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sexta-feira, 6 de julho de 2012

O Sonambulismo face a Doutrina Espírita





Por Maria das Graças Cabral

Muito comumente, ouvem-se relatos de pessoas que durante o sono falam e andam de olhos abertos, contudo inconscientes. O fenômeno é considerado pela medicina como uma doença denominada de “sonambulismo” ou “parassonia.” Caracteriza-se pela alteração de comportamento durante o sono, cuja causa ainda é um mistério para os especialistas. Por enquanto. as respostas eficientes restringem-se aos tratamentos disponíveis para o problema com uso de medicação nos casos mais graves, que põem em risco a segurança do paciente. 


Por outro lado, propaga-se uma ciência denominada de “projeciologia (do latim projectio significa projeção e logos no grego significa tratado) que é o ramo, subcampo, ou especialidade de caráter mais prático da conscienciologia, e da psicobiofísica (versão mais abrangente da parapsicologia) que estuda as projeções energéticas da consciência e as projeções da própria consciência para fora do corpo humano, ou seja, das ações da consciência operando fora do estado de restrição física do cérebro e todo o corpo biológico. Devido à falta de evidência científica e experimentos em condições controladas, à ausência de hipóteses e previsões que possam ser submetidas a teste ou ser falsificadas com o método científico, a projeciologia (assim como os outros ramos da denominada parapsicologia) é considerada uma pseudociência.” (Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Projeciologia)

Observa-se portanto, o desenvolvimento de várias frentes de pesquisa por parte da ciência médica, como também por parte da parapsicologia, no intuito de compreender e esclarecer com eficiência o fenômeno sonambúlico. Na realidade, o sonambulismo é vivenciado por pessoas das mais diversas faixas etárias, graus de instrução, crentes ou não crentes, das mais diversas localidades do mundo, chamando atenção e provocando a curiosidade de estudiosos e leigos.
Diante do exposto, o presente artigo tem por objetivo desenvolver algumas breves considerações sobre o assunto, à luz da Doutrina Espírita. Para tanto, faz-se por oportuno inicialmente a apresentação de algumas experiências sonambúlicas divulgadas:


(I) “O artista plástico britânico Lee Hadwin, que só consegue desenhar enquanto está dormindo, lançou uma exposição de suas obras em Londres. Hadwin foi descrito pelos especialistas da Clínica do Sono de Edimburgo, na Escócia, como um caso único. Ele foi diagnosticado com sonambulismo e conta que não se lembra de absolutamente nada do que produz de madrugada. Hadwin nunca fez cursos de artes e afirma que nunca teve muito interesse por estas atividades. No entanto, enquanto dorme, ele desenha retratos, paisagens e figuras abstratas. Ele começou a desenhar durante o sono quando tinha 4 anos de idade, deixando suas marcas em paredes ou qualquer pedaço de papel que estivesse ao alcance. Atualmente, Hadwin se prepara melhor e deixa seus cadernos de desenho e materiais espalhados pelo apartamento onde vive e vem aperfeiçoando seus trabalhos nos últimos anos.” (Fonte: http://noticias.r7.com/internacional/noticias)

 
 
(II) “Numa madrugada há pouco mais de 20 anos, o médico urologista carioca Luiz Otávio Zahar teve a sensação de acordar no meio da academia de ginástica que costumava freqüentar. As luzes estavam apagadas e não havia ninguém usando os aparelhos de musculação nem circulando pelos corredores. O médico percorreu o espaço de um lado para o outro, sentindo-se absolutamente consciente. Mas seu passeio noturno, segundo Zahar, tinha uma peculiaridade: ele via tudo do alto, como se estivesse suspenso, flutuando. (...)”
 
 
“Naquela madrugada na academia, porém, Zahar resolveu pôr à prova a tese de que realmente conseguia como tantas outras pessoas dizem conseguir sair do corpo, manter o estado de vigília e usar os sentidos para observar coisas concretas. Eu não deixo de ser, fora do corpo, aquele médico cartesiano que sou que quer comprovar as coisas. Pensei: tenho de fazer alguma coisa para provar a mim mesmo essa experiência. Então vi um parafuso esquecido no alto de uma máquina de exercício. Acordei e anotei, conta. No dia seguinte, foi até a máquina. Para ver o que havia em cima dela, precisou subir em um banco. Do chão, era impossível enxergar. Subi e vi o parafuso lá.” (Fonte: http://super.abril.com.br/cotidiano/projecao-astral-viagens-fora-corpo)



(III) “O contador paulista Fernando Augusto Golfar, de 37 anos, afirma que vive projeções desde os 6 anos. Contava a seus pais episódios vivenciados por parentes já mortos com os quais falava durante as experiências e visões de lugares que lembrava ter visto dias antes de visitá-los com a família. Por via das dúvidas, a mãe o levou algumas vezes a uma benzedeira. As experiências prosseguiram. Geralmente me vejo em locais de assistência, hospitais, áreas carentes, enterros ou ajudando usuários de drogas, conta. Assim como Borges, Golfar afirma ter desenvolvido sua mediunidade. Para ele, isso ajuda em suas projeções astrais, mas não é um requisito fundamental.” (Fonte: http://super.abril.com.br/cotidiano/projecao-astral-viagens-fora-corpo)
 
 
Diante dos casos acima expostos, e para que se tenha uma melhor compreensão do fenômeno à luz do Espiritismo, vale ressaltar um dos pontos principais da doutrina, quando estabelece que o ser humano seja composto de três elementos: “(1º) O corpo ou ser material, semelhante ao dos animais e animado pelo mesmo princípio vital; 2º) A alma ou ser imaterial, espírito encarnado no corpo; 3º) O liame que une a alma ao corpo, princípio intermediário entre a matéria e o Espírito. (...) O liame ou perispírito que une o corpo e Espírito é uma espécie de invólucro semi material.” (Livro dos Espíritos - Introdução, VI)

Na realidade, o tema proposto é tratado inicialmente em O Livro dos Espíritos, primeira obra da codificação kardeciana e posteriormente em O Livro dos Médiuns, segundo livro codificado. Em O Livro dos Espíritos, dizem os Mestres espirituais que durante o sono, em razão do repouso orgânico os liames que unem o corpo ao Espírito se relaxam. Como o Espírito não acompanha a inatividade orgânica passa a dispor de mais faculdades que no estado de vigília. (LE, 401)

O fenômeno sonambúlico sob o efeito do sono é conceituado como “um estado de independência da alma, mais completo que no sonho, e então as faculdades adquirem maior desenvolvimento. A alma tem percepções que não atinge no sonho, que é um estado de sonambulismo imperfeito.” (LE, 425)

De acordo com as explanações iniciais, foi visto que a medicina cataloga o sonambulismo como uma doença na qual o sonâmbulo é alguém que por predisposição orgânica executa atividades durante o sono. A esse respeito, esclarecem os Mestres espirituais que o Espírito “preocupado com uma coisa ou outra, se entrega a alguma ação que exige o uso do seu corpo, do qual se serve como se empregasse uma mesa ou qualquer outro objeto material, nos fenômenos de manifestação física, ou mesmo de vossa mão, nas comunicações escritas.” (LE, 427) Ou seja, o Espírito utiliza-se do corpo físico como um instrumento para a realização de alguma atividade que deseje praticar.
 
 
No que tange à clarividência sonambúlica, esta ocorre em razão da aptidão que tem o Espírito de atravessar livremente a matéria e não precisar dos órgãos físicos para ver e/ou ouvir além do plano físico. Dizem os Mestres que no estado de crise, o Espírito se lembra de conhecimentos adquiridos em existências anteriores, embora de forma incompleta, acrescentando que “passada a crise, toda a lembrança se apaga e ele volta à obscuridade.” (LE, p. 431)

Asseveram ainda que “o sonâmbulo possui mais conhecimentos do que lhe reconheceis,” só que adormecidos pelo corpo. Reiteradamente dizem que revivemos inúmeras vezes, e perdemos “materialmente o que conseguimos aprender na existência precedente. Entretanto no estado de crise, ele se lembra embora de maneira incompleta, pois não saberia dizer de onde vem o conhecimento, nem como o possui. Passada a crise, toda a lembrança se apaga e ele volta à obscuridade.” (LE, p. 431) Tais explicações ‘casam’ com o caso do artista plástico britânico Lee Hadwin, (I) que só consegue desenhar enquanto está dormindo.

Adiante prosseguem esclarecendo, que o desenvolvimento da clarividência sonambúlica depende das condições físicas (de acordo com a medicina) que permitem ao Espírito libertar-se de forma mais natural da matéria. A esse respeito, Kardec indaga se o sonâmbulo que vê à distância, vê do lugar em que está seu corpo ou daquele que está a sua alma, isto porque muito comumente o sonâmbulo experimenta no corpo sensações de calor ou de frio do lugar em que se encontra a sua alma, às vezes bem longe do corpo. (LE, p. 436)

Reiteram os Mestres espirituais que é a alma que se transporta e vê, mas como não deixou por completo o corpo, “permanece ligada a ele pelo laço que os une, e é esse laço que os une, o condutor das sensações” (perispírito). (O Livro dos Espíritos - pergunta 437)

Daí a experiência do médico Luiz Otávio Zahar (II) quando relatava que “as luzes da academia estavam apagadas e não havia ninguém usando os aparelhos de musculação nem circulando pelos corredores. O médico percorreu o espaço de um lado para o outro, sentindo-se absolutamente consciente. Mas seu passeio noturno, segundo Zahar, tinha uma peculiaridade: ele via tudo do alto, como se estivesse suspenso, flutuando”. Ou seja, o Espírito do médico libertou-se até a academia de ginástica, conferindo todo o ambiente do jeito em que estava fechada, com as luzes apagadas e totalmente deserta, em razão do horário (madrugada).

Em O Livro dos Médiuns o sonambulismo é tratado como uma variedade da faculdade mediúnica na qual, ocorrem duas ordens de fenômenos que freqüentemente se agregam. A ação do sonâmbulo quando está sob o domínio do próprio Espírito nos momentos de emancipação. Nesse caso, o que vê, ouve e percebe além dos limites dos sentidos, é oriundo dele mesmo (caso do desenhista e do médico).

Não obstante em outras circunstâncias, o sonâmbulo “serve de instrumento a outra inteligência. É passivo e o que diz não é dele. Em resumo; o sonâmbulo exprime o seu próprio pensamento e o médium exprime o pensamento do outro. Mas o Espírito que se comunica através de um médium comum pode fazê-lo por um sonâmbulo. Freqüentemente mesmo o estado de emancipação da alma, no estado sonambúlico, torna fácil essa comunicação.” (O Livro dos Médiuns - Cap. XIV, 172)

“Aqui aplicar-se-ia perfeitamente o relato do contador Fernando Augusto Golfar (III), quando afirma vivenciar o fenômeno sonambúlico (que denomina projeções) desde os 6 anos, quando contava aos pais episódios vivenciados por ‘parentes já mortos” com os quais falava durante as experiências e “visões de lugares que lembrava ter visto dias antes de visitá-los com a família“.

A Doutrina Espírita estabelece que a faculdade sonambúlica seja uma faculdade que depende do organismo e nada tem que ver com a elevação, o adiantamento e a condição moral do sujeito. Um sonâmbulo pode, pois, ser muito lúcido e incapaz de resolver certas questões, se o seu Espírito for pouco adiantado. (O Livro dos Médiuns - Cap. XIV, 174)
 
 
Portanto, para o Espiritismo o fenômeno de “emancipação da alma”, pode ser ocasionado pelo sono, ou provocado magneticamente pelo "fluido vital, eletricidade animalizada que são modificações do fluido universal". (LE. 427) Tal fenômeno depende de uma condição orgânica do indivíduo que possibilita a liberação do Espírito, que se mantém ligado ao corpo físico pelo perispírito.

No que concerne às percepções do mesmo, poderão advir como lembranças confusas e incompletas, ou mesmo nenhuma lembrança. Segundo os Espíritos Superiores, “nos sonhos de que se tem consciência, os órgãos inclusive da memória, começam a despertar e recebem imperfeitamente as impressões produzidas pelos objetos ou as causas exteriores” (...). (LE, p. 425)

Para finalizar, pode-se concluir que o sonambulismo permite a clarividência quando o Espírito do sonâmbulo atravessa livremente os corpos opacos, podendo alcançar longas distâncias. Pode ser considerada como uma modalidade de mediunidade, quando o sonâmbulo em crise entra em contato com Espíritos, podendo vê-los e/ou ouvi-los. Para aqueles que pretendam uma melhor compreensão do assunto, exige-se obviamente um estudo aprofundado das Obras Fundamentais da Doutrina Espírita juntamente com a Revista Espírita.


sábado, 10 de março de 2012

FRATERNIDADE NO ESPIRITISMO SIM, SINCRETISMO NUNCA!

Por Artur Felipe Azevedo


 

Vez por outra surge alguém ou algum grupo atacando a coerência espírita e defendendo certas idéias de fundo ecumenista dentro e fora do movimento espírita. Alegam-nos que o Espiritismo - e consequentemente os espíritas - devam estar "abertos" a outras concepções e ensinos, sem o qual correm o risco de tornarem-se intolerantes e antifraternos, e, portanto, em dissonância com o que prega a Doutrina.



Nada mais falacioso.



Não devemos confundir fraternidade e tolerância com ecumenismo, ao quais os ramatisistas, aliás, deu erroneamente outro nome, o de "universalismo". O que chamam eles de "universalismo" não passa de sincretismo, fenômeno bastante presente e comum na cultura brasileira. A definição de sincretismo é de "uma fusão de doutrinas de diversas origens, seja na esfera das crenças religiosas, seja nas filosóficas", exatamente aquilo estimulado por Ramatis e seus simpatizantes.



No caso da Doutrina Espírita, obviamente reconhecemos alguns pontos em comum com outras correntes filosóficas e até mesmo com algumas crenças religiosas, porém analisando com mais profundidade tais similitudes, veremos que a visão espírita possui nuances próprias que as ligam a outros princípios não abraçados por essas outras filosofias e religiões. Evocar semelhanças sem considerar a Doutrina Espírita como um todo, mas em partes, certamente conduz a essas frustradas tentativas de comparação e adaptação.



Verifica-se daí que a confusão geralmente ocorre entre aqueles que ainda não compreenderam a Doutrina Espírita em profundidade, assim como não abarcaram em detalhes todos os seus princípios, confundindo-os com suas próprias concepções pessoais advindas de suas vivências em movimentos religiosos, geralmente no Catolicismo e na Umbanda.



A falta de leitura e estudo sistemático dos livros da Codificação Espírita, somado ao fato de que boa parte da população brasileira é constituída de analfabetos funcionais com grande dificuldade de interpretação de textos simples, só agrava a situação e dão armas àqueles que insistem que deva o Espiritismo assimilar idéias, práticas e conceitos estranhos ao seu corpo doutrinário.



Conscientes dessa realidade, espíritos pseudossábios e muitas das vezes mal intencionados, interessados na disseminação da confusão e do divisionismo, insistem nessa absurda proposta de desfiguração do Espiritismo, através de ditados repletos de sentimentalismo piegas e sem conteúdo, induzindo o leitor à idéia de que o espírita deva aceitar enxertias, à prática espírita, de ritualismos e cultos exteriores sem nenhuma fundamentação doutrinária e lógica, sob a alegação de que devamos estar "abertos" e dispostos a contribuir com o progresso e com uma suposta evolução do ideário espiritista. Mas, que evolução é essa que acaba por incentivar o retorno e/ou permanência das mentalidades em torno do pensamento mágico? "Pensamento mágico" significa interpretar dois eventos que ocorrem próximos como se um tivesse causado o outro, sem qualquer preocupação com o nexo causal. Por exemplo, se a pessoa acredita que cruzar os dedos trouxe boa sorte, ela associou o ato do cruzamento de dedos com o evento favorável subsequente e imputou um nexo causal entre os dois. Psicólogos já observaram que grande parte das pessoas é propensa ao pensamento mágico e, assim, o pensamento crítico fica frequentemente em desvantagem. O que se vê, mais comumente nas religiões cristãs dogmáticas tradicionais, são lideranças religiosas explorando essa tendência a fim de auferir vantagens, na medida em que estimulam os seus fiéis a procurarem resolver seus problemas por meio de promessas, ofertas em dinheiro, sacrifícios, etc. Já no espiritualismo esotérico e nas práticas feiticistas dos cultos afro-brasileiros, a solução da maioria dos problemas hodiernos estaria nas oferendas, no uso de talismãs, amuletos, realização de rituais, consagrações, etc. Embora, pois, se diferenciem quanto à forma, todas essas práticas são oriundas do pensamento mágico, ou, como diriam alguns, do misticismo.



Já asseverava Ary Lex que “no movimento espírita costuma haver certa condescendência para com as pequenas deturpações, condescendência essa rotulada como ‘tolerância cristã’. Estão errados. Tolerância deve haver para as falhas das pessoas, que devem ser esclarecidas e apoiadas, ajudando-as a saírem do ciclo erro-sofrimento. Tolerância com as pessoas, sim, com as deturpações, jamais”. E conclui: “É urgente e fundamental que todos aqueles que tiveram a ventura de entender o Espiritismo lutem, dia a dia, pela manutenção da pureza doutrinária.”



O alerta de Ary Lex nada mais representa do que uma tentativa de convidar os espiritistas a manterem o pensamento mágico distante das práticas espíritas dentro e fora dos Centros.



A questão 554 de “O Livro dos Espíritos” corrobora essa posição. Confiramos:


P.: “Que efeito pode produzir fórmulas e práticas mediante as quais pessoas há que pretendam dispor do concurso dos Espíritos?”


R.: “(...) Todas as fórmulas são mera charlatanaria. Não há palavra sacramental nenhuma, nenhum sinal cabalístico, nem talismã, que tenha qualquer ação sobre os Espíritos, porquanto estes são só atraídos pelo pensamento e não pelas coisas materiais”. E continua mais adiante: “Ora, muito raramente aquele que seja bastante simplório para acreditar na virtude de um talismã deixará de colimar um fim mais material do que moral. Qualquer, porém, que seja o caso, essa crença denuncia uma inferioridade e uma fraqueza de ideias que favorecem a ação dos espíritos imperfeitos e escarninhos”.



Em “O Livro dos Médiuns”, é perguntado aos Espíritos Superiores:


“Certos objetos, como medalhas e talismãs, têm a propriedade de atrair ou repelir os Espíritos conforme pretendem alguns”?


R.: “Esta pergunta era escusada, porquanto bem sabes que a matéria nenhuma ação exerce sobre os Espíritos. Fica bem certo de que nunca um bom espírito aconselhará semelhantes absurdidades. A virtude dos talismãs, de qualquer natureza que sejam, jamais existiu, senão, na imaginação das pessoas crédulas”.



O Codificador Allan Kardec comentou, concluindo e reiterando a total desvinculação do Espiritismo com o pensamento mágico propalado pelas religiões e crenças fetichistas:


“Os Espíritos são atraídos ou repelidos pelo pensamento e não por objetos materiais (...). Em todos os tempos os Espíritos superiores condenaram o emprego de signos e de formas cabalísticas; e todo Espírito que lhes atribui uma virtude qualquer ou que pretende dar talismãs que denotam magia, por aí revela a própria inferioridade, quer quando age de boa-fé e por ignorância, (...) quer quando conscientemente (...). Os sinais cabalísticos, quando não são mera fantasia, são símbolos que lembram crenças supersticiosas na virtude de certas coisas, como os números, os planetas e sua correspondência com os metais, crenças nascidas no tempo da ignorância e que repousam sobre erros manifestos, aos quais a ciência fez justiça, mostrando o que há sobre os pretensos sete planetas, os sete metais, etc. A forma mística e ininteligível de tais emblemas tem o objetivo de os impor ao vulgo (...), aquilo que não compreende.”



A seu turno, verificamos nas obras de Ramatis uma proposta inversamente contrária, constantemente presentes em seus ditados como podem notar abaixo e em inúmeras passagens dos livros psicografados pelo médium Hercílio Maes:


“Rituais, mantras, sincronizações entre adeptos ou despertamento da vontade; o comando nas quais podereis alcançar o Cristo Planetário!”



"Os amuletos e talismãs, quando realmente dinamizados por magos experientes, obedecem aos mesmos princípios dos minerais radioativos, mas a sua ação é mais vigorosa e específica no campo etéreo-astral invisível aos sentidos humanos."



"Há fundamento lógico e científico no preparo de amuletos e talismãs, quando isso é feito por meio de magos autênticos (...)"



"Há certos tipos de ervas cuja reação etérica é tão agressiva e incômoda, que torna o ambiente indesejável para certos espíritos, assim como os encarnados afastam-se dos lugares saturados de enxofre ou gás metano dos charcos."



"Só as pessoas rudes ou confusas podem considerar a defumação benfeitora uma superstição ou dogma."



"Os espíritos subversivos ou obsessores fogem espavoridos do ambiente onde atuam, quando a queima de pólvora é feita por médiuns ou magos experientes, pois alguns deles são bastante escarmentados em tais acontecimentos."



Em outras passagens, Ramatis procura rebaixar o Espiritismo frente às crenças orientalistas:


“Da mesma forma, reconhecemos que há, entre o neófito espírita, exclusivamente submerso na sua doutrina, e o espiritualista afeito ao conhecimento iniciático, um extenso abismo de compreensão.”



Abaixo, vemos claramente a intenção de incentivar o sincretismo:


“Sem dúvida, apesar de o Espiritismo ser doutrina corporificada para libertar os homens das superstições e dos tabus infantis, ele pode estacionar no tempo e no espaço, tal qual acontece com a Igreja Católica. É acontecimento fatal, caso seus adeptos ignorem deliberadamente o progresso e a experiência de outras seitas e doutrinas vinculadas à fonte original e inesgotável do Espiritualismo Oriental.”



Herculano Pires, à época, reagiu corajosamente a esse tipo de proposta:


"Só um setor do conhecimento, nesta hora de transição, não necessita renovações, e esse setor é precisamente o Espiritismo. O que ele exige de nós não é renovação doutrinária, mas apenas expurgo de infiltrações espúrias nos Centros, produzidas pela leviandade de praticantes que se desvairam da orientação doutrinária, adotando atitudes, fórmulas e práticas antiquadas. (...) O terror místico proveniente de um longo passado religioso de mistérios e ameaças não tem mais razão de ser. Não obstante, encontramos no meio espírita um pesado lastro desse terror em forma de traumatismos inconscientes que geram comportamentos antiespíritas".



Já dizia Bossuet: "O maior desregramento do espírito é crer nas coisas porque se quer que elas existam".



Por nossa vez, diríamos que a superstição e as crendices são exemplos desse desregramento, doenças da alma, autênticas amarras que prendem o espírito às trevas da ignorância, conduzindo-o aos descaminhos advindos da fuga da realidade. Se há uma maneira dos falsos profetas da erraticidade e espíritos pseudossábios atacarem o Espiritismo é justamente desfigurando-o através do estímulo ao culto exterior, do pensamento simplista, da crendice, todos representantes do caminho mais fácil, porém inócuo, que tanto atrai aqueles indivíduos desinteressados em promover em si aquilo que realmente interessa que é a transformação moral, que advém justamente do esforço e do avanço da inteligência, conforme puderam claramente ensinar os Espíritos Superiores nas questões 192, 365, 780 e 780a de "O Livro dos Espíritos".




 

Fonte: In: http://kardeconline.ning.com/profiles/blog/

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

2012 e ESPIRITISMO

Jorge Murta



O que há nessa história de 2012 é uma grande salada esotérica, com uma pequena pitada científica. Primeiro, pegue uma boa dose de profecias maias, segundo as quais o último katun se dará em 21 de dezembro de 2012. Depois adicione a essa receita umas pitadas de "canalizações" de um tal Ashtar Sheran, ligado a Grande Fraternidade Branca, que diz que naves espaciais virão buscar os eleitos para salvá-los da catástrofe, na transição planetária.

Também acrescente uma boa dose de livros de Zecharia Sitchin, um escritor e pesquisador da cultura suméria, que interpretando as tábuas cuneiformes, disse em diversos livros que os deuses sumérios eram alienígenas, os anunnakis e que o planetão deles, Nibiru, leva 3.666 anos para dar uma órbita completa e que em 2012, passaria perto da Terra. Diga-se, de passagem, que segundo Sitchin, esse planetão seria maior que Júpiter.

Junte a essa mistura, algo que Chico Xavier teria dito sobre o Planeta Chupão (Hercolobus? Nibiru?), não por acaso após entrevista do Chico, em 1954, defendendo Ramatís, que falara num certo astro higienizador, que “chuparia” da superfície da Terra (por meio de força magnética) os habitantes do planeta, que já não coadunassem com o novo padrão magnético da Terra, mais elevado, higienizando assim a Terra. Tal higienização, ocorreria por ocasião da proximidade desde astro higienizador (o chupão, ou Hercolobus ou Nibiru) da órbita terrestre.

Um livro do movimento espírita, que não considero obra espírita e que por isso não tem autoridade do Controle Universal e que da força a essas sandices é Exilados de Capela, pois o leitor mais atento notará remissões a conceitos esotéricos, tais como o sistema de Capela que muitos acreditavam ser um planeta, mas que hoje a ciência prova ser apenas um aglomerado de estrelas, mas que acreditavam e alguns ainda crêem que há milhares de anos, esse mundo que supunham existir, ao se aproximar da Terra primitiva, teve seus habitantes recalcitrantes “chupados”, isto é, exilados para a Terra.
 

Outro livro do movimento espírita, que considero como desdobramento do anterior, que pela mesma razão, não considero uma obra espírita, é A Caminho da Luz, escrito por Emmanuel e psicografado por Chico Xavier e que contém também conceitos que apenas o leitor mais atilado com os mesmos conceitos podem perceber. Refiro-me a parte em que Emmanuel fala que: “Rezam as tradições do mundo espiritual que na direção de todos os fenômenos , do nosso sistema existe uma Comunidade de Espíritos Puros e Eleitos pelo Senhor Supremo do Universo, em cujas mãos se conservam as rédeas diretoras da vida de todas as coletividades planetárias”.
 

Para quem quiser pesquisar, pois não é esse o escopo deste artigo, mas é correlato ao mesmo, pesquise na net e verá se não tenho razão ao dizer que a Comunidade de Espíritos Puros não vem a ser a chamada Grande Fraternidade Branca, ou seja uma obra esotérica baseada em outra esotérica, mimetizada em espírita aborda conceitos totalmente esotéricos, afinal para o esoterismo, Jesus também faria parte da Grande Fraternidade Branca com nome de Mestre Sananda.
 

Ah, na parte cientifica, para dar sabor de verdade a esta receita de 2012, cite que em 2012 haverá um bruta aumento nas manchas solares que causará falhas nas comunicações na Terra (e é verdade isso). Há também quem diga que o derretimento das calotas polares causará inundações nos continentes.(a parte do derretimento pode ser verdade, se não tomarmos providencias, mas não para inundar os continentes).

Essa receita de Juízo Final, já foi tentada no ano 1000, no ano de 1999, no ano de 2000, com esses ingredientes juntos ou separados, mas o forno das crendices não funcionou e esqueceram de avisar o mundo para acabar. Vejam exemplos dessas crendices ao longo dos séculos, abaixo:
 

992 d.C. Em 960, Bernard de Thurings anunciou, com alarme na Europa, que o mundo só tinha mais 32 anos de existência. Felizmente para ele morreu antes da data anunciada.
31.12.999 - O mundo acabaria 1000 anos após o nascimento de Cristo. Parece não ter havido tanto "barulho" como se pensa. Mas é significativo que o Papa Silvestre II e o imperador Otão III tenham terminado as suas quesílias politicas.
31.12.1033 - Afinal não se devia contar a partir do nascimento mas sim da morte de Cristo...
Setembro de 1186 - O astrólogo João de Toledo, em 1179, anuncia o fim do mundo quando todos os planetas estiverem em conjunção em Libra. Se incluirmos o Sol, isso aconteceu em 23 de Setembro de 1186 às 16:15 TMG, ou a 3 de Outubro do novo calendário. O arcebispo de Cantuária pediu um dia de oração, o alinhamento ocorreu, o Fim do Mundo não.
1260 - Joaquim de Fiore apontou para 1260. O ponteiro não estava bom.
1 Fevereiro 1524 
Uma das datas mais espetaculares. O fim seria pela água. Em Junho de 1523 os astrólogos calcularam que o Fim se iniciaria em Londres com um dilúvio. 20.000 pessoas abandonaram as suas casas. O pároco de S. Bartolomeu construiu uma fortaleza com água e comida para dois meses de espera. Quando nada aconteceu fizeram-se novos cálculos que apontaram para mais cem anos. Mas esse ano foi mesmo especial! Nicolaus Pere previu que a conjunção dos principais planetas em Peixes (um simbolo da água), o que reforçava a ideia do diluvio. Uma das vozes que se levantou contra foi George Tannstetter, astrólogo e matemático. No seu horóscopo previu que viveria para lá de 1524, o que o levou a negar os outros calculos. Era um cético. Uma inundação gigante foi prevista para 20 de Fevereiro (ou 2 de Fevereiro) pelo astrólogo Johannes Stroeffler em 1499. A conjunção envolvia Mercurio, Venus, Marte, Jupiter e Saturno, mais o Sol, todos em Peixes. Mas foi em 23 e não em 20. Em resposta a estas profecias, na Alemanha, as pessoas construiam barcos, e um Conde Von Iggleheim construiu uma arca com 3 andares. O mesmo se passava em Toulouse. Quando choveu ligeiramente na data prevista, as pessoas atacaram a arca do Conde. Pessoas morreram.
1532 - Frederick Nansea, bispo de Viena, achou que um grande desastre estava próximo. Acreditou nas testemunhas que o informavam do que viam: cruzes sangrentas no céu, um cometa, três sóis, um castelo no céu.
13 Outubro 1533, 8h00 - Michael Stifel (tambem conhecido por Stifelius) calcula a data e hora a partir do Livro das Revelações. Quando o mundo não se evaporou, perdeu as suas vestes eclesiásticas.
1537 - Uma lista de profecias surge em Dijon, França, atribuidos ao astrólogo Pierre Turrel, a titulo póstumo. Ele usou 4 métodos diferentes de cálculo, chegando a 4 datas diferentes espalhadas por 277 anos.
1544 - Ver 1537.
1572 - Eclipse solar em Londres e espetaculares novas no céu. Pânico geral.
1584 - O astrólogo Ciprian Leowitz, incluido em 1559 no index de autores proibidos por Paulo IV, prediz o fim para 1584. Pelo sim, pelo não, calcula cartas astrológicas até 1614. Fez bem.
1648 - O rabi Sabbati Zevi, de Smyrna, interpreta a cabala mostrando que o Messias e o seu advento chegam em 1648. Em 1665, apesar de nada ter acontecido, os seus seguidores tinham aumentado, e a nova data é marcada para 1666. Cidadãos de Smyrna abandonam o trabalho e preparam-se para o regresso a Jerusalem. Os problemas aumentam quando Zevi é preso pelo sultão de Constantinopla. Este converte Zevi ao Islamismo e o movimento acaba.
1704 - O Cardeal Nicholas de Cusa, sem autorização do Vaticano, declara o Fim para 1704.
13.10. 1736 - Novo fim do mundo a começar em Londres. Desta vez previsto por William Whiston. Nem sequer choveu.
1757 - Emanuel Swedenberg anuncia o fim do mundo, informado por um anjo, segundo ele. Ninguem lhe ligou, nem os anjos.
1801 - Uma das datas (foram 4) previstas pelo astrólogo Pierre Turrel. Nada... (como nas outras 3)
1814 - Mais uma data de Pierre Turdel. Charles Mackay escreveu que "o mundo acenou tão contente como antes".
1843 - O adventista William Miller anunciou o apocalipse para 3 de abril, depois 7 de julho, depois 21 de março de 1844 e, por fim 22 de outubro.
1874 - Data calculada por Charles Taze Russel das Testemunhas de Jeová para o Fim.
1881 - Data obtida através de medições na Grande Pirâmide de Gizé, no túmulo de Cheops. Novos cálculos, mais "precisos" alteram a data para 1936. Melhorando-se ainda a medição e os calculos, obteve-se 1953. Continuam a ser feitas medições.
1914 - A segunda das datas das Testemunhas de Jeová.
1936 - Novas medições na Grande Pirâmide.
1953 - Novas medições na Grande Pirâmide.
1975 - A terceira data das Testemunhas de Jeová. Errada como as outras.
1999 - Jeane Dixon (1918-1997): "Em 1999, os E.U.A. e os seus aliados estarão em guerra como a Russia e os seus satélites. Misseis russos provocarão um holocausto nuclear nas cidades dos EUA".
Julho de 1999 - Nostradamus, em X-72 afirma: O ano mil novecentos noventa nove, mês sete
Do céu virá grande Rei assustador
Ressuscitar o grande Rei dos Mongois
Antes e depois de Marte reinar por boa hora
18 de Agosto de 1999 - Criswell (1907-1982): Um Arco Iris Negro (uma perturbação magnética na atmosfera causada por atrações gravitacionais no universo) retirará oxigénio da Terra. Esta deixará a sua órbita e encaminhar-se-á para o Sol.
2000 - Os teóricos do apocalipse disseram que o Juízo Final ocorreria 2000 anos após o nascimento de Cristo. Desmentidos pelos fatos (afinal em 2000 o mundo não acabou), se justificaram dizendo que o certo é 2000 anos após a morte do Cristo, em 2033.

Desta vez acrescentaram outro ingrediente à receita do Fim do Mundo: a Internet, que dá um ar de intelectualidade às maiores tolices. Falam tanto, na internet, de Juízo Final, mas se esquecem de ter juízo, afinal.

E o espiritismo? O que ele diz sobre isso de 21/12/2012? Bem, diretamente sobre a data em questão, nada, mas diz muito mais além:

REVOLUÇÕES DO GLOBO

Cataclismos futuros
14. Fisicamente, a Terra teve as convulsões da sua infância; entrou agora num período de relativa estabilidade: na do progresso pacífico, que se efetua pelo regular retorno dos mesmos fenômenos físicos e pelo concurso inteligente do homem. Está, porém, ainda, em pleno trabalho de gestação do progresso moral. Aí residirá a causa das suas maiores comoções. Até que a Humanidade se haja avantajado suficientemente em perfeição, pela inteligência e pela observância das leis divinas, as maiores perturbações ainda serão causadas pelos homens, mais do que pela Natureza, isto é, serão antes morais e sociais do que físicas.

Allan Kardec - A Gênese - Capítulo IX

SINAIS PRECURSORES


57. Quando sucederão tais coisas? «Ninguém o sabe, diz Jesus, nem mesmo o Filho». Mas, quando chegar o momento, os homens serão advertidos por meio de sinais precursores. Esses indícios, porém, não estarão nem no Sol, nem nas estrelas; mostrar-se-ão no estado social e nos fenômenos mais de ordem moral do que físicos e que, em parte, se podem deduzir das suas alusões.
(...)
 

58. Será que, predizendo a sua segunda vinda, era o fim do mundo o que Jesus anunciava, dizendo: «Quando o Evangelho for pregado por toda a Terra, então é que virá o fim»?

Não é racional se suponha que Deus destrua o mundo precisamente quando ele entre no caminho do progresso moral, pela prática dos ensinos evangélicos. Nada, aliás, nas palavras do Cristo, indica uma destruição universal que, em tais condições, não se justificaria.
 

Devendo a prática geral do Evangelho determinar grande melhora no estado moral dos homens, ela, por isso mesmo, trará o reinado do bem e acarretará a queda do mal. É, pois, o fim do mundo velho, do mundo governado pelos preconceitos, pelo orgulho, pelo egoísmo, pelo fanatismo, pela incredulidade, pela cupidez, por todas as paixões pecaminosas, que o Cristo aludia, ao dizer: «Quando o Evangelho for pregado por toda a Terra, então é que virá o fim.» Esse fim, porém, para chegar, ocasionaria uma luta e é dessa luta que advirão os males por ele previstos.
(...)
 

60. Se considerarmos o estado atual do mundo físico e do mundo moral, as tendências, aspirações e pressentimentos das massas, a decadência das idéias antigas que em vão se debatem há um século contra as idéias novas, não poderemos duvidar de que uma nova ordem de coisas se prepara e que o mundo velho chega a seu termo.
 

Se, agora, levando em conta a forma alegórica de alguns quadros e perscrutando o sentido profundo das palavras de Jesus, compararmos a situação atual com os tempos por ele descritos, como assinaladores da era da renovação, não poderemos deixar de convir em que muitas das suas predições se estão presentemente realizando; donde a conclusão de que atingimos os tempos anunciados, o que confirmam, em todos os pontos do globo, os Espíritos que se manifestam.
(...)

63. Tendo que reinar na Terra o bem, necessário é sejam dela excluídos os Espíritos endurecidos no mal e que possam acarretar-lhe perturbações. Deus permitiu que eles aí permanecessem o tempo de que precisavam para se melhorarem; mas, chegado o momento em que, pelo progresso moral de seus habitantes, o globo terráqueo tem de ascender na hierarquia dos mundos, interdito será ele, como morada, a encarnados e desencarnados que não hajam aproveitado os ensinamentos que uns e outros se achavam em condições de aí receber. Serão exilados para mundos inferiores, como o foram outrora para a Terra os da raça adâmica, vindo substituí-los Espíritos melhores. Essa separação, a que Jesus presidirá, é que se acha figurada por estas palavras sobre o juízo final: «Os bons passarão à minha direita e os maus à minha esquerda.» (Cap. XI, n 31 e os seguintes.)
(...)
 

JUÍZO FINAL


67. O juízo, pelo processo da emigração, conforme ficou explicado acima (nº 63), é racional; funda-se na mais rigorosa justiça, visto que conserva para o Espírito, eternamente, o seu livre-arbítrio; não constitui privilégio para ninguém; a todas as suas criaturas, sem exceção alguma, concede Deus igual liberdade de ação para progredirem; o próprio aniquilamento de um mundo, acarretando a destruição do corpo, nenhuma interrupção ocasionará à marcha progressiva do Espírito. Tais as conseqüências da pluralidade dos mundos e da pluralidade das existências.

Segundo essa interpretação, não é exata a qualificação de juízo final, pois que os Espíritos passam por análogas fieiras a cada renovação dos mundos por eles habitados, até que atinjam certo grau de perfeição. Não há, portanto, juízo final propriamente dito, mas juízos gerais em todas as épocas de renovação parcial ou total da população dos mundos, por efeito das quais se operam as grandes emigrações e imigrações de Espíritos.
(...)

Allan Kardec - A Gênese - Capítulo XVII

A NOVA GERAÇÃO

27. (...) A Terra, no dizer dos Espíritos, não terá de transformar-se por meio de um cataclismo que aniquile de súbito uma geração. A atual desaparecerá gradualmente e a nova lhe sucederá do mesmo modo, sem que haja mudança alguma na ordem natural das coisas. Tudo, pois, se processará exteriormente, como sói acontecer, com a única, mas capital diferença de que uma parte dos Espíritos que encarnavam na Terra aí não mais tornarão a encarnar. Em cada criança que nascer, em vez de um Espírito atrasado e inclinado ao mal, que antes nela encarnaria, virá um Espírito mais adiantado e propenso ao bem.

Allan Kardec - A Gênese - Capítulo XVIII

Eis o que a codificação diz, o que o bom senso diz, o que Kardec fala. Resumindo, não haverá um fim geral e estanque do mundo, o que haverá e está havendo é um fim gradativo no modelo de mundo em que se vive, do velho para o novo, sem destruições nem modelos de mundos tipo “Mad Max”, mas o chamado mundo de regeneração. Mas, antes desse mundo de regeneração chegar teremos que conviver com muitas outras profecias com data marcada, e pior, algumas atribuídas a alguém tida como espírita, mas que parece não ter lido nada do que Kardec disse acima, mas que mesmo assim, alguns espiritas o tem em alta conta, chegando mesmo a incensa-lo. Falo de Chico Xavier e sua profecia feita a Geraldo Lemos sobre o fm do mundo que se daria em 2019. Mas como o texto já se faz grande, deixarei a analise para o próximo artigo.
 
 
 
Fonte: In: http://espiritismocomprofundidade.blogspot.com/


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O GRANDE DESCONHECIDO

                                                                                                                            
                                                                                      Por J. Herculano Pires


Todos falam de Espiritismo, bem ou mal. Mas poucos o conhecem. Geralmente o consideram como uma seita religiosa comum, carregada de superstições. Muitos o vêem como uma tentativa de sistematização de crendices populares, onde todos os absurdos podem ser encontrados. Há os que o aceitam como nova Goécia, magia negra da Antigüidade disfarçada de Cristianismo milagreiro. Grandes cientistas se deixaram envolver nos seus problemas e se desmoralizaram. Outros entendem que podem encontrar nele a solução para todos os seus problemas, conseguir filtros de amor e os 13 pontos da Loteria Esportiva. E na verdade os seus próprios adeptos não o conhecem.


Quem se diz espírita arrisca-se a ser procurado para fazer macumba, despachos contra inimigos ou curas milagrosas de doenças incuráveis. Grandes instituições espíritas, geralmente fundadas por pessoas serias, tornam-se as vezes verdadeiras fontes de confusão a respeito do sentido e da natureza da doutrina. O Espiritismo, nascido ontem, nos meados do século passado, é hoje o Grande Desconhecido dos que o aprovam e o louvam e dos que o atacam e criticam.


Durante muito tempo ele foi encarado com pavor pelos religiosos, que viam nele uma criação diabólica para perdição das almas. Falar em fenômenos espíritas era provocar votos de esconjuro. Ler um livro-espírita era pecado mortal, comprar passagem direta para o Caldeirão de Belzebu. Médicos ilustres chegaram a classificar o Espiritismo como fábrica de loucos. Quando começaram a surgir os hospitais espíritas para doenças mentais, alegaram que os espíritas procuravam curar loucos que eles mesmos faziam para aliviar suas consciências pesadas. E quando viram que o Espiritismo realmente curava loucos incuráveis, diziam que os demônios se entendiam entre si para lograr o povo.



Hoje a situação mudou. Existem sociedades de médicos espíritas e as pesquisas de fenômenos mediúnicos invadiu as maiores Universidades do Mundo. Não se pode negar que a coisa é séria, mas definir o Espiritismo não é fácil. Porque ninguém o conhece, ninguém acredita que se precisa estudá-lo, pensam quase todos que se aprende a doutrina ouvindo espíritos. Os intelectuais espíritas são confundidos com médiuns. Quem escreve sobre Espiritismo não escreve, faz psicografia. Acham que para estudar a doutrina é preciso desenvolver a mediunidade e receber maravilhosas lições de Espíritos Superiores.


Não obstante, o Espiritismo é uma doutrina moderna, perfeitamente estruturada por um grande pensador, escritor e pedagogo francês, homem de letras e ciências, famoso por sua cultura e seus trabalhos científicos e que assinou suas obras espíritas com o pseudônimo de Allan Kardec. Saber isso já é saber alguma coisa a respeito, mas está muito longe de ser tudo Doutrina complexa, que abrange todo o campo do Conhecimento, apresenta-se enquadrada na seqüência epistemológica de: a) Ciência, como pesquisa dos chamados fenômenos paranormais, dotada de métodos próprios, específicos e adequados ao objeto que investiga, tendo dado origem a todas as ciências do paranormal, até à Parapsicologia atual e seu ramo romeno, que se disfarça sob o nome pouco conhecido de Psicotrônica, para não assustar os materialistas. b) Filosofia, como interpretação da natureza dos fenômenos e reformulação da concepção do mundo e de toda a realidade segundo as novas descobertas científicas; aceita Oficialmente no plano filosófico, consta do Dicionário Filosófico do Instituto de França; no Brasil, reconhecida pelo Instituto Brasileiro de Filosofia, constando do volume Panorama da Filosofia em São Pauto, edição conjunta do Instituto e da Universidade de São Paulo, coordenação do Prof. Luiz Washington Vitta. c) Religião, como conseqüência das conclusões filosóficas, baseadas nas provas da sobrevivência humana após a morte e nas ligações históricas e genésicas do Cristianismo com o Espiritismo; considerado como a Religião em Espírito e Verdade, anunciada por Jesus, segundo os Evangelhos; religião espiritual, sem aparatos formais, dogmas de fé ou instituição igrejeira, sem sacramentos. d) Essa seqüência — obedece as leis da Gnosiologia, pelas quais o conhecimento começa nas experiências do homem com o mundo e se desenvolve nas ilações do pensamento, na cogitação filosófica e determina o comportamento humano dentro do quadro da realidade conhecida; como no Espiritismo essa realidade supera os limites da vida física, a moral se projeta no plano das relações do homem com a Divindade, adquirindo sentido religioso.


Colocado assim o problema, a complexidade do Espiritismo se torna facilmente compreensível. Tudo no Universo se processa mediante a ação e o controle de leis naturais, que correspondem à imanência de Deus no Mundo através de suas leis. Toda a realidade verificável é natural, de maneira que os espíritos e suas manifestações não são sobrenaturais, mas fatos naturais explicáveis, resultantes de leis que a pesquisa científica esclarece. O Sobrenatural só se refere a Deus, cuja natureza não é acessível ao homem neste estágio de sua evolução, mas o será possivelmente, quando o homem atingir os graus superiores de sua evolução. Todas as possibilidades estão abertas e franqueadas ao homem em todo o Universo, desde que ele avance no desenvolvimento de suas potencialidades espirituais, segundo as leis da transcendência.


(...) A atualização da linguagem e da terminologia doutrinárias nas obras de Kardec é uma pretensão descabida. Cada doutrina, científica ou filosófica, tem a sua própria terminologia, que só se transforma diante de novos fatos ocorridos na pesquisa. Por outro lado, essas atualizações, como sabem os especialistas, geralmente se transformam em atentados à doutrina, pela falta de conhecimento dos que pretendem fazê-las. Uma doutrina se atualiza na proporção em que evolui, com acréscimos reais de conhecimentos no desenvolvimento de seus princípios. Não existe, no mundo atual nenhum centro de pesquisas e estudos espíritas que tenha avançado legalmente além de


Kardec, através da descoberta de novas leis da realidade espírita. O Espiritismo avança, pelos seus princípios e os seus conceitos, muito além da realidade atual. E mesmo que não avançasse, ninguém teria o direito de interferir na obra de Kardec, como na obra de qualquer outro cientista. É livre o direito de contestar através de outras obras, mas não há direito nenhum que permita a um pintamonos desfigurar as obras clássicas da cultura mundial. (...)



Fonte: CURSO DINÂMICO DE ESPIRITISMO por J. Herculano Pires * 11/104

sábado, 4 de fevereiro de 2012

O Espiritismo, a Heresia e o Evangelho



Por Dalmo Duque dos Santos


“Estás de volta, meu amigo, e não perdeste teu tempo (...) Chegou a hora de a Igreja prestar contas do depósito que lhe foi confiado, da maneira como praticou os ensinamentos do Cristo, do uso que fez da sua autoridade, enfim do estado de incredulidade a que conduziu os espíritos”. Mensagem do Espírito d’E para Allan Kardec ( 30/09/1863) – Obras Póstumas


O Espiritismo é, entre outras tantas coisas, um código moral em cuja referência ética estão contidos os princípios universais de conduta encontrados em todas sociedades históricas. Sua essência fenomenal e de conceitos é milenar, mas sua fundação como síntese doutrinária e sistematizada, bem como sua organização científica experimental, somente foi possível no século XIX, num contexto geo-histórico no qual os conhecimentos e valores humanos e sociais estavam sofrendo profundas transformações e questionamentos.
 
 
A principal referência ética ocidental, na qual a sociedade européia e francesa estava inserida, ainda era a moral judaico-cristã, então sob o domínio sócio-institucional do clero romano e protestante. Mesmo com o advento do racionalismo cartesiano e do iluminismo no século anterior, o mundo ocidental ainda estava preso aos costumes feudo-clericais, desenvolvidos durante os séculos medievais, e que na Era Moderna se cristalizaram em forma de um sistema conhecido como Antigo Regime, no qual o catolicismo tinha um papel de destaque.
 
 
A mentalidade européia já havia conhecido a força revolucionária iniciada nos Estados Unidos e cujo apogeu se daria na França. Mas, quando tudo parecia ter mudado com a queda dos regimes absolutistas, com a extinção dos estamentos sociais privilegiados e da escravidão, surge na Europa uma onda contra-revolucionária e conservadora reivindicando a antiga ordem na qual uma aristocracia deveria fazer valer seus interesses sobre a maioria. Todas as conquistas que pareciam ter elevado a Humanidade a um nível mais avançado foram sendo esquecidas para dar lugar às tradições que consagravam a lei do mais forte e a desigualdade.
 
 
Na base dessa grande reação estava o instituto da religião católica. Foi dela e de suas doutrinas dogmáticas que brotaram as forças ideológicas e superestruturais reacionárias que rejeitaram as mudanças que dariam um novo rumo na história humana; foi ela uma das principais forças de sedução e poder que desviaram Napoleão Bonaparte do seu antigo ideal libertário, para servir de suporte de repressão e garantir os novos interesses do “cristianismo capitalista”. Nada melhor do que uma religião organizada e a coerção social do clero para colocar freio nos impulsos transformadores. Nada melhor do que a dupla ameaça ideológica, de crime político e heresia religiosa, para aqueles que contestam as tradições. Se havia um novo establishment, a Igreja respondia pelo principal elemento ideológico do sistema, agora adaptado aos tempos modernos.
 
 
Apesar de todas as circunstâncias inovadoras no pensamento, a superstição e o medo ainda continuaram sendo amplamente explorados pela classe política e clerical. Métodos como a delação, a confissão e a excomunhão voltaram a ter a mesma força dos tempos antigos. Essa era a situação moral da sociedade européia na qual nasceu o futuro Professor Rivail. O menino que iria se tornar Allan Kardec, filho de pai maçom e de família burguesa, teve que ir estudar na Suíça para fugir da rígida educação jesuítica imposta pela nova ordem napoleônica.
 
 
Mas, por que Kardec interessou-se pelos temas religiosos ou transcendentais, no caso os temas bíblicos, quando poderia ter permanecido nas especulações filosóficas ou no prazeroso campo experimental da mediunidade? Por que o Evangelho, porque o Céu e o Inferno e a Gênese, quando tudo está muito bem colocado e definido no Livro dos Espíritos? Kardec queria agradar a gregos e troianos, a religiosos e não religiosos? Duvidamos muito dessa hipótese, já que suas idéias eram tão independentes e demolidoras quanto as de Darwin, Spencer, Nietzsche e Marx.
 
 
O Evangelho Segundo o Espiritismo e seus outros livros dão uma nova visão sobre a temática bíblica, sendo a síntese da heresia que sempre despertou no clero a fúria e a violência contra todos os que desafiam os seus dogmas. Então, por que esse esforço de comparação do Espiritismo com a cultura religiosa do Antigo e Novo Testamentos? Se Kardec tivesse nascido na China ou na Índia, provavelmente teria comparado o Espiritismo com as idéias de outros filósofos daquelas regiões do Oriente, como fez com as de Moisés e Jesus? Cremos que não, porque tal comparação não foi apenas uma obra do acaso e sim parte de um contexto histórico respaldado por uma missão de grande significado espiritual, cuja função tinha muitas semelhanças e ligações históricas com a missão de Moisés e de Jesus. O Espírito de Verdade não é mera coincidência, muito menos uma expressão insignificante no trabalho de Kardec; sua identidade não é uma simples questão de ponto de vista ou de interpretação de suas mensagens, mas a própria essência filosófica do cristianismo puro e autêntico, perdido nos séculos de decadência moral da civilização motora da Humanidade contemporânea.
 
 
O Evangelho não uma religião no sentido vulgar e institucional, mas está repleto de religiosidade e está presente em todas as obras de Kardec, em todas as suas atividades e em todos os momentos em que a Doutrina Espírita teve que dar provas de sua autoridade e identidade superior aos sistemas filosóficos comuns. Entendemos que Kardec aproveitou uma excelente oportunidade para desfazer uma antiga e importante confusão histórica, “... são chegados os tempos em que todas as coisas devem ser restabelecidas em seu sentido verdadeiro...”. O cristianismo, que havia sido apropriado criminosamente pelo clero romano, não podia ser comparado positivamente com o Espiritismo. Era necessário mostrar o cristianismo verdadeiro, sem dogmas, sem hierarquia sacerdotal; o cristianismo de Deus e não o de César.
 
 
Como entender o Espiritismo sem compreender a essência moral do cristianismo, sem as fantasias biográficas e invencionices históricas sobre Jesus e dos apóstolos, alimentadas pelo catolicismo? O Evangelho de Kardec tinha mesmo que ser queimado em praça pública pela Inquisição, como realmente aconteceu em Barcelona em 1863. Afinal, nele não se encontram brechas literárias e teológicas para justificar o papado e a sua infalibilidade, muito menos para a idéia absurda de que “Fora da Igreja não há salvação”.
 
 
A mensagem do Espírito d’E é bem ilustrativa nesse ponto: “ Não é de admirar, pois, o encarniçamento com que o clero combate o Espiritismo; é levado pelo instinto de conservação. Ele, porém, já viu suas armas embotar-se contra esse poder nascente; seus argumentos não conseguiram vencer a lógica inflexível; só lhe resta o do demônio, recurso bem fraco para o século XIX”.
 
 
Na concepção política do clero, Kardec representava um grande perigo para o sistema e para a superestrutura católica; era um novo Martinho Lutero, na verdade um novo Jan Huss... Para o clero o seu Evangelho era o mais perigoso de todos os textos apócrifos, inclusive aquele de Tomé que nunca foi encontrado... Nem quando Ernest Renan publicou sua obra realista sobre Jesus a Igreja se mostrou tão incomodada como quando Kardec e o Espíritos resolveram comentar as máximas de Jesus. Muitos desses Espíritos foram sacerdotes católicos e grandes nomes da escolástica e da patrística, aumentando mais ainda o ódio contra aquele desconhecido e humilde professor de Paris. Realmente, Kardec não estava preocupado em agradar ninguém, a não ser a sua consciência.
 
 
O desenvolvimento da moral judaico-cristã no Ocidente ocorreu em meio aos conflitos dos dogmas de fé da tradição teológica oriental, representando a ortodoxia, versus os dogmas racionalistas das escolas gregas, representando a heterodoxia. Enquanto o dogma de fé serviu historicamente como objeto de fetiche, culto sacralizado e sustentáculo da estrutura político-clerical, o dogma filosófico serviu como instrumento de reflexão e mecanismo de defesa do pensamento autônomo, da heresia e da contestação.
 
 
No seio do cristianismo encontramos essas duas correntes do pensamento herético em todas as épocas e algumas delas progrediram tanto no terreno institucional que foram perdendo sua marca contestatória, como o catolicismo e o protestantismo. Essa é uma tendência conservadora que ronda o movimento espírita, sobretudo naqueles núcleos onde o mediunismo e o comportamento dogmático superam o conhecimento doutrinário. Em alguns grupos esse comportamento chega mesmo a assumir o aspecto de seita.
 
 
O Espiritismo liga-se ao Cristianismo exatamente pelos dogmas filosóficos e têm suas origens históricas nas chamadas heresias cristãs, movimentos sociais onde se cultivava o sentido puro e original da ética cristã. A idéia de heresia tinha para os gregos um significado de autonomia de pensamento e conduta. O herege é aquele que pensa e age livremente sem nenhum obstáculo ideológico. O chamado cristianismo espírita ou “espiritismo cristão” é, ou deveria ser, no mínimo, essencialmente herético, à esquerda da religião dogmática sem, no entanto, perder suas raízes religiosas, relacionadas ao comportamento natural da lei de adoração.
 
 
Se o pensamento filosófico evolui, o pensamento ou a experiência místico-religiosa também acompanha essa transformação, tanto no psiquismo como na sua expressão exterior e social. Quando Jesus ensinava que o verdadeiro templo é o que está dentro das pessoas, sendo o corpo humano uma espécie de santuário, estava naturalmente se referindo às manifestações místico-religiosas que deixaram de ter significado material e exterior, mas que continuam espiritual e interiormente vivas na consciência. Esse é o progresso e a evolução religiosa que o Espiritismo nos ensina. Tudo que antes vinha sendo expressado formalmente, de maneira idealizada e simbólica, em forma de compromissos cerimoniais e rituais, agora pode ser expressado espontaneamente em forma prática, no comportamento, na transformação de atitudes.
 
 
Nas religiões tradicionais geralmente os defeitos humanos não são da responsabilidade das pessoas, mas de causas que lhes fogem do controle, coisas tipo do “pecado original”. Como no Espiritismo não há essa possibilidade, pois as leis naturais são sempre educativas e sem privilégios fictícios de salvação artificial, se insistirmos em não mudar de atitudes teremos duas opções: rejeitamos a doutrina, pois sua moral não se coaduna conosco - tornando-se até mesmo causa de irritação e contrariedade - ou praticamos a auto-dissimulação, mais conhecida como hipocrisia.
 
 
Se escolhermos a mudança, ela também deve ser de forma natural, gradual, sem forçamentos, embora possa ser organizada ou sistematizada como forma de aprendizagem. Os defeitos precisam ser transformados em virtudes; é uma necessidade evolutiva. O egoísmo e a agressividade, que foram virtudes nos remotos tempos das cavernas, por questão de sobrevivência, hoje já não são mais necessários, embora ainda os tenhamos como impulsos e reações momentâneas nas situações em que nos sentimos ameaçados.
 
 
Também nas religiões tradicionais esses conflitos psicológicos sempre foram manipulados num jogo maniqueísta de controle social e interdição da privacidade. Fomos educados durante milênios nessa perversão da moral e da religiosidade, onde a culpa e o perdão se tornaram objetos de exploração política e comercial. Essa tendência já deveria ter sido banida do mundo através do Espiritismo e da Psicologia, mas o vício sacerdotal de controle e manipulação de mentalidades ainda é muito forte em nossas culturas. Somos viciados nessa dependência de sempre ter alguém resolvendo por nós os nossos problemas e assumindo nossas responsabilidades.
 
 
No movimento espírita encontramos, naturalmente com herança histórica, ainda hoje, as matrizes das mentalidades do pensamento e comportamento filosófico-religioso, que são os modelos psicológicos encontrados nas seitas judaico-cristãs (fariseus, saduceus, essênios, escribas, terapeutas, nazarenos, samaritanos, etc.) e que foram objeto intenso de análise, crítica e analogia comportamental nas parábolas e cenas vivenciais de Jesus registradas nos evangelhos.
 
 
Antes de serem judaico-cristãos esses arquétipos ideológicos são humanos e poderiam ser encontrados em qualquer cultura humana, exatamente porque eles representam a síntese dos problemas e contradições da experiência moral humana em processo dialético de transformação (o velho versus o novo). Assim como encontramos na mitologia grega os tipos psicológicos envolvidos com eternos conflitos existenciais, na cultura judaico-cristã temos personagens de comportamento semelhante. Dessa forma, quem ingressa no pensamento e no movimento espírita não assimila de imediato sua essência doutrinária porque já carrega no seu psiquismo essas marcas culturais que precisam ser aclimatadas ao novo ambiente ideológico.
 
 
Até mesmo Allan Kardec, ao fazer essa relação entre a cultura dos Espíritos com a cultura humana deixou sua marca pessoal, seu ponto de vista e suas referências psicológicas na elaboração da doutrina espírita. Os próprios espíritos que emitiram e opinaram sobre conceitos filosóficos nas obras básicas espíritas são caracterizados por essas marcas culturais. Mas todos eles, apesar dessas diferenças pessoais de enfoque, trazem em comum a marca herética nos seus pensamentos e emoções. Querem demolir o passado e construir um futuro sem os erros que direta ou indiretamente ajudaram a cometer.
 
 
A filosofia espírita é muito abrangente em relação aos problemas humanos e cosmogonias do universo. Porém, é no terreno moral e comportamental que está a sua razão de ser, a raiz vital que vai interferir e gerar mudanças no terreno social. Saber quem somos, de onde viemos e para onde vamos não implica nenhuma repercussão no meio exterior se não houver repercussões significativas no conjunto de elementos morais que formam o nosso mundo íntimo e que nos serve de bússola existencial. É aí que entram em cena os códigos morais que surgem em todas as civilizações.
 
 
O Evangelho de Jesus é um deles e expõe perfeitamente todos os princípios que identificam as leis universais e as propostas de transformação evolutiva do ser humano que encontramos em todos os demais códigos. Não existe nele nada de superior ou inferior aos outros. Ele é apenas o código mais adequado para necessidades que nele se identificam. Todos os exageros que nele encontramos geralmente são erros de interpretação elaborados tendenciosamente com alguma intenção menos digna de bloquear o progresso e a liberdade humana, como o controle, o exibicionismo, a ameaça e a exploração ideológica.
 
 
Enquanto os espíritas permanecerem ligados intelectual e emocionalmente aos autênticos conceitos dessa doutrina, sua ligação com o Evangelho será sempre histórica e pura e este será um código moral harmônico, representando a constância, o equilíbrio, a sensatez, a consciência, a autenticidade e a espontaneidade humanas. Do contrário, sem essa relação de fidelidade, ele será sempre incompreensível, impraticável, conflituoso, passional, hipócrita, artificial, formal, etc. Por isso, todo rótulo que se dá ao Espiritismo é superficial e insignificante em relação à sua grandeza doutrinária.
 
 
O Espiritismo não é apenas uma religião, porque não é pequeno e limitado como as religiões têm sido praticadas; não é apenas uma filosofia porque antecede e ultrapassa as premissas filosóficas humanas, dessas que se viciam na ginástica intelectual prolixa e inútil; não é também apenas uma ciência porque não se restringe, como a maioria delas, ao jogo interesseiro, repetitivo e espetacular de fenômenos. É, ao mesmo tempo, tudo isso, no sentido de que possui religiosidade própria, tem uma mística sadia e inconfundivelmente cósmica, possui uma filosofia tão nobre e inteligente quanto a grega e contextualizada e pragmática como a romana; possui uma ciência objetiva e cujas intenções são as mais verdadeiras e humanas, como a prova da imortalidade e o exercício da cura. Por acaso não encontramos tudo isso relatado na experiência vivencial de Jesus? Não é essa a essência das parábolas, das bem-aventuranças, reconhecidas em nosso tempo pela sabedoria do Mahatma Gandhi com o verdadeiro espírito da Lei Universal? Não é esse o sentido verdadeiro dessas palavras do Espírito de Verdade: “....dissipar as trevas, confundir os orgulhosos e glorificar os justos” ?
(Conferência realizada no Instituto Cultural Kardecista de Santos- ICKS, em 14 de fevereiro de 2003)


sábado, 22 de outubro de 2011

UMBANDA NÃO É ESPIRITISMO

Origem, conteúdo doutrinário e prática ritual, estabelecem as diferenças fundamentais entre o Espiritismo e Umbanda. Apesar da clareza dessas distinções, isso não deve ser razão impossibilitante para que entre Espíritas e Umbandistas haja respeito mútuo, espírito de compreensão e sensatez, embora essa tolerância não deva resultar em conivência ou omissão.



Deolindo Amorim, em seu livro "O Espiritismo e as Doutrinas Espiritualistas" (1), conclui, afirmando: "O Espiritismo é uma doutrina que se basta a si mesma, sem empréstimos nem acréscimos artificiais.".


A luz dessa precisa orientação, observamos que nem mesmo nos arraiais espíritas essa diferença é feita, especialmente pôr aqueles que não se dão ao trabalho de estudar a Doutrina, sem falar em parte da imprensa leiga que, de propósito ou não, anuncia tudo o que ocorre nas tendas e terreiros, como sendo Espiritismo, disso se beneficiando os opositores sistemáticos da Doutrina Espírita que esperam levar vantagem com a confusão estabelecida.


Fala-se em "baixo Espiritismo" e "alto Espiritismo"; em "Espiritismo de mesa" e "Espiritismo de terceiro", etc., como se houvesse mais de um Espiritismo!


Quanto a origem, sabemos que Espiritismo, doutrina codificada pôr Allan Kardec, recebida de vários Espíritos Superiores no século passado, caracteriza-se pôr um conjunto de princípios de ordem científica, filosófica e religiosa, que objetiva o progresso espiritual do homem, com a implantação da fraternidade entre todas as criaturas na Terra.(2)


A Umbanda se deriva, fundamentalmente, do culto religioso da raça negra da velha África. Os seus princípios doutrinários são realmente frutos do "folclore", dos provérbios, aforismos, das lendas, crenças populares, canções e tradições do negro africano.


Com referência ao conteúdo doutrinário, sabemos que o Espiritismo se assenta em postulados científicos, filosóficos e éticos, o que não se dá na Umbanda, que não tem doutrina codificada, embora seus adeptos aceitem a imortalidade da alma, a reencarnação e a lei de ação e reação (carma), como fazem os espíritas (2).


Quanto a prática ritual, a umbanda difere, essencialmente, do Espiritismo, porque aquela atua no plano da natureza e este no do pensamento, pois que só o Espírito conta, realmente. Aliás o Espiritismo não tem ritual de nenhuma espécie, pois não admite corpo sacerdotal hierarquizado ou não, cerimônias (batizados, casamentos e quaisquer outras); não se utiliza de fórmulas, invocações, ou promessas de qualquer natureza; repele a adoração de imagens, símbolos, amuletos; rejeita crendices e superstições e não admite pagamento pela prestação de assistência espiritual ou de qualquer auxílio, que conceda aos necessitados. (2)


As tentativas para fundamentar a introdução de rituais, incensos, imagens e outros objetos de culto material no meio espírita invocam, sempre, um pressuposto espiritualista, como generalidade, ou fazem apelo à tolerância. Não há, entretanto, razão alguma para tais pretextos, uma vez que o Espiritismo, pelas suas disposições doutrinárias, dispensa completamente qualquer forma de ritual ou peças litúrgicas. (1)


Assim sendo, onde houver qualquer manifestação de culto exterior, não existirá a verdadeira prática espírita.


Apesar do louvável entusiasmo de alguns espíritas para a comunhão de seitas religiosas no seio da doutrina, a mistura heterogênea sempre sacrifica a pureza íntima da essência! A qualidade de substância espírita reduzir-se-ia pela quantidade da mistura de outros ingredientes religiosos, mas adversos!


O Espiritismo, não é doutrina separatista, nem ecletismo religioso à superfície do Espírito imortal! É, principalmente, um movimento de solidariedade fraterna entre todos os homens! Pode ser ecletismo espiritual unindo em espírito todos os credos e religiões, porque, também firma suas doutrinas e postulados na realidade imortal. Mas seria insensato a mistura heterogênea de práticas, dogmas, princípios e composturas devocionais diferentes, entre si, para construir outro movimento espiritualista excêntrico.


A missão da Doutrina Espírita, enfim, é libertar o homem e não prendê-lo ainda mais às fórmulas e superstições do mundo carnal transitório.


Finalizamos, fazendo nossas, as observações sensatas do Espírito Emmanuel, através do médium Francisco Cândido Xavier, na mensagem "Doutrina Espírita", extraída do livro "Religião dos Espíritos", concitando os Espíritas a zelarem pela doutrina que professam:


"... Porque a Doutrina Espírita é em si a liberdade e o entendimento, há quem julgue seja ela obrigada a misturar-se com todas as aventuras marginais e com todos os exotismos, sob pena de fugir aos impositivos da fraternidade que veicula.


Dignifica, assim, a Doutrina que te consola e liberta, vigiando-lhe a pureza e a simplicidade, para que não colabores, sem perceber, nos vícios da ignorância e nos crimes do pensamento.


"Espírita" deve ser o teu caráter, ainda mesmo te sintas em reajuste, depois da queda.


"Espírita" deve ser a tua conduta, ainda mesmo que estejas em duras experiências.


"Espírita" deve ser o nome de teu nome, ainda mesmo respires em aflitivos combates contigo mesmo.


"Espírita" deve ser o claro adjetivo de tua instituição, ainda mesmo que, pôr isso, te faltem as passageiras subvenções e honrarias terrestres.


Doutrina Espírita quer dizer Doutrina do Cristo.


E a Doutrina do Cristo é a doutrina do aperfeiçoamento moral em todos os mundos.


Guarda-a, pois, na existência, como sendo a tua responsabilidade mais alta, porque dia virá que serás naturalmente convidado a prestar-lhe contas. (3)



Bibliografia:

Amorim, Deolindo - "O Espiritismo e as Doutrinas Espiritualistas";

1. Barbosa, Pedro Franco - "Espiritismo Básico";

2. Xavier, Francisco Cândido - "Religião dos Espíritos", mens. "Doutrina Espírita", pág. 229, 4a edição FEB - Rio de Janeiro - RJ.

Artigo publicado em Manaus, no jornal A Crítica de 09.10.1989, no jornal A Crítica de 26.08.1995, no Rio de Janeiro em O Reformador (FEB) de Abril de 1996, no Acre, no Jornal Acre Espírita de Junho de 1996.

Fonte: Portal Espírito.org.br & O Blog dos Espíritas