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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

KARDEC e as PALAVRAS

Por Maria das Graças Cabral





Ao iniciarmos o estudo de O Livro dos Espíritos, nos deparamos em sua introdução, com o grande cuidado de Allan Kardec, para com as palavras a serem empregadas no corpo doutrinário espírita. Num primeiro momento, poderíamos entender que tal diligência, se devesse ao fato de ser o Codificador por formação acadêmica, um pedagogo, lingüista insigne, que falava alemão, inglês, italiano, espanhol e holandês. Escreveu gramáticas, aritméticas, estudos pedagógicos superiores; traduziu obras inglesas e alemãs. Ou seja, na condição de poliglota e profundo conhecedor da língua francesa, seu idioma pátrio, sabia da importância das palavras para que um discurso fosse claro, e alcançasse seu objetivo. 



Não obstante, poderíamos também considerar, que na condição de organizador de toda uma gama de conhecimentos, advindos de Espíritos de alta evolução para a estruturação de uma obra, que segundo J. Herculano Pires, seria “o código de uma nova fase da evolução humana”, buscasse ‘cuidar’ das palavras a serem empregadas nessa sistematização, de forma a evitar que o uso inadequado das mesmas, viesse a “desvirtuar” os preceitos doutrinários.

E assim, o Codificador inicia a Introdução de O Livro dos Espíritos dizendo que: - “Para as coisas novas necessitamos de palavras novas, pois assim, o exige a clareza de linguagem, para evitarmos a confusão inerente aos múltiplos sentidos dos próprios vocábulos.” Observa-se claramente, que o mestre trata a doutrina como algo inovador, ciente da grandeza de suas revelações. Sabia que os assuntos abordados, envolviam grandes questionamentos da humanidade, que até então nunca haviam sido tratados tão objetivamente. Não queria portanto, que palavras com sentidos já definidos, distorcessem os preceitos fundamentais da nova doutrina.

Em seguida, o Mestre Lionês reporta-se às palavras espiritual, espiritualista, espiritualismo, demonstrando que as mesmas já tinham uma significação bem definida - entendendo-se por espiritualismo - toda filosofia religiosa que prega a existência de um ser ou realidade distinto da matéria. Entendia Kardec, que não aplicando à Doutrina Espírita tais palavras, evitar-se-ia a multiplicação das já numerosas causas de ambigüidade e de duplo sentido, (anfibologia), que acabariam por gerar graves conflitos de entendimento.

Daí, o codificador estabelece que “em lugar das palavras espiritual e espiritualismo” - para designar a Doutrina dos Espíritos - a palavra adequada seria espírita ou espiritismo. E conclui afirmando, que “Os adeptos do Espiritismo serão os espíritas, ou se o quiserem, espiritistas.” Segundo Kardec, O Livro dos Espíritos tem como especialidade a Doutrina Espírita, e como generalidade o Espiritualismo, daí, a referida obra traz abaixo do título, as palavras Filosofia Espiritualista.

Ocorre, que o cuidado de Kardec, foi totalmente negligenciado pelos espíritas. É fato que identifica-se na abundância de obras publicadas, nos discursos e na fala da grande maioria dos espiritistas, não só palavras, mas teorias e filosofias, totalmente estranhas ao corpo doutrinário espírita, e que alteram frontalmente os seus preceitos.

Aliás, desde a morte de Kardec, o Espiritismo vem sofrendo cruéis distorções. Vale lembrar que a própria Revista Espírita, com a sua morte, caiu nas mãos de Pierre Gaëtan Leymarie, que por seu excessivo espírito de tolerância, desvirtuou a finalidade da mesma, abrindo suas páginas à propaganda de filosofias espiritualistas, inclusive à de Roustaing, que diverge frontalmente do Espiritismo.

Não obstante, faz-se por oportuno ressaltar, os desdobramentos sofridos pela palavra “espírita“, designada por Kardec aos adeptos da Doutrina dos Espíritos. O referido vocábulo, viria a ser acompanhado de certos adjetivos, visando fazer uma distinção ideológica no próprio meio espírita. Nos idos de 1860, quando o Brasil despertava para o estudo da nova doutrina, recém chegada ao país, já começavam a surgir divergências de pensamento com relação aos aspectos filosófico, científico e religioso da mesma. Diante da discordância, passaram os espíritas da época a serem identificados, dependendo da linha de pensamento, por espíritas científicos, espíritas místicos, ou espíritas kardecistas.

Com o passar do tempo, algumas adjetivações se consubstanciaram, como é o caso do “espírita cristão”, que é a denominação dada ao adepto do Espiritismo Cristão, lançado pelo advogado de Bodeaux e opositor de Kardec, Jean Baptiste Roustaing, na obra Os Quatro Evangelhos, editado pela FEB.


Hodiernamente, a variedade de adjetivos aumentou grandemente dentro do movimento espírita, posto que, se tem espírita, roustenguista, chiquista, andreluizista, laico, religioso, kardecista, ramatista, livre-pensador, etc. Pode-se asseverar que hoje, o movimento espírita é formado por numerosas correntes espiritualistas, conhecidas como Espiritismo.

Não obstante, na busca por uma identidade filosófica e/ou religiosa, e em razão da ‘anfibologia’ criada para a palavra ‘espírita’, aquele que se considera adepto da Doutrina dos Espíritos, positivada nas Obras Fundamentais que formam o Pentateuco, e codificadas pelo mestre Allan Kardec, identifica-se como “espírita kardecista“, ou simplesmente “kardecista“, distinguindo-se das demais correntes de pensamento espiritualista, e dos seguidores de cultos afro-brasileiros, os quais também se auto-denominam espíritas.

Alguns companheiros, julgam que “espírita kardecista” seria uma redundância, pois todo Espiritismo deveria ser kardecista. É fato que seria uma redundância, se não estivéssemos diante de tantas correntes espiritualistas que adotaram a denominação de espírita.

Vale ressaltar, que há inúmeros espíritas que não são kardecistas. Alguns nunca leram nenhuma obra codificada por Allan Kardec. Seriam considerados crentes. Não obstante, a Doutrina Espírita é uma doutrina anti-dogmática, racional e evolucionista, que prega a fé raciocinada, e exige de seus adeptos o estudo constante e aprofundado de seus princípios libertadores, positivados nas obras fundamentais, quais sejam: O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno, A Gênese, o pequeno livro introdutório ao estudo da doutrina O que é o Espiritismo e Obras Póstumas, que segundo J. Herculano Pires, representa o testamento doutrinário de Allan Kardec.

Diante do exposto, é fato que os cuidados do Codificador para que a Doutrina dos Espíritos não se ‘perdesse nas palavras’, não impediu que tal fato ocorresse.

Hodiernamente, aqueles que estudam a codificação com dedicação e de forma atenta, constatam com profundo pesar, a adulteração dos preceitos doutrinários, presentes nas traduções e nas novas edições das obras fundamentais da Doutrina Espírita; na ‘importação’ de filosofias estranhas aos preceitos espíritas presentes na vasta produção literária publicada e divulgada; nos discursos, falas e textos. Enfim, a anfibologia se faz presente no discurso espírita, apesar de todo o cuidado de Kardec em evitar que o Espiritismo viesse a se enredar em suas malhas, gerando os atuais conflitos de entendimento.

Aliás, é fato que o desvirtuamento da Doutrina dos Espíritos, já vai muito além das palavras e das fronteiras, posto que o Brasil, é o maior exportador de obras e de divulgadores espíritas.

Na verdade, a cada dia, me admiro mais e mais com o que leio, ouço e presencio, por parte de espíritas, independentemente de classe social ou do grau de escolaridade. Como também, me espanto com os rumos tortuosos tomados pelo movimento espírita brasileiro.

Não obstante, não podemos abandonar a luta. Alguns companheiros já me perguntaram: - Fazer o que, diante da dimensão do problema? Resposta que não quer calar: - Cada um faça a sua parte. Não sejamos omissos, covardes, ou acomodados, pois a responsabilidade é individual. Vamos com muito amor e disposição, viver, estudar e divulgar com fidelidade a Doutrina Espírita, positivada com brilhantismo nas obras fundamentais, pelo gênio do insigne codificador Allan Kardec. As conseqüências virão naturalmente com o tempo. Afinal, somos Espíritos eternos!




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
CABRAL, Maria das Graças. Quem foi Hyppolite Leon Denizar Rivail, mundialmente conhecido como Allan Kardec? IN: http://umolharespirita1.blogspot.com/
CABRAL, Maria das Graças. Os Inimigos do Espiritismo. (Parte II) IN: http://umolharespirita1.blogspot.com/
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Ed. LAKE, SP/SP, 62ª edição, 2001.
LARA, Eugênio. Kardecista ou Espírita? IN: http://www.espiritnet.com.br/

domingo, 30 de outubro de 2011

Kardec e os conselhos de Erasto

                                                                                    Por Anderson Santiago



Considerado por Allan Kardec como um Espírito que produziu comunicações que traziam o cunho incontestável da profundeza e da lógica, Erasto é um daqueles Espíritos a quem podemos chamar de sábio e profundo conhecedor da fenomenologia mediúnica. Não por acaso são encontradas muitas comunicações de sua autoria em um capítulo de O Evangelho segundo o Espiritismo e por todo O Livro dos Médiuns.


O capítulo XX, Influência Moral do Médium, é um destes. Tendo por objetivo aprofundar o conhecimento sobre a influência moral do médium na produção dos fenômenos espíritas, este capítulo é rico em informações para os espiritistas. Nele, Kardec desejava precaver os adeptos do Espiritismo contra o perigo de subestimar ou superestimar a influência dos médiuns na transmissão dos despachos de além túmulo.



Ele deve ser estudado atendendo ao sábio conselho dado pelo codificador, quando alerta que “o estudo prévio da teoria é indispensável, se o médium pretende evitar os inconvenientes inseparáveis da falta de experiência” [1]. Aprendemos neste capítulo que não existem médiuns perfeitos na Terra, mas bons médiuns, o que segundo os Espíritos já é muito, pois eles são raros! Até porque, “O médium perfeito seria aquele que os maus Espíritos jamais ousassem fazer uma tentativa de enganar. O melhor é o que, simpatizando somente com os bons Espíritos, tem sido enganado menos vezes”.



É importante observar este trecho com atenção. Primeiro, porque não existe médium infalível. O que nos leva à certeza de que não há comunicação isenta de falhas, muito menos inquestionável. Segundo, porque se o melhor médium é o que tem sido enganado menos vezes, como supor que exista algum ‘intocado’ pelos Espíritos inferiores? Por exemplo: justamente pelo valor da sua história e da sua importância para o movimento espírita brasileiro e mundial, supor ser o Chico Xavier perfeito e isento de falhas seria demonstrar ignorar os mais básicos princípios do Espiritismo. Condenar uma análise crítica feita sobre alguma das suas obras psicografadas seria ignorar as insistentes recomendações feitas por Kardec e principalmente por São Luís quando afirma que “Por mais legítima confiança que vos inspirem os Espíritos [...], há uma recomendação que nunca seria demais repetir e que deveis ter sempre em mente ao vos entregardes aos estudos: a de pesar e analisar, submetendo ao mais rigoroso controle da razão TODAS as comunicações que receberdes; a de não negligenciar, desde que algo vos pareça suspeito, duvidoso ou obscuro, de pedir as explicações necessárias para formar a vossa opinião”(Grifos nossos). [2]



A questão 10, do capítulo supracitado é valiosíssima por afirmar que “Os Espíritos bons permitem que os melhores médiuns sejam às vezes enganados, para que exercitem o seu julgamento e aprendam a discernir o verdadeiro do falso. Além disso, por melhor que seja um médium, jamais é tão perfeito que não tenha um lado fraco, pelo qual possa ser atacado. Isso deve servir-lhe de lição. As comunicações falsas que recebe de quando em quando são advertências para evitar que se julgue infalível e se torne orgulhoso. Porque o médium que recebe as mais notáveis comunicações não pode se vangloriar mais do que o tocador de realejo, que basta virar a manivela de seu instrumento para obter belas árias”.



É incrível observar que se a maioria dos médiuns se propusesse a estudar esta magnífica obra de forma séria e metódica, a prudência teria evitado que diversas obras de conteúdo duvidoso tivessem sido publicadas, o que tornaria o movimento espírita brasileiro muito mais sério, respeitado e livre dos pseudossábios e mistificadores que entravam a sua obra de emancipação de consciências.



Entretanto, por mais sublimes e indispensáveis sejam estas informações, não são as únicas pérolas encontradas neste capítulo. Existe ainda uma advertência de Erasto com relação às comunicações repletas de ideias heterodoxas, “espiriticamente falando”que possam vir dos Espíritos e que poderiam ser insinuadas em meio às coisas boas junto a fatos imaginados, asserções mentirosas, com tamanha habilidade que poderiam enganar as pessoas de boa fé. Ele ainda estimula a eliminação sem piedade de toda palavra e toda frase equívoca, conservando-se na comunicação somente o que a lógica aprova ou o que a doutrina já ensinou; afirma que “onde a influência moral do médium se faz realmente sentir é quando este substitui pelas suas ideias pessoais aquelas que os Espíritos se esforçam por lhe sugerir. É quando ele tira da sua própria imaginação, as teorias fantásticas que ele mesmo julga, de boa fé [mas nem sempre], resultar de uma comunicação intuitiva”(Grifos nossos). Erasto também alerta ser necessário aos dirigentes espíritas possuírem um tato apurado e uma rara sagacidade para poder discernir as comunicações verdadeiras e não ferir o amor próprio daqueles que se permitem iludir com jóias falsas.



É neste momento que ele nos oferece um de seus mais famosos e importantes conselhos: “Na dúvida, abstém-te, diz um dos vossos provérbios. Não admitais, pois, o que não for para vós de evidência inegável. Ao aparecer uma nova opinião, por menos que vos pareça duvidosa, passai-a pelo crivo da razão e da lógica. O que a razão e o bom senso reprovam rejeitai corajosamente. MAIS VALE REJEITAR DEZ VERDADES DO QUE ADMITIR UMA ÚNICA MENTIRA, UMA ÚNICA TEORIA FALSA. Com efeito, sobre essa teoria poderíeis edificar todo um sistema que desmoronaria ao primeiro sopro da verdade, como um monumento construído sobre a areia movediça. Entretanto, se rejeitais hoje certas verdades, porque não estão para vós clara e logicamente demonstradas, logo um fato chocante ou uma demonstração irrefutável virá vos afirmar a sua autenticidade”.



Embora ela tenha se tornado uma regra de ouro [a frase destacada em maiúsculo], conforme J. Herculano Pires afirmou, devendo ser constantemente observada nos trabalhos e estudos espíritas, isolada do seu contexto ela perde a sua riqueza, o seu caráter especial, ficando deslocada e nem sempre parecendo justa. Analisemos a sua estrutura.



Primeiro reencontramos um sábio provérbio: “na dúvida, abstém-te”. Pois quem nunca duvidou não pode afirmar que encontrou a verdade, que adquiriu a convicção. O codificador é um belo exemplo de como a dúvida, sem exageros, conduz à verdade. É valiosíssimo o depoimento de Kardec encontrado em Obras Póstumas, onde ele afirma que um dos primeiros resultados das suas observações foi saber que os Espíritos nada mais são que as almas dos homens, possuindo conhecimentos limitados à sua condição evolutiva e que por isto as suas opiniões tinham o valor de uma opinião pessoal, nada mais. Foi esta verdade, compreendida desde o início que o protegeu de acreditar ingenuamente na infalibilidade dos Espíritos e de elaborar teorias prematuras com base nos ditados de uns ou de alguns [5]. Quantas teorias não são construídas dentro desta perspectiva? Os vários corpos do perispírito, em gritante oposição ao conceito formulado pelo codificador, a magia, as informações e afirmações sobre Física Quântica relacionados com o Espiritismo são alguns exemplos de ‘teorias’ edificadas em informações pessoais dos Espíritos como se fossem absolutamente verdadeiras. Elas não foram observadas, analisadas, criticadas, reavaliadas para serem aceitas como verdades verificadas. Aqui é onde entra a importância da abstenção. Pois se não possuo a firme convicção oriunda da análise sistemática, racional e eminentemente lógica e da experiência, como posso supor que uma determinada informação é verdadeira? Não podemos agir por achismos dentro do movimento espírita.



Em segundo lugar encontramos a importância de passar toda opinião, por menos duvidosa que pareça, pelo crivo da razão e da lógica. Como afirma Erasto, “é incontestável que, submetendo-se ao cadinho da razão e da lógica todas as observações sobre os Espíritos e todas as suas comunicações, será fácil rejeitar o absurdo e o erro”[6]. As palavras destacadas dão um valor importantíssimo à citação. Primeiro porque ressalta a importância de que haja um exame severo sobre os Espíritos comunicantes e suas comunicações. Segundo por que para Erasto, quem assim procede, não encontra dificuldades em perceber a ponta da orelha do mentiroso, do pseudossábio, do fanfarrão. Até porque estes Espíritos mistificadores podem, fingindo amor e caridade, semear a desunião e retardar o progresso da humanidade e da Ciência Espírita ao propagarem seus sistemas absurdos, muitas vezes com a ajuda não só de médiuns imprevidentes, mas de casas espíritas que se julgam privilegiadas, ou onde reinam a superstição e a falta de um estudo sistemático da Codificação. Não é à toa que Herculano Pires escreve que a “confiança de Kardec na análise racional das comunicações é acertada, mas depende do critério seguro de quem analisa. Por isso mesmo é conveniente fazer a análise em conjunto e recorrer, no caso de dúvida, a outras pessoas de reconhecido bom senso. O Espírito farsante pode influir sobre um indivíduo e sobre um grupo, o que tem ocorrido com freqüência em virtude da vaidade, da pretensão ou do misticismo dominante. Comunicações avulsas e até obras mediúnicas alentadas, evidentemente falsas, têm sido publicadas, aceitas e até mesmo defendidas por grupos e instituições diversas”. [3]



Terceiro, após as considerações acima expostas, compreendemos que o conselho do Erasto visa antes à prudência que o exagero. E isto fica muito claro quando ele desenvolve seu raciocínio, no fim deste parágrafo, ao afirmar que se hoje rejeitamos certas verdades, pelo fato de não estarem devidamente demonstradas amanhã um fato “chocante” poderá afirmar a sua autenticidade. E este é o ponto chave da sua afirmação, pois se não temos certeza de uma opinião, como podemos provar a sua autenticidade? Por mais respeitável que seja o nome que subscreva a comunicação, por mais atraente que seja uma teoria, só o tempo e uma metodologia de pesquisa adequada poderão provar que ela está correta. É por isto que não devemos ter medo de rejeitar uma ideia, sem, no entanto, ignorar que ela pode, se for testada e averiguada, provar estar certa. Esta observação é confirmada por Kardec da seguinte forma: “Se é certo que a utopia de hoje se torna muitas vezes a verdade de amanhã, deixemos que o futuro realize a utopia de hoje, mas não enredemos a Doutrina com princípios, que possam ser considerados quimeras e a tornem rejeitada pelos homens positivos” [4].



Como pudemos ver nesta sucinta análise, não é absurdo rejeitar dez verdades para não ter que aceitar uma mentira porque não estão clara e logicamente demonstradas. E é justamente por conselhos como estes, compreendidos em seu contexto, que Kardec considerou Erasto um Espírito Superior, pois só um poderia ensinar tanto com tão pouco. O estudo das suas mensagens deve ser obrigatório nas casas espíritas. E diferente de outros “espíritos famosos” da atualidade, muito verbosos e prolixos, com suas dezenas de perispíritos e magos, este sim é um ilustre desconhecido que precisa ser redescoberto!
 
REFERÊNCIAS
[1] KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 23ª Ed. SP – LAKE, 2004. Cap. XVII, p. 177
[2] ______. Idem. Cap. XXIV, item 266, p. 236
[3] ______. Idem, ibidem
[4] ______. Obras Póstumas. 14ª Ed. SP, LAKE – 2007. Segunda parte, Dos Cismas, p. 282
[5] ______. Idem, p. 218
[6] ______. O Evangelho segundo o Espiritismo. 61ª Ed. SP – LAKE, 2006. Cap. XXI, item 10, p. 265
Fontes:
- Blog "Análises Espíritas" http://analisesespiritas.blogspot.com/2011/08/kardec-e-os-conselhos-de-erasto.html

- O Blog dos Espíritas http://oblogdosespiritas.blogspot.com/2011/10/kardec-e-os-conselhos-de-erasto.html


sábado, 27 de agosto de 2011

Quem foi “Hippolyte Léon Denizard Rivail“, conhecido mundialmente como “Allan Kardec“?


Maria das Graças Cabral


Quem foi Allan Kardec, ou, quem foi Hippolyte Léon Denizard Rivail, que abriu mão de sua identidade, individualidade, atividades profissionais, para tornar-se Allan Kardec, o Codificador da Doutrina Espírita? Nos informam seus biógrafos que Hippolyte Léon Denizard Rivail nasceu na cidade de Lion na França, no início do séc. XIX, no dia 3 de outubro do ano de 1.804. Descendente de antiga família lionesa, católica, foram seus pais Jean-Baptiste Antoine Rivail, juiz, e Jeanne Louise Duhamel.

Realizou seus primeiros estudos em Lion e com a idade de dez anos, seus pais o enviaram para Yverdun, cidade suíça, a fim de estudar no célebre Instituto de Educação ali instalado em 1805 pelo professor-filantropo Johann Heinrich Pestalozzi, onde permaneceu até tornar-se pedagogo.

Lingüista insigne, falava alemão, inglês, italiano, espanhol e holandês. Traduziu para o alemão obras de autores clássicos franceses, especialmente os escritos de Fénelon (François de Salignac de la Mothe). Fundou em Paris – com sua esposa Amélie Gabrielle Boudet um estabelecimento semelhante ao de Yverdun. Escreveu gramáticas, aritméticas, estudos pedagógicos superiores; traduziu obras inglesas e alemãs. Organizou, em sua casa, cursos gratuitos de química, física, astronomia e anatomia comparada.

Membro de várias sociedades sábias, notadamente da Academia Real de Arras, foi premiado, por concurso, em 1831, com a monografia “Qual o sistema de estudo mais em harmonia com as necessidades da época?” Dentre as suas obras, destacam-se: Plano apresentado para o melhoramento da instrução pública (1828); Curso prático e teórico de aritmética (1829, segundo o método de Pestalozzi); e Gramática francesa clássica (1831).

Entretanto, segundo suas próprias palavras transcritas no livro Obras Póstumas foi no ano de 1854 que ouviu falar pela primeira vez em ‘mesas girantes’, quando assim se expressa: - “Encontrando-me um dia com o Sr. Fortier, magnetizador que eu conhecia, havia muito, e disse-me ele: - Sabeis que se acaba de descobrir no magnetismo uma singular propriedade? Parece que não somente as pessoas que se magnetizam, mas também as mesas que giram e andam à nossa vontade. - É com efeito singular - respondi-lhe - mas isso não me parece rigorosamente impossível".

"O fluido magnético, espécie de eletricidade, pode muito bem atuar sobre os corpos inertes e fazê-los mover. (...) Tempos depois, tornei a encontrar Fortier, que me disse: - Mais extraordinário do que fazer uma mesa girar e andar é fazê-la falar: perguntam e ela responde“.
- “Isso é outra questão - respondi-lhe - só acreditarei se vir ou se me provarem que a mesa tem cérebro para pensar, nervos para sentir e que pode tornar-se sonâmbula. Até então, permita-me que considere isso uma história fabulosa“.


Observamos em Hippolyte Rivail, o comportamento de um cientista racional, que não se deixava levar por relatos ou notícias bombásticas, quando não via fundamento lógico ou comprovação científica para o fenômeno. Entretanto, não se fechava à possibilidade de observação e análise objetivando firmar seu próprio convencimento, demonstrando que apesar de ser um homem de 50 anos de idade, tinha uma mente aberta ao acolhimento do novo, com toda a força e obstinação de um jovem!

Afirma que passado um ano do encontro com o Sr. Fortier, mais precisamente em princípios de 1855, encontra o Sr. Carlotti, seu amigo há vinte e cinco anos, pessoa de natureza ardente e enérgica, que lhe falou dos fenômenos que o preocupavam. Entretanto, assevera Hippolyte Rivail, que em razão da natureza um tanto quanto entusiasta do amigo, contando coisas surpreendentes, longe de o convencerem, aumentaram as suas dúvidas; até que algum tempo depois, em maio de 1855, foi à casa da Srª Roger, sonâmbula, em companhia de Fortier, seu magnetizador, e ali encontrou o Sr. Pâtier e a Srª Plainemaison, que lhe falaram no mesmo sentido que Carlotti, mas em outro tom, fazendo-o aceitar um convite para assistir às experiências que se realizavam na casa da Srª Plainemaison.

Aqui são as palavras de Rivail: - “Longe estava eu de firmar as minhas idéias, mas ali se deparava um fato, que devia ter uma causa. Entrevi, oculto naquelas futilidades aparentes, e entre aqueles fenômenos, de que se fazia um passatempo, algo de muito sério, talvez a revelação de uma nova lei, que fiz o propósito de descobrir“. E prossegue: - “Foi ali que fiz os meus primeiros estudos sérios sobre o Espiritismo, não tanto pelas revelações, como pelas observações. Apliquei a esta ciência o método experimental, não aceitando teorias preconcebidas, e observava atentamente, comparava e deduzia as conseqüências, dos efeitos procurava elevar-me às causas, pela dedução e encadeamento dos fatos, não admitindo por valiosa uma explicação, senão quando ela podia resolver todas as dificuldades da questão. Foi assim que procedi sempre em meus anteriores trabalhos desde os 15 anos“. (grifei)

Portanto, podemos identificar em Hippolyte Rivail um grande pesquisador, com uma visão que ia muito além das pessoas comuns. Enquanto que para a sociedade européia o fenômeno das ‘mesas girantes e falantes’ não passava de entretenimento, o Mestre Lionês conseguiu entrever um fenômeno muito mais complexo, de dimensões inimagináveis, que iria revolucionar dogmas religiosos, científicos e filosóficos, como também sua própria vida, tornado-o Allan Kardec, o Codificador da Doutrina dos Espíritos!

No que concerne à árdua missão que teve início com suas observações e estudos dos fenômenos espíritas, que levaram à publicação O Livro dos Espiritos, transcrevo a comunicação recebida, quando o Codificador fez a seguinte indagação em uma reunião mediúnica: - “Quais as coisas, que me podem fazer cair? Será a insuficiência da minha capacidade? Resposta. Não; mas a missão dos reformadores é cheia de tropeços e perigos. A tua é rude, previno-te, porque tens de revolver e formar o mundo inteiro. Não suponhas que basta publicar um livro, dois, dez, e ficar tranqüilo em casa; não! será preciso expor a tua pessoa.

Levantarás contra ti ódios terríveis; inimigos encarniçados conjurarão a tua perda; serás alvo da maledicência, da calúnia, da traição, até dos que te parecem dedicados; as tuas melhores instruções serão desprezadas e adulteradas; mais uma vez vergarás ao peso da fadiga; em uma palavra, haverá uma luta quase constante e o sacrifício do teu repouso, da tua tranqüilidade, da tua saúde, e até da tua vida, porque, sem isto, viverias mais tempo. 

Pois bem! Nem um passo para trás tu deves dar quando, em vez de um caminho juncado de flores, encontrares, sob teus pés, urzes, agudas pedras e venenosas serpentes. Para tais missões não basta a inteligência; é preciso, principalmente, para agradar a Deus, humildade, modéstia e desinteresse, porque Ele abate os orgulhosos, os presunçosos e ambiciosos. Para lutar contra os homens é preciso coragem, perseverança e inabalável firmeza; igualmente é preciso prudência e jeito para levar as coisas de modo a não comprometer os acontecimentos por medida ou palavras intempestivas; é preciso finalmente dedicação, abnegação e disposição para o sacrifício, pois vários já recuaram. Já vês que a tua missão é subordinada a condições, que só de ti dependem.” Espírito de Verdade.

Em 1º de janeiro de 1867, ou seja, dez anos e meio depois de haver recebido esta comunicação, Allan Kardec afirma que ela se realizou em todos os pontos, porque segundo seu testemunho, passou por todas as vicissitudes que lhe foram anunciadas.

E assim, quando da organização e publicação da primeira obra da Doutrina Espírita, intitulada O Livro dos Espíritos, publicado em 18 de abril de 1857, Hypolite Léon Denizard Rivail saiu definitivamente de cena, para que Allan  Kardec passasse a existir assumindo a grandiosa missão de Codificador da Doutrina dos Espíritos.

É aí que identificamos o espírito ético e humilde deste homem. Ciente que a obra desenvolvida era “dos Espíritos Superiores“ e não sua, e que Hypolite Léon Denizard Rivail já era um nome conhecido no mundo acadêmico e científico pelo grande número de trabalhos e livros publicados, seria facilmente atribuída a autoria da obra dos Espíritos, à sua personalidade. Portanto, para evitar tal possibilidade, preferiu abrir mão da sua identidade, e adotar o pseudônimo de Allan Kardec - o Codificador.

Em 1859 publica O que é o Espiritismo; em 1861 O Livro dos Médiuns; em 1864 O Evangelho segundo o Espiritismo; em 1865 O Céu e o Inferno, ou A Justiça Divina segundo o Espiritismo; em 1868 A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo. Além da Revista Espírita, órgão de estudos psicológicos, publicação mensal que teve início em 1º de janeiro de 1858.

Fundou em Paris, a 1º de abril de 1858, a primeira sociedade espírita regularmente constituída, com o nome de Societé parisiense des études spirites, cujo fim exclusivo era o estudo de tudo que pudesse contribuir para o progresso da nova ciência.

Sempre defendeu de forma valorosa, inteligente e lógica a Doutrina Espírita contra todos aqueles que tentaram agredi-la ou deturpá-la, pois sempre soube se posicionar dignamente e com grande propriedade frente aos detratores e opositores do Espiritismo! Isto porque, como muito bem preleciona J. Herculano Pires, “ninguém tem condições intelectuais e espirituais para superar Kardec - simplesmente pelo fato de que Kardec, não é um autor isolado, um solitário do pensamento, mas o Codificador, assessorado na Terra pelos companheiros de missão e assistido do além pelos espíritos do Senhor. A obra que nos deixou não é dele, como ele mesmo sempre afirmou, mas dos seus mestres espirituais. A Doutrina que nos legou não é o ’kardecismo’, mas o Espiritismo, ou seja, a Doutrina dos Espíritos.”

Voltou ao plano espiritual em 31 de março de 1869. Segundo biografia publicada pela Revue Spirite, morreu como viveu: trabalhando. Desde longos anos sofria do coração, que reclamava, como meio de cura, o repouso intelectual, com pequena atividade material. Ele, porém, inteiramente entregue às obras, negava-se a tudo o que lhe roubasse um instante das ocupações de predileção.

Portanto, diante desta breve narrativa, constatamos tratar-se Allan Kardec de um Espírito de escol, de uma moralidade inquestionável! Um intelectual, pesquisador obstinado, comprometido, disciplinado e humilde. Tinha ciência de sua enorme responsabilidade espiritual, e procurou atender às expectativas depositadas no seu trabalho, na condição de ’instrumento’ da Espiritualidade Maior, que com ele esteve lado a lado em todo o processo da codificação, até ser recebido amorosamente por toda a plêiade de trabalhadores da grande obra Espírita, quando do seu retorno à pátria espiritual!




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Kardec, Allan. OBRAS PÓSTUMAS. Editora Lake. 2.005, p. 17