sexta-feira, 6 de julho de 2012

O Sonambulismo face a Doutrina Espírita





Por Maria das Graças Cabral

Muito comumente, ouvem-se relatos de pessoas que durante o sono falam e andam de olhos abertos, contudo inconscientes. O fenômeno é considerado pela medicina como uma doença denominada de “sonambulismo” ou “parassonia.” Caracteriza-se pela alteração de comportamento durante o sono, cuja causa ainda é um mistério para os especialistas. Por enquanto. as respostas eficientes restringem-se aos tratamentos disponíveis para o problema com uso de medicação nos casos mais graves, que põem em risco a segurança do paciente. 


Por outro lado, propaga-se uma ciência denominada de “projeciologia (do latim projectio significa projeção e logos no grego significa tratado) que é o ramo, subcampo, ou especialidade de caráter mais prático da conscienciologia, e da psicobiofísica (versão mais abrangente da parapsicologia) que estuda as projeções energéticas da consciência e as projeções da própria consciência para fora do corpo humano, ou seja, das ações da consciência operando fora do estado de restrição física do cérebro e todo o corpo biológico. Devido à falta de evidência científica e experimentos em condições controladas, à ausência de hipóteses e previsões que possam ser submetidas a teste ou ser falsificadas com o método científico, a projeciologia (assim como os outros ramos da denominada parapsicologia) é considerada uma pseudociência.” (Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Projeciologia)

Observa-se portanto, o desenvolvimento de várias frentes de pesquisa por parte da ciência médica, como também por parte da parapsicologia, no intuito de compreender e esclarecer com eficiência o fenômeno sonambúlico. Na realidade, o sonambulismo é vivenciado por pessoas das mais diversas faixas etárias, graus de instrução, crentes ou não crentes, das mais diversas localidades do mundo, chamando atenção e provocando a curiosidade de estudiosos e leigos.
Diante do exposto, o presente artigo tem por objetivo desenvolver algumas breves considerações sobre o assunto, à luz da Doutrina Espírita. Para tanto, faz-se por oportuno inicialmente a apresentação de algumas experiências sonambúlicas divulgadas:


(I) “O artista plástico britânico Lee Hadwin, que só consegue desenhar enquanto está dormindo, lançou uma exposição de suas obras em Londres. Hadwin foi descrito pelos especialistas da Clínica do Sono de Edimburgo, na Escócia, como um caso único. Ele foi diagnosticado com sonambulismo e conta que não se lembra de absolutamente nada do que produz de madrugada. Hadwin nunca fez cursos de artes e afirma que nunca teve muito interesse por estas atividades. No entanto, enquanto dorme, ele desenha retratos, paisagens e figuras abstratas. Ele começou a desenhar durante o sono quando tinha 4 anos de idade, deixando suas marcas em paredes ou qualquer pedaço de papel que estivesse ao alcance. Atualmente, Hadwin se prepara melhor e deixa seus cadernos de desenho e materiais espalhados pelo apartamento onde vive e vem aperfeiçoando seus trabalhos nos últimos anos.” (Fonte: http://noticias.r7.com/internacional/noticias)

 
 
(II) “Numa madrugada há pouco mais de 20 anos, o médico urologista carioca Luiz Otávio Zahar teve a sensação de acordar no meio da academia de ginástica que costumava freqüentar. As luzes estavam apagadas e não havia ninguém usando os aparelhos de musculação nem circulando pelos corredores. O médico percorreu o espaço de um lado para o outro, sentindo-se absolutamente consciente. Mas seu passeio noturno, segundo Zahar, tinha uma peculiaridade: ele via tudo do alto, como se estivesse suspenso, flutuando. (...)”
 
 
“Naquela madrugada na academia, porém, Zahar resolveu pôr à prova a tese de que realmente conseguia como tantas outras pessoas dizem conseguir sair do corpo, manter o estado de vigília e usar os sentidos para observar coisas concretas. Eu não deixo de ser, fora do corpo, aquele médico cartesiano que sou que quer comprovar as coisas. Pensei: tenho de fazer alguma coisa para provar a mim mesmo essa experiência. Então vi um parafuso esquecido no alto de uma máquina de exercício. Acordei e anotei, conta. No dia seguinte, foi até a máquina. Para ver o que havia em cima dela, precisou subir em um banco. Do chão, era impossível enxergar. Subi e vi o parafuso lá.” (Fonte: http://super.abril.com.br/cotidiano/projecao-astral-viagens-fora-corpo)



(III) “O contador paulista Fernando Augusto Golfar, de 37 anos, afirma que vive projeções desde os 6 anos. Contava a seus pais episódios vivenciados por parentes já mortos com os quais falava durante as experiências e visões de lugares que lembrava ter visto dias antes de visitá-los com a família. Por via das dúvidas, a mãe o levou algumas vezes a uma benzedeira. As experiências prosseguiram. Geralmente me vejo em locais de assistência, hospitais, áreas carentes, enterros ou ajudando usuários de drogas, conta. Assim como Borges, Golfar afirma ter desenvolvido sua mediunidade. Para ele, isso ajuda em suas projeções astrais, mas não é um requisito fundamental.” (Fonte: http://super.abril.com.br/cotidiano/projecao-astral-viagens-fora-corpo)
 
 
Diante dos casos acima expostos, e para que se tenha uma melhor compreensão do fenômeno à luz do Espiritismo, vale ressaltar um dos pontos principais da doutrina, quando estabelece que o ser humano seja composto de três elementos: “(1º) O corpo ou ser material, semelhante ao dos animais e animado pelo mesmo princípio vital; 2º) A alma ou ser imaterial, espírito encarnado no corpo; 3º) O liame que une a alma ao corpo, princípio intermediário entre a matéria e o Espírito. (...) O liame ou perispírito que une o corpo e Espírito é uma espécie de invólucro semi material.” (Livro dos Espíritos - Introdução, VI)

Na realidade, o tema proposto é tratado inicialmente em O Livro dos Espíritos, primeira obra da codificação kardeciana e posteriormente em O Livro dos Médiuns, segundo livro codificado. Em O Livro dos Espíritos, dizem os Mestres espirituais que durante o sono, em razão do repouso orgânico os liames que unem o corpo ao Espírito se relaxam. Como o Espírito não acompanha a inatividade orgânica passa a dispor de mais faculdades que no estado de vigília. (LE, 401)

O fenômeno sonambúlico sob o efeito do sono é conceituado como “um estado de independência da alma, mais completo que no sonho, e então as faculdades adquirem maior desenvolvimento. A alma tem percepções que não atinge no sonho, que é um estado de sonambulismo imperfeito.” (LE, 425)

De acordo com as explanações iniciais, foi visto que a medicina cataloga o sonambulismo como uma doença na qual o sonâmbulo é alguém que por predisposição orgânica executa atividades durante o sono. A esse respeito, esclarecem os Mestres espirituais que o Espírito “preocupado com uma coisa ou outra, se entrega a alguma ação que exige o uso do seu corpo, do qual se serve como se empregasse uma mesa ou qualquer outro objeto material, nos fenômenos de manifestação física, ou mesmo de vossa mão, nas comunicações escritas.” (LE, 427) Ou seja, o Espírito utiliza-se do corpo físico como um instrumento para a realização de alguma atividade que deseje praticar.
 
 
No que tange à clarividência sonambúlica, esta ocorre em razão da aptidão que tem o Espírito de atravessar livremente a matéria e não precisar dos órgãos físicos para ver e/ou ouvir além do plano físico. Dizem os Mestres que no estado de crise, o Espírito se lembra de conhecimentos adquiridos em existências anteriores, embora de forma incompleta, acrescentando que “passada a crise, toda a lembrança se apaga e ele volta à obscuridade.” (LE, p. 431)

Asseveram ainda que “o sonâmbulo possui mais conhecimentos do que lhe reconheceis,” só que adormecidos pelo corpo. Reiteradamente dizem que revivemos inúmeras vezes, e perdemos “materialmente o que conseguimos aprender na existência precedente. Entretanto no estado de crise, ele se lembra embora de maneira incompleta, pois não saberia dizer de onde vem o conhecimento, nem como o possui. Passada a crise, toda a lembrança se apaga e ele volta à obscuridade.” (LE, p. 431) Tais explicações ‘casam’ com o caso do artista plástico britânico Lee Hadwin, (I) que só consegue desenhar enquanto está dormindo.

Adiante prosseguem esclarecendo, que o desenvolvimento da clarividência sonambúlica depende das condições físicas (de acordo com a medicina) que permitem ao Espírito libertar-se de forma mais natural da matéria. A esse respeito, Kardec indaga se o sonâmbulo que vê à distância, vê do lugar em que está seu corpo ou daquele que está a sua alma, isto porque muito comumente o sonâmbulo experimenta no corpo sensações de calor ou de frio do lugar em que se encontra a sua alma, às vezes bem longe do corpo. (LE, p. 436)

Reiteram os Mestres espirituais que é a alma que se transporta e vê, mas como não deixou por completo o corpo, “permanece ligada a ele pelo laço que os une, e é esse laço que os une, o condutor das sensações” (perispírito). (O Livro dos Espíritos - pergunta 437)

Daí a experiência do médico Luiz Otávio Zahar (II) quando relatava que “as luzes da academia estavam apagadas e não havia ninguém usando os aparelhos de musculação nem circulando pelos corredores. O médico percorreu o espaço de um lado para o outro, sentindo-se absolutamente consciente. Mas seu passeio noturno, segundo Zahar, tinha uma peculiaridade: ele via tudo do alto, como se estivesse suspenso, flutuando”. Ou seja, o Espírito do médico libertou-se até a academia de ginástica, conferindo todo o ambiente do jeito em que estava fechada, com as luzes apagadas e totalmente deserta, em razão do horário (madrugada).

Em O Livro dos Médiuns o sonambulismo é tratado como uma variedade da faculdade mediúnica na qual, ocorrem duas ordens de fenômenos que freqüentemente se agregam. A ação do sonâmbulo quando está sob o domínio do próprio Espírito nos momentos de emancipação. Nesse caso, o que vê, ouve e percebe além dos limites dos sentidos, é oriundo dele mesmo (caso do desenhista e do médico).

Não obstante em outras circunstâncias, o sonâmbulo “serve de instrumento a outra inteligência. É passivo e o que diz não é dele. Em resumo; o sonâmbulo exprime o seu próprio pensamento e o médium exprime o pensamento do outro. Mas o Espírito que se comunica através de um médium comum pode fazê-lo por um sonâmbulo. Freqüentemente mesmo o estado de emancipação da alma, no estado sonambúlico, torna fácil essa comunicação.” (O Livro dos Médiuns - Cap. XIV, 172)

“Aqui aplicar-se-ia perfeitamente o relato do contador Fernando Augusto Golfar (III), quando afirma vivenciar o fenômeno sonambúlico (que denomina projeções) desde os 6 anos, quando contava aos pais episódios vivenciados por ‘parentes já mortos” com os quais falava durante as experiências e “visões de lugares que lembrava ter visto dias antes de visitá-los com a família“.

A Doutrina Espírita estabelece que a faculdade sonambúlica seja uma faculdade que depende do organismo e nada tem que ver com a elevação, o adiantamento e a condição moral do sujeito. Um sonâmbulo pode, pois, ser muito lúcido e incapaz de resolver certas questões, se o seu Espírito for pouco adiantado. (O Livro dos Médiuns - Cap. XIV, 174)
 
 
Portanto, para o Espiritismo o fenômeno de “emancipação da alma”, pode ser ocasionado pelo sono, ou provocado magneticamente pelo "fluido vital, eletricidade animalizada que são modificações do fluido universal". (LE. 427) Tal fenômeno depende de uma condição orgânica do indivíduo que possibilita a liberação do Espírito, que se mantém ligado ao corpo físico pelo perispírito.

No que concerne às percepções do mesmo, poderão advir como lembranças confusas e incompletas, ou mesmo nenhuma lembrança. Segundo os Espíritos Superiores, “nos sonhos de que se tem consciência, os órgãos inclusive da memória, começam a despertar e recebem imperfeitamente as impressões produzidas pelos objetos ou as causas exteriores” (...). (LE, p. 425)

Para finalizar, pode-se concluir que o sonambulismo permite a clarividência quando o Espírito do sonâmbulo atravessa livremente os corpos opacos, podendo alcançar longas distâncias. Pode ser considerada como uma modalidade de mediunidade, quando o sonâmbulo em crise entra em contato com Espíritos, podendo vê-los e/ou ouvi-los. Para aqueles que pretendam uma melhor compreensão do assunto, exige-se obviamente um estudo aprofundado das Obras Fundamentais da Doutrina Espírita juntamente com a Revista Espírita.


domingo, 1 de julho de 2012

Evocar ou Não Evocar Determinados Espíritos?


Por Maria das Graças Cabral


O presente texto tem por objetivo tratar do seguinte questionamento: - Se deve ou não evocar determinados Espíritos nas reuniões mediúnicas? A esse respeito, hodiernamente o procedimento usual e padronizado nos centros espíritas ou grupos de estudo, é o de “não evocação” ou “comunicação espontânea”, em consonância com o entendimento do Espírito Emmanuel, mentor do médium Chico Xavier.

A esse respeito o referido Espírito, no livro O Consolador, psicografado pelo médium acima mencionado, quando indagado se é aconselhável a evocação direta de determinados Espíritos, assim se posiciona: - “Não somos dos que aconselham a evocação direta e pessoal, em caso algum. Se essa evocação é passível de êxito, sua exeqüibilidade somente pode ser examinada no plano espiritual.” (O Consolador - pergunta 369, p. 207) (grifo e negrito meus) Como se não ocorresse o mesmo com a comunicação espontânea!

Acrescenta Emmanuel: “Daí a necessidade de sermos espontâneos, porquanto, no complexo dos fenômenos espiríticos, a solução de muitas incógnitas espera o avanço moral dos aprendizes sinceros da Doutrina. O estudioso bem intencionado, portanto, deve pedir sem exigir, orar sem reclamar, observar sem pressa, considerando que a esfera espiritual lhe conhece os méritos e retribuirá os seus esforços de acordo com a necessidade de sua posição evolutiva e segundo o merecimento do seu coração. Podeis objetar que Allan Kardec se interessou pela evocação direta, procedendo a realizações dessa natureza, mas precisamos ponderar, no seu esforço, a tarefa excepcional do Codificador, aliada a necessidades e méritos ainda distantes da esfera de atividade dos aprendizes comuns.” (O Consolador - pergunta 369, p. 207) (grifo e negrito meus)

Diante das elucidações feitas por Emmanuel, observa-se que sua argumentação se opõe sumariamente à evocação direta, sustentando-se primeiramente no entendimento de que o êxito de tais evocações só poderia ser averiguado no plano espiritual. Indaga-se: - Por acaso o êxito da comunicação espontânea tem como ser apurada com toda a segurança no plano material?! Quais seriam os critérios de segurança? Isso objetivamente ele não aponta.

Em seguida alega que devemos pedir sem exigir, orar sem reclamar, etc.. Será que para Emmanuel evocar, chamar, significa exigir, ou impor aos Espíritos seu comparecimento? Rebate que em razão de nossa precária condição moral não devemos evocar Espírito nenhum. Pondera que com Kardec foi diferente, pois o mesmo executava a extraordinária tarefa da codificação associada às suas virtudes pessoais que estamos longe de auferir.

A argumentação de Emmanuel torna-se inaceitável pois a Doutrina dos Espíritos veio para todos independentemente de grau evolutivo, visando alavancar o progresso do espírito humano. Allan Kardec não teria tido todo o cuidado de explanar de forma clara e pedagógica, desenvolvendo um verdadeiro tratado sobre mediunidade em O Livro dos Médiuns, se não objetivasse que a mediunidade fosse bem compreendida e o trabalho mediúnico seguro e acessível a todos.

No que tange às evocações, nas Considerações Gerais do Capítulo XXV de O Livro dos Médiuns quando trata do tema em tela, o Mestre começa pontuando que “algumas pessoas acham que não devemos evocar nenhum Espírito, sendo preferível esperar o que quiser comunicar-se. Entendem que chamando determinado Espírito não temos a certeza de que é ele que se apresenta, enquanto o que vem espontaneamente, por sua própria iniciativa, prova melhor a sua identidade, pois revela assim o desejo de conversar conosco.” (O Livro dos Médiuns - item 269)

Não obstante, estabelece o Codificador que optar pela comunicação espontânea “é um erro”! Observe-se que taxativamente considera um ERRO a não evocação, justificando seu entendimento com as seguintes palavras: “Primeiramente porque estamos sempre rodeados de Espíritos, na maioria das vezes inferiores, que anseiam por se comunicar. Em segundo lugar, e ainda por essa mesma razão, não chamar nenhum em particular é abrir a porta a todos os que querem entrar. Não dar a palavra a ninguém numa assembléia é deixá-la livre a todos, e bem sabemos o que disso resulta. O apelo direto a determinado Espírito estabelece um laço entre ele e nós; o chamamos por nossa vontade e assim opomos uma espécie de barreira aos intrusos. Sem o apelo direto um Espírito muitas vezes não teria nenhum motivo para vir até nós, se não for um nosso Espírito familiar.” (O Livro dos Médiuns - item 269) (grifei)

Acrescenta ainda que (...) “as comunicações espontâneas não têm nenhum inconveniente quando controlamos os Espíritos e temos a certeza de não deixar que os maus venham a dominar.” (O Livro dos Médiuns - item 269) (grifei) Constata-se que Kardec demonstra a temeridade de lidar com tais comunicações espontâneas, em face da dificuldade de se controlar os Espíritos comunicantes, e obstar de forma efetiva o domínio dos maus. Ou seja, o Codificador não apenas “se interessou” pelas evocações como “sutilmente” afirma Emmanuel. Ele as utilizou de forma sistemática e rechaçou as comunicações espontâneas considerando tal prática um “erro”. Até porque Kardec nunca usou de subterfúgios nem meias palavras. Sempre primou pela correição de vocabulário e clareza de idéias!

Entende-se, portanto que o interesse de certos Espíritos nas comunicações espontâneas está justamente na liberdade que os permite facilmente mistificar. Não obstante, Kardec com muita propriedade argüiu que numa reunião onde a palavra não é dada a ninguém, fala quem quer o que quer, tendo como corolário reuniões desorganizadas, improdutivas e mistificadas.

A esse respeito, faz-se por oportuno também mencionar as sessões mediúnicas onde vários Espíritos se comunicam espontânea e concomitantemente, ocorrendo paralelas doutrinações. Indaga-se: - Uma reunião nesses moldes obedece aos preceitos de organização e respeito que Kardec impinge às sessões experimentais? É óbvio que uma reunião onde várias pessoas falam ao mesmo tempo, denota total falta de urbanidade e descaso pela exposição de cada um. Imagine-se tal ocorrência num ambiente com Espíritos nos mais variados estágios de desequilíbrio!

Diante do exposto, reporto-me a uma publicação de Kardec na Revista Espírita de janeiro de 1865, intitulada “Nova Cura de uma Jovem Obsedada de Marmande”. Tratava-se de uma jovem de treze anos que experimentava crises convulsivas de tal violência, que cinco homens tinham dificuldade de mantê-la em seu leito. Depois das mais diversas tentativas de tratamento médicos e do padre que rezou missa na intenção da jovem, constatou-se o insucesso dos recursos utilizados.

Daí, um grupo espírita de Marmande consultou os guias espirituais sobre a natureza da moléstia da jovem. A resposta dada pelos guias foi à seguinte: “É uma obsessão das mais graves, cujo caráter mudará muitas vezes de fisionomia. Agi friamente, com calma; observai, estudai e chamai Germaine”, acrescentando que na primeira evocação, o Espírito de Germaine não poupou injúrias e “mostrou grande repugnância em responder às nossas interpelações.” (Revista Espírita - Janeiro de 1865, p. 20/21) (grifei)

Adiante, assevera o narrador que os guias deram a seguinte instrução: “Procedei com muito cuidado, muita observação e muito zelo. Tratareis com um Espírito mistificador, que alia a astúcia e a habilidade hipócrita a um caráter muito mal. Não cesseis de estudar, de trabalhar pela moralização desse Espírito e de orar com essa finalidade.” (...) (Revista Espírita - Janeiro de 1865, p. 21)

No caso em tela observa-se a prática da evocação numa sessão mediúnica de desobsessão, onde em um primeiro momento são evocados os guias espirituais objetivando esclarecimento e orientação de como agir face à complexidade do caso. Num segundo momento obedecendo às disposições dadas pelos guias, é feita a evocação do obsessor.

Na leitura do longo processo relatado na Revista, observa-se a alternância das evocações. Em certos momentos são os guias evocados, e sob a orientação destes evocava-se o Espírito obsessor, até o deslinde total da problemática. Ou seja, de acordo com o presente exemplo publicado na Revista Espírita, Kardec demonstra a prática das evocações nas sessões de desobsessão.

Diante do exposto, constata-se que pela falta de estudo, valorização e respeito aos ensinos ministrados pela Espiritualidade Superior e positivados por Allan Kardec, somos levados a acatar orientações alienígenas, anti-doutrinárias, que não trazem em absoluto a tão almejada segurança das comunicações mediúnicas.

Não obstante vale ressaltar, que todos os ensinamentos ministrados pelo Codificador não provinham de uma teoria própria nem de um único Espírito. Mas de uma plêiade de Espíritos evoluídos e preparados para tão grande empreitada!

Finalizando, fica claro que o médium que se diz espírita deveria obrigatoriamente ter como literatura objeto de estudo e orientação nas práticas mediúnicas O Livro dos Médiuns conjuntamente com a Revista Espírita, repositório de experiências e lições que o Codificador disponibilizou para o esclarecimento dos Espiritistas. Obviamente não desconsiderando as demais Obras Fundamentais que estabelecem o alicerce doutrinário.

No que concerne às evocações, se fizermos uma análise racional e profunda da proposta de Kardec, e o tivermos na conta do maior estudioso e conhecedor da Doutrina Espírita na condição de Codificador, assessorado por toda uma equipe espiritual de elevada evolução, não temos como duvidar do melhor procedimento a ser adotado.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Ed. LAKE. SP/SP, 22ª edição. 2002.
KARDEC, Allan. Revista Espírita. Ano VIII. Janeiro de 1865. Ed. FEB. Brasília/DF. 3ª edição. 2004.
XAVIER, Cândido Francisco. O Consolador. Ditado pelo Espírito Emmanuel. Ed. FEB. RJ/RJ. 17ª edição. 1995.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

AS LIÇÕES DE KARDEC AO CRÍTICO




Por Maria das Graças Cabral


Quando Kardec escreveu e publicou o livro “O que é o Espiritismo” em 1859, tinha como proposta apresentar “num rápido esboço“, o esclarecimento de questões fundamentais, que constantemente vinham à baila. Diante do objetivo proposto para obra, J. Herculano Pires esclarece que Kardec aplica na sua execução o seu “agudo senso de professor formado na escola pestaloziana e orientado pela disciplina e o rigor lógico do pensamento francês”. Com essa formação e estilo, imprimiu a forma decisiva e disciplinada no campo do conhecimento espírita.


A organização do livro se fez da seguinte forma: o primeiro capítulo sob a forma de diálogos, onde Kardec responde às objeções mais comuns da parte dos que desconhecem os princípios fundamentais da doutrina espírita, bem como a refutação dos principais argumentos de seus contraditores; o segundo capítulo apresenta um resumo do Livro dos Médiuns, esclarecendo falsas idéias que se formam em razão do desconhecimento; e o terceiro e último capítulo que traz um resumo do Livro dos Espíritos. O presente texto se deterá apenas ao diálogo travado entre Allan Kardec e o Crítico. 


Inicialmente, faz-se por oportuno ressaltar o comportamento prepotente do visitante (crítico), que procurava Kardec objetivando que este o convencesse da realidade dos fenômenos mediúnicos, posto que na sua convicção tudo não passava de pura imaginação, e/ou trapaça.


O crítico acreditava que sua opinião era de grande relevância para o espiritismo. Informava estar escrevendo um livro que segundo sua opinião, ao ser publicado poderia destruir de vez a doutrina espírita. Tal fato poderia ser evitado, caso o interlocutor fosse convencido por Kardec da veracidade dos fenômenos mediúnicos. No caso, sua opinião levaria respeito e credibilidade à doutrina.


Na realidade, queria ser convencido! Considerava-se uma pessoa importante, tendo sua opinião um grande peso para o público, e caberia a Kardec permitindo a sua participação em uma ou duas reuniões experimentais na Sociedade de Paris, fazer com que viesse a mudar de opinião.


Oportuno conferir as palavras iniciais do visitante, quando se reporta ao mestre da seguinte forma: - “Digo-lhe, senhor, que minha razão se recusa a admitir a realidade dos fenômenos extraordinários atribuídos aos Espíritos que, estou persuadido, existem apenas na imaginação. Entretanto, temos que nos inclinar ante a evidência; e isso eu faria se tivesse provas incontestáveis. Venho, pois, solicitar de sua bondade a permissão para assistir, não desejando tornar-se indiscreto, pelo menos a uma ou duas experiências que me convencessem, se isso for possível.”


Vale observar que o crítico alegava que sua razão não admitia a realidade dos fenômenos, levando-o a crer que não passavam de fatos imaginários. Não obstante, se houvessem provas incontestáveis, ele se curvaria às evidências. Insistia que para isso, seria suficiente assistir a uma ou duas sessões experimentais...


Allan Kardec se depara no caso em tela, com uma personalidade prepotente e totalmente ignorante dos princípios espíritas, que se arvorava de crítico do espiritismo! Diante do arrogante interlocutor, o Codificador dá uma lição de equilíbrio emocional, educação, rigor e clareza nas respostas.


Kardec começa argumentando que se a “razão” do crítico se recusa a admitir fatos considerados pelos espíritas como irrecusáveis, é porque tem a sua razão em alta conta, se sobrepondo às convicções de todas as outras pessoas que pensam de forma diferente. Diante de tal fato, não caberia, portanto mais nenhum tipo de diálogo.


Entretanto, o interlocutor propõe que o Mestre procure convencê-lo, posto que, na condição de conhecido antagonista de Kardec, o seu convencimento “constituiria um milagre favorabilíssimo” à causa espírita.


A argumentação do Codificador passa primeiramente pela “desconstrução” do que o oponente considera como um “milagre” favorável à causa espírita. Assevera ao interlocutor que, não seriam apenas uma ou duas sessões suficientes para que este tivesse o real conhecimento do fenômeno mediúnico. Além do que, as reuniões experimentais que organizava, não objetivavam satisfazer a curiosidade, nem muito menos forçar o convencimento de ninguém. Acrescenta que, em relação aos antagonistas com convicções arraigadas, não daria “um passo para desviá-los”, pois não tinha o menor interesse em fazer prosélitos.


Kardec, de forma clara e direta diz ao crítico que aprendeu com o Espiritismo a “dar pouco valor às mesquinhas suscetibilidades do amor próprio,”, pois “aprendeu a não se ofender com palavras“. Caso as palavras do interlocutor viessem a ultrapassar os limites da cortesia e decência, concluiria apenas que este não passava de um homem mal educado, preferindo não partilhar dos defeitos alheios. (O que é o Espiritismo - Cap. I, pag. 14)


Depois de deixar claro que não teria o menor interesse em convencer o visitante, o Mestre adverte-o que caso tivesse a pretensão de se colocar na condição de crítico do espiritismo, deveria antes de mais nada, tornar-se um profundo conhecedor deste. O Codificador preceitua que o crítico não pode limitar-se a dizer que determinada coisa é boa ou má. A condição sine qua non que justificaria e daria credibilidade à sua opinião, passaria pelo estudo profundo da matéria, que o levaria ao conhecimento dos princípios doutrinários objeto da critica.


Pretendendo firmar seu posicionamento, indaga ao interlocutor, como poderia este criticar os fenômenos espíritas, se desconhecia os postulados que os justificavam e serviam de esteio? Acrescenta que “cada qual é perfeitamente livre de aprovar ou desaprovar os princípios do Espiritismo, de deduzir deles as conseqüências boas ou más que lhe aprouverem. Mas a consciência impõe um dever a todo crítico honesto: o dever de não dizer o contrário daquilo que realmente é. Ora, para isso, a primeira condição é calar sobre o que ignora.” (O que é o Espiritismo - Cap. I, pag. 19)


Adiante surge outra questão relevante no diálogo, quando o crítico se diz persuadido de que os fenômenos das mesas girantes, as pancadas, psicografias, não passavam de embuste. Kardec indaga de pronto, quanto este pagou para apreciar o espetáculo. Responde-lhe o interlocutor que nada foi cobrado por parte dos charlatães.


O Mestre refuta mais uma vez o equívoco do visitante, chamando-lhe a atenção para o fato de que nunca tinha visto charlatães desinteressados, esclarecendo-o que mesmo que haja “uma manobra fraudulenta positivamente constatada, o fato nada prova contra a realidade do princípio. Basta levar-se em conta que tudo é passível de abuso.” (O que é o Espiritismo - Cap. I, pag. 18) Ou seja, não se pode generalizar que em todos os fenômenos haja fraude. Que todos os médiuns sejam charlatães, movidos pelo simples prazer de vivenciar o embuste e que, por conseguinte não existiriam fenômenos mediúnicos, sendo tudo mera armação!


Kardec mais uma vez de forma direta e educada, esclarece ao interlocutor que trata de forma diferenciada o incrédulo por ignorância do incrédulo sistemático, pois sempre que percebia as “disposições favoráveis” de alguém, tinha prazer em esclarecê-lo. Não obstante, não perderia seu tempo com aqueles que apresentassem apenas a falsa aparência do desejo de aprender.


Orienta o crítico a instruir-se primeiramente pela teoria, e preceitua: “Leia as obras que tratam da ciência e medite. Nelas encontrará os princípios fundamentais, a descrição de todos os fenômenos.” 


Diante do exposto, podemos constatar que Kardec não se preocupava em firmar convencimento de quem não estava intimamente interessado em compreender os preceitos espíritas. O Codificador não tinha o menor interesse de alimentar a curiosidade de ninguém, nem de fazer prosélitos. Também não temia a crítica dos antagonistas, pois confiava na força da Doutrina dos Espíritos.


Em várias oportunidades o Mestre foi categórico na necessidade do estudo sério dos preceitos espíritas, começando pela análise teórica. Isto porque, no seu entendimento para a organização das sessões experimentais fazia-se imprescindível a compreensão de toda a dinâmica dos fenômenos mediúnicos. Para tanto o conhecimento doutrinário daria toda a segurança e confiabilidade para lidar com a complexidade que envolve o processo mediúnico.


Referência Bibliográfica

Kardec, Allan. O Que é o Espiritismo. Editora Lake. SP-SP. 26ª edição. 2001.




domingo, 24 de junho de 2012

A Formação dos Participantes de Sessões Experimentais Segundo Allan Kardec

Por Maria das Graças Cabral

Para tratar do tema proposto, importante pontuar que foi através do processo mediúnico que os Espíritos Superiores trouxeram ao mundo toda uma doutrina de caráter filosófico e moral, objetivando alavancar o progresso do espírito humano. Não obstante, o fenômeno mediúnico não foi algo inédito, irrompido nos albores do século XIX com suas mesas girantes e falantes, posto que, desde tempos longínquos se tem notícias de fatos considerados como sobrenaturais, maravilhosos, fantásticos.


A título de exemplo, pode-se observar em diversas passagens da Bíblia católica e protestante, o relato da “aparição de anjos“, as famosas “profecias,” dentre outros fenômenos de efeitos materiais, como os acontecidos através de Moisés, líder do povo hebreu. No Novo Testamento, também em várias oportunidades, os evangelistas relatam a ocorrência de fatos mediúnicos. Em alguns é Jesus o protagonista, quando ordena o afastamento de espíritos inferiores do jovem possesso, ou quando é visto falando com Moisés e Elias, já mortos e materializados no monte Tabor, dentre outras passagens evangélicas.

Além dos relatos bíblicos, é fato que os fenômenos mediúnicos permeiam a história dos povos em todos os tempos. Quem nunca ouviu falar das famosas “casas mal assombrada” e seus “fantasmas“? Quem nunca ouviu relatos, ou não vivenciou a experiência de ter visto, ouvido ou mesmo sonhado com alguém que já morreu e ter nítida sensação do encontro? Quem não ouviu falar, ou vivenciou em sua própria casa, movimento de móveis, gavetas, batidas de portas sem a interferência do vento, atividades na cozinha com louças e talheres, passos, ruídos nas escadas, vozes e conversas, os famosos “balançar de redes”, vultos que atravessam cômodos, ou apenas observam, dentre muitas outras ocorrências? Entretanto, tais relatos e experiências eram e ainda são na atualidade, relegados à condição de lendas, fatos sobrenaturais ou mera ilusão.

No que concerne aos homens, mulheres, e crianças que viam, ouviam ou provocavam tais fenômenos, eram tidos como profetas, bruxos (as), endemoniados (as), loucos (as). A história nos conta o destino de milhares deles e delas que foram mortos nas fogueiras, nas forcas e guilhotinas, quando não, afastadas da sociedade juntamente com os portadores de lepra, ou presos até a morte nos manicômios. Hodiernamente, muitas são as pessoas que evitam relatar suas experiências mediúnicas temendo serem desacreditadas e/ou consideradas, loucas, esquizofrênicas, tolas e impressionáveis.

Não obstante, o gênio investigativo de Allan Kardec fez uma leitura diferenciada e profunda dos fenômenos que apenas despertavam espanto e/ou distraiam os homens e mulheres do século XIX, alcançando uma dimensão muito maior da que era percebida pelos demais. E assim, através das comunicações mediúnicas foi erguido todo o complexo doutrinário espírita.

Na realidade o trabalho sério e dedicado do grande Mestre, trouxe a lume uma das leis da natureza, que estabelece o intercâmbio entre o mundo material e o mundo espiritual. Ou seja, inexiste essa concepção de “sobrenatural“, pois Deus não derroga as suas leis eternas e imutáveis. A humanidade é que até então desconhecia que os fenômenos considerados maravilhosos e inexplicáveis, eram provocados pelos Espíritos dos homens que não mais habitavam o corpo material, e procuravam se comunicar com a humanidade encarnada.

Assim sendo, o Codificador através da observação e dos ensinamentos ministrados pelos próprios Espíritos, estabeleceu como um dos princípios da doutrina espírita, “a aceitação da existência, sobrevivência e individualidade da alma,” afirmando que enquanto o Espiritualismo em geral oferece a demonstração teórica dogmática, é o Espiritismo que apresenta a demonstração experimental. (LM, Cap. I, 1)

Além da certeza da existência e sobrevivência do Espírito, ficou clara a interação das inteligências encarnadas e desencarnadas. Segundo as palavras dos Espíritos Superiores “a alma é um Espírito que pensa” e muitos pensamentos que nos ocorrem, “a um só tempo, sobre o mesmo assunto, freqüentemente contraditórios”, demonstram a interferência de um pensar divergente dos nossos. (LE, perguntas 459/460)

Portanto, na condição de Espíritos encarnados que pensam, estamos todos influenciando e sendo influenciados pela população de Espíritos desencarnados “que nos envolve e no meio do qual vivemos rodeados por ela.” (LM, Cap. I, 2)

Em face da grandiosidade dessas verdades, e orientado pelos grandes Mestres Espirituais, Allan Kardec dedicou todo um trabalho de aprofundamento e sistematização para o estudo e compreensão de toda a dinâmica do processo mediúnico. As experiências vivenciadas e consideradas de relevância para o esclarecimento dos espíritas foram publicadas na Revista Espírita, e o maior tratado sobre mediunidade foi positivado em O Livro dos Médiuns.

É nessa obra grandiosa, que Kardec ao tratar do Método para o estudo da mediunidade estabelece: “Dissemos que o Espiritismo é toda uma Ciência, toda uma Filosofia. Quem desejar conhecê-lo seriamente deve, pois como primeira condição, submeter-se a um estudo sério e persuadir-se de que, mais do que qualquer outra ciência, não se pode aprendê-lo brincando. O Espiritismo já o disse se relaciona com todos os problemas da Humanidade. Seu campo é imenso e devemos encará-lo, sobretudo quanto às suas conseqüências. A crença nos Espíritos constitui sem dúvida a sua base, mas não basta para fazer um espírita esclarecido, como a crença em Deus não basta para fazer um teólogo.” (LM, Cap. III, 18)

Portanto, é inconcebível que um espírita que se proponha a participar como membro de uma sessão experimental, não tenha estudado refletido, compreendido e internalizado o que foi proposto pelos Espíritos Superiores e codificado por Allan Kardec nas Obras Fundamentais da Doutrina dos Espíritos.

A esse respeito, o Mestre orienta o estudo prévio da teoria, pois tem a vantagem de mostrar imediatamente a grandeza do objetivo e o alcance desta Ciência. Acentua que os que crêem sem ter visto, porque leram e compreenderam, ao invés de superficiais são os mais ponderados, pois “ligando-se mais ao fundo que à forma, o aspecto filosófico é para eles o principal, e os fenômenos propriamente ditos são apenas o acessório. (...) As manifestações corroboram, a confirmam, mas não constituem um fundamento essencial.” (LM, Cap. III, 32)

Adiante, reportando-se àqueles que desejarem adquirir os conhecimentos preliminares espíritas, aconselha o estudo obedecendo à seguinte ordem: 1º) O que é o Espiritismo; 2º) O Livro dos Espíritos; 3º) O Livro dos Médiuns e 4º) a Revista Espírita, que segundo o Codificador “traz uma variada coletânea de fatos, de explicações teóricas e de trechos destacados que completam a exposição das duas obras precedentes, e que representa de alguma maneira a sua aplicação. Sua leitura pode ser feita ao mesmo tempo em que a daquelas obras, mas será mais proveitosa e mais compreensível, sobretudo após a de O Livro dos Espíritos.”

Kardec deixa claro como pressuposto para o efetivo trabalho mediúnico, que haja uma compreensão prévia dos “fatos espíritas”, para só então participar-se das “sessões experimentais”, pela necessidade de pessoas “suficientemente preparadas” para compreender o que se passa.

O Codificador em outra oportunidade reafirma: “Por isso dizemos que quem estudar seriamente esta ciência deve aprofundar-se bastante e durante longo tempo, pois só o tempo lhe permitirá perceber os detalhes, notar as nuanças delicadas, observar uma infinidade de fatos característicos que serão como raios luminosos. Mas se permanecer na superfície expõe-se a julgar prematuramente e, portanto de maneira errônea.” (LM, Cap. IV, 46) Diante do exposto, fica claro que o estudo se faz imprescindível em face da grande complexidade que envolve o processo mediúnico. O trabalhador despreparado não terá condições para racionalmente analisar as comunicações, confrontá-las com os ensinamentos dos Espíritos Superiores positivados nas obras fundamentais, e assim descartar o que é verdadeiro do que se trata de pura mistificação.

Faz-se por oportuno pontuar outra problemática que comprometerá grandemente a qualidade das reuniões. Trata-se dos vícios morais próprios dos Espíritos imperfeitos vinculados ao planeta Terra, e que participarão da sessão na condição de encarnados e desencarnados.

Diz o Espírito Erasto em O Livro dos Médiuns que “se o médium é de baixa moral, os Espíritos inferiores se agrupam em torno dele e estão sempre prontos a tomar o lugar dos bons Espíritos a que ele apelou.” Acrescenta que “todas as imperfeições morais são portas abertas aos Espíritos maus, mas a que eles exploram com mais habilidade é o orgulho, porque é essa a que menos a gente se confessa a si mesmo. O orgulho tem posto a perder numerosos médiuns dotados das mais belas faculdades que, sem ele, seriam instrumentos excelentes e muito úteis.” (LM, Cap. XVIII, 228)

Adiante diagnostica que a “confiança absoluta na superioridade das comunicações obtidas, desprezo pelas que não vierem por seu intermédio, consideração irrefletida pelos grandes nomes, rejeição de conselhos, repulsa a qualquer crítica, afastamento dos que podem dar opiniões desinteressadas, confiança na própria habilidade apesar da falta de experiência - são essas as características dos médiuns orgulhosos.” (LM, Cap. XVIII, 228)

Finalmente encerra afirmando que “se um médium, seja qual for, por sua conduta ou seus costumes, por seu orgulho, por sua falta de amor e de caridade, der um motivo legítimo de suspeição, rejeitai, rejeitai as suas comunicações, porque há uma serpente oculta na relva. Eis a minha conclusão sobre a influência moral dos médiuns.” (LM, Cap. XVIII, 229)

Diante do exposto, fica claro que para que se organize um grupo confiável que desenvolva a parte experimental da doutrina espírita, exige-se estudo doutrinário efetivo nos moldes estabelecidos por Allan Kardec em O Livro dos Médiuns. Além do mergulho na doutrina, faz-se necessário todo um trabalho pessoal e verdadeiro no que concerne aos pontos mais vulneráveis da moralidade de cada um - ressalvando-se a questão do orgulho e suas conseqüências devastadoras para o labor desenvolvido. De acordo com os ensinamentos do Espírito de Erasto resumidamente transpostos acima, este aspecto é também de fundamental importância para que se alcance o objetivo de instrução e auxílio de encarnados e desencarnados.

terça-feira, 19 de junho de 2012

A QUESTÃO RELIGIOSA NO ESPIRITISMO


Por Eugenio Lara

 

Atendendo à solicitação do coordenador do Espirit Book, Henrique Ventura Regis, pretendo expor aqui, de modo sintético e amparado no pensamento de Allan Kardec, o que penso sobre a chamada questão religiosa no movimento espírita.


 

Afinal, o Espiritismo é ou não é religião? Tema complexo, apaixonante, tão antigo quanto o Espiritismo, tornou-se recorrente e motivo de discórdia, de cisão e de posturas sectárias. Tanto que, nos anos 1980, o movimento espírita se viu dividido entre duas posições antagônicas, a dos espíritas religiosos e a dos não-religiosos. Ruptura semelhante à que ocorreu entre os espíritas místicos e os espíritas científicos, no Brasil do século 19. Essa divisão ainda prossegue, sem que possamos vislumbrar algum tipo de consenso.


 

Todavia, ninguém melhor do que o fundador do Espiritismo para defini-lo. E ele o fez diversas vezes, em vários momentos de sua obra. Apesar da evidente vinculação doutrinária ao cristianismo, Allan Kardec rechaçou de modo veemente o suposto caráter religioso do Espiritismo e condenou o uso da palavra religião para classifica-lo, devido ao seu duplo sentido: de laço e de culto.



Quem primeiro levantou esse tema foi o Abade Chesnel, ao considerar que havia “uma nova religião em Paris”, que deveria ser combatida e reprimida. Através da Revista Espírita, Kardec rebateu a tese do Abade, também expondo-a de forma didática em O Que é o Espiritismo, no debate com o Padre.


 

Allan Kardec insistiu em definir o Espiritismo como uma ciência de observação, de consequências morais, como qualquer ciência ou forma de conhecimento. A seguir, iremos transcrever de suas obras uma série de pensamentos do Druida de Lyon, a fim de observarmos que ele não vacilou nessa questão e sempre procurou deixar claro, de modo bem didático, o que pensava a respeito do caráter e da natureza da doutrina espírita.


 

O Que é o Espiritismo


“O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, da origem e do destino dos Espíritos e de suas relações com o mundo corporal.” (p. 44)


“O Espiritismo é, antes de tudo, uma ciência e não se ocupa das questões dogmáticas. Essa ciência tem consequências morais, como todas as ciências filosóficas.” (p. 102)


“O seu verdadeiro caráter é, portanto, o de uma ciência e não o de uma religião.” (p. 103)


“O Espiritismo conta entre os seus partidários homens de todas as crenças, que nem por isso renunciam às suas convicções: católicos fervorosos, protestantes, judeus, muçulmanos, e até budistas e hindus.” (p. 103)


“O Espiritismo não era mais que simples doutrina filosófica; foi a própria Igreja que o proclamou como nova religião.” (p. 100)


“Não somos ateus, porém não implica isso que sejamos protestantes.” (p. 104)


Só “existem duas coisas no Espiritismo: a parte experimental das manifestações e a doutrina filosófica.” (p. 95)


“Sem ser em si mesmo uma religião, o Espiritismo está ligado essencialmente às idéias religiosas.” (p. 116)


A Gênese


“É, pois, rigorosamente exato dizer que o Espiritismo é uma ciência de observação e não produto da imaginação.” (p. 20)


“O Espiritismo é uma revelação (...) na acepção científica da palavra.” (p. 19)


“O Livro dos Espíritos, a primeira obra que levou o Espiritismo a ser considerado de um ponto de vista filosófico, pela dedução das consequências morais dos fatos.” (p. 40 - Nota de rodapé)


“As religiões hão sido sempre instrumentos de dominação.” (p. 17)


O Espiritismo em Sua Expressão Mais Simples


“Do ponto de vista religioso, o Espiritismo tem por base as verdades fundamentais de todas as religiões.” (p. 27)


“Homens de todas as castas, de todas as seitas, de todas as cores, sois todos irmãos.” (p. 39)



Há dezenas de outras afirmações de Allan Kardec que poderiam ser aqui citadas, mas não seriam suficientes para fechar a questão. Há fatores antropológicos, sociológicos, psicológicos e históricos a serem contemplados. Estudos recentes no campo da antropologia social demonstram o caráter religioso do Espiritismo brasileiro. O Espiritismo é uma religião, uma forma de culto, foi assim que ele se desenvolveu historicamente. Não há como negar.



Pensadores espíritas de grande envergadura, como Carlos Imbassahy e Herculano Pires, admitiram o caráter religioso do Espiritismo, como uma doutrina de tríplice aspecto (ciência, filosofia e religião), idéia semelhante ao “triângulo de forças espirituais” do espírito Emmanuel.



Apoiado na conceituação do filósofo francês Henri Bergson, Herculano desenvolveu uma interessante tese da religião como fator natural, dinâmica, a chamada religião natural, em uma conceituação próxima à do iluminista francês Rousseau e do pedagogo suíço Pestalozzi, mestre de Rivail.



Por sua vez, pensadores espíritas outros como David Grossvater, Jon Aizpúrua, Jaci Regis e Krishnamurti de Carvalho Dias, apoiados no humanismo kardequiano e no laicismo espírita, conduziram seu pensamento rumo a uma concepção laica, não-religiosa do Espiritismo. O segmento não-religioso é minoria, mas bastante expressivo, dinâmico, aberto ao debate e às novas idéias.



Na dúvida, ficamos com Allan Kardec. Como vimos, ele rechaçou a idéia de uma religião espírita. Rejeitou a palavra religião para definir o Espiritismo. Não há como negar esse fato.



Afinal, quem estará com a razão? Difícil dizer. O tempo dirá...


 

 

OBRAS CITADAS


KARDEC Allan - O Que é o Espiritismo, trad. Joaquim da Silva Sampaio Lobo in Iniciação Espírita, 5ª ed. São Paulo-SP [Edicel].

KARDEC Allan - O Espiritismo na sua Mais Simples Expressão, trad. Joaquim da Silva Sampaio Lobo in Iniciação Espírita, 5ª ed. São Paulo-SP [Edicel].

KARDEC Allan - A Gênese, trad. Guillon Ribeiro, 36ª ed. Rio de Janeiro-RJ [FEB].

KARDEC Allan - Revista Espírita, trad. Júlio Abreu Filho, 1ª ed. São Paulo-SP [Edicel].


 

 

Fonte: Espirit Book - http://www.espiritbook.com.br/profiles/blogs/a-questao-religiosa-no

  


domingo, 17 de junho de 2012

A REORGANIZAÇÃO DO ESPIRITISMO



Por Maria das Graças Cabral


A Doutrina dos Espíritos foi codificada e positivada por Allan Kardec em meados do século XIX. À época com grande satisfação asseverava o Codificador em várias oportunidades, que eram numerosos os espíritas disseminados por todos os países. O espiritismo avançava a passos largos!
 
Passados mais de um século do desencarne do Codificador, e vivenciando a primeira década do século XXI, pode-se lançar as seguintes indagações: - Afinal, o Espiritismo se propagou e se consolidou no mundo contemporâneo e globalizado? Seus princípios foram difundidos de forma célere e efetiva? Temos um grande número de escolas, e universidades espíritas ensinando espiritismo mundo afora? O Brasil, estatisticamente considerado o maior reduto de espíritas do mundo, cumpre seu papel de divulgador fiel do Espiritismo?
 
Para tais questionamentos podemos afirmar de pronto e objetivamente, que a Doutrina Espírita, não se propagou nem se consolidou pós desencarne de Allan Kardec. Na França, berço da Sociedade de Paris, segundo narrativa de Gélio Lacerda da Silva “a Revista Espírita, caiu nas mãos do seu gerente Pierre Gaëtan Leymarie, que por seu excessivo espírito de tolerância, desvirtuou a finalidade da Revista, abrindo suas páginas à propaganda de filosofias espiritualistas, inclusive à de Roustaing, que diverge do Espiritismo. Além disso, lamentavelmente, o Sr. Leymarie se deixou enganar por um fotógrafo fraudulento, que lhe custou um ano de prisão, com danosas conseqüências para o Espiritismo, na França, tanto que, com esse triste episódio, espírita na França, passou a ser sinônimo de "escroque" (trapaceiro, vigarista, velhaco, caloteiro...)" citando o autor como fonte de consulta o livro "Allan Kardec" de autoria de Zeus Wantuil e Francisco Thiesen, 1ª edição da FEB, vol. III, pág. 225.
 
Nos demais países europeus, o espiritismo tomou rumos diversos, até seu total desaparecimento na poeira dos tempos. Da mesma forma aconteceu na América do Norte, reduto dos fenômenos de Hydesville, dentre muitos outros.
 
No que concerne ao Brasil, segundo as palavras de Gélio temos “um sincretismo religioso de ideologias conflitantes, um misto, ou melhor, uma miscelânea de espiritismo, roustainguismo, ubaldismo, umbandismo. Sim, até umbandismo, porque, para a Diretoria da FEB, onde há mediunismo, há também espiritismo (Reformador, 16/10/26), enfim, um saco de gatos..." (Gélio Lacerda da Silva, "Conscientização Espírita", págs. 108 a 114).
 
Não obstante, Allan Kardec muito prezou em evitar que o espiritismo se transformasse em mais uma religião dogmática e mística, por ser segundo suas palavras uma doutrina filosófica e moral, que tem por objetivo emancipar o espírito humano de tudo o que foi posto e imposto pelas religiões tradicionais. À esse respeito, assim se expressou o Mestre: “Por que, então, temos declarado que o Espiritismo não é uma religião? Em razão de não haver senão uma palavra para exprimir duas idéias diferentes, e que, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da de culto; porque desperta exclusivamente uma idéia de forma, que o Espiritismo não tem. Se o Espiritismo se dissesse uma religião, o público não veria aí mais que uma nova edição, uma variante, se se quiser, dos princípios absolutos em matéria de fé; uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios; não o separaria das idéias de misticismo e dos abusos contra os quais tantas vezes a opinião se levantou.” (Revista Espírita, dezembro de 1868)
 
Entretanto, a despeito da vontade do Codificador, o espiritismo brasileiro tomou um formato religioso igrejeiro, com centros espíritas que adotam práticas ritualísticas, místicas e anti-espíritas, que vão desde os cantos religiosos, rezas (Pai-Nosso, Ave-Maria, A Prece de Cáritas), exercícios de meditação com o canto de mantras, filas para o recebimento de passes, assemelhando-se às filas de comunhão católica; águas fluidificadas que se assemelham às “águas bentas”; o funcionamento de salas de cromoterapia, de cirurgias espirituais, até a substituição das imagens dos santos católicos, pelas fotografias emolduradas de Jesus, Maria de Nazaré, Allan Kardec, Léon Denis, Bezerra de Menezes, Emmanuel, André Luiz, Chico Xavier, dentre outros, afixadas em suas paredes e fixadas pelos olhar devoto de seus freqüentadores.
 
Não obstante, além das questões de “forma”, temos as questões de “fundo”, sendo estas últimas também deturpadoras dos princípios doutrinários espíritas. A corrupção doutrinária é disseminada pela literatura e pelos palestrantes. Entretanto, considero o grande adulterador do espiritismo, os livros catalogados, editados, e distribuídos como “obras complementares” da doutrina espírita, pela Federação Espírita Brasileira (FEB) - que também utilizando-se do modelo católico se auto intitula a “Casa Mater” do Espiritismo.


Faz-se por oportuno observar, que os centros espíritas espalhados por todo o território nacional, têm a cultura de instalar em suas dependências, um local para venda ou empréstimo de livros espíritas. Por conseguinte, qualquer visitante ou novo freqüentador que adentrar às dependências do centro, vai se deparar com uma pequena ou grande livraria oferecendo os mais diversos títulos, tidos como “obras espíritas“, que vão desde os livros de auto-ajuda, até os exemplares anti-doutrinários de autores encarnados e/ou desencarnados, que se contrapõem frontalmente aos princípios espíritas.




Assim, aquele que nada sabe de espiritismo, encontrará nas prateleiras da ditas livrarias, desde Os Quatro Evangelhos de Roustaing, um grande opositor de Allan Kardec, ao místico Ramatís, passando pela coleção André Luiz/Emmanuel, psicografadas pelo famoso médium Chico Xavier, trazendo toda uma gama de informações questionáveis e em total desacordo com os preceitos espíritas.
 
Na linha romanesca, obterá os romances de Zíbia Gaspareto, as famosas Violetas na Janela, a miscelânea do Espírito Luis Sérgio, O Vale dos Suicidas, de Yvone Pereira do Amaral, além da coleção Joanna de Angelis e Manoel Philomeno de Miranda psicografados por Divaldo Pereira Franco.
 
E neste mundo literário confuso e contraditório, o visitante ou novo freqüentador poderá achar uma estante perdida ao fundo da esfuziante livraria e/ou biblioteca, com uma exposição muito comumente incompleta, de O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno, A Gênese, O que é o Espiritismo, Obras Póstumas, e talvez alguns poucos volumes da Revista Espírita!
 
Diante desta realidade, explica-se a assustadora quantidade de pessoas que se dizem espíritas e NUNCA leram sequer uma obra fundamental da doutrina Espírita, entendendo-se que o neófito ao se deparar com toda essa diversidade de livros ofertados pela instituição Espírita, acreditará por óbvio encontrar naquelas páginas o repositório de informações, e conhecimentos formalmente espíritas!
 
Agravando a situação de “fundo” da doutrina, o iniciante terá provavelmente na instituição que passa a freqüentar, como monitores, facilitadores, doutrinadores, ou expositores, pessoas despreparadas e desconhecedoras das Obras Fundamentais da Doutrina Espírita, sendo estes na sua grande maioria leitores contumazes das psicografias de Chico e Divaldo, de Ramatis, dos Tambores de Angola, do Aconteceu na Casa Espírita, e obviamente de Violetas na Janela!
 
Vale ressaltar, que na sua grande maioria, o critério de admissão para os trabalhos de dirigente de grupo, de médium ou doutrinador nas reuniões mediúnicas, é que tenha “boa vontade”, e quando muito, se arvore como leitor das famosas obras complementares - leia-se coleção André Luiz/Emmanuel! Por conseguinte, o neófito do espiritismo estará sendo formado para tornar-se o próximo divulgador mistificado e mistificador da Doutrina Espírita, levando adiante a “corrente do mal”.
 
Portanto, face ao exposto que é a constatação real do que são os centros espíritas de norte a sul do Brasil, entendo ser uma temeridade indicar em sã consciência uma instituição espírita para alguém que busque conhecer e estudar o espiritismo... E então, o que fazer?!
 
Diante do total desvirtuamento da Doutrina dos Espíritos, é fato que precisa-se urgentemente reorganizá-La, e Kardec com toda a competência quando trata do assunto, começa se reportando aos adeptos “ainda isolados sob meio a uma população hostil ou ignorante das idéias novas”. Esta é a realidade dos espíritas contemporâneos não submersos no misticismo espírita. Encontram-se isolados no meio de uma população hostil e ignorante das idéias espíritas, sendo considerados por toda a falange mística, como ortodoxos obsidiados e inimigos contumazes do espiritismo.
 
Entretanto, o Codificador orienta que tais espíritas “para começar, podem trabalhar por conta própria, impregnando-se da doutrina pela leitura e meditação das obras especiais”, ou seja, as obras fundamentais da doutrina espírita, ressalvando que “se se limitassem a colher na doutrina uma satisfação pessoal, seria uma espécie de egoísmo”. Acrescenta que “em razão de sua própria posição, têm uma bela e importante missão de espalhar a luz em seu redor”. Adverte ainda que não devemos nos deixar deter pelas dificuldades, posto que “sem dúvida encontrarão oposição, serão alvo de zombarias e dos sarcasmos dos incrédulos, da própria malevolência das pessoas interessadas em combater a doutrina; mas, onde estaria o mérito, se não houvesse nenhum obstáculo a vencer?” E assevera que “aos que forem detidos pelo medo pueril do que os outros pensariam deles, nada temos a dizer, nenhum conselho a dar.” (Revista Espírita, dezembro de 1861, Organização do Espiritismo)
 
Daí, estabelece Kardec algumas questões importantes para a formação dos grupos, dispondo que a primeira questão a ser considerada é a “uniformidade na doutrina”, significando que todos deverão seguir “a linha traçada em O Livro dos Espíritos e em O Livro dos Médiuns, posto que, “um contém os princípios da filosofia da ciência; o outro, as regras da parte experimental e prática“. Complementa afirmando que “estas obras estão escritas com bastante clareza, de modo a não ensejar interpretações divergentes, condição essencial de toda doutrina nova.” (Revista Espírita, dezembro de 1861, Organização do Espiritismo)
 
O segundo ponto abordado pelo Codificador diz respeito à constituição dos grupos, estabelecendo como uma das primeiras condições a homogeneidade, que segundo suas palavras, “sem a qual não haveria comunhão de pensamentos”, e acrescentando que “uma reunião não pode ser estável, nem séria, se não há simpatia entre os que a compõem; e não pode haver simpatia entre pessoas que têm idéias divergentes e que fazem oposição surda, quando não aberta.” Esclarece o mestre que “cada um pode e deve externar sua opinião; mas há pessoas que discutem para impor a sua, e não para se esclarecer.”
 
No que concerne às perturbações advindas das discussões por divergência e imposição de opiniões, diz Kardec que “as reuniões espíritas estão em condições excepcionais”, requerendo acima de tudo recolhimento. “Ora, como estar recolhido se, a cada momento, somos distraídos por uma polêmica acrimoniosa? Se, entre os assistentes, reina um sentimento de azedume e quando sentimos à nossa volta seres que sabemos hostis e em cuja fisionomia se lê o sarcasmo e o desdém por tudo quanto não concorde inteiramente com eles?” (Revista Espírita, dezembro de 1861, Organização do Espiritismo)
 
Em seguida preceitua que “num grupo sempre há elementos estáveis e flutuantes. O primeiro é composto de pessoas assíduas, que formam a base; o segundo, das que são admitidas temporária e acidentalmente. É essencial prestar escrupulosa atenção no que respeita à composição do elemento estável; neste caso, não se deve hesitar em sacrificar a quantidade pela qualidade, porque é ele que dá impulso e serve de regulador.” ( ) “Não se deve perder de vista que as reuniões espíritas, como, aliás, todas as reuniões em geral, haurem as forças de sua vitalidade na base sobre a qual se assentam; neste particular, tudo depende do ponto de partida.” (Revista Espírita, dezembro de 1861, Organização do Espiritismo)
 
Pontua Kardec que “formado esse núcleo, ainda que de três ou quatro pessoas, estabelecer-se-ão regras precisas, seja para as admissões, seja para a realização das sessões e para a ordem dos trabalhos, regras às quais os recém-vindos terão de se conformar.” (Revista Espírita, dezembro de 1861, Organização do Espiritismo)
 
Adiante adverte que a “ordem e a regularidade dos trabalhos são coisas igualmente essenciais, considerando de grande utilidade abrir cada sessão pela leitura de algumas passagens de O Livro dos Médiuns e de O Livro dos Espíritos. Segundo Kardec por esse meio, “ter-se-ão sempre presentes na memória os princípios da ciência e os meios de evitar os escolhos encontrados a cada passo na prática. Assim, a atenção será fixada sobre uma porção de pontos, que muitas vezes escapam numa leitura particular e poderão ensejar comentários e discussões instrutivas, das quais os próprios Espíritos poderão participar.” (Revista Espírita, dezembro de 1861, Organização do Espiritismo)
 
Por fim, faz-se por oportuno ressaltar as seguintes considerações feitas pelo Codificador: “Como se vê, nossas instruções se destinam exclusivamente aos grupos formados de elementos sérios e homogêneos; aos que querem seguir a rota do Espiritismo moral, visando o progresso de cada um, fim essencial e único da doutrina; enfim, aos que nos querem aceitar por guia e levar em conta os conselhos de nossa experiência. É incontestável que um grupo formado nas condições que indicamos funcionará em regularidade, sem entraves e de maneira proveitosa. O que um grupo pode fazer, outros também podem. Suponhamos, então, numa cidade, um número qualquer de grupos, constituídos sobre as mesmas bases; necessariamente haverá entre eles unidade de princípios, desde que seguem a mesma bandeira; união simpática, desde que têm por máxima amor e caridade. Numa palavra, são os membros de um a família, entre os quais não haveria concorrência, nem rivalidade de amor-próprio, já que todos estão animados dos mesmos sentimentos para o bem.” (Revista Espírita, dezembro de 1861, Organização do Espiritismo)
 
Diante do exposto, entendo que a reorganização do espiritismo passará pelo mesmo processo inicial que se deu à época de Kardec, ou seja, com a formação de pequenos grupos, livres do personalismo e do misticismo implantado no que está posto.
 
Serão esses novos grupos que estudarão a doutrina espírita tendo como fonte as obras fundamentais, e resgatarão o pensamento espírita, rechaçando os rituais, e a necessidade infantil de se eleger alguém para reverenciar e seguir!
 
Aquele que estuda a doutrina espírita, entende porque ela é libertadora. A liberdade está justamente na responsabilidade trazida pelo conhecimento. Passa-se a entender que não serão os passes, a água fluidificada, as rezas, as velas, o evangelho no lar, nem os Espíritos que nos “salvarão”! Será o trabalho solitário e árduo do nosso Espírito imortal, buscando aparar as arestas da nossa personalidade infantil, depois de compreendermos e assimilamos a dinâmica da vida ora no plano material, ora no plano espiritual.
 
Finalizando, reitero o entendimento de que será através de um movimento que estimule e propague a formação de pequenos grupos espíritas, organizados nos moldes kardecianos, tendo como componentes companheiros unidos pelo mesmo ideal, dedicados ao estudo e à divulgação do espiritismo, que teremos um novo recomeço. Precisamos acreditar como Kardec acreditou, que a doutrina espírita avançará! Para tanto, faz-se necessário exercitarmos a comunhão de pensamentos, amadurecendo e dando vida a essa idéia. Como asseverava o Codificador, o pensamento é uma força ativa que se tornará mais forte e eficiente quanto maior o número de homens e Espíritos unidos num mesmo objetivo. Esta será a “corrente do bem!”



domingo, 10 de junho de 2012

Uma análise do discurso de Kardec, em resposta ao questionamento: O Espiritismo é Religião?

(Sessão Anual comemorativa do dia dos Mortos - Sociedade de Paris, 1º de novembro de 1868)

 
 
Por Maria das Graças Cabral e Fátima Abreu

 
 
Para a análise do discurso de Kardec a respeito do questionamento se espiritismo é religião, faz-se por oportuno observar que este inicia falando da comunhão de pensamentos. De forma enfática assevera o Codificador, que ainda não apreendemos o alcance real do que seja esse mecanismo em sua plenitude.

 
Segundo Kardec: “Comunhão de pensamento quer dizer pensamento comum, unidade de intenção, de vontade, de desejo, de aspiração. Ninguém pode desconhecer que o pensamento é uma força”. Não uma força puramente abstrata, sendo necessário conhecer suas propriedades “e a ação dos elementos que constituem nossa essência espiritual, e é o Espiritismo que no-las ensina“.

 
Na realidade Kardec inicia a sua exposição sobre o tema, abordando a comunhão de pensamentos, por entender que a força da doutrina espírita, está justamente nesta união que conduzirá à evolução da humanidade terrestre, desenvolvendo toda a moralidade necessária ao bem comum. Ou seja, o pensamento sempre antecede à ação. Assevera Kardec que “é pela vontade que o espírito imprime aos membros e ao corpo movimentos num determinado sentido. Mas, se tem a força de agir sobre os órgãos materiais, quanto maior não deve ser essa força sobre os elementos fluídicos que nos rodeiam!”

 
Em seguida, encaixando a importância da união de pensamentos em uma assembléia, estabelece que “se todas (assembléias) forem benéficas os assistentes experimentarão um verdadeiro bem estar, e se sentirão à vontade; mas se se misturarem alguns pensamentos maus, produzirão o efeito de uma corrente de ar gelado num meio tépido”. Isto porque, para que as reuniões sejam benéficas e produtivas, os pensamentos devem estar harmonizados em um mesmo objetivo.

 
O mesmo ocorre com os grupos de estudos, necessários para o entendimento da Doutrina Espírita. Não olvidando da importância fundamental de um mergulho profundo na análise também de quem estuda. Porque para o Codificador “concebe-se que nas relações que se estabelecem entre os homens e os espíritos, haja, numa reunião onde reine perfeita comunhão de pensamentos, uma força atrativa ou repulsiva, que nem sempre possui o indivíduo isolado.”

 
Ainda a respeito da comunhão de pensamentos, nos alerta Kardec sobre a reciprocidade do bem comum como objetivo. Ou seja, o desejo do benefício comum neutraliza “a ação dos Espíritos maus”, advertindo ser uma tática para levar o homem ao isolamento, pois sozinho pode sucumbir ao passo, que se sua vontade for corroborada por outras vontades, poderá resistir, conforme o axioma: a união faz a força, axioma verdadeiro, tanto do ponto de vista moral, quanto do físico.”

 
Na realidade, o Mestre busca demonstrar que todas as religiões embora fundadas na comunhão de pensamentos, objetivam através da “forma” estarem “quites com Deus e com os homens.” Acrescenta que “cada um vai aos lugares de reuniões religiosas com um pensamento pessoal, por sua própria conta, e, na maioria das vezes, sem nenhum sentimento de confraternidade em relação aos outros assistentes; fica isolado em meio a multidão e só pensa no céu para si mesmo.”

 
Decepcionadas com essa realidade há pessoas que negam a utilidade das assembléias religiosas e, em conseqüência de seus templos, ou locais construídos para este fim. Não obstante, Kardec assevera que “falar assim é desconhecer a fonte e os benefícios da comunhão de pensamentos que deve ser a essência das assembléias religiosas; é ignorar as causas que a provocam.”

 
Diante de tais pensamentos, entende o Mestre que “o isolamento religioso assim como o isolamento social, conduz ao egoísmo.” E questiona: - “Qual o homem que poderá dizer-se bastante esclarecido para nada ter a aprender no tocante aos seus interesses futuros? Bastante perfeito para abrir mão dos conselhos da vida presente? Será sempre capaz de instruir-se por si mesmo? Não; a maioria necessita de ensinamentos diretos em matéria de religião e de moral, como em matéria de ciência.”

 
Kardec então nos estimula por meio do seu discurso, que independente do objetivo, o laço estabelecido por uma religião é essencialmente moral. “O efeito desse laço moral é o de estabelecer entre os que ele une, como conseqüência de vistas e de sentimentos, a fraternidade e a solidariedade, a indulgência e a benevolência mútuas. É nesse sentido que também se diz: a religião da amizade, a religião da família.”

 
Então com tais argumentos, o Mestre justifica a resposta do questionamento em tela: - O Espiritismo é uma religião? Oportuno lembrar quando da Introdução de O Livro dos Espíritos, Kardec se reporta à questão da pobreza do nosso vocabulário, quando uma mesma palavra é utilizada para exprimir idéias diferentes. O mesmo problema é atribuído à questão da palavra religião, que segundo o Codificador é inseparável da de culto, despertando uma idéia de “forma” que o espiritismo não tem.

 
Diante de tantos equívocos que permeiam a Doutrina Espírita, o uso de uma palavra que representa mais de uma idéia, no caso, a palavra religião, viria segundo Kardec a transformá-la em um culto místico. “Não tendo o espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual da palavra, não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor inevitavelmente se teria equivocado. Eis porque simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral.”

 
Daí, disserta o Codificador de como devem ser as reuniões espíritas, ressaltando que mesmo diante do recolhimento e das preces, estas não configuram assembléias religiosas. Esclarecendo: “Não se pense que isto seja um jogo de palavras; a nuança é perfeitamente clara, e a aparente confusão não provém senão da falta de uma palavra para cada idéia.”

 
Diante do exposto, o texto em questão é mais uma colaboração para o resgate do estudo das Obras Fundamentais da Doutrina Espírita, espelho do nosso entendimento como espíritos necessitados de uma melhor compreensão sobre o nosso processo evolutivo, que nos conduzirá certamente para a aceitação das diversidades.

 
Realmente, podemos concluir que Allan Kardec teve todo o cuidado de estabelecer para a doutrina espírita, o seu caráter de doutrina filosófica e moral, diferenciando dos conceitos usuais de religião. Como assevera o Codificador, a pobreza de vocabulário é que nos leva a tantas confusões interpretativas.


 
Concluindo:


1 - Kardec deixa claro da importância das assembléias de estudo observando-se a comunhão de pensamentos entre encarnados e desencarnados, buscando-se a unidade de objetivos e propósitos;


2 - Ressalta que a Doutrina Espírita não é religião por não adequar-se aos caracteres de uma religião, sendo considerada pelo Codificador como uma doutrina filosófica e moral.