Por Antonio
Sérgio C. Picollo e Elio Mollo
Este blog tem como objetivo a divulgação da Doutrina Espírita dentro dos preceitos da Codificação kardeciana.
quarta-feira, 10 de abril de 2013
O Espiritismo exige responsabilidade
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
Kardec e a Revolução do Espírito
Quando
o professor Rivail participou, em maio de 1855, da primeira sessão de “mesas
falantes”, sua vida modificou-se totalmente. Ele vislumbrou, no vaivém do bater
dos pés da mesa, algo mais do que os outros imaginavam.
Ali
estava, naquelas manifestações rústicas, o caminho para um melhor entendimento
dos problemas do homem. Sua mente treinada surpreendeu-se com o desdobramento
possível da confirmação de que aqueles fenômenos indicavam a prova da
imortalidade da alma. O sonho de todos, de não morrer, de continuar vivendo, se
transformava em realidade.
“Compreendi,
antes de tudo, a gravidade da exploração que ia empreender; percebi, naqueles
fenômenos, a chave do problema tão obscuro e tão controvertido do passado e do
futuro da Humanidade, a solução que eu procurara em toda a minha vida. Era, em
suma, toda uma revolução nas ideias e nas crenças”, escreveu, relembrando sua
iniciação no processo que redundou no Espiritismo. (“Obras Póstumas” - Minha
Primeira Iniciação no Espiritismo).
A
Revolução Francesa derrubara os muros da aristocracia e da prepotência do
clero, dando início a uma nova etapa, abrindo novos horizontes políticos para a
sociedade. A Revolução Industrial estabelecera um novo primado para a economia
e promovera a urbanização, reestruturando o panorama das relações humanas,
projetando o crescimento da produção com vistas à expansão da coletividade
humana. Marx e Engels, no “Manifesto Comunista”, em l848, proclamavam que “tudo
o que é sólido se desmancha no ar...”, prenunciando a Revolução Social, com a
promessa de eliminar as barreiras entre as classes sociais, instalando um
panorama de justiça e cooperação.
Faltava
a Revolução do Espírito, isto é, a quebra das barreiras materialista e confessional,
libertando Deus, o universo, o ser, das algemas do dogmatismo e da ignorância,
coroando as demais revoluções pela compreensão da natureza espiritual das
criaturas humanas, ensejando o descortino de uma nova moral para o mundo.
PREPARANDO
A REVOLUÇÃO
Para
o professor Rivail, o Espiritismo seria o secundador, o desencadeador, o fator
central dessa revolução. Podemos dizer que, desde o início, ele trabalhou para
que a Doutrina chegasse ao ponto que depois ele indicou como a sua meta final:
a influenciação social.
Passou
a estruturar a nova doutrina, que os Espíritos patrocinavam com suas manifestações
mediúnicas, discutindo ideias e fazendo revelações que davam novo sentido às
crenças humanas.
Metodicamente,
organizou suas ideias, conferiu posições, debateu, discutiu cada uma delas,
dentro de um estrito sentido de responsabilidade. “Fazia-se mister, portanto,
andar com a maior circunspeção e não levianamente; ser positivista e não
idealista, para não me deixar iludir”.
Assim, afirmou: “apliquei a essa nova ciência, como o fizera até então, o método experimental; nunca elaborei teorias preconcebidas; observava cuidadosamente, comparava, deduzia consequências; dos efeitos procurava remontar às causas, por dedução e pelo encadeamento lógico dos fatos, não admitindo por válida uma explicação, senão quando resolvia todas as dificuldades da questão. Foi assim que procedi sempre em meus trabalhos anteriores, desde a idade de 15 a 16 anos. (“Obras Póstumas” - Minha primeira iniciação no Espiritismo).
Em
menos de dois anos, o professor Rivail transformou-se em Allan Kardec. Já em
1856 ele tinha concluído a formatação de “O Livro dos Espíritos”, após ter
analisado exaustivamente cerca de 50 cadernos contendo mensagens, informações e
respostas dos Espíritos a questões formuladas pelo grupo mediúnico de Victorien
Sardou. Em mensagem datada de 11 de setembro de 1856, através da médium
senhorita Baudin, “muitos Espíritos”, depois de ouvirem Kardec ler alguns
capítulos de “O Livro dos Espíritos”, afirmaram que “o plano está bem
concebido” e que estavam “satisfeitos” com ele. (“Obras Póstumas”).
Finalmente,
o Espiritismo veio à luz no dia 18 de abril de 1857, com a publicação do
primeiro “O Livro dos Espíritos”, elaborado por Rivail em mais ou menos 15
meses, motivo porque saiu com apenas 504 questões, contendo perguntas e
respostas e o mesmo conteúdo no formato de texto filosófico.
Se
considerarmos o período de maio de 1855 a março de 1869, quando ele desencarnou,
Allan Kardec presidiu a estruturação do Espiritismo por cerca de 14 anos.
Em
janeiro de 1858 começou a publicação da “Revista Espírita”, que dirigiu durante
11 anos e 4 meses, com 136 edições mensais, considerando que, embora
desencarnado em 31 de março, deixara pronta a edição de abril de 1869. Em abril
de 1858, fundou a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, que presidiu até
desencarnar.
TRABALHO
SOLITÁRIO
Quando
Camille Flammarion afirmou no seu discurso à beira do túmulo de Kardec “que ele
não era o que chamam de sábio, que não fora primeiro físico, naturalista, ou
astrônomo e que preferira constituir um corpo de doutrina moral, antes de haver
submetido à discussão científica a realidade e a natureza dos fenômenos”,
exprimia uma opinião que o fundador do Espiritismo conhecera.
O
próprio Flammarion diz que Kardec “suscitou rivalidades; fez escola de feição
um pouco pessoal” mostrando que ele fora taxado de personalista. Na verdade,
realizou, de fato, um trabalho solitário.
Ele
justificou essa atitude, dizendo que como a Doutrina não foi dada, em parte
alguma, completa, era preciso um centro organizador para receber, discernir,
deduzir e decidir o que deveria ser publicado e dado como doutrina espírita. O
trecho seguinte mostra o que ele realizou: “O Espiritismo não é nem uma
concepção pessoal, nem o resultado de um sistema preconcebido. É a resultante
de milhares de observações feitas em todas as partes do globo, que convergiram
para um centro que as coligiu e coordenou. Todos os princípios que o
constituem, sem exceção, foram deduzidos da experiência.” (“Obras Póstumas”,
Breve Resposta aos Detratores do Espiritismo).
Sobre
sua decisão de organizar, fundar o Espiritismo, ele declarou: “Algumas pessoas
disseram que fui precipitado nas teorias espíritas, que ainda não era tempo de
estabelecê-las, pois as observações não estavam completas. Abstração feita ao
ensino dos Espíritos, pergunto se, em meu nome, não tenho, como qualquer outra
pessoa, o direito de elucubrar um sistema filosófico? Seria tomar a dianteira
de certas pessoas? (...) Mas, se certo ou errado, eu creio tê-los observado
suficientemente, devo esperar as boas disposições dos que ficam para trás?”
(“Revista Espírita”, julho de 1859).
Em
nota a uma comunicação datada de 18 de novembro de 1857, através da médium
Ermance Dufaux, que versava sobre o lançamento da “Revista Espírita”, que ele
publicou a partir de 1° de janeiro de 1858, às suas custas e sozinho, ele
disse: “Reconheci, mais tarde, que fora para mim uma felicidade não ter tido
quem me fornecesse fundos, pois assim me conservava mais livre, ao passo que
outro interessado houvera querido talvez impor-me suas ideias e sua vontade e
criar-me embaraços. Sozinho, eu não tinha que prestar contas a ninguém, embora,
pelo que respeitava ao trabalho me fosse pesada a tarefa.” (“Obras Póstumas”).
Esses
pequenos trechos mostram o perfil do caráter de Kardec. Ele percebeu a extensão
do projeto que a doutrina poderia desenvolver em benefício da humanidade e fez
disso a obra de sua vida.
Embora
muitos contestem, Canuto Abreu afirmou que uma era a posição de Kardec, quando
da publicação da 1ª edição de “O Livro dos Espíritos” e outra a partir da 2ª
edição, em 1860. Segundo ele, no curto espaço entre as duas edições de “O Livro
dos Espíritos”, isto é de 1857 a 1860, Kardec assumiu sua verdadeira posição de
autor da Doutrina. Eis o que ele escreveu: “O papel do Homem sobreleva ao dos
Espíritos. Os Instrutores ficam em segundo plano, como simples testemunhas
informantes ou de ciência própria perante juiz severo e lúcido. O Discípulo
torna-se Mestre. Nivela-se o Aprendiz com os Instrutores. Julga. Critica.
Distingue. Seleciona. Atende somente a seu criterium, confia só em seu
discernimento. Inspira-se apenas no Espírito Verdade, diretamente, e que nunca
o abandonou.” (Nota do tradutor in “O Primeiro Livro dos Espíritos”, de Allan
Kardec).
O
que não resta dúvida é que ele possuía um espírito crítico digno de um
pesquisador e um pensamento filosófico definido. Ele foi um filósofo da práxis,
como mais tarde diria Marx. Diante dos fatos e diante da ancestralidade dos
temas que abordara, ele julgou que era importante, sobretudo, dar um sentido
prático às revelações que os Espíritos traziam, a maior delas, naturalmente, a
prova de sua existência.
Conforme
acentuou, ele elucubrara um sistema filosófico. Os iniciadores dos grandes
sistemas filosóficos foram antes de tudo revolucionários na medida em que
reestruturaram concepções soltas, pensamentos diversos e deram um novo sentido
ao que era disperso e imaginário.
Kardec
também partiu das instruções dos Espíritos, das observações pessoais sobre
diferentes tipos de níveis de evolução, inteligência, conhecimento, afeto e
formulou um sistema filosófico, arcando com a responsabilidade e sofrendo os
ataques rotineiros de invejosos, opositores gratuitos e mal-intencionados.
Mas
teve uma vantagem, sua ligação com os Espíritos Superiores foi muito íntima, mas
respeitosa. De modo algum havia uma subordinação, nem um atrelamento automático
dele em relação a eles. Houve uma contínua e perfeita parceria.
Kardec
pensou grande, isto é, anteviu um sistema que contemplava uma revolução moral,
a partir de fundamentos conceituais que teriam como fruto a desmobilização de
bases materialistas, ateístas, niilistas da sociedade.
Por
isso o que realmente importou-lhe foi estabelecer uma relação moral básica. Ele
foi um homem complexo: humanista, educador, escritor, filósofo, moralista, no
melhor sentido da palavra. Embora injuriado, atacado, traído, mostrou um
espírito tolerante e, ciente da inevitabilidade da evolução do pensamento,
preparou a Doutrina para se manter atualizada.
Embora
as tênues separações entre o pensamento filosófico e o teológico, nas questões
morais Allan Kardec procurou delinear o suporte moral do Espiritismo, dentro de
um critério filosófico, não místico: “O Espiritismo é uma doutrina filosófica,
de efeitos religiosos, como qualquer filosofia espiritualista, pelo que
forçosamente vai ter às bases fundamentais de todas as religiões: Deus, a alma,
a vida futura. Mas não é uma religião constituída, visto que não tem culto, nem
rito, nem templos e que, entre seus adeptos, nenhum tomou nem recebeu o título
de sacerdote ou de sumo-sacerdote.” (“Obras Póstumas”, Ligeira resposta aos
detratores do Espiritismo).
O
fundador do Espiritismo foi de um caráter firme, decidido e o consolidador de
uma proposta de renovação integral da sociedade, por uma nova visão do homem e
do mundo.
REVOLUÇÃO
COMPLEXA
Allan
Kardec pensou o Espiritismo como instrumento da Revolução do Espírito. Ele
disse: “O simples fato de poder o homem comunicar-se com os seres do mundo
espiritual traz consequências incalculáveis da mais alta gravidade; é todo um
mundo novo que se nos revela e que tem tanto mais importância, quanto a ele hão
de voltar todos os homens, sem exceção.
O conhecimento de tal fato não pode deixar de acarretar, generalizando-se, profunda modificação nos costumes, caráter, hábitos, assim como nas crenças que tão grande influência exerceu sobre as relações sociais, É uma revolução completa a operar-se nas ideias, revolução tanto maior, tanto mais poderosa, quanto não se circunscreve a um povo, nem a uma casta, visto que atinge simultaneamente, pelo coração, todas as classes, todas as nacionalidades, todos os cultos.” (“A Gênese”, cap. I, item 20).
O conhecimento de tal fato não pode deixar de acarretar, generalizando-se, profunda modificação nos costumes, caráter, hábitos, assim como nas crenças que tão grande influência exerceu sobre as relações sociais, É uma revolução completa a operar-se nas ideias, revolução tanto maior, tanto mais poderosa, quanto não se circunscreve a um povo, nem a uma casta, visto que atinge simultaneamente, pelo coração, todas as classes, todas as nacionalidades, todos os cultos.” (“A Gênese”, cap. I, item 20).
Para
ele, a Doutrina seria o ponto de apoio dessa reformulação moral da humanidade,
da qual decorreria toda uma nova era para o planeta azul. Entretanto, tudo deve
se encadear, tudo segue um rumo esboçado pela divindade. O objetivo maior é a
identificação do ser humano, a construção de uma sociedade harmônica e justa,
com a valorização do humano.
A
ideia de que se poderia alcançar a Revolução do Espírito sem resolver as
questões fundamentais das relações humanas, seguia o mesmo rumo dos apelos pela
salvação que foram feitos não apenas no cristianismo, como em todas as
religiões.
Transformações
mágicas sempre povoaram a mente das pessoas e animaram o imaginário de
gerações. Todavia, a criação de uma nova sociedade é complexa e depende da
solução de problemas que obstruem o caminho do bem-estar material e prepare a
base para o bem-estar espiritual.
A
Revolução do Espírito não poderá ser implantada à revelia das condições de
miséria e ignorância reinantes na maioria das nações e países. Na visão geopolítica,
econômica e sociológica do fim deste século 20, percebemos uma extraordinária
evolução no cenário humano. Em menos de 100 anos esse cenário mudou e está em
acelerado processo de mudança.
O
tempo de Kardec maravilhava-se com a eletricidade e a máquina a vapor, com o
telégrafo sem fio. Tudo isso parece irrisório diante das conquistas
tecnológicas e o desenvolvimento do pensamento científico que, como sabemos, dá
novo sentido aos parâmetros idealizados pelo espiritualismo e demais crenças.
Se
o século 19 refletiu a agitação social e política da Europa, não apenas no
campo teórico, mas em ações como a Comuna de Paris, os movimentos comunista, socialista
e anarquista, ao lado da agitação científica a ensaiar o salto tecnológico que
explodiria no século 20, tudo isso prenunciava o grande desafio que é a
valorização da pessoa humana.
Embora
todos os percalços, desde aí caminhou-se e caminha-se para a valorização do ser
humano, que ganhou novas dimensões, com a revolução feminina deste século,
preparando o futuro da humanidade valorizada em direitos e deveres, sem
discriminação sexual.
Ainda
persistem outros focos de inquietação. Como a discriminação racial, a miséria e
a exploração das pessoas. Mas já existe um delineamento irrecorrível que cria
uma consciência que vai se consolidando sobre a fatuidade dessas posições e que
redundará na solução dessa desigualdade fabricada pelas elites.
Outro
fator ponderável é que o mundo não é apenas o Ocidente ou apenas o Oriente, o
Oriente Médio. A felicidade não poderia vir apenas para o branco europeu, mas
deverá ser, em termos genéricos, estender-se a todos, ainda que de forma
desigual, mas basicamente digna.
O
colonialismo territorial cedeu e foi sucedido, em parte, e como talvez seria inevitável,
pelo colonialismo cultural, político e econômico, o que suscita estertores dos
partidários de um mundo ideal, sem classes, igualitário, com exata e
substancial distribuição da riqueza, meta sem dúvida a ser alcançada nos
séculos futuros.
Para isso, não são pouco os que esperam grandes manifestações da natureza, com a morte de milhões, limpando a Terra dos maus elementos. Nesse caso, os poucos e bons habitantes que restariam desfrutariam do caos e da destruição que os elementos naturais provocariam, para não falar dos que prosseguem esperando a espetacular vinda do Senhor, para separar os bodes das ovelhas.
Como se pretendeu salvar a criatura humana pela graça divina, pretendeu-se transformar a sociedade humana pela graça do comunismo que essencialmente prega a solidariedade, a união em torno de ideais. Seriam eliminadas as classes, a miséria seria erradicada, os “maus” seriam condenados e cessariam quaisquer discriminações entre pessoas e raças.
Os regimes impostos pela revolução bolchevista e que tentaram criar esse falso paraíso faliram desastrosamente. Não apenas porque se basearam no controle da produção, sem espaço para a criatividade e pelo sufoco da liberdade, mas, sobretudo, porque desprezaram a realidade evolutiva da maioria, os desejos e as deficiências morais das pessoas, tanto as que dominaram como as que foram dominadas.
A
SOLIDARIEDADE DO PROCESSO
A história mais recente está a nos demonstrar que a Revolução do Espírito será alcançada através de um longo processo de maturação da sociedade humana, tão dispersa e diversa em moralidade, riqueza e nível social.
A iniciativa de Kardec é a semente do futuro. As projeções de uma nova sociedade mais fraterna e sem o peso esmagador do egoísmo e do orgulho, foram feitas dentro de um quadro otimista, mas prudente.
Segundo várias comunicações de Espíritos, desde há um século antes de Kardec, se preparava uma renovação abrangente, que incluía a justiça social, a supremacia do bem sobre o mal: “O progresso da Humanidade se cumpre, pois, em virtude de uma lei que resulta da vontade de Deus, não de uma vontade acidental e caprichosa, mas de uma vontade imutável. Quando, por conseguinte, a Humanidade está madura para subir um degrau, pode dizer-se que são chegados os tempos marcados por Deus, como se pode dizer também que, em tal estação, eles chegam para a maturação dos frutos e sua colheita.” (“A Gênese”, cap. XVIII, item 2).
E Kardec acrescenta : “Nestes tempos, porém, não se trata de uma mudança parcial, de uma renovação limitada a certa região, ou a um povo, a uma raça. Trata-se de um movimento universal, a operar-se no sentido do progresso moral. (...)Aliás, todos sabem quanto ainda deixa a desejar a atual ordem de coisas. Depois de se haver, de certo modo, considerado todo o bem-estar material, produto da inteligência, logra-se compreender que o complemento desse bem-estar somente pode achar-se no desenvolvimento moral.” (Idem, item 6).
A consolidação da imortalidade não será apenas obra do Espiritismo. Mesmo na fase que sucedeu ao surgimento do Espiritismo, os maiores pesquisadores dos fenômenos psíquicos não estavam ligados à Doutrina. Alguns foram mesmo críticos do Espiritismo.
Entretanto, desde 1857, quando Kardec nos oferta “O Livro dos Espíritos”, na verdade consolidado a partir de l860 com a 2ª edição, filósofos, cientistas e pesquisadores se entregaram com ardor e eficiência à prova experimental da imortalidade, utilizando o instrumento da mediunidade, que ele recuperara dando-lhe o nível de dignidade e de faculdade humana, respeitável e útil.
Sem qualquer prepotência, podemos afirmar que a Doutrina Espírita é a única que possui um conjunto de fatores experimentais e ideológicos que dão sentido à imortalidade e abrem uma perspectiva justa e progressiva para os seres espirituais, que são as criaturas humanas. Estabelecendo os fundamentos da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, ele escreveu na “Revista Espírita” de julho de 1859: “O objetivo da Sociedade não é apenas a pesquisa dos princípios da Ciência Espírita. Ela vai mais longe, estuda também suas consequências morais, pois é principalmente nestas que está a sua verdadeira utilidade”.
Logo, a Revolução do Espírito não será precipitada por acontecimentos insólitos, mas será resultado e ao mesmo tempo influenciada por mutações progressivas, abrangendo o conjunto das pessoas, derrubando preconceitos e superando os desafios que a complexidade do tema apresenta, sem que se possa estabelecer um tempo limitado.
Fonte: Abertura - jornal de cultura espírita, outubro de 1999. Licespe – Santos-SP..
sábado, 16 de fevereiro de 2013
Allan Kardec Racista?
Por Eugenio Lara
A questão do
racismo no pensamento de Allan Kardec é bastante controversa. Há quem o
considere racista por suas declarações acerca da raça negra. Outros preferem
ignorar, dão de ombros e fingem que nada foi dito: tergiversam. “Nem tanto ao
mar, nem tanto à terra”, diz o dito popular. A consideração do contexto
histórico em que Kardec fez tais declarações é fundamental para entendermos seu
pensamento, sem cairmos em posições extremadas.
No século 19,
a rigor, toda a Europa era “racista”, por se autoconsiderar como modelo, como
padrão estético e cultural. Este fato, somado ao quase completo desconhecimento
da realidade cultural e social do continente africano, fazia de qualquer
europeu de classe média um sujeito preconceituoso em relação a outras culturas
e etnias, especialmente a africana. Ainda mais os franceses, que são xenófobos
históricos e bastante chauvinistas. Kardec não seria exceção, tanto quanto os
médiuns que colaboraram com ele na estruturação do Espiritismo.
Um dos
primeiros fatos a serem considerados é a filiação de Allan Kardec à Frenologia
(ou Craniologia), que na época obteve certa proeminência. Considerada hoje como
pseudociência, foi fundada pelo médico alemão Franz Joseph Gall (1758-1828).
Segundo essa pretensa teoria científica, as formas do crânio, sua morfologia,
teriam relação com o caráter, com a moralidade e até com a espiritualidade. O
grande criminalista e espírita italiano César Lombroso também era partidário
dessa teoria. Kardec foi membro e secretário por vários anos da Sociedade
Frenológica de Paris.
A adesão a
essa pseudociência levou Kardec a pensar sobre o aspecto físico do negro, na
suposta expressão de sua inferioridade intelecto-moral pela morfologia, o seu
biótipo, em comparação com a raça caucasiana, como vemos nessa afirmação
categórica: “O negro pode ser belo para o negro, como um gato é belo para um
gato; mas, não é belo em sentido absoluto, porque seus traços grosseiros, seus
lábios espessos acusam a materialidade dos instintos; podem exprimir as paixões
violentas, mas não podem prestar-se a evidenciar os delicados matizes do
sentimento, nem as modulações de um espírito fino.”
Hoje
polêmica, esta afirmação de Kardec em Obras Póstumas (Teoria da Beleza) reforça
sua ideia de que a raça branca seria a mais bela e evoluída: “podemos, sem
fatuidade, creio, dizer-nos mais belos do que os negros e os hotentotes. Mas,
também pode ser que, para as gerações futuras, melhoradas, sejamos o que são os
hotentotes com relação a nós. E quem sabe se, quando encontrarem os nossos
fósseis, elas não os tomarão pelos de alguma espécie de animais”.
É fundamental
considerar também o fato de que o século 19 foi marcado por uma visão
desenvolvimentista, “evolucionista”, de que haveria um padrão de progresso
civilizatório a ser alcançado pelos seres humanos, pelas sociedades. De tal
modo que, sob essa visão eurocentrista, marcada pelo positivismo, muitos povos
e grupos sociais eram vistos como “primitivos”, “atrasados”, por não possuírem
o mesmo progresso tecnológico e cultural das sociedades ditas “civilizadas”. É
essa a concepção de mundo que possuía Allan Kardec, presente tanto em seu modo
de pensar como no corpo doutrinário do Espiritismo.
No entanto,
há um diferencial que precisa ser considerado. O critério de Kardec não é
somente o tecnológico, cultural. O critério dele é profundamente ético. Segundo
o Espiritismo, uma nação somente poderá se considerar civilizada se praticar a
lei de amor e caridade, se houver alteridade, o respeito ao próximo, liberdade,
fraternidade e igualdade entre todos os seus membros.
A libertação
feminina é a “pedra de toque” dessa questão. Uma sociedade que trata as
mulheres com violência, prepotência, desprezo e discriminação não tem o direito
de se considerar civilizada. O Espiritismo sempre foi contra qualquer tipo de
escravidão. Foi pioneiro em relação à defesa dos direitos das mulheres, num
século em que a mulher ainda era muito mais discriminada e desrespeitada do que
hoje. Denizard Rivail/Amélie Boudet foram exemplo de casal fora das regras de
sua época. Gabi era quase dez anos mais velha do que Rivail, um fato insólito e
pouco desejável. Os dois não tiveram filhos, outra estranheza. Mesmo oriunda de
família rica, Gabi sempre trabalhou e, ao invés de se dedicar às futilidades
próprias das senhoritas e matronas da elite francesa, preferiu manter-se ao
lado do marido, como parceira, colaboradora, dando-lhe apoio logístico, afetivo
e doutrinário em sua empreitada. E prosseguiu, após a desencarnação de Rivail,
o trabalho por ele iniciado.
Além da
questão da mulher, acrescentaríamos ainda o tratamento dado aos idosos, às
crianças, aos animais, à natureza, como fatores fundamentais para a
identificação do provável progresso civilizatório de uma nação.
Isto posto, a
afirmação de que Allan Kardec teria sido racista é equivocada. Sem saber, ele
era preconceituoso em relação ao negro, aos índios, aborígenes etc. assim como
todo e qualquer europeu de seu tempo também o era. Expressou a visão de sua
época, marcada pelo preconceito em relação à diversidade cultural, étnica. Isto
não significa que ele discriminasse o negro, que o visse como um objeto, um
animal de carga. A escravidão, seja ela qual for, é condenada pelo Espiritismo.
Já o era pelos iluministas. Essa herança, Kardec também assimilou. Segundo o
Espiritismo, nenhum ser humano deve ser tratado como objeto.
Além disso, a
ideia de que Kardec seria racista é, também, incompatível com a proposta
espírita em relação ao progresso da civilização:
799. De que maneira o Espiritismo pode contribuir para o progresso?
– Destruindo o materialismo, que é uma das chagas da sociedade, ele faz os homens compreenderem onde está o seu verdadeiro interesse. A vida futura, não estando mais velada pela dúvida, o homem compreenderá melhor que pode assegurar o seu futuro através do presente. Destruindo os preconceitos de seita, de casta e de cor ele ensina aos homens a grande solidariedade que os deve unir como irmãos. (O Livro dos Espíritos - trad. Herculano Pires, grifo meu).
As afirmações
de Allan Kardec sobre o negro, a correlação da teoria espírita da evolução com
a Frenologia, demonstram o seu evidente preconceito, mas não o guindam à
condição de racista, tipo um Hitler, um neonazista ou algum membro radical da
Ku Klux Klan. Preconceituoso sim, racista não!
Fonte: www.viasantos.com/pense.
sábado, 9 de fevereiro de 2013
A SÍNTESE KARDEQUIANA
Por Maurice Herbert
Jones
Segundo
o filósofo e pacifista britânico Bertrand Russel, a Filosofia é algo que se
situa entre a Teologia e a Ciência. Todo o conhecimento definido pertence à
Ciência e todo dogma, pertence à Teologia. Mas, entre a Teologia e a Ciência
existe um território de ninguém, onde as nossas reflexões, as nossas idéias, os
nossos mais simples pensamentos, transitam sem dificuldades, sem formalismos –
esta terra de ninguém é uma terra de todos: é o chão da Filosofia.
O
mundo, indaga ele, está dividido em espírito e matéria? Se assim é, o que é o
espírito e o que é a matéria? Quem está sujeito a quem? Será o espírito dotado
de alguma independência? Possui o universo alguma unidade ou propósito e se
possui estará ele evoluindo a caminho da sua finalidade? Será que existem mesmo
leis da natureza ou só acreditamos nelas devido ao nosso amor pela ordem?
Existe alguma maneira de viver que seja mais nobre ou menos nobre? Em que consistiria
o modo de vida nobre e como realizá-lo?
Evidentemente
não encontraremos respostas a estas questões nos laboratórios. Responder a elas
é empenho da Filosofia pois, se nem todas as nossas especulações podem ser
respondidas pela Ciência, é também verdade que as respostas confiantes dos
teólogos, aceitas no passado, já não nos convencem mais, conclui o pensador na
sua “História da Filosofia Ocidental”.
Seria
o Espiritismo numa resposta inteligente a estas profundas questões de ordem
filosófica? Vários elementos que estruturam o pensamento espírita respondem
positivamente a esta indagação e o credenciam como um modo moderno, ventilado e
revolucionário de percepção do homem e do mundo, bem como precioso instrumento
pedagógico para o autoconhecimento e controle racional da própria evolução.
O
grande problema da ética como estudo racional da moralidade se resume em saber
se é desejável ser bom e, em caso afirmativo, como pode ser o homem persuadido
a ser bom. A esta intrigante questão o Espiritismo responde com a idéia da
evolução e, sobretudo, com os princípios da reencarnação e da causalidade que
oferecem substrato racional riquíssimo para a adoção consciente de um modelo
comportamental fundamentado na tolerância racial e social, configurando assim a
ética natural, sonhada por Sócrates, capaz de construir um sistema de
moralidade independente de credos teológicos.
Na
visão do filósofo J.Herculano Pires, o Livro dos Espíritos, veículo
privilegiado destas idéias inovadoras, mesmo não tendo sido elaborado em
linguagem técnica e nem observe as minúcias da exposição filosófica, revela
todo um complexo e amplo sistema de filosofia. É, portanto, o arcabouço
filosófico do Espiritismo.
Como
se vê, Kardec não foi um filósofo na acepção mais usual do termo, nem
exatamente um cientista. Foi, isto sim, e acima de tudo, um extraordinário
pedagogo, qualificação essencial para a compreensão e propagação do Espiritismo
até os dias atuais.
A
precoce percepção de que somente a educação e o amor poderiam encaminhar
solução para os problemas sociais e morais do seu tempo fez de kardec herdeiro
natural de uma magnífica linhagem de educadores que começa, no século XVII, com
Comenius, o pai da didática moderna, passa, no séc. XVIII, pelo filósofo J.J.
Rousseau e seu “Emílio”, terminando no grande e sábio mestre da educação como
ato de amor, J.H. Pestalozzi.
Como
um estuário das correntes de idéias mais generosas e libertárias que irrigaram
a cultura da Europa desde a renascença, Kardec chegou à maturidade equipado,
moral e intelectualmente, para a grande tarefa de sua vida: a construção de uma
síntese conceptual do mundo moderno, a Codificação Espírita, centrada na idéia
da evolução e na realidade e primado da vida espiritual.
Esta
extraordinária façanha, resultado do trabalho de homens encarnados,
assessorados por homens desencarnados, tornou-se possível, no tempo e no
espaço, pela feliz conjugação de fatores políticos, sociais, econômicos e
culturais aliados à sensibilidade, lucidez e coragem do mestre educador
Hippolyte Léon Denizard Rivail cujo bicentenário de nascimento estamos
comemorando neste 3 de outubro de 2004.
Segundo
muitos historiadores, o Renascimento e a Reforma Luterana são as duas mais
importantes nascentes da história moderna. Uma libertou o espírito e embelezou
a vida, oferecendo ao homem o direito à felicidade aqui na terra; a outra
estimulou a crença e o senso moral. As idéias contidas no bojo destes
movimentos, propagadas pelas facilidades oferecidas pela descoberta de
Gutenberg e dinamizadas pela revolução conceptual produzida pela descoberta da
América e pela revelação de Copérnico, varreram a Europa a partir do final do
Séc. XV e início do Séc. XVI, desencadeando uma irresistível avalanche de
mudanças, crises e conflitos ideológicos num mundo cansado do repouso medieval
e ansioso pela descoberta de novos mundos, novos caminhos, novas idéias.
No
Século XVIII o Renascimento cede espaço para o Iluminismo que, tendo razão e
liberdade como estandarte, enfrenta a superstição e a opressão, produzindo
significativa redução de importância da Igreja e influindo por seus princípios
na independência dos Estados Unidos e na Revolução Francesa, fatos que, entre
outros, assinalam o colapso da França feudal, uma importante ampliação das
liberdades civis e a transição da Idade Moderna para a Contemporânea.
Se
acrescentarmos a este sintético painel o crescimento exponencial da população a
partir de 1750 em função de avanços na produção agrícola, higiene e medicina e
mais a revolução industrial iniciada na Inglaterra provocando intenso
deslocamento das populações rurais para as cidades com todo o conjunto de
conseqüências sociais, políticas e econômicas, encerraremos o século das luzes
já experimentando um certo cansaço da arrogância racionalista e criando espaço
para o surgimento do Romantismo que valorizando o sentimento caracteriza o
século XIX, o século de Kardec.
O
nascimento em 1804 e a formação intelecto-moral do futuro Codificador do
Espiritismo ocorre em plena era de Napoleão que, no mesmo ano é coroado
Imperador e promulga o Código Civil dos Franceses ou “Código de Napoleão”, de
importância decisiva no direito ocidental e, conforme o próprio Imperador, sua
maior obra.
Kardec
era um homem da sua época, cosmopolita, sensível, arguto e naturalmente aberto
às influências mais nobres que a história e a experiência lhe ofereciam. Enquanto
aprimorava sua formação no Instituto de Pestalozzi em Yverdon e, depois, na
vida profissional, como educador, outros acontecimentos ocorriam, com enorme
significado e presença na sua futura e máxima obra.
Além
dos importantes desdobramentos geopolíticos do período napoleônico, podemos
identificar as revolucionárias teorias evolucionistas de Lamark e Darwin de
enorme repercussão, a Filosofia Positivista de Auguste Comte e, até, o
Manifesto Comunista de Marx e Engels, produto da agitação social da nova classe
operária.
Neste
cenário imponente e desafiador, buscava-se afanosamente um novo modelo
conceptual para o tempo novo que surgia, pois os paradigmas vigentes haviam
esgotado a capacidade de oferecer segurança e identidade. É então que, já
maduro e sensível às inquietações do seu mundo e à convocação do mundo
espiritual, Kardec aceita a responsabilidade de liderar o grande esforço para
construção de uma nova visão de homem e de mundo, humanista e dinâmica, na qual
razão e sentimento pudessem, harmonicamente, buscar a verdade.
E
assim, como uma flor tardia da primavera iluminista, nascida no solo adubado
pelo romantismo de Rousseau e Pestalozzi, surgiu o Espiritismo que, com seu
“humanismo espiritocêntrico”, busca superar, dialeticamente, o conflito entre o
pensamento medieval centrado em Deus e o humanismo organocêntrico da renascença
e iluminismo. A cosmovisão inovadora e sintética oferecida por Karde ao mundo
nascia, robusta e perturbadora, desafiando os paradigmas senis e anunciando, no
dizer do físico inglês Oliver Lodge, “uma nova revolução copérnica”.
Maurice
H. Jones 25/09/2004
Qual é a filosofia espírita?
Por Humberto Schubert Coelho
Da
compreensão geral de que o Espiritismo é ou tem uma filosofia surge a
necessidade de explicitá-la. Os seus adeptos reproduzem com acerto os seus
aspectos filosóficos, e os separam com habilidade adquirida pelos estudos
kardequianos daqueles outros científicos e religiosos. E também o caráter
filosófico de uma doutrina qualquer é sempre mais discernível e menos
controverso do que um seu possível elemento científico. Estas são razões pelas
quais se fala numa filosofia espírita com alguma segurança.
Entretanto,
a academia possui no que tange à filosofia não menos exigências e regras do que
as que competem à prática das ciências. Afinal, então, o que é e como se
sustenta a filosofia espírita? Tentaremos mais problematizar do que responder a
este questionamento.
Do
ponto de vista da filosofia como especialidade, o Espiritismo apresenta-se como
filosofia popular, o que equivale a dizer, como razão argumentativa, mas não
fundamentadora. Esta qualificação não precisa ser pejorativa, e mesmo algumas
das melhores filosofias tiveram um cunho acentuadamente popular, como em
Voltaire, Rousseau e Nietzsche. É também uma visão filosófica válida e oficial
a de que a razão já está desde sempre em jogo com seus problemas específicos, e
não pode ou não requer fundamentação. Ainda assim, a maior parte do que se
produziu sob o título de filosofia na história humana destinava-se à
fundamentação do conhecimento.
São
mentes analíticas e interessadas na fundamentação das certezas a de Platão, a de
Descartes, a Locke e a de Kant, alguns, portanto, dos maiores filósofos.
Segundo estes a atividade filosófica não se faz propriamente sem o esforço
exaustivo de sua própria crítica, de modo que qualquer filosofia digna do nome
ou vai até as últimas consequências ou compra um método que já o tenha feito.
Os bons filósofos populares o são por seu interesse prático (moral ou
político), sem que dispensem o concurso de uma boa base metodológica. E se
Kardec foi um bom filósofo popular, o que acreditamos razoável afirmar, devemos
encontrar em sua prática os princípios de algum ou alguns filósofos mais
analíticos, para não dizer sistemáticos (nome que à época não soava bem).
O
primeiro indício de que Kardec não é um filósofo sistemático está em ele lançar
mão de múltiplos conceitos e axiomas sem os justificar. Esta atitude pode
significar, como dito, tanto o descompromisso com a filosofia quanto uma adoção
prévia de métodos filosóficos bem estabelecidos. E não há a mais remota dúvida
de que os conceitos e axiomas pressupostos por Kardec correspondem à visão
eclética do saber filosófico de princípios do século XIX. Em primeiro lugar
porque todos estes pressupostos pertencem à ala ortodoxa da filosofia francesa,
requerendo assim pouca ou nenhuma exposição sistemática; em segundo lugar
porque estas conquistas em especial eram classificadas como conquistas da
ilustração e todos os autores da época estavam habituados a assumir os
elementos deste grande edifício eclético e enciclopédico como ponto de partida.
Pensadores tão importantes como Benjamin Constant, Madame de Staël e
Tocqueville jamais se preocupam, assim como Kardec, em fundamentar o conceito
de razão, ou analisar a constituição metafísica da liberdade. Ao invés disto
eles os tomam do poço da filosofia iluminista e os aplicam com habilidade de
filósofos práticos aos seus interesses.
Para
elencar alguns dos pressupostos essenciais da classe ilustrada francesa e/ou
européia dos anos 1800 a 1840 podemos citar resumidamente:
I)
A fundamentação do pensamento por Descartes, com a respectiva
separação entre o princípio pensante do princípio material, a constituírem os
modos de ser.
II)
A ideia platônica de que a matemática corresponderia ao modus operandi da natureza. Noção
renascentista que foi solidificada por Galileu, Bruno e Descartes.
III)
O atomismo de Diderot, que copiando Demócrito e Epicuro postulou
todas as leis da física como consequências das leis que regem as partículas
elementares.
IV)
A noção de liberdade como direito garantido por Deus, uma ideia
cristã que se desenvolveu em séculos de teologia e filosofia, casando-se com as
noções gregas de liberdade e culminando no axioma da liberdade humana conforme
Locke, Voltaire e Rousseau.
V)
A positividade da experiência como fundamento do saber,
desenvolvida por Comte e imediatamente diversificada e adaptada por inúmeros
pensadores e cientistas.
Poderíamos
citar outros pontos, mas isto só aumentaria o volume de uma defesa que
consideramos suficientemente estabelecida.
Está
claro ao filósofo contemporâneo que a segurança de algumas destas
pressuposições foi duramente abalada, durante o próprio século XIX e
especialmente no XX. O item mais controverso hoje é o da equivalência entre
matemática e natureza, ainda defendida com certa ingenuidade por muitos físicos
e francamente proibida pela filosofia da ciência. O que se pode dizer hoje com
sobriedade filosófica é que haja alguma
correspondência entre as leis que postulamos matematicamente e o
funcionamento da natureza, mas precisar a exatidão desta correspondência seria
considerado uma postura dogmática.
Basta,
contudo, o conhecimento do contexto histórico para lembrar que a nova filosofia
responsável por questionar as certezas iluministas é de matriz alemã, e não
estava plenamente acessível aos franceses da primeira metade do século XIX.
Apesar de estar entre
os poucos falantes de alemão da sociedade francesa da época, Allan Kardec
provavelmente compartilhava da crença geral de seu povo a respeito dos
germanos: a de se tratarem de um povo grosseiro recém chegado às raias da
civilidade e que ensaiava suas forças intelectuais numa filosofia prolixa, mas
essencialmente infrutífera.
O
posterior sucesso da filosofia alemã com todo o seu aparato crítico, a
restauração da metafísica pelo Idealismo e as reviravoltas teológicas marcou para
sempre a face da filosofia, um fenômeno que a vaidade francesa ainda digere com
atraso.
A
filosofia sistemática viu sua tocha ser cedida da França para a Alemanha, e
desta para o mundo globalizado do pós-guerra. Resta saber em que medida isto
depõe contra as filosofias práticas e populares.
Neste
particular uma comparação entre Kardec e os outros filósofos populares
franceses é indispensável. A maioria deles, exatamente por ser popular, sofreu
minimamente com a transformação da filosofia sistemática, e a popularidade dos
pensadores políticos e religiosos, dos psicólogos e moralistas franceses
continuou tão irretorquível sob a luz dos sistemas alemães como quando em seu
terreno natural do Iluminismo autóctone.
Redefinidos
os fundamentos dos conceitos de razão e liberdade, sobre bases mais críticas e
rigorosas, continuaram a viger na esfera prática as conclusões e intuições
sóbrias que a análise social e psicológica francesa ou inglesa havia efetuado
em dois ricos séculos de modernidade.
A
filosofia atual se esforça por refinar a fundamentação metafísica e
epistemológica da razão, de Deus, da liberdade e da relação entre sujeito e
objeto, etc., mas no campo prático e popular a maioria dos postulados
iluministas continua a viger como moeda válida de interpretação dos fenômenos
naturais e sociais. Em muitos aspectos, mudaram os caminhos, mas permaneceram
os resultados da filosofia. É bem mais ingênuo ver algo de “errado” em Platão,
por incompatibilidade de seus métodos com os recentes, do que dispensar os
métodos recentes na apreciação de trabalhos filosóficos pregressos; e a
história da filosofia continua a ser fonte de inspiração principal para os que
pretendem reelaborá-la com vistas ao futuro.
Qual
é, então, a base filosófica do Espiritismo, se o ecletismo espiritualista
francês e o positivismo que o constituíram estão agora em cheque? Precisamente
a mesma base que continuou a sustentar as outras filosofias práticas e
populares após a substituição da Ilustração francesa, seu ecletismo e
positivismo, pela filosofia crítica alemã.
Procurai
então os defensores de Pascal, Voltaire, Rousseau, Staël e Tocqueville, e
achareis o caminho para sustentar em linguagem atualizada aqueles mesmos
pressupostos que fomentam o método kardequiano. E os caminhos para esta revisão
técnica da filosofia espírita podem ser muitos, como muitas são as correntes
mais recentes. O pragmatismo de James, a filosofia liberal e crítica de Popper
e mesmo uma forma revisada da analítica existencial de Heidegger, como foi
intentado por Herculano Pires, podem ser boas soluções.
Particularmente acho que a forma mais apropriada seja a da Metafísica da Subjetividade, uma
variante eclética que se apropria de praticamente todas as outras correntes
contemporâneas numa forma ao mesmo tempo clássica e crítica da metafísica,
permitindo a validade dos conceitos-chave de Deus, imortalidade, razão e
liberdade.
·
O autor é professor e escritor com formação em filosofia e
religião, tendo por interesses principais a teologia, história, religião
comparada, metafísica e ética.
Fonte: http://filosofiaespiritismo.blogspot.com.br/
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