sábado, 15 de setembro de 2012

O CÉTICO

Por Maria das Graças Cabral
 
 
Quando Kardec organizou a obra “O Que é o Espiritismo”, travou um diálogo com alguém que se colocava na condição de “cético”, ou seja, aquele indivíduo eivado de dúvidas que não acreditava em absoluto nos fenômenos espíritas. Observe-se que as questões por ele levantadas percorreram os séculos, e ainda persistem ecoando na mente de espíritos encarnados e desencarnados, já em meados do século XXI! Daí, oportuno acompanhar o desenvolvimento de alguns aspectos de seu pensamento, em razão da pertinência e atualidade.
 
 
Inicialmente, uma das questões suscitadas pelo incrédulo, referia-se ao vocábulo espírita e espiritismo, criado por Allan Kardec em substituição a espiritualista e espiritualismo, que seria “o oposto do materialismo”, segundo suas palavras na Introdução de O Livro dos Espíritos.
 
 
O Mestre esclarece que como nem todo o espiritualista crê nos Espíritos, nem na realidade de suas manifestações, a utilização do vocábulo suscitaria uma confusão por parte dos grupos de entendimentos diversos. Portanto, evitando a anfibologia adotou a palavra espiritismo para expressar as ideias codificadas na Doutrina dos Espíritos, e espíritas ou espiritistas aos adeptos do Espiritismo. Assevera o Codificador que “todo espírita é necessariamente, espiritualista, mas levará ainda muito tempo até que todos os espiritualistas se tornem espíritas.” (2001: p. 25).
 
 
Só que a anfibologia temida por Kardec, tomou conta dos vocábulos espiritismo e espírita, posto que, se vivencia hodiernamente uma verdadeira miscelânea de filosofias religiosas que se auto intitulam espiritas. Além do que é “moda” se dizer espírita, é “vendável”, psicografar livros espíritas, “elevam os índices de audiência” novelas espíritas, “lotam” cinemas e teatros filmes e peças espíritas. Ou seja, a palavra “espírita” tornou-se uma marca atraente e rentável e a anfibologia tão combatida pelo codificador, se consolidou.
 
 
Mas voltemos às argumentações do cético, quando ressalta que sendo o Espiritismo considerado uma ciência fundada em fatos positivos, não deveria haver dissidência ou diversidade de crenças entre seus adeptos, como estava ocorrendo na Europa e América.
 
 
A esse respeito, Kardec rebate observando que qualquer ciência no seu aparecimento, dá ensejo a dissidências até que seus princípios sejam definitivamente estabelecidos. Acrescenta que o descobrimento de cada doutrina ocasiona um choque entre os que desejam o progresso e os que teimam em permanecer estacionários.
 
 
Mais uma vez nos deparamos com a conveniência e efetividade do que preconiza o Mestre, quando vivenciamos nos albores do século XXI, as mais diversas dissensões no seio do movimento espírita, graças a um grande número de adeptos, que teimam em manter-se arraigados à idolatria e ao ritualismo religioso, temendo e ignorando a emancipação proposta pela Doutrina Espírita.
 
 
Daí, o interlocutor investe nas “fraudes dos fenômenos espíritas”, tão comuns à época de Kardec, como na atualidade. Em resposta à argumentação proposta, o Mestre indaga: - “Porque se pode imitar uma coisa, devemos acreditar que ela não exista?” Ou seja, se existem médiuns embusteiros, significa que todas as manifestações espíritas são falsificações? (2001: p. 28)
 
 
Aliás, hodiernamente, diante das frequentes notícias de médiuns fraudadores, observa-se um ceticismo crescente nas próprias hostes espíritas. Na realidade vivenciamos os dois extremos. De um lado companheiros de uma credulidade infantil, e de outro lado companheiros de um ceticismo exacerbado. Ou seja, para uns tudo o que provier de um médium e/ou espírito é verdadeiro, e para outros a incredulidade está se sobrepondo ao próprio fato mediúnico.
 
 
E então aonde devemos chegar? Diante da real possibilidade de fraude, que o espírita estude séria e aprofundadamente a parte experimental da doutrina espírita, objetivando obter conhecimento para avaliar e identificar a burla, como reiteradamente preconizava o Codificador.
 
 
Ainda a esse respeito, faz-se por oportuno observar que a mediunidade envolve um processo de alta complexidade, posto que, são individualidades em “planos” diversos que se comunicam através do pensamento e compatibilidade de fluidos. Não obstante, alguém abre mão por algum tempo de sua própria personalidade, para que o outro se manifeste, se mostre, se faça compreender.
 
 
É fato que vários elementos, como p. ex. questões espirituais, psicológicas, ideológicas, intelectuais, morais, dentre outras, afetarão na qualidade da manifestação que nem sempre será fiel ao pensamento e/ou objetivos do comunicante - podendo ser um entendimento equivocado, em razão da própria ignorância do espírito, ou de suas intenções íntimas de mistificar. Como também, poderá haver a dificuldade de alcance e compreensão por parte do médium.
 
 
Diante do exposto retorno a Kardec, quando assevera que não é pelo fato de haver fraudes, que o indivíduo deixa de ser médium. Vale lembrar Eusápia Paladino, que mesmo com fraudes comprovadas, Kardec não deixou de considerá-la uma grande médium.
 
 
Outra questão suscitada pelo opositor incrédulo se referia - na sua concepção - que o espiritismo estava buscando “ressuscitar” as “crenças sobrenaturais.” Afirmava o interlocutor de Kardec, que em um mundo positivista, não haveria mais espaço para superstições e crendices advindas da ignorância popular.
 
 
Oportuno observar que tal argumento se faz muito comumente, quando as pessoas atribuem o “fantasmagórico” e as mais variadas superstições à condição de sobrenatural. Objetivando o esclarecimento da temática aproprio-me das palavras do codificador quando assevera:
 
“Sobrenatural, é o que está fora dos limites regidos pelas leis da natureza. O positivismo só admite estas - mais nada. Conhece-as, porém, todas? Em todos os tempos, os fenômenos cuja causa era desconhecida foram considerados sobrenaturais. Cada nova lei descoberta pela ciência veio dilatar os limites anteriores. O Espiritismo vem revelar uma nova. A comunicação com o espírito de um morto vem revelar uma nova. A comunicação com o espírito de um morto repousa numa lei tão natural quanto as da eletricidade, o que permite que dois indivíduos, separados por quinhentas léguas, estabeleçam contato. O mesmo dá-se com os outros fenômenos espíritas.” (2001: p. 32).
 
 
Finalmente, reporto-me a outra questão levantada pelo nosso companheiro cético, em razão de ser um entendimento defendido com veemência por parte dos que duvidam ou não acreditam na fenomenologia espírita.
 
 
Assevera o interlocutor de Kardec que “os fenômenos provocados são, especialmente, os mais criticados.” Acrescenta, que caso não houvesse charlatanismo e admitindo-se uma completa honestidade, haveria a possibilidade dos médiuns serem vítimas de “alucinação” - tese esta frequentemente defendida pelos que não dão crédito à mediunidade. Ao que o Codificador contrapõe, arguindo que caso o médium por efeito da imaginação acreditasse ver o que não existe, admitir-se-ia que toda a sociedade seria vítima da mesma miragem, e que isso se reproduziria em toda parte e em todos os países. Ou seja, a “alucinação” seria mais prodigiosa que o fato em si.
 
 
Adiante o Mestre comenta que os contraditores “buscam coisas cem vezes mais extraordinárias e difíceis de admitirem (o padre Quevedo que o diga!) do que as que combatem como inadmissíveis.” (2001: p. 38/39).
 
 
Portanto, pode-se observar que o interlocutor incrédulo levantou questões que ainda reverberam nos céticos do nosso tempo, ficando para todos nós a grande lição deixada por Allan Kardec, quando assevera que “o Espiritismo prende-se a todos os ramos da Filosofia, da Metafísica, da Psicologia e Moral, sendo um campo imenso que não podemos percorrer em poucas horas.” Ou seja, a Doutrina dos Espíritos exige do espírita estudo profundo e constante para que se possa esclarecer e desmistificar os inúmeros equívocos disseminados por críticos, céticos e religiosos. Como também pelos próprios espiritistas, que paulatinamente distorcem e minam os princípios doutrinários da codificação, transformando o espiritismo numa seita mística e descaracterizada.
 
 
 
 
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
 
KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo. Editora LAKE. SP/SP. 26ª edição. 2001.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Identidade dos Espíritos nas comunicações particulares

 
(Revista Espírita, julho de 1866)
 
 
 
 
Por que os Espíritos evocados por um sentimento de afeição muitas vezes se recusam a dar provas incontestáveis de sua identidade?

 
Compreende-se todo o valor ligado às provas de identidade da parte dos Espíritos que nos são caros. Tal sentimento é muito natural e parece que pelo fato dos Espíritos poderem manifestar-se deve ser-lhes muito fácil atestar a sua personalidade. A falta de provas materiais é, para certas pessoas, sobretudo para as que não conhecem o mecanismo da mediunidade, isto é, a lei das relações entre os Espíritos e os homens, uma causa de dúvida e de penosa incerteza. Embora tenhamos tratado várias vezes desta questão, vamos examiná-la novamente, para responder a algumas perguntas que nos são dirigidas.

 
Nada temos a acrescentar ao que foi dito sobre a identidade dos Espíritos que vêm unicamente para a nossa instrução, e que deixaram a Terra há algum tempo. Sabemos que ela não pode ser atestada de maneira absoluta e que devemo-nos limitar ao julgamento do valor da linguagem.

 
A identidade não pode ser constatada com certeza senão para os Espíritos que partiram recentemente, cujo caráter e hábitos se refletem em suas palavras. Nestes, a identidade se revela por mil particularidades. Algumas vezes a prova ressalta de fatos materiais, característicos, mas o mais das vezes de nuanças da própria linguagem e de uma porção de pequenos nadas que, por serem pouco evidentes, não são menos significativos.

 
Muitas vezes as comunicações deste gênero encerram mais provas do que se pensa, e que descobrimos com mais atenção e menos prevenção. Infelizmente, na maior parte do tempo, as pessoas não se contentam com o que o Espírito quer ou pode dar; querem provas à sua maneira; pedem-lhe para dizer ou fazer isto ou aquilo; que lembre um nome ou um fato, e isso num momento dado, sem pensar nos obstáculos que por vezes a isto se opõem, e paralisam a sua boa vontade. Depois, obtido o que desejam, muitas vezes querem mais. Acham que ainda não é bastante concludente; após um fato, pedem outro e mais outro. Numa palavra, nunca têm bastante para se convencer. É então que, muitas vezes, fatigado por tal insistência, o Espírito cessa completamente de se manifestar, esperando que a convicção chegue por outros meios. Mas muitas vezes também sua abstenção lhe é imposta por uma vontade superior, como punição ao solicitante muito exigente, e também como prova para a sua fé, porque, se por algumas decepções e não obtenção do que quer e pela maneira pela qual o quer, ele viesse a abandonar os Espíritos, esses por sua vez o abandonariam, deixando-o mergulhado nas angústias e nas torturas da dúvida, feliz quando o seu abandono não tem consequências mais graves.

 
Mas, numa porção de casos, as provas materiais de identidade são independentes da vontade do Espírito e do desejo que ele tem de as dar. Isto se deve à natureza ou ao estado do instrumento pelo qual ele se comunica. Há na faculdade mediúnica uma infinita variedade de nuanças que tornam o médium apto ou impróprio à obtenção de tais ou quais efeitos que, à primeira vista, parecem idênticos, mas que dependem de influências fluídicas diferentes. O médium é como um instrumento de muitas cordas, e não pode emitir som pelas cordas que lhe faltam.

 
Eis um exemplo notável:

 
Conhecemos um médium que pode ser posto entre os de primeira ordem, tanto pela natureza das instruções que recebe quanto pela aptidão para se comunicar com quase todos os Espíritos, sem distinção. Inúmeras vezes, em evocações particulares, obteve irrefutáveis provas de identidade, pela reprodução da linguagem e do caráter de pessoas que jamais tinha conhecido. Há algum tempo, fez para uma pessoa que acabava de perder subitamente vários filhos, a evocação de um destes últimos, uma menina. A comunicação refletia perfeitamente o caráter da menina e era tanto mais satisfatória porque respondia a uma dúvida do pai acerca de sua posição como Espírito. Contudo, só havia provas de certo modo morais. O pai achava que um outro filho teria podido dizer o mesmo; queria algo que só a filha pudesse dizer; admirava-se, sobretudo de que o chamasse de pai, em vez do apelido familiar que lhe dava, e que não era um nome francês, partindo da ideia de que se ela dizia uma palavra, podia dizer-lhe outra. Tendo o pai perguntado a razão, eis a resposta que, a respeito, deu o guia do médium:

 
“Embora inteiramente desprendida, vossa filhinha não estaria em condições de vos fazer compreender por que ela não pode fazer com que o médium repita os termos por vós conhecidos que ela lhe transmite. Ela obedece a uma lei em se comunicando, mas não a compreende suficientemente para explicar o seu mecanismo. A mediunidade é uma faculdade cujas nuanças variam ao infinito e os médiuns que de ordinário tratam de assuntos filosóficos só obtém raramente, e sempre espontaneamente, essas particularidades que fazem reconhecer a personalidade do Espírito de maneira evidente. Quando os médiuns desse gênero pedem uma prova de identidade, no desejo de satisfazer o evocador, as fibras cerebrais tensas por seu desejo já não são bastante maleáveis para que o Espírito as faça mover-se à sua vontade. Daí se segue que as palavras características não podem ser reproduzidas. O pensamento fica, mas a forma não mais existe. Não há, pois, nada de estranhável que vossa filha vos tenha chamado de pai em vez de vos dar a qualificação familiar que esperáveis. Por um médium especial obtereis resultados que vos satisfarão. E só ter um pouco de paciência.”

 
Depois de alguns dias, achando-se esse senhor no grupo de um dos nossos membross, obteve de outro médium, pela tiptologia, e em presença do primeiro, não só o nome que desejava, sem que tivesse pedido especialmente, mas outros fatos de notável precisão. Assim, a faculdade do primeiro médium, por mais desenvolvida e flexível que fosse, não se prestava a esse gênero de produção mediúnica. Ele podia reproduzir as palavras que são a tradução do pensamento transmitido, e não termos que exigem um trabalho especial. Por isso, o conjunto da comunicação refletia o caráter e a disposição das ideias do Espírito, mas sem sinais materiais característicos. Um médium não é um mecanismo próprio para todos os efeitos. Assim como não se encontram duas pessoas inteiramente semelhantes no físico e no moral, não há dois médiuns cuja faculdade seja absolutamente idêntica.

 
É de notar que as provas de identidade quase sempre vêm espontaneamente, no momento em que menos se pensa, ao passo que são dadas raramente quando pedidas. Capricho da parte do Espírito? Não; há uma causa material, que é a seguinte.

 
As disposições fluídicas que estabelecem as relações entre o Espírito e o médium oferecem nuanças de extrema delicadeza, inapreciáveis por nossos sentidos e que variam de um momento a outro no mesmo médium. Muitas vezes um efeito que não é possível num desejado momento, sê-lo-á uma hora, um dia ou uma semana mais tarde, porque as disposições ou a energia das correntes fluídicas terão mudado. Dá-se aqui como se dá na fotografia, onde uma simples variação na intensidade ou na direção da luz basta para favorecer ou impedir a reprodução da imagem. Um poeta faz versos à vontade? Não. É-lhe necessária a inspiração; se não estiver em condições favoráveis, por mais que cave o cérebro, nada obtém. Perguntai-lhe por quê. Nas evocações, o Espírito deixado à vontade aproveita disposições que encontra no médium, aproveita o momento propício. Mas, quando essas disposições não existem, ele não pode mais que o fotógrafo com a ausência de luz. A despeito de seu desejo, portanto, ele não pode sempre satisfazer instantaneamente a um pedido de provas de identidade. Eis por que é preferível esperá-las do que solicitá-las.

 
Além disto, é preciso considerar que as relações fluídicas que devem existir entre o Espírito e o médium jamais se estabelecem completamente desde a primeira vez, pois a assimilação só se faz com o tempo e gradualmente. Disso resulta que, inicialmente, o Espírito sempre experimenta uma dificuldade que influi na clareza, na precisão e no desenvolvimento das comunicações, ao passo que, quando o Espírito e o médium estão habituados um ao outro, quando seus fluidos estão identificados, as comunicações se dão naturalmente, porque não há mais resistências a vencer.

 
Vê-se por aí quantas considerações há que levar em conta no exame das comunicações. É por não fazê-lo e por não conhecer as leis que regem essas espécies de fenômenos que muitas vezes se pede o que é impossível. É absolutamente como se alguém que não conhecesse as leis da eletricidade se admirasse que o telégrafo pudesse experimentar variações e interrupções e concluísse que a eletricidade não existe.

 
O fato da constatação da identidade de certos Espíritos é um acessório no vasto conjunto dos resultados que o Espiritismo abarca. Se essa constatação fosse impossível, ela nada prejulgaria contra as manifestações em geral, nem contra as consequências morais daí decorrentes. Seria preciso lamentar os que se privassem das consolações que ela proporciona, por não terem obtido uma satisfação pessoal, pois isto seria sacrificar o todo à parte.

domingo, 2 de setembro de 2012

CONTROLE UNIVERSAL HOJE?

 
Por Sérgio Aleixo
 
Os reivindicadores de uma novíssima aplicação deste método esquecem que Kardec disse que o controle universal do ensino dos espíritos serviu para estabelecer os princípios mesmos do Espiritismo, e não se aplicava a “interesses secundários”.
 
Uma só garantia séria existe para o ensino dos espíritos: a concordância que haja entre as revelações que eles façam espontaneamente, servindo-se de grande número de médiuns estranhos uns aos outros e em vários lugares. Vê-se bem que não se trata aqui das comunicações referentes a interesses secundários, mas do que respeita aos princípios mesmos da Doutrina. Prova a experiência que, quando um princípio novo tem de ser enunciado, isso se dá espontaneamente em diversos pontos ao mesmo tempo e de modo idêntico, senão quanto à forma, quanto ao fundo.[1]
 
No século 19 foi assim. Poderia sê-lo hoje? Não sei. O problema para uma nova aplicação desse controle seria a “espontaneidade”. Com a Doutrina já amplamente difundida no mundo e a comunicação instantânea entre os habitantes do planeta, essa “espontaneidade” seria confiável? Haveria nos médiuns atuais a mesma isenção de ânimo anterior ao assentamento dos princípios da Doutrina por Kardec? Tem-se visto os próprios médiuns psicografando e defendendo o que eles mesmos pensam sobre os assuntos tratados nos livros que recebem dos Espíritos... E será coincidência que muitos deles conflitem frontalmente a Obra de Kardec, enquanto outros a contrariem ao mesmo tempo em que a aclamem? E mesmo supondo que novos princípios fossem transmitidos por um virtual novo controle, estes poderiam contradizer o controle kardeciano? Tão prevenido e perspicaz foi Kardec que, de revés, respondeu negativamente a isso, na introdução de A Gênese. Se não, vejamos:
 
Essa coletividade concordante da opinião dos Espíritos, passada, ao demais, pelo critério da lógica, é que constitui a força da Doutrina Espírita e lhe assegura a perpetuidade. Para que ela mudasse, fora mister que a universalidade dos Espíritos mudasse de opinião e viesse um dia dizer o contrário do que dissera. (Grifo meu.)
 
Ainda que novos princípios fossem ditados sob a eventual aferição de um novíssimo controle, não poderiam esses princípios contraditar os kardecianos, sob pena de admitir-se que os espíritos superiores necessitassem agora contradizer-se. Assim sendo, o padrão de aferição espírita das comunicações mediúnicas será sempre a Obra de Kardec. Eventuais novos princípios não contrariariam os anteriormente fixados. Kardec deve ser estudado e a sua filosofia, a espírita, acompanhada em seu minucioso desenvolvimento, ao longo de todos os seus trabalhos. Só isso pode garantir a qualidade daquilo que hoje escrevem os escritores do aquém e do além sob o epíteto de Espiritismo. Caso queiram, a exemplo de Emmanuel, divulgar filosofia espiritualista,[2] é que não têm compromisso com a Doutrina Espírita em si; se ainda assim afirmem tê-lo, mentem, porque não é legítimo um Espiritismo a contrariar os princípios kardecianos.[3]
 
O controle universal do ensino espírita serviu para estabelecer os princípios mesmos do Espiritismo. Os instrumentos para dar ao Espiritismo qualquer eventual novo contorno que se lhe faça necessário (e ainda assim, mais na linguagem que no conteúdo) são a pesquisa científica e a análise filosófica, sempre aliadas, nessa tarefa específica, aos princípios estabelecidos por Kardec. Ao que tudo indica, os espíritos não têm nada exatamente novo a dizer que já não tenham dito à época de Kardec, com a diferença de que agora a responsabilidade de filtrar esses informes há sido nossa e temos preterido Kardec mais que vilmente.
 
Dizem que André Luiz inovou, mas os espíritos já vinham relatando essas “ilusões” de uma vida praticamente física no além desde sempre, e Kardec enquadrou tudo isso devidamente, conforme os princípios do Espiritismo. Infelizmente, esses princípios por ele assentados não são usados para qualquer aferição, com a desculpa de que vêm aí “coisas novas”. Mas novas em quê, mais precisamente? Acaso os princípios fixados pela universalidade do controle kardeciano poderiam ser desmentidos hoje? Como disse Kardec, seria necessário que a universalidade dos espíritos mudasse de opinião e viesse agora dizer o contrário do que dissera. Onde a verdade?
 
Por exemplo: sabe-se que os espíritos não têm órgãos, nem podem satisfazer necessidades típicas do corpo terreno; que uma coisa é a ilusão em que muitos deles podem estar e, outra, bem diversa, é a realidade de sua verdadeira situação. Mas veio André Luiz e subverteu isso, desmentindo princípios estabelecidos pela universalidade do controle kardeciano. Que fizeram os espíritas em sua grande maioria? Encorajaram a mistificação com uma credulidade excessiva, por conta da quase santidade de Chico Xavier, e tentam hoje misturar água e óleo, dizendo que André Luiz completa Kardec.
 
Outros, mais ousados, e não raro fascinados, dizem que André Luiz o supera e mesmo o substitui, sendo que já existem até os que superam o próprio André Luiz. Sim, porque, afinal, mais não fazem estes novos cronistas que ir aonde André Luiz, tacitamente, os havia autorizado a irem. Se existem pássaros no além, porque não colocariam ovos em seus ninhos? Se os espíritos de homens e mulheres casam e coabitam no além, por que não teriam filhos? Não é de admirar o que publicam Bacceli e congêneres; mera consequência do secular federalismo febiano e do mito rustenista que nele surgiu e se alimentou: a infalibilidade mediúnica de Chico Xavier.

 
 
 
[1]

O Evangelho Segundo o Espiritismo. Introdução, II. Grifos meus.
[2]

Emmanuel. Explicando. F.E.B., 15.ª ed., p. 15.
[3]

Cf. Cap. 20: Kardec Versus Emmanuel em 12 Passos,


segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Reuniões Mediúnicas Espíritas, Fanatismo, rituais e a comunhão de pensamentos



Por Iso Jorge Teixeira
 
 
Disse JESUS: "Em verdade ainda vos digo: se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre quaisquer coisas que quiserem pedir, isso lhes será concedido por meu Pai que está nos céus. Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou no meio deles." (Mt 18,19-20).
 
Como realizar uma reunião mediúnica? Há diferença entre uma reunião mediúnica de uma seita religiosa qualquer e uma reunião mediúnica espírita? Uma reunião mediúnica deve obedecer a regras, humanas, para que não se torne uma reunião frívola; entretanto, devemos ter o cuidado para não transformarmos tais regras em dogmas para o Espiritismo, pois este não é UMA religião...
 
Reuniões mediúnicas espíritas e religião.


Apesar dos resultados da pesquisa neste site, acreditamos que muitos responderam sem conhecimento de causa e alguns com o conceito genérico de religião. A pergunta "O Espiritismo é uma religião?" foi tema de um discurso de ALLAN KARDEC numa Sessão comemorativa do dia dos mortos em 1.º/11/1868 na Sociedade de Paris, tal discurso foi publicado na Revista espírita - Jornal de estudos psicológicos de dezembro de 1868. Nele, vemos claramente que o Espiritismo tem conseqüências religiosas mas, repetimos, não é UMA religião.
 
Enfim, as regras para uma reunião mediúnica espírita como dia(s) da semana, horário, número de participantes, objetivos, etc. são humanas e flexíveis, servem basicamente para disciplinar, mas não para dogmatizar...
 
Não temos nada contra as seitas religiosas que realizam suas reuniões mediúnicas de tal ou qual maneira; entretanto, tais seitas religiosas muitas vezes intitulam-se espíritas. Ora, o Espiritismo não é uma religião e, muito menos ainda, uma seita religiosa... A questão não é simplesmente de palavras, mas de método. As palavras Espiritismo, espírita ou espiritista surgiram em 1857 com a publicação de O Livro dos Espíritos de ALLAN KARDEC, aliás já escrevemos um artigo mostrando as diferenças do Espiritismo em relação a outras crenças espiritualistas (no site millenium news)... A confusão feita com estes termos gera, muitas vezes, discussões que poderiam ser evitadas se houvesse um mínimo de estudo pelas pessoas...
 
Condições para a realização de reuniões mediúnicas espíritas.


Nosso propósito neste artigo é tentar esclarecer os pontos fundamentais que devem ser levados em conta quando realizamos uma reunião mediúnica espírita com objetivos sérios.
 
Em primeiro lugar para que tal reunião se realize é preciso que haja médiuns ; todos o somos, mas é necessário que haja mediunato na maioria das pessoas participantes; a propósito, leia-se o nosso artigo Mediunidade, Mediunato e evolução espiritual [Jornal O SEMEADOR (Órgão da FEESP) - abril / 02, p. 8 e 9]; assim, somos de opinião de que obsidiados e doentes mentais não devem participar de reuniões mediúnicas, pois não há neles o mediunato.
 
Outro aspecto importante é que haja evocação dos Espíritos Superiores para presidirem espiritualmente os trabalhos, contudo, devemos fazer a nossa parte, não devemos achar que eles tudo fazem, por isso é necessário que os médiuns tenham conhecimento doutrinário, principalmente aquele(s) designado(s) para ser(em) o(s) doutrinador(es). Ressaltamos este ponto, embora óbvio, porque temos conhecimento de reuniões mediúnicas, ditas espíritas, em que o doutrinador tem um conhecimento muito superficial de O Livro dos Espíritos (OLE) de KARDEC e que nunca leram a Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos; consideramos isso um absurdo, pois é querer brincar com fogo e esperar que os Espíritos Superiores ajudem e tudo façam, levando-se tudo na base da "intuição".
 
E, enfim, o mais importante, é que haja uma comunhão de pensamentos bons durante a reunião mediúnica; bem, disso falaremos mais adiante.
 
Fanatismo nos Centros espíritas.


No dia 21/12/01 recebemos mail de um leitor do jornal espírita, que nos fez várias perguntas, todas respondidas, que merecerão um artigo no JE, no final disse o confrade: "(...) Futuramente pode nos brindar com um artigo sobre o fanatismo na Casa Espírita?" ANDRÉ LUIZ P.S. São Paulo - SP.
 
Vamos tentar satisfazer aqui o pedido do leitor...
 
Há pessoas que superestimam uma idéia ou grupos de idéias com tal passionalidade que nem ouvem ou não entendem o que outros indivíduos dizem ou escrevem, contrariamente às suas idéias; negam-se a admitir idéias por mais racionais que sejam; são pessoas fanáticas.
 
O adágio popular brasileiro diz que religião e futebol não se discute, exatamente porque as pessoas polarizam sua afetividade para uma seita religiosa ou para o clube de seu coração e, consequentemente, as discussões religiosas são improfícuas e, algumas vezes, perigosas, tal a irracionalidade com que as pessoas defendem seus pontos de vistas sem enxergar ou ouvir o ponto de vista do outro e podem chegar à agressão física...
 
Infelizmente, algumas pessoas que se dizem espíritas estão seguindo o mesmo caminho das seitas religiosas e tornam-se fanáticas. Basta que se questione idéias de um Espírito, seu preferido, tornam-se extremamente agressivas, embora sem perder a pose e a linguagem melíflua, pseudo-evangélica e, curiosamente, rotulam as pessoas que delas discordam de obsidiadas, num claro mecanismo que os psicanalistas chamam de projeção, isto é, projetam no outro aquilo que é dele próprio...
 
Em um Centro, que se diz espírita, do Rio de Janeiro, tivemos conhecimento de uma pessoa que orava por seus parentes doentes, ajoelhada diante de uma foto de BEZERRA DE MENEZES !!... De uma certa feita levou o seu neto (deficiente mental) para uma sessão de psicometria (??) no tal Centro - realizada por uma Sra. que se dizia psicóloga - e, em dado momento da sessão, o rapaz entrou em intensa agitação psicomotora. A atitude da tal que se dizia psicóloga foi chamar a Polícia, que imediatamente levou o paciente para internação psiquiátrica... Quando questionamos a falta de cientificidade da psicometria, a tal que se dizia psicóloga, ficou extremamente irritada, irada mesmo, dizendo que aquele "trabalho" era uma "caridade", uma "mediunidade com JESUS" !!... Em resumo, não admitiu discussão sobre o seu método, como sempre fazem os fanáticos, agredindo verbalmente as pessoas "em nome de JESUS", exatamente como faziam os fanáticos da Idade Média que, inclusive, levaram pessoas para a fogueira, rotulando-as de feiticeiras, tudo "em nome de JESUS".
 
Enfim, os exemplos multiplicar-se-iam no mesmo estilo, ficaria cansativo citá-los.
 
O Espiritismo é uma Doutrina, com bases científicas e conseqüências religiosas, mas não é uma religião como opinamos. A excelência da Doutrina Espírita é que ela é racional e, por isso mesmo, não aceita dogmas, só admite como doutrinário aquilo que passe pelo crivo da razão e pelo criterium da concordância. Portanto, é inconcebível o fanatismo em um adepto do Espiritismo, mas desgraçadamente ele existe em alguns que se intitulam espíritas !...
 
Há vários tipos de fanáticos nos Centros Espíritas: aquele que procura o Centro unicamente para receber passes e acredita que eles lhes são benéficos, no entanto, não se observa nele nenhuma transformação íntima; muitas vezes, continuam sendo pessoas egoístas, rancorosas, agressivas, apesar dos passes. Julgam que indo ao Centro regularmente, sem faltar um só dia, e recebendo seus passes, estariam quites com DEUS e ponto final !...
 
Outro tipo de fanático é aquele que procura o Centro unicamente para levar "água fluidificada" para casa e alguns mesmo, pasme-se, levam seus familiares para um "banho de ervas" aconselhado por um dirigente "espírita". Ora, nada temos contra quem é adepto da Umbanda, Candomblé, etc., mas confundir-se Espiritismo com tais denominações é, no mínimo, ignorância das obras básicas do Espiritismo...
 
Outros, ainda, que se dizem espíritas, colocam defumadores em suas casas, querendo com isso afastar os maus espíritos; seria a "fumacinha" quem afastaria os maus espíritos. Ora, um espírito inferior, mas inteligente, desencarnado, acreditará que uma "fumacinha" lhe fará mal?! Certamente que não, inclusive tais espíritos estimularão a crendice das pessoas que se utilizam de tais rituais para se divertirem. Neste aspecto é trágico vermos homens inteligentes admitirem que a "fumacinha" funciona, porque os Espíritos inferiores assim o acreditariam!!...
 
 
 

Outra crença cega é a de que nos Centros Espíritas haveria uma "barreira fluídica", "eletromagnética", dizem os sabichões, para impedir a penetração de maus espíritos; isto é dito como verdade transitada em julgado, somente porque alguns Espíritos, idolatrados entre nós, o afirmaram para demonstrar que o Centro Espírita é um "templo", um "santuário". Ora, o que traz bons ou maus fluidos para o interior de um Centro Espírita são os pensamentos daqueles envolvidos no trabalho. Se, por exemplo, o Presidente de um Centro Espírita é hipócrita, corrupto e só vive com o nome de JESUS nos lábios, no interior do Centro; mas seu comportamento diário, fora dele, é dissoluto, que tipo de espíritos ele atrairá para o interior do Centro? Se não há "barreira fluídica" para impedir a entrada de um Espírito encarnado deste tipo, por que os desencarnados seriam impedidos de entrar? Seria uma injustiça de DEUS: o desencarnado inferior leva choque elétrico se tentar entrar no Centro e o encarnado inferior entraria em conluio com os Espíritos Superiores para enganar a boa fé alheia? Seria absurdo, pois quando os Espíritos Superiores percebem a sintonia de espíritos inferiores em determinados Centros, eles se afastam e, neste caso, a conseqüência é uma verdadeira obsessão coletiva...
 
 
Dispersão e a "falta danada de um ritualzinho" - A comunhão de pensamentos.


Em longo mail de 13/04/02, disse uma internauta, estudante de Psicologia, dentre outras coisas: "(...) Quanto ao ritual que a Doutrina alerta-nos para que dele prescindamos, eu, para lhe dizer a verdade, sinto uma falta danada de um ritualzinho. Hoje, como estudante de Psicologia, vejo o quanto ele tem sido importante para ajudar e manter a mente mais aglutinada, promovendo força mental. Vejo nos Centros como as pessoas ficam dispersas e o quanto tem sido difícil para nós, estressados de ultimamente, 'sacarmos' a importância do nosso templo e mantermo-nos condignamente no ambiente, dele aproveitando o melhor possível. (...) Não que eu pense que devamos incluir rituais em nossas casa, mas o que fazermos para que nós espíritas consigamos nos concentrar mais para orarmos, meditarmos etc., sem uma velinha, um mantrasinho, etc ?." R.P.S. Cuiabá - MT.
 
A leitora, estudante de Psicologia, portanto, com bom nível intelectual, sente a necessidade de "uma velinha, um mantrasinho" e a "falta danada de um ritualzinho" para se concentrar e reclama da dispersão de pensamentos nos Centros Espíritas; imagine-se o que acontece com as pessoas não intelectualizadas!...
 
Ainda somos inferiores, pois sentimos uma "falta danada de um ritualzinho", e neste sentido pronunciaram-se os Espíritos Superiores num trecho da resposta da questão 554 de OLE: " (...) Ora, é difícil que aquele que é tão simplório para crer na virtude de um talismã não tenha um objetivo mais material que moral. Qualquer que seja o caso, isso indica estreiteza e fraqueza de idéias, que dão azo aos espíritos imperfeitos e zombadores". No entanto, cabe-nos combater essa inferioridade através do estudo da Doutrina dos Espíritos e através da prática da caridade bem compreendida.
 
Obviamente, sentimos nosso pensamento disperso algumas vezes, mas se houvesse verdadeira educação mediúnica nos Centros Espíritas, com certeza tais fatos lamentáveis de fanatismo e necessidade de fetiches desapareceriam, pois seríamos médiuns prontos e saberíamos concentrar-nos efetivamente, sem necessidade de velinhas, mantrasinhos e outros objetos de qualquer tipo, pois o importante é o pensamento e não o objeto.
 
Certa vez disseram-me que 'médiuns videntes" tinham observado num Centro Espírita a entrada de Benfeitores Espirituais, que teriam derramado seus fluidos espirituais nas garrafinhas d'água colocadas pelos adeptos e que, inclusive "viram fluidos de várias colorações, etéreas, belíssimas". Apesar disso ser uma crença generalizada, vejamos a opinião do astrônomo CAMILLE FLAMMARION - aquele mesmo que ao pé do túmulo de KARDEC disse que este era "o bom senso encarnado" :

                                                                                                                                                                  CAMILLE FLAMMARION
(1842-1925)

 
 
 
"(...) Tendo o sensitivo bebido, em estado de vigília, um copo de água, com sugestão mental de ser um copo de kirsch, manifestou todos os sintomas de embriaguez durante vários dias. Foram os fenômenos deste gênero que fizeram crer aos magnetizadores poderem eles, magnetizando um copo de água ou um outro objeto, impregnar seus fluidos de diferentes qualidades físicas ou químicas (...)
" - os grifos são do autor - (CAMILLE FLAMMARION). O Desconhecido e os problemas psíquicos. Vol. II. 3 ed. FEB, Rio, 1980, p. 24). E conclui o grande cientista espírita: "(...) A magnetização é neste caso inútil, pois que é o pensamento que age sobre o cérebro do paciente e não sobre o objeto" - o grifo é do autor - (op. cit., p. 24). As palavras de FLAMMARION não são meras palavras, são fruto de pesquisas rigorosas...
 
 
 
Vejamos o que nos diz ALLAN KARDEC sobre a comunhão de pensamentos: "Todas as reuniões religiosas, seja qual for o culto a que pertençam, são fundadas na comunhão de pensamentos; é aí, com efeito, que podem e devem exercer toda a sua força, porque o objetivo deve ser o desligamento do pensamento do domínio da matéria. Infelizmente a maioria se afasta deste princípio, à medida que tornam a religião uma questão de forma. Disto resulta que, cada um, fazendo seu dever consistir na realização da forma, se julga quites com Deus e com os homens, desde que praticou uma fórmula. Resulta ainda que cada um vai aos lugares de reuniões religiosas com um pensamento pessoal, por conta própria e, na maioria das vezes, sem nenhum sentimento de confraternidade, em relação aos outros assistentes: isola-se em meio à multidão e só pensa no céu para si próprio." (o grifo é nosso).
 
 
 
E prossegue O Codificador: "Certamente não era assim que o entendia Jesus, quando disse: Quando estiverdes diversos, reunidos em meu nome, eu estarei em vosso meio. Mas não se pode estar reunido em nome de Jesus sem assimilar os seus princípios, a sua doutrina. Ora, qual é o princípio fundamental da doutrina de Jesus? A caridade em pensamentos, palavras e ação. Os egoístas e os orgulhosos mentem quando se dizem reunidos em nome de Jesus, porque Jesus não os conhece por seus discípulos" (ALLAN KARDEC. Revista Espírita- Jornal de estudos psicológicos. Ano VII,1864, EDICEL,São Paulo, p. 354-355).
 
 
 
Portanto, o pensamento é tudo a forma quase nada ou nada. As reuniões mediúnicas espíritas tem de ser realizadas com médiuns verdadeiros e estes não são reconhecidos por nenhum sinal exterior, como foi o caso, absurdo, de uma pessoa que dizia reconhecer o médium através das manchas das unhas das mãos. Uma tal pessoa numa reunião mediúnica conseguiria que JESUS estivesse entre eles reunidos?...


 

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Kardec e o perigo dos espíritos pseudo-sábios

Por Artur Felipe Azevedo
 


"Ora, a experiência mostra que os maus se comunicam tanto quanto os bons. Os que são francamente maus, são facilmente reconhecíveis; MAS HÁ TAMBÉM OS MEIO SÁBIOS, FALSOS SÁBIOS, PRESUNÇOSOS, SISTEMÁTICOS e até hipócritas. ESTES SÃO OS MAIS PERIGOSOS, PORQUE AFETAM UMA APARÊNCIA SÉRIA, DE CIÊNCIA E DE SABEDORIA, em favor da qual proclamam, em meio a algumas verdades e boas máximas, AS MAIS ABSURDAS COISAS.


SEPARAR O VERDADEIRO DO FALSO, DESCOBRIR A TRAPAÇA OCULTA NUMA CASCATA DE PALAVRAS BONITAS, DESMASCARAR OS IMPOSTORES, EIS, SEM CONTRADITA, UMA DAS MAIORES DIFICULDADES DA CIÊNCIA ESPÍRITA." NÃO BASTA SER ESPÍRITO


"Mas, dirão certos críticos, não tende, pois, confiança nos Espíritos, uma vez que duvidais de suas afirmações? Como inteligências libertas da matéria não podem levantar todas as dúvidas da ciência, lançar luz onde reina a obscuridade?


Esta uma questão muito grave, que se prende à própria base do Espiritismo, e que não poderíamos resolver neste momento, sem repetir o já dissemos a esse respeito; não diremos, senão algumas palavras para justificar as nossas reservas. Responder-lhes-emos, de início, que se tornaria sábio a bom preço se não se tratasse senão de interrogar os Espíritos para conhecer-se tudo o que se ignora. Deus quer que adquiramos a ciência pelo trabalho, e não encarregou os Espíritos de nos trazer tudo pronto para favorecer a nossa preguiça.

Em segundo lugar, a Humanidade, como os indivíduos, tem sua infância, sua adolescência, sua juventude e sua virilidade. Os Espíritos, encarregados por Deus de instruírem os homens, devem, pois, proporcionar seu ensinamento para o desenvolvimento da inteligência; nunca dirão tudo a todo mundo, e esperam, antes de semear, que a Terra esteja pronta para receber a semente, para fazê-la frutificar.


Eis porque certas verdades, que nos são ensinadas hoje não o foram aos nossos pais que, eles também, interrogavam os Espíritos; eis porque, verdades pelas quais não estamos maduros, não serão ensinadas senão àqueles que virão depois de nós. Nosso erro é crer-nos chegados ao topo da escala, ao passo que não estamos ainda senão na metade do caminho.


Dizemos de passagem que os Espíritos têm duas maneiras para instruírem os homens; podem fazê-lo, seja comunicando-se diretamente com eles, o que fizeram em todos os tempos assim como o provam todas às histórias sagradas e profanas, seja encarnando-se entre eles para aí cumprir missões de progresso. Tais são esses homens de bem e de gênio que aparecem, de tempos em tempos, como luz para a Humanidade e lhe fazem dar alguns passos à frente. Vede o que ocorre quando esses mesmos homens vêm antes do tempo propício para as idéias que devem propagar: são desconhecidos quando vivos, mas o seu ensinamento não se perde; depositado nos arquivos do mundo, como um grão precioso colocado em reserva, um belo dia sai do pó, no momento em que pode dar seus frutos.


Desde então, compreende-se que se o tempo requerido para difundir certas idéias não chegou, interrogar-se-ia os Espíritos em vão, eles não podem dizer senão o que lhes é permitido. Mas é uma outra razão que compreendem perfeitamente todos aqueles que têm alguma experiência do mundo Espírita.


Não basta ser Espírito para possuir a ciência universal, de outro modo a morte nos tornaria quase os iguais a Deus. O simples bom senso, de resto, recusa-se a admitir que o Espírito de um selvagem, de um ignorante ou de um mau, desde o momento que esteja livre da matéria, esteja no nível de sábio ou do homem de bem; isso não seria racional. Há, pois, Espíritos avançados, e outros mais ou menos atrasados que devem percorrer mais de uma etapa, passar por numerosos e severos exames, antes de estarem despojados de todas as suas imperfeições. Isso resulta que se encontram, no mundo dos Espíritos, todas as variedades morais e intelectuais que se encontram entre os homens, e muitas outras ainda; ora, a experiência prova que os maus se comunicam tão bem quanto os bons.


 
Aqueles que são francamente maus são facilmente reconhecíveis; mas há também, entre eles, os meio sábios, os falsos sábios, os presunçosos, os sistemáticos e mesmo os hipócritas; aqueles são os mais perigosos porque afetam uma aparência de seriedade, de sabedoria e de ciência, a favor da qual debitam, freqüentemente, no meio de algumas verdades, de algumas boas máximas, as coisas mais absurdas; e para melhor enganarem, não temem em se ornarem com os nomes mais respeitáveis.


 
Distinguir o verdadeiro do falso, descobrir a fraude escondida sob uma parada de grandes palavras, desmascarar os impostores, eis aí, sem contradita, uma das maiores dificuldades da ciência Espírita. Para superá-la é preciso uma longa experiência, conhecer todas as astúcias das quais são capazes os Espíritos de baixo estágio, ter muita prudência, ver as coisas com o mais imperturbável sangue frio, e se guardar, sobretudo, contra o entusiasmo que cega. Com habilidade e um pouco de tato chega-se facilmente a ver a ponta da orelha, mesmo sob a ênfase da mais pretensiosa linguagem. Mas infeliz o médium que se crê infalível, que se ilude sobre as comunicações que recebe: o Espírito que o domina pode fasciná-lo ao ponto de fazê-lo achar sublime o que, freqüentemente, é simples absurdo e salta aos olhos de todos quanto dele mesmo."


Em "O Livro dos Médiuns" lemos sobre as técnicas de fascinação utilizadas por boa parte dos espíritos pseudo-sábios: "Há, Espíritos obsessores sem maldade, que alguma coisa mesmo denotam de bom, mas dominados pelo orgulho do falso saber. Têm suas idéias, seus sistemas sobre as ciências, a economia social, a moral, a religião, a filosofia, e querem fazer que suas opiniões prevaleçam. Para esse efeito, procuram médiuns bastante crédulos para os aceitar de olhos fechados e que eles fascinam, a fim de os impedir de discernirem o verdadeiro do falso. São os mais perigosos, porque os sofismas nada lhes custam e podem tornar cridas as mais ridículas utopias. Como conhecem o prestígio dos grandes nomes, não escrupulizam em se adornarem com um daqueles diante dos quais todos se inclinam, e não recuam sequer ante o sacrilégio de se dizerem Jesus, a Virgem Maria, ou um santo venerado. Procuram deslumbrar por meio de uma linguagem empolada, mais pretensiosa do que profunda, eriçada de termos técnicos e recheada das retumbantes palavras caridade e moral. Cuidadosamente evitarão dar um mau conselho, porque bem sabem que seriam repelidos. Daí vem que os que são por eles enganados os defendem, dizendo: Bem vedes que nada dizem de mau. A moral, porém, para esses Espíritos é simples passaporte, é o que menos os preocupa. O que querem, acima de tudo, é impor suas idéias por mais disparatadas que sejam. (Cap. XXIII - Item 246 - Da Obsessão)


E abordando a necessidade imperiosa da análise crítica das comunicações dos espíritos, Kardec alerta: "Reconhece-se a qualidade dos Espíritos pela sua linguagem; a dos Espíritos verdadeiramente bons e superiores é sempre digna, nobre, lógica, isenta de contradições; respira a sabedoria, a benevolência, a modéstia e a moral mais pura; é concisa e sem palavras inúteis. Nos Espíritos inferiores, ignorantes, ou orgulhosos, o vazio das idéias é quase sempre compensado pela abundância de palavras. Todo pensamento evidentemente falso, toda máxima contrária à sã moral, todo conselho ridículo, toda expressão grosseira, trivial ou simplesmente frívola, enfim, toda marca de malevolência, de presunção ou de arrogância, são sinais incontestáveis de inferioridade num Espírito."




 
 
Fonte: http://espiritismoxramatisismo.blogspot.com.br/2008/10/kardec-e-o-perigo-dos-espritos-pseudo.html

sexta-feira, 6 de julho de 2012

O Sonambulismo face a Doutrina Espírita





Por Maria das Graças Cabral

Muito comumente, ouvem-se relatos de pessoas que durante o sono falam e andam de olhos abertos, contudo inconscientes. O fenômeno é considerado pela medicina como uma doença denominada de “sonambulismo” ou “parassonia.” Caracteriza-se pela alteração de comportamento durante o sono, cuja causa ainda é um mistério para os especialistas. Por enquanto. as respostas eficientes restringem-se aos tratamentos disponíveis para o problema com uso de medicação nos casos mais graves, que põem em risco a segurança do paciente. 


Por outro lado, propaga-se uma ciência denominada de “projeciologia (do latim projectio significa projeção e logos no grego significa tratado) que é o ramo, subcampo, ou especialidade de caráter mais prático da conscienciologia, e da psicobiofísica (versão mais abrangente da parapsicologia) que estuda as projeções energéticas da consciência e as projeções da própria consciência para fora do corpo humano, ou seja, das ações da consciência operando fora do estado de restrição física do cérebro e todo o corpo biológico. Devido à falta de evidência científica e experimentos em condições controladas, à ausência de hipóteses e previsões que possam ser submetidas a teste ou ser falsificadas com o método científico, a projeciologia (assim como os outros ramos da denominada parapsicologia) é considerada uma pseudociência.” (Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Projeciologia)

Observa-se portanto, o desenvolvimento de várias frentes de pesquisa por parte da ciência médica, como também por parte da parapsicologia, no intuito de compreender e esclarecer com eficiência o fenômeno sonambúlico. Na realidade, o sonambulismo é vivenciado por pessoas das mais diversas faixas etárias, graus de instrução, crentes ou não crentes, das mais diversas localidades do mundo, chamando atenção e provocando a curiosidade de estudiosos e leigos.
Diante do exposto, o presente artigo tem por objetivo desenvolver algumas breves considerações sobre o assunto, à luz da Doutrina Espírita. Para tanto, faz-se por oportuno inicialmente a apresentação de algumas experiências sonambúlicas divulgadas:


(I) “O artista plástico britânico Lee Hadwin, que só consegue desenhar enquanto está dormindo, lançou uma exposição de suas obras em Londres. Hadwin foi descrito pelos especialistas da Clínica do Sono de Edimburgo, na Escócia, como um caso único. Ele foi diagnosticado com sonambulismo e conta que não se lembra de absolutamente nada do que produz de madrugada. Hadwin nunca fez cursos de artes e afirma que nunca teve muito interesse por estas atividades. No entanto, enquanto dorme, ele desenha retratos, paisagens e figuras abstratas. Ele começou a desenhar durante o sono quando tinha 4 anos de idade, deixando suas marcas em paredes ou qualquer pedaço de papel que estivesse ao alcance. Atualmente, Hadwin se prepara melhor e deixa seus cadernos de desenho e materiais espalhados pelo apartamento onde vive e vem aperfeiçoando seus trabalhos nos últimos anos.” (Fonte: http://noticias.r7.com/internacional/noticias)

 
 
(II) “Numa madrugada há pouco mais de 20 anos, o médico urologista carioca Luiz Otávio Zahar teve a sensação de acordar no meio da academia de ginástica que costumava freqüentar. As luzes estavam apagadas e não havia ninguém usando os aparelhos de musculação nem circulando pelos corredores. O médico percorreu o espaço de um lado para o outro, sentindo-se absolutamente consciente. Mas seu passeio noturno, segundo Zahar, tinha uma peculiaridade: ele via tudo do alto, como se estivesse suspenso, flutuando. (...)”
 
 
“Naquela madrugada na academia, porém, Zahar resolveu pôr à prova a tese de que realmente conseguia como tantas outras pessoas dizem conseguir sair do corpo, manter o estado de vigília e usar os sentidos para observar coisas concretas. Eu não deixo de ser, fora do corpo, aquele médico cartesiano que sou que quer comprovar as coisas. Pensei: tenho de fazer alguma coisa para provar a mim mesmo essa experiência. Então vi um parafuso esquecido no alto de uma máquina de exercício. Acordei e anotei, conta. No dia seguinte, foi até a máquina. Para ver o que havia em cima dela, precisou subir em um banco. Do chão, era impossível enxergar. Subi e vi o parafuso lá.” (Fonte: http://super.abril.com.br/cotidiano/projecao-astral-viagens-fora-corpo)



(III) “O contador paulista Fernando Augusto Golfar, de 37 anos, afirma que vive projeções desde os 6 anos. Contava a seus pais episódios vivenciados por parentes já mortos com os quais falava durante as experiências e visões de lugares que lembrava ter visto dias antes de visitá-los com a família. Por via das dúvidas, a mãe o levou algumas vezes a uma benzedeira. As experiências prosseguiram. Geralmente me vejo em locais de assistência, hospitais, áreas carentes, enterros ou ajudando usuários de drogas, conta. Assim como Borges, Golfar afirma ter desenvolvido sua mediunidade. Para ele, isso ajuda em suas projeções astrais, mas não é um requisito fundamental.” (Fonte: http://super.abril.com.br/cotidiano/projecao-astral-viagens-fora-corpo)
 
 
Diante dos casos acima expostos, e para que se tenha uma melhor compreensão do fenômeno à luz do Espiritismo, vale ressaltar um dos pontos principais da doutrina, quando estabelece que o ser humano seja composto de três elementos: “(1º) O corpo ou ser material, semelhante ao dos animais e animado pelo mesmo princípio vital; 2º) A alma ou ser imaterial, espírito encarnado no corpo; 3º) O liame que une a alma ao corpo, princípio intermediário entre a matéria e o Espírito. (...) O liame ou perispírito que une o corpo e Espírito é uma espécie de invólucro semi material.” (Livro dos Espíritos - Introdução, VI)

Na realidade, o tema proposto é tratado inicialmente em O Livro dos Espíritos, primeira obra da codificação kardeciana e posteriormente em O Livro dos Médiuns, segundo livro codificado. Em O Livro dos Espíritos, dizem os Mestres espirituais que durante o sono, em razão do repouso orgânico os liames que unem o corpo ao Espírito se relaxam. Como o Espírito não acompanha a inatividade orgânica passa a dispor de mais faculdades que no estado de vigília. (LE, 401)

O fenômeno sonambúlico sob o efeito do sono é conceituado como “um estado de independência da alma, mais completo que no sonho, e então as faculdades adquirem maior desenvolvimento. A alma tem percepções que não atinge no sonho, que é um estado de sonambulismo imperfeito.” (LE, 425)

De acordo com as explanações iniciais, foi visto que a medicina cataloga o sonambulismo como uma doença na qual o sonâmbulo é alguém que por predisposição orgânica executa atividades durante o sono. A esse respeito, esclarecem os Mestres espirituais que o Espírito “preocupado com uma coisa ou outra, se entrega a alguma ação que exige o uso do seu corpo, do qual se serve como se empregasse uma mesa ou qualquer outro objeto material, nos fenômenos de manifestação física, ou mesmo de vossa mão, nas comunicações escritas.” (LE, 427) Ou seja, o Espírito utiliza-se do corpo físico como um instrumento para a realização de alguma atividade que deseje praticar.
 
 
No que tange à clarividência sonambúlica, esta ocorre em razão da aptidão que tem o Espírito de atravessar livremente a matéria e não precisar dos órgãos físicos para ver e/ou ouvir além do plano físico. Dizem os Mestres que no estado de crise, o Espírito se lembra de conhecimentos adquiridos em existências anteriores, embora de forma incompleta, acrescentando que “passada a crise, toda a lembrança se apaga e ele volta à obscuridade.” (LE, p. 431)

Asseveram ainda que “o sonâmbulo possui mais conhecimentos do que lhe reconheceis,” só que adormecidos pelo corpo. Reiteradamente dizem que revivemos inúmeras vezes, e perdemos “materialmente o que conseguimos aprender na existência precedente. Entretanto no estado de crise, ele se lembra embora de maneira incompleta, pois não saberia dizer de onde vem o conhecimento, nem como o possui. Passada a crise, toda a lembrança se apaga e ele volta à obscuridade.” (LE, p. 431) Tais explicações ‘casam’ com o caso do artista plástico britânico Lee Hadwin, (I) que só consegue desenhar enquanto está dormindo.

Adiante prosseguem esclarecendo, que o desenvolvimento da clarividência sonambúlica depende das condições físicas (de acordo com a medicina) que permitem ao Espírito libertar-se de forma mais natural da matéria. A esse respeito, Kardec indaga se o sonâmbulo que vê à distância, vê do lugar em que está seu corpo ou daquele que está a sua alma, isto porque muito comumente o sonâmbulo experimenta no corpo sensações de calor ou de frio do lugar em que se encontra a sua alma, às vezes bem longe do corpo. (LE, p. 436)

Reiteram os Mestres espirituais que é a alma que se transporta e vê, mas como não deixou por completo o corpo, “permanece ligada a ele pelo laço que os une, e é esse laço que os une, o condutor das sensações” (perispírito). (O Livro dos Espíritos - pergunta 437)

Daí a experiência do médico Luiz Otávio Zahar (II) quando relatava que “as luzes da academia estavam apagadas e não havia ninguém usando os aparelhos de musculação nem circulando pelos corredores. O médico percorreu o espaço de um lado para o outro, sentindo-se absolutamente consciente. Mas seu passeio noturno, segundo Zahar, tinha uma peculiaridade: ele via tudo do alto, como se estivesse suspenso, flutuando”. Ou seja, o Espírito do médico libertou-se até a academia de ginástica, conferindo todo o ambiente do jeito em que estava fechada, com as luzes apagadas e totalmente deserta, em razão do horário (madrugada).

Em O Livro dos Médiuns o sonambulismo é tratado como uma variedade da faculdade mediúnica na qual, ocorrem duas ordens de fenômenos que freqüentemente se agregam. A ação do sonâmbulo quando está sob o domínio do próprio Espírito nos momentos de emancipação. Nesse caso, o que vê, ouve e percebe além dos limites dos sentidos, é oriundo dele mesmo (caso do desenhista e do médico).

Não obstante em outras circunstâncias, o sonâmbulo “serve de instrumento a outra inteligência. É passivo e o que diz não é dele. Em resumo; o sonâmbulo exprime o seu próprio pensamento e o médium exprime o pensamento do outro. Mas o Espírito que se comunica através de um médium comum pode fazê-lo por um sonâmbulo. Freqüentemente mesmo o estado de emancipação da alma, no estado sonambúlico, torna fácil essa comunicação.” (O Livro dos Médiuns - Cap. XIV, 172)

“Aqui aplicar-se-ia perfeitamente o relato do contador Fernando Augusto Golfar (III), quando afirma vivenciar o fenômeno sonambúlico (que denomina projeções) desde os 6 anos, quando contava aos pais episódios vivenciados por ‘parentes já mortos” com os quais falava durante as experiências e “visões de lugares que lembrava ter visto dias antes de visitá-los com a família“.

A Doutrina Espírita estabelece que a faculdade sonambúlica seja uma faculdade que depende do organismo e nada tem que ver com a elevação, o adiantamento e a condição moral do sujeito. Um sonâmbulo pode, pois, ser muito lúcido e incapaz de resolver certas questões, se o seu Espírito for pouco adiantado. (O Livro dos Médiuns - Cap. XIV, 174)
 
 
Portanto, para o Espiritismo o fenômeno de “emancipação da alma”, pode ser ocasionado pelo sono, ou provocado magneticamente pelo "fluido vital, eletricidade animalizada que são modificações do fluido universal". (LE. 427) Tal fenômeno depende de uma condição orgânica do indivíduo que possibilita a liberação do Espírito, que se mantém ligado ao corpo físico pelo perispírito.

No que concerne às percepções do mesmo, poderão advir como lembranças confusas e incompletas, ou mesmo nenhuma lembrança. Segundo os Espíritos Superiores, “nos sonhos de que se tem consciência, os órgãos inclusive da memória, começam a despertar e recebem imperfeitamente as impressões produzidas pelos objetos ou as causas exteriores” (...). (LE, p. 425)

Para finalizar, pode-se concluir que o sonambulismo permite a clarividência quando o Espírito do sonâmbulo atravessa livremente os corpos opacos, podendo alcançar longas distâncias. Pode ser considerada como uma modalidade de mediunidade, quando o sonâmbulo em crise entra em contato com Espíritos, podendo vê-los e/ou ouvi-los. Para aqueles que pretendam uma melhor compreensão do assunto, exige-se obviamente um estudo aprofundado das Obras Fundamentais da Doutrina Espírita juntamente com a Revista Espírita.


domingo, 1 de julho de 2012

Evocar ou Não Evocar Determinados Espíritos?


Por Maria das Graças Cabral


O presente texto tem por objetivo tratar do seguinte questionamento: - Se deve ou não evocar determinados Espíritos nas reuniões mediúnicas? A esse respeito, hodiernamente o procedimento usual e padronizado nos centros espíritas ou grupos de estudo, é o de “não evocação” ou “comunicação espontânea”, em consonância com o entendimento do Espírito Emmanuel, mentor do médium Chico Xavier.

A esse respeito o referido Espírito, no livro O Consolador, psicografado pelo médium acima mencionado, quando indagado se é aconselhável a evocação direta de determinados Espíritos, assim se posiciona: - “Não somos dos que aconselham a evocação direta e pessoal, em caso algum. Se essa evocação é passível de êxito, sua exeqüibilidade somente pode ser examinada no plano espiritual.” (O Consolador - pergunta 369, p. 207) (grifo e negrito meus) Como se não ocorresse o mesmo com a comunicação espontânea!

Acrescenta Emmanuel: “Daí a necessidade de sermos espontâneos, porquanto, no complexo dos fenômenos espiríticos, a solução de muitas incógnitas espera o avanço moral dos aprendizes sinceros da Doutrina. O estudioso bem intencionado, portanto, deve pedir sem exigir, orar sem reclamar, observar sem pressa, considerando que a esfera espiritual lhe conhece os méritos e retribuirá os seus esforços de acordo com a necessidade de sua posição evolutiva e segundo o merecimento do seu coração. Podeis objetar que Allan Kardec se interessou pela evocação direta, procedendo a realizações dessa natureza, mas precisamos ponderar, no seu esforço, a tarefa excepcional do Codificador, aliada a necessidades e méritos ainda distantes da esfera de atividade dos aprendizes comuns.” (O Consolador - pergunta 369, p. 207) (grifo e negrito meus)

Diante das elucidações feitas por Emmanuel, observa-se que sua argumentação se opõe sumariamente à evocação direta, sustentando-se primeiramente no entendimento de que o êxito de tais evocações só poderia ser averiguado no plano espiritual. Indaga-se: - Por acaso o êxito da comunicação espontânea tem como ser apurada com toda a segurança no plano material?! Quais seriam os critérios de segurança? Isso objetivamente ele não aponta.

Em seguida alega que devemos pedir sem exigir, orar sem reclamar, etc.. Será que para Emmanuel evocar, chamar, significa exigir, ou impor aos Espíritos seu comparecimento? Rebate que em razão de nossa precária condição moral não devemos evocar Espírito nenhum. Pondera que com Kardec foi diferente, pois o mesmo executava a extraordinária tarefa da codificação associada às suas virtudes pessoais que estamos longe de auferir.

A argumentação de Emmanuel torna-se inaceitável pois a Doutrina dos Espíritos veio para todos independentemente de grau evolutivo, visando alavancar o progresso do espírito humano. Allan Kardec não teria tido todo o cuidado de explanar de forma clara e pedagógica, desenvolvendo um verdadeiro tratado sobre mediunidade em O Livro dos Médiuns, se não objetivasse que a mediunidade fosse bem compreendida e o trabalho mediúnico seguro e acessível a todos.

No que tange às evocações, nas Considerações Gerais do Capítulo XXV de O Livro dos Médiuns quando trata do tema em tela, o Mestre começa pontuando que “algumas pessoas acham que não devemos evocar nenhum Espírito, sendo preferível esperar o que quiser comunicar-se. Entendem que chamando determinado Espírito não temos a certeza de que é ele que se apresenta, enquanto o que vem espontaneamente, por sua própria iniciativa, prova melhor a sua identidade, pois revela assim o desejo de conversar conosco.” (O Livro dos Médiuns - item 269)

Não obstante, estabelece o Codificador que optar pela comunicação espontânea “é um erro”! Observe-se que taxativamente considera um ERRO a não evocação, justificando seu entendimento com as seguintes palavras: “Primeiramente porque estamos sempre rodeados de Espíritos, na maioria das vezes inferiores, que anseiam por se comunicar. Em segundo lugar, e ainda por essa mesma razão, não chamar nenhum em particular é abrir a porta a todos os que querem entrar. Não dar a palavra a ninguém numa assembléia é deixá-la livre a todos, e bem sabemos o que disso resulta. O apelo direto a determinado Espírito estabelece um laço entre ele e nós; o chamamos por nossa vontade e assim opomos uma espécie de barreira aos intrusos. Sem o apelo direto um Espírito muitas vezes não teria nenhum motivo para vir até nós, se não for um nosso Espírito familiar.” (O Livro dos Médiuns - item 269) (grifei)

Acrescenta ainda que (...) “as comunicações espontâneas não têm nenhum inconveniente quando controlamos os Espíritos e temos a certeza de não deixar que os maus venham a dominar.” (O Livro dos Médiuns - item 269) (grifei) Constata-se que Kardec demonstra a temeridade de lidar com tais comunicações espontâneas, em face da dificuldade de se controlar os Espíritos comunicantes, e obstar de forma efetiva o domínio dos maus. Ou seja, o Codificador não apenas “se interessou” pelas evocações como “sutilmente” afirma Emmanuel. Ele as utilizou de forma sistemática e rechaçou as comunicações espontâneas considerando tal prática um “erro”. Até porque Kardec nunca usou de subterfúgios nem meias palavras. Sempre primou pela correição de vocabulário e clareza de idéias!

Entende-se, portanto que o interesse de certos Espíritos nas comunicações espontâneas está justamente na liberdade que os permite facilmente mistificar. Não obstante, Kardec com muita propriedade argüiu que numa reunião onde a palavra não é dada a ninguém, fala quem quer o que quer, tendo como corolário reuniões desorganizadas, improdutivas e mistificadas.

A esse respeito, faz-se por oportuno também mencionar as sessões mediúnicas onde vários Espíritos se comunicam espontânea e concomitantemente, ocorrendo paralelas doutrinações. Indaga-se: - Uma reunião nesses moldes obedece aos preceitos de organização e respeito que Kardec impinge às sessões experimentais? É óbvio que uma reunião onde várias pessoas falam ao mesmo tempo, denota total falta de urbanidade e descaso pela exposição de cada um. Imagine-se tal ocorrência num ambiente com Espíritos nos mais variados estágios de desequilíbrio!

Diante do exposto, reporto-me a uma publicação de Kardec na Revista Espírita de janeiro de 1865, intitulada “Nova Cura de uma Jovem Obsedada de Marmande”. Tratava-se de uma jovem de treze anos que experimentava crises convulsivas de tal violência, que cinco homens tinham dificuldade de mantê-la em seu leito. Depois das mais diversas tentativas de tratamento médicos e do padre que rezou missa na intenção da jovem, constatou-se o insucesso dos recursos utilizados.

Daí, um grupo espírita de Marmande consultou os guias espirituais sobre a natureza da moléstia da jovem. A resposta dada pelos guias foi à seguinte: “É uma obsessão das mais graves, cujo caráter mudará muitas vezes de fisionomia. Agi friamente, com calma; observai, estudai e chamai Germaine”, acrescentando que na primeira evocação, o Espírito de Germaine não poupou injúrias e “mostrou grande repugnância em responder às nossas interpelações.” (Revista Espírita - Janeiro de 1865, p. 20/21) (grifei)

Adiante, assevera o narrador que os guias deram a seguinte instrução: “Procedei com muito cuidado, muita observação e muito zelo. Tratareis com um Espírito mistificador, que alia a astúcia e a habilidade hipócrita a um caráter muito mal. Não cesseis de estudar, de trabalhar pela moralização desse Espírito e de orar com essa finalidade.” (...) (Revista Espírita - Janeiro de 1865, p. 21)

No caso em tela observa-se a prática da evocação numa sessão mediúnica de desobsessão, onde em um primeiro momento são evocados os guias espirituais objetivando esclarecimento e orientação de como agir face à complexidade do caso. Num segundo momento obedecendo às disposições dadas pelos guias, é feita a evocação do obsessor.

Na leitura do longo processo relatado na Revista, observa-se a alternância das evocações. Em certos momentos são os guias evocados, e sob a orientação destes evocava-se o Espírito obsessor, até o deslinde total da problemática. Ou seja, de acordo com o presente exemplo publicado na Revista Espírita, Kardec demonstra a prática das evocações nas sessões de desobsessão.

Diante do exposto, constata-se que pela falta de estudo, valorização e respeito aos ensinos ministrados pela Espiritualidade Superior e positivados por Allan Kardec, somos levados a acatar orientações alienígenas, anti-doutrinárias, que não trazem em absoluto a tão almejada segurança das comunicações mediúnicas.

Não obstante vale ressaltar, que todos os ensinamentos ministrados pelo Codificador não provinham de uma teoria própria nem de um único Espírito. Mas de uma plêiade de Espíritos evoluídos e preparados para tão grande empreitada!

Finalizando, fica claro que o médium que se diz espírita deveria obrigatoriamente ter como literatura objeto de estudo e orientação nas práticas mediúnicas O Livro dos Médiuns conjuntamente com a Revista Espírita, repositório de experiências e lições que o Codificador disponibilizou para o esclarecimento dos Espiritistas. Obviamente não desconsiderando as demais Obras Fundamentais que estabelecem o alicerce doutrinário.

No que concerne às evocações, se fizermos uma análise racional e profunda da proposta de Kardec, e o tivermos na conta do maior estudioso e conhecedor da Doutrina Espírita na condição de Codificador, assessorado por toda uma equipe espiritual de elevada evolução, não temos como duvidar do melhor procedimento a ser adotado.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Ed. LAKE. SP/SP, 22ª edição. 2002.
KARDEC, Allan. Revista Espírita. Ano VIII. Janeiro de 1865. Ed. FEB. Brasília/DF. 3ª edição. 2004.
XAVIER, Cândido Francisco. O Consolador. Ditado pelo Espírito Emmanuel. Ed. FEB. RJ/RJ. 17ª edição. 1995.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

AS LIÇÕES DE KARDEC AO CRÍTICO




Por Maria das Graças Cabral


Quando Kardec escreveu e publicou o livro “O que é o Espiritismo” em 1859, tinha como proposta apresentar “num rápido esboço“, o esclarecimento de questões fundamentais, que constantemente vinham à baila. Diante do objetivo proposto para obra, J. Herculano Pires esclarece que Kardec aplica na sua execução o seu “agudo senso de professor formado na escola pestaloziana e orientado pela disciplina e o rigor lógico do pensamento francês”. Com essa formação e estilo, imprimiu a forma decisiva e disciplinada no campo do conhecimento espírita.


A organização do livro se fez da seguinte forma: o primeiro capítulo sob a forma de diálogos, onde Kardec responde às objeções mais comuns da parte dos que desconhecem os princípios fundamentais da doutrina espírita, bem como a refutação dos principais argumentos de seus contraditores; o segundo capítulo apresenta um resumo do Livro dos Médiuns, esclarecendo falsas idéias que se formam em razão do desconhecimento; e o terceiro e último capítulo que traz um resumo do Livro dos Espíritos. O presente texto se deterá apenas ao diálogo travado entre Allan Kardec e o Crítico. 


Inicialmente, faz-se por oportuno ressaltar o comportamento prepotente do visitante (crítico), que procurava Kardec objetivando que este o convencesse da realidade dos fenômenos mediúnicos, posto que na sua convicção tudo não passava de pura imaginação, e/ou trapaça.


O crítico acreditava que sua opinião era de grande relevância para o espiritismo. Informava estar escrevendo um livro que segundo sua opinião, ao ser publicado poderia destruir de vez a doutrina espírita. Tal fato poderia ser evitado, caso o interlocutor fosse convencido por Kardec da veracidade dos fenômenos mediúnicos. No caso, sua opinião levaria respeito e credibilidade à doutrina.


Na realidade, queria ser convencido! Considerava-se uma pessoa importante, tendo sua opinião um grande peso para o público, e caberia a Kardec permitindo a sua participação em uma ou duas reuniões experimentais na Sociedade de Paris, fazer com que viesse a mudar de opinião.


Oportuno conferir as palavras iniciais do visitante, quando se reporta ao mestre da seguinte forma: - “Digo-lhe, senhor, que minha razão se recusa a admitir a realidade dos fenômenos extraordinários atribuídos aos Espíritos que, estou persuadido, existem apenas na imaginação. Entretanto, temos que nos inclinar ante a evidência; e isso eu faria se tivesse provas incontestáveis. Venho, pois, solicitar de sua bondade a permissão para assistir, não desejando tornar-se indiscreto, pelo menos a uma ou duas experiências que me convencessem, se isso for possível.”


Vale observar que o crítico alegava que sua razão não admitia a realidade dos fenômenos, levando-o a crer que não passavam de fatos imaginários. Não obstante, se houvessem provas incontestáveis, ele se curvaria às evidências. Insistia que para isso, seria suficiente assistir a uma ou duas sessões experimentais...


Allan Kardec se depara no caso em tela, com uma personalidade prepotente e totalmente ignorante dos princípios espíritas, que se arvorava de crítico do espiritismo! Diante do arrogante interlocutor, o Codificador dá uma lição de equilíbrio emocional, educação, rigor e clareza nas respostas.


Kardec começa argumentando que se a “razão” do crítico se recusa a admitir fatos considerados pelos espíritas como irrecusáveis, é porque tem a sua razão em alta conta, se sobrepondo às convicções de todas as outras pessoas que pensam de forma diferente. Diante de tal fato, não caberia, portanto mais nenhum tipo de diálogo.


Entretanto, o interlocutor propõe que o Mestre procure convencê-lo, posto que, na condição de conhecido antagonista de Kardec, o seu convencimento “constituiria um milagre favorabilíssimo” à causa espírita.


A argumentação do Codificador passa primeiramente pela “desconstrução” do que o oponente considera como um “milagre” favorável à causa espírita. Assevera ao interlocutor que, não seriam apenas uma ou duas sessões suficientes para que este tivesse o real conhecimento do fenômeno mediúnico. Além do que, as reuniões experimentais que organizava, não objetivavam satisfazer a curiosidade, nem muito menos forçar o convencimento de ninguém. Acrescenta que, em relação aos antagonistas com convicções arraigadas, não daria “um passo para desviá-los”, pois não tinha o menor interesse em fazer prosélitos.


Kardec, de forma clara e direta diz ao crítico que aprendeu com o Espiritismo a “dar pouco valor às mesquinhas suscetibilidades do amor próprio,”, pois “aprendeu a não se ofender com palavras“. Caso as palavras do interlocutor viessem a ultrapassar os limites da cortesia e decência, concluiria apenas que este não passava de um homem mal educado, preferindo não partilhar dos defeitos alheios. (O que é o Espiritismo - Cap. I, pag. 14)


Depois de deixar claro que não teria o menor interesse em convencer o visitante, o Mestre adverte-o que caso tivesse a pretensão de se colocar na condição de crítico do espiritismo, deveria antes de mais nada, tornar-se um profundo conhecedor deste. O Codificador preceitua que o crítico não pode limitar-se a dizer que determinada coisa é boa ou má. A condição sine qua non que justificaria e daria credibilidade à sua opinião, passaria pelo estudo profundo da matéria, que o levaria ao conhecimento dos princípios doutrinários objeto da critica.


Pretendendo firmar seu posicionamento, indaga ao interlocutor, como poderia este criticar os fenômenos espíritas, se desconhecia os postulados que os justificavam e serviam de esteio? Acrescenta que “cada qual é perfeitamente livre de aprovar ou desaprovar os princípios do Espiritismo, de deduzir deles as conseqüências boas ou más que lhe aprouverem. Mas a consciência impõe um dever a todo crítico honesto: o dever de não dizer o contrário daquilo que realmente é. Ora, para isso, a primeira condição é calar sobre o que ignora.” (O que é o Espiritismo - Cap. I, pag. 19)


Adiante surge outra questão relevante no diálogo, quando o crítico se diz persuadido de que os fenômenos das mesas girantes, as pancadas, psicografias, não passavam de embuste. Kardec indaga de pronto, quanto este pagou para apreciar o espetáculo. Responde-lhe o interlocutor que nada foi cobrado por parte dos charlatães.


O Mestre refuta mais uma vez o equívoco do visitante, chamando-lhe a atenção para o fato de que nunca tinha visto charlatães desinteressados, esclarecendo-o que mesmo que haja “uma manobra fraudulenta positivamente constatada, o fato nada prova contra a realidade do princípio. Basta levar-se em conta que tudo é passível de abuso.” (O que é o Espiritismo - Cap. I, pag. 18) Ou seja, não se pode generalizar que em todos os fenômenos haja fraude. Que todos os médiuns sejam charlatães, movidos pelo simples prazer de vivenciar o embuste e que, por conseguinte não existiriam fenômenos mediúnicos, sendo tudo mera armação!


Kardec mais uma vez de forma direta e educada, esclarece ao interlocutor que trata de forma diferenciada o incrédulo por ignorância do incrédulo sistemático, pois sempre que percebia as “disposições favoráveis” de alguém, tinha prazer em esclarecê-lo. Não obstante, não perderia seu tempo com aqueles que apresentassem apenas a falsa aparência do desejo de aprender.


Orienta o crítico a instruir-se primeiramente pela teoria, e preceitua: “Leia as obras que tratam da ciência e medite. Nelas encontrará os princípios fundamentais, a descrição de todos os fenômenos.” 


Diante do exposto, podemos constatar que Kardec não se preocupava em firmar convencimento de quem não estava intimamente interessado em compreender os preceitos espíritas. O Codificador não tinha o menor interesse de alimentar a curiosidade de ninguém, nem de fazer prosélitos. Também não temia a crítica dos antagonistas, pois confiava na força da Doutrina dos Espíritos.


Em várias oportunidades o Mestre foi categórico na necessidade do estudo sério dos preceitos espíritas, começando pela análise teórica. Isto porque, no seu entendimento para a organização das sessões experimentais fazia-se imprescindível a compreensão de toda a dinâmica dos fenômenos mediúnicos. Para tanto o conhecimento doutrinário daria toda a segurança e confiabilidade para lidar com a complexidade que envolve o processo mediúnico.


Referência Bibliográfica

Kardec, Allan. O Que é o Espiritismo. Editora Lake. SP-SP. 26ª edição. 2001.