quarta-feira, 10 de abril de 2013

O Espiritismo exige responsabilidade



Por Antonio Sérgio C. Picollo e Elio Mollo

 

Dentre as principais finalidades de um Centro Espírita, destacam-se, o amparo, o esclarecimento e o consolo, à luz da Dou­tri­na Espírita, que se fornecem a todos os ir­mãos necessitados que o pro­curam. Em primeiro lugar é óbvio que se algum espírita pretende ajudar alguém, à luz do Espiritismo, é necessário que ele conheça seus fundamentos básicos. É neste ponto que verificamos que surgem muitos problemas, de forma muito comum, em diversos Centros Espíritas de todo o Brasil. Infelizmente, muitos dirigentes e trabalhadores da Seara Espírita não conhecem a fundo (às vezes, nem superficial­mente) as obras básicas do Espiritismo codifica­das por Allan Kardec e por isso mesmo tornam-se inaptos a orientar algum necessitado, ou mesmo a proferir uma palestra sobre Espiritismo. Parece-nos que muitos ainda não conhecem aquelas velhas frases: "Temos de começar pelo começo" ou "Não se inicia a construção de uma casa pelo telhado, e sim pelo alicerce". É comum constatarmos que diversos Centros Espíritas e Federações de alguns Esta­dos, em seus cursos básicos de Espiritismo, ou até mesmo em palestras abertas ao público em geral, releguem as obras de Kardec a um segundo plano, dando franca preferência a outros livros psicografados. E ainda orientam pessoas iniciantes na Doutrina a começarem a ler esse tipo de literatura que, que­remos deixar bem claro, são importantes, louváveis e de inestimável valor, porém, para aqueles que já possuem conhecimento dos elementos básicos da Doutrina Espírita. Não é raro assistirmos palestras públicas, onde muitas pessoas lá se encontram pela primeira vez, e vemos que o expositor espírita, após esclarecer que aquele local é uma “Casa Kardecista”, se põe a falar sobre os bônus-hora, de ministérios existentes nas colônias espirituais, dos veículos de locomoção lá existentes etc.. Ora, se alguém de bom-senso, leigo em conhecimentos espíritas, assistir a esse tipo de palestra, logo duvidará da seriedade do Espiritismo e dos espíritas, pois, com razão, achará que tudo aquilo é ilógico ou se trata de algum conto de ficção. Não devemos nos esquecer de que todos os dias chegam aos Centros Espíritas pessoas oriundas de outras religiões, que nada conhecem sobre Espiritismo e por isso é que tanto em matéria de palestras, como em relação a orientar sobre leituras, é de suma importância que se dê ênfase às obras basilares da Doutrina, a saber: "O que é o Espiritismo", "O Livro dos Espíritos",  e, para que essas pessoas não se confundam e, sim, sejam esclarecidas. Depois desses conhecimentos bem assenta­dos em nossas mentes, é que pode­remos pensar em dar continuidade, em cursos separados do curso básico, ao estudo regular e metódico de "O Livro dos Médiuns" e de­mais obras de Kardec. Somente aí é que estaremos realmente em condições de estudarmos as importantes e verdadeiras obras subsidiárias da Doutrina Espírita. Como dissemos em relação a essas últimas nada te­mos contra, muito pelo contrário, porém, re­afirmamos que somente aqueles que já adquiriram conhecimentos das obras de Kardec serão capazes de absorver essas instruções. Caso contrário, estaremos orientando essas criaturas de forma distorcida e isso é uma ir­responsabilidade.
 
 
Como podemos nos considerar espíritas sem o conhecimento das obras de Kardec? Como ingressarmos numa faculdade de medicina, por exemplo, no quarto ano de graduação, sem termos conhecimento dos três primeiros anos básicos? Certamente, não entenderíamos muita coisa do restante do curso, senti­ríamos falta de conhecimentos básicos para compreendermos novas lições, e, se prosseguíssemos, sem dúvida, nos tornaríamos maus profissionais, pondo em risco a saúde dos pacientes, desprestigiando a medicina e os colegas de profissão. Esse simples exemplo serve como termo de comparação com o Centro Espírita. Se alguma pessoa ti­ver acesso a uma Casa Espírita e não lhe for apresentada corretamente a Doutrina Espírita, esta pessoa, caso continue a freqüentar esse local, continuará com falta de conheci­mento e coragem para solucionar esses problemas e, no futuro, será um médium ou trabalhador inseguro, cheio de dúvidas, e ignorante dos conhecimentos que necessita para si e também para poder ajudar aos outros.
 
 
Não achamos válida a justificativa que muitos irmãos utilizam de que "Kardec é difícil de entender" ou que "As obras de Kardec são maçantes".  Recordamos textualmente as palavras do codificador na introdução de "O Livro dos Espíritos": "Mas jamais dissemos que esta ciência seja fácil nem que se possa aprendê-la brincando, como também não se dá como qualquer outra ciência. Nunca será demais repetir que ela exige estudo constante e quase sempre prolongado".
 
 
 Se observarmos com profundidade as obras de Kardec chegaremos a conclusão de que ele sempre usou o bom senso e para não criar dúvidas procurou ser objetivo e simples durante a codificação. Devemos alertar que muitas obras de outros autores que são consideradas "fáceis de entender", além de muitas vezes conterem erros doutrinários, não nos tornam aptos a compreendermos correta e aprofundadamente a Doutrina Espírita, gerando, cedo ou tarde, dúvidas e confusão dentro de nós mesmos que preferimos o caminho "mais fácil". Daí a importância de termos dirigentes espíritas conscientes e responsáveis para essa difícil tarefa de conduzirem a Doutrina Espírita com o máximo de pureza doutrinária, de saberem criar cursos regulares de Espiritismo de maneira adequada e lógica, sempre à luz das obras de Kardec em primeiro lugar. Que nossos dirigentes respeitem o Espiritismo divulgando-o como ele é na realidade e não inserindo opiniões pessoais como sendo verdade. Daí também surge a necessidade gritante de se capacitarem melhor, se aprofundando nas obras de Kardec, de se atualizarem através de trocas de experiências com outros dirigentes de outras Casas Espíritas, da leitura e divulgação dos jornais espíritas, enfim, de estudar Kardec e entender melhor as lições Jesus para praticá-las com mais eficiência a cada dia que passa.
 
Pensemos nessa responsabilidade.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Kardec e a Revolução do Espírito

Quando o professor Rivail participou, em maio de 1855, da primeira sessão de “mesas falantes”, sua vida modificou-se totalmente. Ele vislumbrou, no vaivém do bater dos pés da mesa, algo mais do que os outros imaginavam.
 
Ali estava, naquelas manifestações rústicas, o caminho para um melhor entendimento dos problemas do homem. Sua mente treinada surpreendeu-se com o desdobramento possível da confirmação de que aqueles fenômenos indicavam a prova da imortalidade da alma. O sonho de todos, de não morrer, de continuar vivendo, se transformava em realidade.
 
“Compreendi, antes de tudo, a gravidade da exploração que ia empreender; percebi, naqueles fenômenos, a chave do problema tão obscuro e tão controvertido do passado e do futuro da Humanidade, a solução que eu procurara em toda a minha vida. Era, em suma, toda uma revolução nas ideias e nas crenças”, escreveu, relembrando sua iniciação no processo que redundou no Espiritismo. (“Obras Póstumas” - Minha Primeira Iniciação no Espiritismo).
 
A Revolução Francesa derrubara os muros da aristocracia e da prepotência do clero, dando início a uma nova etapa, abrindo novos horizontes políticos para a sociedade. A Revolução Industrial estabelecera um novo primado para a economia e promovera a urbanização, reestruturando o panorama das relações humanas, projetando o crescimento da produção com vistas à expansão da coletividade humana. Marx e Engels, no “Manifesto Comunista”, em l848, proclamavam que “tudo o que é sólido se desmancha no ar...”, prenunciando a Revolução Social, com a promessa de eliminar as barreiras entre as classes sociais, instalando um panorama de justiça e cooperação.
 
Faltava a Revolução do Espírito, isto é, a quebra das barreiras materialista e confessional, libertando Deus, o universo, o ser, das algemas do dogmatismo e da ignorância, coroando as demais revoluções pela compreensão da natureza espiritual das criaturas humanas, ensejando o descortino de uma nova moral para o mundo.
 
PREPARANDO A REVOLUÇÃO
 
Para o professor Rivail, o Espiritismo seria o secundador, o desencadeador, o fator central dessa revolução. Podemos dizer que, desde o início, ele trabalhou para que a Doutrina chegasse ao ponto que depois ele indicou como a sua meta final: a influenciação social.
 
Passou a estruturar a nova doutrina, que os Espíritos patrocinavam com suas manifestações mediúnicas, discutindo ideias e fazendo revelações que davam novo sentido às crenças humanas.
 
Metodicamente, organizou suas ideias, conferiu posições, debateu, discutiu cada uma delas, dentro de um estrito sentido de responsabilidade. “Fazia-se mister, portanto, andar com a maior circunspeção e não levianamente; ser positivista e não idealista, para não me deixar iludir”.
 
 
Assim, afirmou: “apliquei a essa nova ciência, como o fizera até então, o método experimental; nunca elaborei teorias preconcebidas; observava cuidadosamente, comparava, deduzia consequências; dos efeitos procurava remontar às causas, por dedução e pelo encadeamento lógico dos fatos, não admitindo por válida uma explicação, senão quando resolvia todas as dificuldades da questão. Foi assim que procedi sempre em meus trabalhos anteriores, desde a idade de 15 a 16 anos. (“Obras Póstumas” - Minha primeira iniciação no Espiritismo).
 
Em menos de dois anos, o professor Rivail transformou-se em Allan Kardec. Já em 1856 ele tinha concluído a formatação de “O Livro dos Espíritos”, após ter analisado exaustivamente cerca de 50 cadernos contendo mensagens, informações e respostas dos Espíritos a questões formuladas pelo grupo mediúnico de Victorien Sardou. Em mensagem datada de 11 de setembro de 1856, através da médium senhorita Baudin, “muitos Espíritos”, depois de ouvirem Kardec ler alguns capítulos de “O Livro dos Espíritos”, afirmaram que “o plano está bem concebido” e que estavam “satisfeitos” com ele. (“Obras Póstumas”).
 
Finalmente, o Espiritismo veio à luz no dia 18 de abril de 1857, com a publicação do primeiro “O Livro dos Espíritos”, elaborado por Rivail em mais ou menos 15 meses, motivo porque saiu com apenas 504 questões, contendo perguntas e respostas e o mesmo conteúdo no formato de texto filosófico.
 
Se considerarmos o período de maio de 1855 a março de 1869, quando ele desencarnou, Allan Kardec presidiu a estruturação do Espiritismo por cerca de 14 anos.
 
Em janeiro de 1858 começou a publicação da “Revista Espírita”, que dirigiu durante 11 anos e 4 meses, com 136 edições mensais, considerando que, embora desencarnado em 31 de março, deixara pronta a edição de abril de 1869. Em abril de 1858, fundou a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, que presidiu até desencarnar.
 
TRABALHO SOLITÁRIO
 
Quando Camille Flammarion afirmou no seu discurso à beira do túmulo de Kardec “que ele não era o que chamam de sábio, que não fora primeiro físico, naturalista, ou astrônomo e que preferira constituir um corpo de doutrina moral, antes de haver submetido à discussão científica a realidade e a natureza dos fenômenos”, exprimia uma opinião que o fundador do Espiritismo conhecera.
 
O próprio Flammarion diz que Kardec “suscitou rivalidades; fez escola de feição um pouco pessoal” mostrando que ele fora taxado de personalista. Na verdade, realizou, de fato, um trabalho solitário.
 
Ele justificou essa atitude, dizendo que como a Doutrina não foi dada, em parte alguma, completa, era preciso um centro organizador para receber, discernir, deduzir e decidir o que deveria ser publicado e dado como doutrina espírita. O trecho seguinte mostra o que ele realizou: “O Espiritismo não é nem uma concepção pessoal, nem o resultado de um sistema preconcebido. É a resultante de milhares de observações feitas em todas as partes do globo, que convergiram para um centro que as coligiu e coordenou. Todos os princípios que o constituem, sem exceção, foram deduzidos da experiência.” (“Obras Póstumas”, Breve Resposta aos Detratores do Espiritismo).
 
Sobre sua decisão de organizar, fundar o Espiritismo, ele declarou: “Algumas pessoas disseram que fui precipitado nas teorias espíritas, que ainda não era tempo de estabelecê-las, pois as observações não estavam completas. Abstração feita ao ensino dos Espíritos, pergunto se, em meu nome, não tenho, como qualquer outra pessoa, o direito de elucubrar um sistema filosófico? Seria tomar a dianteira de certas pessoas? (...) Mas, se certo ou errado, eu creio tê-los observado suficientemente, devo esperar as boas disposições dos que ficam para trás?” (“Revista Espírita”, julho de 1859).
 
Em nota a uma comunicação datada de 18 de novembro de 1857, através da médium Ermance Dufaux, que versava sobre o lançamento da “Revista Espírita”, que ele publicou a partir de 1° de janeiro de 1858, às suas custas e sozinho, ele disse: “Reconheci, mais tarde, que fora para mim uma felicidade não ter tido quem me fornecesse fundos, pois assim me conservava mais livre, ao passo que outro interessado houvera querido talvez impor-me suas ideias e sua vontade e criar-me embaraços. Sozinho, eu não tinha que prestar contas a ninguém, embora, pelo que respeitava ao trabalho me fosse pesada a tarefa.” (“Obras Póstumas”).
 
Esses pequenos trechos mostram o perfil do caráter de Kardec. Ele percebeu a extensão do projeto que a doutrina poderia desenvolver em benefício da humanidade e fez disso a obra de sua vida.
 
Embora muitos contestem, Canuto Abreu afirmou que uma era a posição de Kardec, quando da publicação da 1ª edição de “O Livro dos Espíritos” e outra a partir da 2ª edição, em 1860. Segundo ele, no curto espaço entre as duas edições de “O Livro dos Espíritos”, isto é de 1857 a 1860, Kardec assumiu sua verdadeira posição de autor da Doutrina. Eis o que ele escreveu: “O papel do Homem sobreleva ao dos Espíritos. Os Instrutores ficam em segundo plano, como simples testemunhas informantes ou de ciência própria perante juiz severo e lúcido. O Discípulo torna-se Mestre. Nivela-se o Aprendiz com os Instrutores. Julga. Critica. Distingue. Seleciona. Atende somente a seu criterium, confia só em seu discernimento. Inspira-se apenas no Espírito Verdade, diretamente, e que nunca o abandonou.” (Nota do tradutor in “O Primeiro Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec).
 
O que não resta dúvida é que ele possuía um espírito crítico digno de um pesquisador e um pensamento filosófico definido. Ele foi um filósofo da práxis, como mais tarde diria Marx. Diante dos fatos e diante da ancestralidade dos temas que abordara, ele julgou que era importante, sobretudo, dar um sentido prático às revelações que os Espíritos traziam, a maior delas, naturalmente, a prova de sua existência.
 
Conforme acentuou, ele elucubrara um sistema filosófico. Os iniciadores dos grandes sistemas filosóficos foram antes de tudo revolucionários na medida em que reestruturaram concepções soltas, pensamentos diversos e deram um novo sentido ao que era disperso e imaginário.
 
Kardec também partiu das instruções dos Espíritos, das observações pessoais sobre diferentes tipos de níveis de evolução, inteligência, conhecimento, afeto e formulou um sistema filosófico, arcando com a responsabilidade e sofrendo os ataques rotineiros de invejosos, opositores gratuitos e mal-intencionados.
 
Mas teve uma vantagem, sua ligação com os Espíritos Superiores foi muito íntima, mas respeitosa. De modo algum havia uma subordinação, nem um atrelamento automático dele em relação a eles. Houve uma contínua e perfeita parceria.
 
Kardec pensou grande, isto é, anteviu um sistema que contemplava uma revolução moral, a partir de fundamentos conceituais que teriam como fruto a desmobilização de bases materialistas, ateístas, niilistas da sociedade.
 
Por isso o que realmente importou-lhe foi estabelecer uma relação moral básica. Ele foi um homem complexo: humanista, educador, escritor, filósofo, moralista, no melhor sentido da palavra. Embora injuriado, atacado, traído, mostrou um espírito tolerante e, ciente da inevitabilidade da evolução do pensamento, preparou a Doutrina para se manter atualizada.
 
Embora as tênues separações entre o pensamento filosófico e o teológico, nas questões morais Allan Kardec procurou delinear o suporte moral do Espiritismo, dentro de um critério filosófico, não místico: “O Espiritismo é uma doutrina filosófica, de efeitos religiosos, como qualquer filosofia espiritualista, pelo que forçosamente vai ter às bases fundamentais de todas as religiões: Deus, a alma, a vida futura. Mas não é uma religião constituída, visto que não tem culto, nem rito, nem templos e que, entre seus adeptos, nenhum tomou nem recebeu o título de sacerdote ou de sumo-sacerdote.” (“Obras Póstumas”, Ligeira resposta aos detratores do Espiritismo).
 
O fundador do Espiritismo foi de um caráter firme, decidido e o consolidador de uma proposta de renovação integral da sociedade, por uma nova visão do homem e do mundo.
 
REVOLUÇÃO COMPLEXA
 
Allan Kardec pensou o Espiritismo como instrumento da Revolução do Espírito. Ele disse: “O simples fato de poder o homem comunicar-se com os seres do mundo espiritual traz consequências incalculáveis da mais alta gravidade; é todo um mundo novo que se nos revela e que tem tanto mais importância, quanto a ele hão de voltar todos os homens, sem exceção.
O conhecimento de tal fato não pode deixar de acarretar, generalizando-se, profunda modificação nos costumes, caráter, hábitos, assim como nas crenças que tão grande influência exerceu sobre as relações sociais, É uma revolução completa a operar-se nas ideias, revolução tanto maior, tanto mais poderosa, quanto não se circunscreve a um povo, nem a uma casta, visto que atinge simultaneamente, pelo coração, todas as classes, todas as nacionalidades, todos os cultos.” (“A Gênese”, cap. I, item 20).
 
Para ele, a Doutrina seria o ponto de apoio dessa reformulação moral da humanidade, da qual decorreria toda uma nova era para o planeta azul. Entretanto, tudo deve se encadear, tudo segue um rumo esboçado pela divindade. O objetivo maior é a identificação do ser humano, a construção de uma sociedade harmônica e justa, com a valorização do humano.
 
A ideia de que se poderia alcançar a Revolução do Espírito sem resolver as questões fundamentais das relações humanas, seguia o mesmo rumo dos apelos pela salvação que foram feitos não apenas no cristianismo, como em todas as religiões.
 
Transformações mágicas sempre povoaram a mente das pessoas e animaram o imaginário de gerações. Todavia, a criação de uma nova sociedade é complexa e depende da solução de problemas que obstruem o caminho do bem-estar material e prepare a base para o bem-estar espiritual.
 
A Revolução do Espírito não poderá ser implantada à revelia das condições de miséria e ignorância reinantes na maioria das nações e países. Na visão geopolítica, econômica e sociológica do fim deste século 20, percebemos uma extraordinária evolução no cenário humano. Em menos de 100 anos esse cenário mudou e está em acelerado processo de mudança.
 
O tempo de Kardec maravilhava-se com a eletricidade e a máquina a vapor, com o telégrafo sem fio. Tudo isso parece irrisório diante das conquistas tecnológicas e o desenvolvimento do pensamento científico que, como sabemos, dá novo sentido aos parâmetros idealizados pelo espiritualismo e demais crenças.
 
Se o século 19 refletiu a agitação social e política da Europa, não apenas no campo teórico, mas em ações como a Comuna de Paris, os movimentos comunista, socialista e anarquista, ao lado da agitação científica a ensaiar o salto tecnológico que explodiria no século 20, tudo isso prenunciava o grande desafio que é a valorização da pessoa humana.
 
Embora todos os percalços, desde aí caminhou-se e caminha-se para a valorização do ser humano, que ganhou novas dimensões, com a revolução feminina deste século, preparando o futuro da humanidade valorizada em direitos e deveres, sem discriminação sexual.
 
Ainda persistem outros focos de inquietação. Como a discriminação racial, a miséria e a exploração das pessoas. Mas já existe um delineamento irrecorrível que cria uma consciência que vai se consolidando sobre a fatuidade dessas posições e que redundará na solução dessa desigualdade fabricada pelas elites.
 
Outro fator ponderável é que o mundo não é apenas o Ocidente ou apenas o Oriente, o Oriente Médio. A felicidade não poderia vir apenas para o branco europeu, mas deverá ser, em termos genéricos, estender-se a todos, ainda que de forma desigual, mas basicamente digna.
 
O colonialismo territorial cedeu e foi sucedido, em parte, e como talvez seria inevitável, pelo colonialismo cultural, político e econômico, o que suscita estertores dos partidários de um mundo ideal, sem classes, igualitário, com exata e substancial distribuição da riqueza, meta sem dúvida a ser alcançada nos séculos futuros.


Para isso, não são pouco os que esperam grandes manifestações da natureza, com a morte de milhões, limpando a Terra dos maus elementos. Nesse caso, os poucos e bons habitantes que restariam desfrutariam do caos e da destruição que os elementos naturais provocariam, para não falar dos que prosseguem esperando a espetacular vinda do Senhor, para separar os bodes das ovelhas.


Como se pretendeu salvar a criatura humana pela graça divina, pretendeu-se transformar a sociedade humana pela graça do comunismo que essencialmente prega a solidariedade, a união em torno de ideais. Seriam eliminadas as classes, a miséria seria erradicada, os “maus” seriam condenados e cessariam quaisquer discriminações entre pessoas e raças.


Os regimes impostos pela revolução bolchevista e que tentaram criar esse falso paraíso faliram desastrosamente. Não apenas porque se basearam no controle da produção, sem espaço para a criatividade e pelo sufoco da liberdade, mas, sobretudo, porque desprezaram a realidade evolutiva da maioria, os desejos e as deficiências morais das pessoas, tanto as que dominaram como as que foram dominadas.
 
A SOLIDARIEDADE DO PROCESSO


A história mais recente está a nos demonstrar que a Revolução do Espírito será alcançada através de um longo processo de maturação da sociedade humana, tão dispersa e diversa em moralidade, riqueza e nível social.


A iniciativa de Kardec é a semente do futuro. As projeções de uma nova sociedade mais fraterna e sem o peso esmagador do egoísmo e do orgulho, foram feitas dentro de um quadro otimista, mas prudente.


Segundo várias comunicações de Espíritos, desde há um século antes de Kardec, se preparava uma renovação abrangente, que incluía a justiça social, a supremacia do bem sobre o mal: “O progresso da Humanidade se cumpre, pois, em virtude de uma lei que resulta da vontade de Deus, não de uma vontade acidental e caprichosa, mas de uma vontade imutável. Quando, por conseguinte, a Humanidade está madura para subir um degrau, pode dizer-se que são chegados os tempos marcados por Deus, como se pode dizer também que, em tal estação, eles chegam para a maturação dos frutos e sua colheita.” (“A Gênese”, cap. XVIII, item 2).


E Kardec acrescenta : “Nestes tempos, porém, não se trata de uma mudança parcial, de uma renovação limitada a certa região, ou a um povo, a uma raça. Trata-se de um movimento universal, a operar-se no sentido do progresso moral. (...)Aliás, todos sabem quanto ainda deixa a desejar a atual ordem de coisas. Depois de se haver, de certo modo, considerado todo o bem-estar material, produto da inteligência, logra-se compreender que o complemento desse bem-estar somente pode achar-se no desenvolvimento moral.” (Idem, item 6).


A consolidação da imortalidade não será apenas obra do Espiritismo. Mesmo na fase que sucedeu ao surgimento do Espiritismo, os maiores pesquisadores dos fenômenos psíquicos não estavam ligados à Doutrina. Alguns foram mesmo críticos do Espiritismo.


Entretanto, desde 1857, quando Kardec nos oferta “O Livro dos Espíritos”, na verdade consolidado a partir de l860 com a 2ª edição, filósofos, cientistas e pesquisadores se entregaram com ardor e eficiência à prova experimental da imortalidade, utilizando o instrumento da mediunidade, que ele recuperara dando-lhe o nível de dignidade e de faculdade humana, respeitável e útil.


Sem qualquer prepotência, podemos afirmar que a Doutrina Espírita é a única que possui um conjunto de fatores experimentais e ideológicos que dão sentido à imortalidade e abrem uma perspectiva justa e progressiva para os seres espirituais, que são as criaturas humanas. Estabelecendo os fundamentos da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, ele escreveu na “Revista Espírita” de julho de 1859: “O objetivo da Sociedade não é apenas a pesquisa dos princípios da Ciência Espírita. Ela vai mais longe, estuda também suas consequências morais, pois é principalmente nestas que está a sua verdadeira utilidade”.


Logo, a Revolução do Espírito não será precipitada por acontecimentos insólitos, mas será resultado e ao mesmo tempo influenciada por mutações progressivas, abrangendo o conjunto das pessoas, derrubando preconceitos e superando os desafios que a complexidade do tema apresenta, sem que se possa estabelecer um tempo limitado.


Fonte: Abertura - jornal de cultura espírita, outubro de 1999. Licespe – Santos-SP..


sábado, 16 de fevereiro de 2013

Allan Kardec Racista?



Por Eugenio Lara


A questão do racismo no pensamento de Allan Kardec é bastante controversa. Há quem o considere racista por suas declarações acerca da raça negra. Outros preferem ignorar, dão de ombros e fingem que nada foi dito: tergiversam. “Nem tanto ao mar, nem tanto à terra”, diz o dito popular. A consideração do contexto histórico em que Kardec fez tais declarações é fundamental para entendermos seu pensamento, sem cairmos em posições extremadas.

No século 19, a rigor, toda a Europa era “racista”, por se autoconsiderar como modelo, como padrão estético e cultural. Este fato, somado ao quase completo desconhecimento da realidade cultural e social do continente africano, fazia de qualquer europeu de classe média um sujeito preconceituoso em relação a outras culturas e etnias, especialmente a africana. Ainda mais os franceses, que são xenófobos históricos e bastante chauvinistas. Kardec não seria exceção, tanto quanto os médiuns que colaboraram com ele na estruturação do Espiritismo.

Um dos primeiros fatos a serem considerados é a filiação de Allan Kardec à Frenologia (ou Craniologia), que na época obteve certa proeminência. Considerada hoje como pseudociência, foi fundada pelo médico alemão Franz Joseph Gall (1758-1828). Segundo essa pretensa teoria científica, as formas do crânio, sua morfologia, teriam relação com o caráter, com a moralidade e até com a espiritualidade. O grande criminalista e espírita italiano César Lombroso também era partidário dessa teoria. Kardec foi membro e secretário por vários anos da Sociedade Frenológica de Paris.

A adesão a essa pseudociência levou Kardec a pensar sobre o aspecto físico do negro, na suposta expressão de sua inferioridade intelecto-moral pela morfologia, o seu biótipo, em comparação com a raça caucasiana, como vemos nessa afirmação categórica: “O negro pode ser belo para o negro, como um gato é belo para um gato; mas, não é belo em sentido absoluto, porque seus traços grosseiros, seus lábios espessos acusam a materialidade dos instintos; podem exprimir as paixões violentas, mas não podem prestar-se a evidenciar os delicados matizes do sentimento, nem as modulações de um espírito fino.”

Hoje polêmica, esta afirmação de Kardec em Obras Póstumas (Teoria da Beleza) reforça sua ideia de que a raça branca seria a mais bela e evoluída: “podemos, sem fatuidade, creio, dizer-nos mais belos do que os negros e os hotentotes. Mas, também pode ser que, para as gerações futuras, melhoradas, sejamos o que são os hotentotes com relação a nós. E quem sabe se, quando encontrarem os nossos fósseis, elas não os tomarão pelos de alguma espécie de animais”.

É fundamental considerar também o fato de que o século 19 foi marcado por uma visão desenvolvimentista, “evolucionista”, de que haveria um padrão de progresso civilizatório a ser alcançado pelos seres humanos, pelas sociedades. De tal modo que, sob essa visão eurocentrista, marcada pelo positivismo, muitos povos e grupos sociais eram vistos como “primitivos”, “atrasados”, por não possuírem o mesmo progresso tecnológico e cultural das sociedades ditas “civilizadas”. É essa a concepção de mundo que possuía Allan Kardec, presente tanto em seu modo de pensar como no corpo doutrinário do Espiritismo.

No entanto, há um diferencial que precisa ser considerado. O critério de Kardec não é somente o tecnológico, cultural. O critério dele é profundamente ético. Segundo o Espiritismo, uma nação somente poderá se considerar civilizada se praticar a lei de amor e caridade, se houver alteridade, o respeito ao próximo, liberdade, fraternidade e igualdade entre todos os seus membros.
 
A libertação feminina é a “pedra de toque” dessa questão. Uma sociedade que trata as mulheres com violência, prepotência, desprezo e discriminação não tem o direito de se considerar civilizada. O Espiritismo sempre foi contra qualquer tipo de escravidão. Foi pioneiro em relação à defesa dos direitos das mulheres, num século em que a mulher ainda era muito mais discriminada e desrespeitada do que hoje. Denizard Rivail/Amélie Boudet foram exemplo de casal fora das regras de sua época. Gabi era quase dez anos mais velha do que Rivail, um fato insólito e pouco desejável. Os dois não tiveram filhos, outra estranheza. Mesmo oriunda de família rica, Gabi sempre trabalhou e, ao invés de se dedicar às futilidades próprias das senhoritas e matronas da elite francesa, preferiu manter-se ao lado do marido, como parceira, colaboradora, dando-lhe apoio logístico, afetivo e doutrinário em sua empreitada. E prosseguiu, após a desencarnação de Rivail, o trabalho por ele iniciado.

Além da questão da mulher, acrescentaríamos ainda o tratamento dado aos idosos, às crianças, aos animais, à natureza, como fatores fundamentais para a identificação do provável progresso civilizatório de uma nação.

Isto posto, a afirmação de que Allan Kardec teria sido racista é equivocada. Sem saber, ele era preconceituoso em relação ao negro, aos índios, aborígenes etc. assim como todo e qualquer europeu de seu tempo também o era. Expressou a visão de sua época, marcada pelo preconceito em relação à diversidade cultural, étnica. Isto não significa que ele discriminasse o negro, que o visse como um objeto, um animal de carga. A escravidão, seja ela qual for, é condenada pelo Espiritismo. Já o era pelos iluministas. Essa herança, Kardec também assimilou. Segundo o Espiritismo, nenhum ser humano deve ser tratado como objeto.

Além disso, a ideia de que Kardec seria racista é, também, incompatível com a proposta espírita em relação ao progresso da civilização:

799. De que maneira o Espiritismo pode contribuir para o progresso?

– Destruindo o materialismo, que é uma das chagas da sociedade, ele faz os homens compreenderem onde está o seu verdadeiro interesse. A vida futura, não estando mais velada pela dúvida, o homem compreenderá melhor que pode assegurar o seu futuro através do presente. Destruindo os preconceitos de seita, de casta e de cor ele ensina aos homens a grande solidariedade que os deve unir como irmãos. (O Livro dos Espíritos - trad. Herculano Pires, grifo meu).

As afirmações de Allan Kardec sobre o negro, a correlação da teoria espírita da evolução com a Frenologia, demonstram o seu evidente preconceito, mas não o guindam à condição de racista, tipo um Hitler, um neonazista ou algum membro radical da Ku Klux Klan. Preconceituoso sim, racista não!
 
Fonte: www.viasantos.com/pense.



sábado, 9 de fevereiro de 2013

A SÍNTESE KARDEQUIANA


Por Maurice Herbert Jones
 
 
Segundo o filósofo e pacifista britânico Bertrand Russel, a Filosofia é algo que se situa entre a Teologia e a Ciência. Todo o conhecimento definido pertence à Ciência e todo dogma, pertence à Teologia. Mas, entre a Teologia e a Ciência existe um território de ninguém, onde as nossas reflexões, as nossas idéias, os nossos mais simples pensamentos, transitam sem dificuldades, sem formalismos – esta terra de ninguém é uma terra de todos: é o chão da Filosofia.
 
O mundo, indaga ele, está dividido em espírito e matéria? Se assim é, o que é o espírito e o que é a matéria? Quem está sujeito a quem? Será o espírito dotado de alguma independência? Possui o universo alguma unidade ou propósito e se possui estará ele evoluindo a caminho da sua finalidade? Será que existem mesmo leis da natureza ou só acreditamos nelas devido ao nosso amor pela ordem? Existe alguma maneira de viver que seja mais nobre ou menos nobre? Em que consistiria o modo de vida nobre e como realizá-lo?
 
Evidentemente não encontraremos respostas a estas questões nos laboratórios. Responder a elas é empenho da Filosofia pois, se nem todas as nossas especulações podem ser respondidas pela Ciência, é também verdade que as respostas confiantes dos teólogos, aceitas no passado, já não nos convencem mais, conclui o pensador na sua “História da Filosofia Ocidental”.
 
Seria o Espiritismo numa resposta inteligente a estas profundas questões de ordem filosófica? Vários elementos que estruturam o pensamento espírita respondem positivamente a esta indagação e o credenciam como um modo moderno, ventilado e revolucionário de percepção do homem e do mundo, bem como precioso instrumento pedagógico para o autoconhecimento e controle racional da própria evolução.
 
O grande problema da ética como estudo racional da moralidade se resume em saber se é desejável ser bom e, em caso afirmativo, como pode ser o homem persuadido a ser bom. A esta intrigante questão o Espiritismo responde com a idéia da evolução e, sobretudo, com os princípios da reencarnação e da causalidade que oferecem substrato racional riquíssimo para a adoção consciente de um modelo comportamental fundamentado na tolerância racial e social, configurando assim a ética natural, sonhada por Sócrates, capaz de construir um sistema de moralidade independente de credos teológicos.
 
Na visão do filósofo J.Herculano Pires, o Livro dos Espíritos, veículo privilegiado destas idéias inovadoras, mesmo não tendo sido elaborado em linguagem técnica e nem observe as minúcias da exposição filosófica, revela todo um complexo e amplo sistema de filosofia. É, portanto, o arcabouço filosófico do Espiritismo.
 
Como se vê, Kardec não foi um filósofo na acepção mais usual do termo, nem exatamente um cientista. Foi, isto sim, e acima de tudo, um extraordinário pedagogo, qualificação essencial para a compreensão e propagação do Espiritismo até os dias atuais.
 
A precoce percepção de que somente a educação e o amor poderiam encaminhar solução para os problemas sociais e morais do seu tempo fez de kardec herdeiro natural de uma magnífica linhagem de educadores que começa, no século XVII, com Comenius, o pai da didática moderna, passa, no séc. XVIII, pelo filósofo J.J. Rousseau e seu “Emílio”, terminando no grande e sábio mestre da educação como ato de amor, J.H. Pestalozzi.
Como um estuário das correntes de idéias mais generosas e libertárias que irrigaram a cultura da Europa desde a renascença, Kardec chegou à maturidade equipado, moral e intelectualmente, para a grande tarefa de sua vida: a construção de uma síntese conceptual do mundo moderno, a Codificação Espírita, centrada na idéia da evolução e na realidade e primado da vida espiritual.
 
Esta extraordinária façanha, resultado do trabalho de homens encarnados, assessorados por homens desencarnados, tornou-se possível, no tempo e no espaço, pela feliz conjugação de fatores políticos, sociais, econômicos e culturais aliados à sensibilidade, lucidez e coragem do mestre educador Hippolyte Léon Denizard Rivail cujo bicentenário de nascimento estamos comemorando neste 3 de outubro de 2004.
 
Segundo muitos historiadores, o Renascimento e a Reforma Luterana são as duas mais importantes nascentes da história moderna. Uma libertou o espírito e embelezou a vida, oferecendo ao homem o direito à felicidade aqui na terra; a outra estimulou a crença e o senso moral. As idéias contidas no bojo destes movimentos, propagadas pelas facilidades oferecidas pela descoberta de Gutenberg e dinamizadas pela revolução conceptual produzida pela descoberta da América e pela revelação de Copérnico, varreram a Europa a partir do final do Séc. XV e início do Séc. XVI, desencadeando uma irresistível avalanche de mudanças, crises e conflitos ideológicos num mundo cansado do repouso medieval e ansioso pela descoberta de novos mundos, novos caminhos, novas idéias.
No Século XVIII o Renascimento cede espaço para o Iluminismo que, tendo razão e liberdade como estandarte, enfrenta a superstição e a opressão, produzindo significativa redução de importância da Igreja e influindo por seus princípios na independência dos Estados Unidos e na Revolução Francesa, fatos que, entre outros, assinalam o colapso da França feudal, uma importante ampliação das liberdades civis e a transição da Idade Moderna para a Contemporânea.
 
Se acrescentarmos a este sintético painel o crescimento exponencial da população a partir de 1750 em função de avanços na produção agrícola, higiene e medicina e mais a revolução industrial iniciada na Inglaterra provocando intenso deslocamento das populações rurais para as cidades com todo o conjunto de conseqüências sociais, políticas e econômicas, encerraremos o século das luzes já experimentando um certo cansaço da arrogância racionalista e criando espaço para o surgimento do Romantismo que valorizando o sentimento caracteriza o século XIX, o século de Kardec.
 
O nascimento em 1804 e a formação intelecto-moral do futuro Codificador do Espiritismo ocorre em plena era de Napoleão que, no mesmo ano é coroado Imperador e promulga o Código Civil dos Franceses ou “Código de Napoleão”, de importância decisiva no direito ocidental e, conforme o próprio Imperador, sua maior obra.
 
Kardec era um homem da sua época, cosmopolita, sensível, arguto e naturalmente aberto às influências mais nobres que a história e a experiência lhe ofereciam. Enquanto aprimorava sua formação no Instituto de Pestalozzi em Yverdon e, depois, na vida profissional, como educador, outros acontecimentos ocorriam, com enorme significado e presença na sua futura e máxima obra.
 
Além dos importantes desdobramentos geopolíticos do período napoleônico, podemos identificar as revolucionárias teorias evolucionistas de Lamark e Darwin de enorme repercussão, a Filosofia Positivista de Auguste Comte e, até, o Manifesto Comunista de Marx e Engels, produto da agitação social da nova classe operária.
 
Neste cenário imponente e desafiador, buscava-se afanosamente um novo modelo conceptual para o tempo novo que surgia, pois os paradigmas vigentes haviam esgotado a capacidade de oferecer segurança e identidade. É então que, já maduro e sensível às inquietações do seu mundo e à convocação do mundo espiritual, Kardec aceita a responsabilidade de liderar o grande esforço para construção de uma nova visão de homem e de mundo, humanista e dinâmica, na qual razão e sentimento pudessem, harmonicamente, buscar a verdade.
 
E assim, como uma flor tardia da primavera iluminista, nascida no solo adubado pelo romantismo de Rousseau e Pestalozzi, surgiu o Espiritismo que, com seu “humanismo espiritocêntrico”, busca superar, dialeticamente, o conflito entre o pensamento medieval centrado em Deus e o humanismo organocêntrico da renascença e iluminismo. A cosmovisão inovadora e sintética oferecida por Karde ao mundo nascia, robusta e perturbadora, desafiando os paradigmas senis e anunciando, no dizer do físico inglês Oliver Lodge, “uma nova revolução copérnica”.
 
Maurice H. Jones 25/09/2004


Qual é a filosofia espírita?


Por Humberto Schubert Coelho

 

Da compreensão geral de que o Espiritismo é ou tem uma filosofia surge a necessidade de explicitá-la. Os seus adeptos reproduzem com acerto os seus aspectos filosóficos, e os separam com habilidade adquirida pelos estudos kardequianos daqueles outros científicos e religiosos. E também o caráter filosófico de uma doutrina qualquer é sempre mais discernível e menos controverso do que um seu possível elemento científico. Estas são razões pelas quais se fala numa filosofia espírita com alguma segurança.
 
Entretanto, a academia possui no que tange à filosofia não menos exigências e regras do que as que competem à prática das ciências. Afinal, então, o que é e como se sustenta a filosofia espírita? Tentaremos mais problematizar do que responder a este questionamento.
 
Do ponto de vista da filosofia como especialidade, o Espiritismo apresenta-se como filosofia popular, o que equivale a dizer, como razão argumentativa, mas não fundamentadora. Esta qualificação não precisa ser pejorativa, e mesmo algumas das melhores filosofias tiveram um cunho acentuadamente popular, como em Voltaire, Rousseau e Nietzsche. É também uma visão filosófica válida e oficial a de que a razão já está desde sempre em jogo com seus problemas específicos, e não pode ou não requer fundamentação. Ainda assim, a maior parte do que se produziu sob o título de filosofia na história humana destinava-se à fundamentação do conhecimento.
 
São mentes analíticas e interessadas na fundamentação das certezas a de Platão, a de Descartes, a Locke e a de Kant, alguns, portanto, dos maiores filósofos. Segundo estes a atividade filosófica não se faz propriamente sem o esforço exaustivo de sua própria crítica, de modo que qualquer filosofia digna do nome ou vai até as últimas consequências ou compra um método que já o tenha feito. Os bons filósofos populares o são por seu interesse prático (moral ou político), sem que dispensem o concurso de uma boa base metodológica. E se Kardec foi um bom filósofo popular, o que acreditamos razoável afirmar, devemos encontrar em sua prática os princípios de algum ou alguns filósofos mais analíticos, para não dizer sistemáticos (nome que à época não soava bem).
 
O primeiro indício de que Kardec não é um filósofo sistemático está em ele lançar mão de múltiplos conceitos e axiomas sem os justificar. Esta atitude pode significar, como dito, tanto o descompromisso com a filosofia quanto uma adoção prévia de métodos filosóficos bem estabelecidos. E não há a mais remota dúvida de que os conceitos e axiomas pressupostos por Kardec correspondem à visão eclética do saber filosófico de princípios do século XIX. Em primeiro lugar porque todos estes pressupostos pertencem à ala ortodoxa da filosofia francesa, requerendo assim pouca ou nenhuma exposição sistemática; em segundo lugar porque estas conquistas em especial eram classificadas como conquistas da ilustração e todos os autores da época estavam habituados a assumir os elementos deste grande edifício eclético e enciclopédico como ponto de partida. Pensadores tão importantes como Benjamin Constant, Madame de Staël e Tocqueville jamais se preocupam, assim como Kardec, em fundamentar o conceito de razão, ou analisar a constituição metafísica da liberdade. Ao invés disto eles os tomam do poço da filosofia iluminista e os aplicam com habilidade de filósofos práticos aos seus interesses.
 
Para elencar alguns dos pressupostos essenciais da classe ilustrada francesa e/ou européia dos anos 1800 a 1840 podemos citar resumidamente:
 
 
I)             A fundamentação do pensamento por Descartes, com a respectiva separação entre o princípio pensante do princípio material, a constituírem os modos de ser.
 
II)            A ideia platônica de que a matemática corresponderia ao modus operandi da natureza. Noção renascentista que foi solidificada por Galileu, Bruno e Descartes.
 
III)           O atomismo de Diderot, que copiando Demócrito e Epicuro postulou todas as leis da física como consequências das leis que regem as partículas elementares.
 
IV)          A noção de liberdade como direito garantido por Deus, uma ideia cristã que se desenvolveu em séculos de teologia e filosofia, casando-se com as noções gregas de liberdade e culminando no axioma da liberdade humana conforme Locke, Voltaire e Rousseau.
 
V)           A positividade da experiência como fundamento do saber, desenvolvida por Comte e imediatamente diversificada e adaptada por inúmeros pensadores e cientistas.
 
Poderíamos citar outros pontos, mas isto só aumentaria o volume de uma defesa que consideramos suficientemente estabelecida.
 
Está claro ao filósofo contemporâneo que a segurança de algumas destas pressuposições foi duramente abalada, durante o próprio século XIX e especialmente no XX. O item mais controverso hoje é o da equivalência entre matemática e natureza, ainda defendida com certa ingenuidade por muitos físicos e francamente proibida pela filosofia da ciência. O que se pode dizer hoje com sobriedade filosófica é que haja alguma correspondência entre as leis que postulamos matematicamente e o funcionamento da natureza, mas precisar a exatidão desta correspondência seria considerado uma postura dogmática.
 
Basta, contudo, o conhecimento do contexto histórico para lembrar que a nova filosofia responsável por questionar as certezas iluministas é de matriz alemã, e não estava plenamente acessível aos franceses da primeira metade do século XIX.
 
Apesar de estar entre os poucos falantes de alemão da sociedade francesa da época, Allan Kardec provavelmente compartilhava da crença geral de seu povo a respeito dos germanos: a de se tratarem de um povo grosseiro recém chegado às raias da civilidade e que ensaiava suas forças intelectuais numa filosofia prolixa, mas essencialmente infrutífera.
 
O posterior sucesso da filosofia alemã com todo o seu aparato crítico, a restauração da metafísica pelo Idealismo e as reviravoltas teológicas marcou para sempre a face da filosofia, um fenômeno que a vaidade francesa ainda digere com atraso.
 
A filosofia sistemática viu sua tocha ser cedida da França para a Alemanha, e desta para o mundo globalizado do pós-guerra. Resta saber em que medida isto depõe contra as filosofias práticas e populares.
 
Neste particular uma comparação entre Kardec e os outros filósofos populares franceses é indispensável. A maioria deles, exatamente por ser popular, sofreu minimamente com a transformação da filosofia sistemática, e a popularidade dos pensadores políticos e religiosos, dos psicólogos e moralistas franceses continuou tão irretorquível sob a luz dos sistemas alemães como quando em seu terreno natural do Iluminismo autóctone.
 
Redefinidos os fundamentos dos conceitos de razão e liberdade, sobre bases mais críticas e rigorosas, continuaram a viger na esfera prática as conclusões e intuições sóbrias que a análise social e psicológica francesa ou inglesa havia efetuado em dois ricos séculos de modernidade.
 
A filosofia atual se esforça por refinar a fundamentação metafísica e epistemológica da razão, de Deus, da liberdade e da relação entre sujeito e objeto, etc., mas no campo prático e popular a maioria dos postulados iluministas continua a viger como moeda válida de interpretação dos fenômenos naturais e sociais. Em muitos aspectos, mudaram os caminhos, mas permaneceram os resultados da filosofia. É bem mais ingênuo ver algo de “errado” em Platão, por incompatibilidade de seus métodos com os recentes, do que dispensar os métodos recentes na apreciação de trabalhos filosóficos pregressos; e a história da filosofia continua a ser fonte de inspiração principal para os que pretendem reelaborá-la com vistas ao futuro.
 
Qual é, então, a base filosófica do Espiritismo, se o ecletismo espiritualista francês e o positivismo que o constituíram estão agora em cheque? Precisamente a mesma base que continuou a sustentar as outras filosofias práticas e populares após a substituição da Ilustração francesa, seu ecletismo e positivismo, pela filosofia crítica alemã.
 
Procurai então os defensores de Pascal, Voltaire, Rousseau, Staël e Tocqueville, e achareis o caminho para sustentar em linguagem atualizada aqueles mesmos pressupostos que fomentam o método kardequiano. E os caminhos para esta revisão técnica da filosofia espírita podem ser muitos, como muitas são as correntes mais recentes. O pragmatismo de James, a filosofia liberal e crítica de Popper e mesmo uma forma revisada da analítica existencial de Heidegger, como foi intentado por Herculano Pires, podem ser boas soluções.
 
Particularmente acho que a forma mais apropriada seja a da Metafísica da Subjetividade, uma variante eclética que se apropria de praticamente todas as outras correntes contemporâneas numa forma ao mesmo tempo clássica e crítica da metafísica, permitindo a validade dos conceitos-chave de Deus, imortalidade, razão e liberdade.
 
 
·         O autor é professor e escritor com formação em filosofia e religião, tendo por interesses principais a teologia, história, religião comparada, metafísica e ética.
 
 
Fonte: http://filosofiaespiritismo.blogspot.com.br/