, p.164)

Pode-se inferir de tal assertiva, que as pessoas mais espiritualizadas, esclarecidas, moralizadas, se desvincularão mais rapidamente do corpo físico e das questões próprias da vida material, tomando consciência de si mesmas, e da realidade espiritual que as envolve.

Em contrapartida, a grande parte dos que vivem às voltas apenas com as questões próprias da vida material, levará um tempo considerável para se libertar das sensações e impressões do corpo físico, como das questões cotidianas que dizem respeito ao mundo dos encarnados.

Ao tratar do “retorno à vida espiritual”, Kardec indaga na questão 149 de O Livro dos Espíritos, em que se transforma a alma no instante da morte. Respondem os Espíritos Superiores que “volta a ser Espírito, ou seja, retorna ao mundo dos Espíritos que ela havia deixado temporariamente”. Argui então o Codificador na questão 150 da referida obra, se “a alma conserva a sua individualidade após a morte”, ao que os Mestres respondem que o Espírito não a perde jamais.

Portanto, pelo desenvolver das ideias, fica claro que é através do períspirito que o Espírito tomará a forma que lhe convém, buscando retratar a sua individualidade. Entretanto, a consciência de si mesmo e de sua condição de desencarnado vai depender do tempo de duração do seu estado de perturbação, que por sua vez dependerá de uma maior ou menor ligação com a vida material. Esse é um preceito geral aplicável a todos os Espíritos que desencarnam no planeta Terra.

Depois da regra geral apresentada, vamos adequá-la aos indivíduos que desencarnam na infância. A esse respeito, vale ressaltar que tais crianças poderão ser Espíritos com muito mais experiência do que os adultos que ficaram no plano físico.

Aliás, asseveram os Mestres da Espiritualidade que tal evento é bastante comum, e que “a duração da vida da criança pode ser, para o seu Espírito, o complemento de uma vida interrompida antes do tempo devido, e sua morte é frequentemente uma prova ou uma expiação para os pais”. (O Livro dos Espíritos, perguntas 197/199)

Faz-se por oportuno observar que o Espírito que desencarna criança, não é um “Espírito criança”. Já tem uma longa bagagem de experiências a ponto de já encarnar em um corpo de grande complexidade, que é o caso do corpo humano. Portanto, como dito anteriormente, pode até ser um Espírito muito mais experiente e evoluído do que os pais.

Adiante questiona Kardec em que se transforma o Espírito de uma criança morta em tenra idade. Aliás, particularmente nos países subdesenvolvidos, é grande número de crianças que vivem poucas horas, dias, meses ou alguns anos, vindo precocemente a desencarnar pelas mais diversas causas. Ao que respondem os Espíritos: - “Recomeçar uma nova existência”. Ou seja, serão preparados para uma nova encarnação. (O Livro dos Espíritos, pergunta 199-a)

Por fim, o Codificador indaga: - “Com a morte da criança o Espírito retoma imediatamente o seu vigor primitivo”? Respondem os Mestres Espirituais: – “Assim deve ser, pois que está desembaraçado do seu envoltório carnal; entretanto, ele não retorna a sua lucidez primitiva enquanto a separação não estiver completa, ou seja, enquanto não desaparecer toda a ligação entre o Espírito e o corpo”. (O Livro dos Espíritos, pergunta 381) (grifos nosso)

Observa-se, portanto, que a forma infantil de se apresentar, se deve ao estado de perturbação. Ou seja, é a forte ligação com o corpo material, que não permite ao Espírito identificar-se no “vigor primitivo” como dizia Kardec.   

Diante do exposto, pode-se concluir que passado o estado de perturbação, onde o Espírito tomará consciência de si mesmo e de sua condição espiritual, não haverá porque se fazer representar tomando a forma infantil.

Não obstante, vale pontuar algumas hipóteses. Um Espírito evoluído que passou por um breve período de perturbação ao desencarnar, poderá tomar a forma de criança para confortar e ser reconhecido pelos pais, familiares ou amigos encarnados que sofrem a saudade de sua partida precoce.

Muito comumente, pais que perderam filhos a mais de vinte, trinta anos, relatam que viram, sonharam, falaram com suas crianças que se mostravam com a mesma aparência que tinham ao desencarnar. Nesse caso, pode-se entender que tais Espíritos, caso não mais estejam em estado de perturbação, procurassem retratar a forma infantil para serem reconhecidos por genitores e/ou familiares.

Mas, e as crianças que comparecem às reuniões mediúnicas espíritas, ou são vistas transitando por casas, ruas, hospitais, templos, etc.? Já sabemos a resposta. São Espíritos em estado de perturbação, ainda fortemente ligados ao corpo material, sem consciência de si e de sua condição de desencarnado.

Não obstante, pode-se considerar uma nova hipótese. Somos sabedores que em razão da plasticidade do períspirito, e da capacidade que tem o Espírito de moldá-lo ao seu arbítrio, Espíritos inferiores, não mais em estado de perturbação, poderão apresentar-se como crianças, objetivando outros interesses. Por que não? É outra possibilidade a se aventar.

E então o que fazer? Orar por todos, conversar mentalmente, e buscar ajudá-los a se perceberem como Espíritos que são. Afinal não existem “Espíritos crianças”, pois o período de infância, adolescência, maturidade e envelhecimento, é uma condição do corpo físico, que obedece a esse processo orgânico de maturação, próprio dos nativos do planeta Terra.

No que concerne ao Espírito, este tem a sua infância espiritual dimensionada pelo grau de inexperiência diante das Leis Universais. A infância espiritual se faz identificar pelo estado de ignorância. Como dizem os Mestres Espirituais todos os Espíritos são criados simples e ignorantes.

Pode-se asseverar que será mediante o processo de evolução moral e intelectual que o Espírito alcançará a maturidade. O corpo físico é apenas um instrumento necessário para o aprendizado no planeta Terra. Morre o corpo infantil, e sobrevive o Espírito imortal e eterno, com toda uma bagagem de aquisições intelectuais e morais, advindas das múltiplas experiências reencarnatórias, e que integram a sua individualidade.

  

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Editora LAKE. São Paulo/SP. 62ª edição. 2001.