Por Maria das Graças Cabral
Andam
muito em voga as obras literárias da autoria de cientistas de formação
humanista, como antropólogos, sociólogos, pedagogos e historiadores, que se
propõem a estudar o Espiritismo, fazendo suas pesquisas sob a ótica própria da
sua área de conhecimento. As conclusões obedecem às limitações impostas pelos
objetivos pré-determinados pela pesquisa, apresentando algumas incongruências
com o pensamento espírita, posto que, seu entendimento é oriundo de um “outro
olhar”.
E foi lendo uma dessas obras intitulada “Espiritismos
– Limiares entre a vida e a morte”, que me deparei com a seguinte assertiva
feita pela autora Maria Ângela Vilhena, quando trata de “Dinâmicas da Auto Compreensão
Espírita no Brasil”, senão vejamos:
(...) “A valorização do conhecimento letrado, da erudição, do
refinamento intelectual atua no sentido de no momento presente excluir dos
centros kardecistas os que no passado, quando encarnados, não tiveram
acesso a esses bens culturais porque foram pobres, negros, índios. Ergue-se
assim uma barreira simbólica, um fosso invisível a afastar do kardecismo os
brasileiros menos favorecidos economicamente, discriminados pelo sangue e pele,
contaminados por tradições religiosas de procedência não europeia. Eis porque,
para muitos analistas do movimento espírita kardecista, aqui estariam, ainda
que de maneira velada, traços provenientes de preconceitos de classe, cor,
religião e cultura que grassam na sociedade brasileira”. (2008: p. 130) (grifo
nosso)
Adiante
acrescenta em um tópico intitulado TENDÊNCIA
INCLUSIVISTA o seguinte:
(...) “Neles não faltam questionamentos à FEB e a certos centros a
ela filiados, que não recebem espíritos de pretos velhos, índios, caboclos,
mas apenas literatos, pintores, padres, freiras de cútis branca, olhos azuis”.
(2008: p. 141) (grifo nosso)
Diante
do exposto, farei resumidamente algumas considerações, de acordo com o que está
positivado em O Livro dos Espíritos. Asseveram os Mestres espirituais da
Codificação, que somos todos Espíritos em evolução e fomos criados simples e
ignorantes; que temos o livre-arbítrio para escolher nossos caminhos, daí,
alguns avançarem mais rapidamente rumo à perfeição, e outros mais lentamente;
que mais cedo ou mais tarde, todos alcançarão a condição de Espírito Perfeito;
e que segundo o grau de perfeição se tem Espíritos de diferentes ordens, que
vai da Imperfeição à condição de Espírito Puro.
A
Doutrina Espírita estabelece que com a morte do corpo material, o Espírito leva
para o plano espiritual todas as aquisições intelectuais e morais. Não vira
santo, nem gênio, nem demônio. Continua sendo o que é, com seus vícios, virtudes,
crenças, dores morais, desequilíbrios, amores e ódios. Que passará um tempo na
condição de Espírito errante, estudando o seu passado e procurando o meio de se
elevar.
Também
nos é dito que o Espírito desencarnado não perde sua individualidade e utiliza-se
de um envoltório semimaterial (períspirito) que toma uma forma visível e
palpável, e apresenta a aparência da sua última encarnação.
Fica
claro que toma esta aparência, pois é assim que se percebe, se identifica, e se
faz reconhecer. Portanto, se desencarnou como negro (a) ou oriental, assim se
apresentará e se perceberá. Entretanto, se numa próxima encarnação, reencarnar
como um (a) mulato (a), ou branco (a), assim se apresentará e se perceberá. Até
porque o Espírito não tem cor nem sexo. Apenas utiliza-se do corpo material
para o seu desenvolvimento espiritual, e por consequência, seu períspirito, no papel
de elo entre a matéria e espírito, e de envoltório do espírito quando
desencarnado, mantém a forma do corpo físico que habitou.
Vale
ressaltar, que a aparência o identifica e individualiza. Então se questiona: -
Será que alguém que encarnou como escravo, índio, mulato, branco, passará a se
apresentar “sempre” com essas características mesmo depois de várias outras
encarnações? E se insistir em se fazer conhecer e se identificar com essa
forma, qual seria seu propósito?
Asseveram
os Mestres Espirituais, que pode o Espírito se apresentar e se identificar sob
a forma de uma encarnação transata, desde que haja necessidade de se fazer reconhecer
por alguém (uns) que o conheceu sob aquela forma e identidade.
No que
concerne à identidade dos Espíritos, outro aspecto relevante a ser proposto, diz
respeito aos vários Espíritos da Codificação que se apresentam com nomes de
grandes personalidades terrenas como Sócrates, Platão, Santo Agostinho, Erasto,
etc. Não obstante, tais pessoas foram individualidades que passaram pela Terra
traçando uma rica experiência encarnatória, deixando seus nomes eternizados pela
grandeza dos feitos realizados.
Dizem os
Mestres espirituais, que muito comumente Espíritos de alta elevação se
apropriam de nomes conhecidos e respeitados na Terra, para trazerem mensagens esclarecedoras
ou revelações, objetivando serem estas mais facilmente acatadas pela humanidade.
Como
também muitos outros Espíritos se apresentam com os nomes de suas últimas
encarnações, como pessoas comuns que fizeram parte da humanidade terrestre. São
os inúmeros “Joãos”, “Marias”, “Alices”, “Elizabetes”, “Fredericos”, etc., que
também viveram na Terra, e narram suas histórias eivadas de vitórias, e/ou
insucessos, independente de raça, credo ou condição social. E esses relatos
estão fartamente presentes nas Obras Fundamentais incluindo as Revistas
Espíritas, a título de ensinamento.
Não
obstante, no que concerne ao Preto Velho, a Pomba Gira, ao Exu, ao Satanás, a Iemanjá,
ao Anjo Gabriel, ao Anjo Ismael, ao Saci Pererê, a Mula sem Cabeça, etc., não
passam de figuras mitológicas ou folclóricas. Ou seja, essas individualidades
nunca existiram.
Pode-se
entender que alguns Espíritos se façam identificar com tais denominações, ou
assumindo tais formas (em face da plasticidade do períspirito) tendo como objetivo,
despertar respeito, reverência, credibilidade, assustar ou aterrorizar os crédulos.
Afinal,
ninguém é “Preto Velho” nem “Pomba Gira”, nem “Satã”, muito menos os Espíritos
de alta evolução andam tomando forma de “Anjos” cacheados e com asas, para serem
acatados e respeitados pelos encarnados. Tais recursos apenas denotam o nível
de ignorância de tais Espíritos, que ainda procuram recorrer a essas formas e
identidades para chamar a atenção daqueles que acreditam, e assim alcançarem objetivos
frequentemente não muito nobres.
Oportuno
pontuar, que as reuniões mediúnicas espíritas, devem ter caráter educativo e
esclarecedor tanto para encarnados, como para desencarnados. Observa-se que
Kardec exaustivamente apresenta nas obras fundamentais, as reuniões mediúnicas
como a parte prática e educativa da Doutrina dos Espíritos, já que esta tem dentre
seus fundamentos, a comunicabilidade e interação entre os dois planos da vida.
Vale
ressaltar, que todos os diálogos travados numa mediúnica se desenvolvem num
clima de respeito e recolhimento, numa busca incessante de aprendizado e
esclarecimento por parte dos interlocutores encarnados e desencarnados.
Daí, por
exemplo, se um Espírito se apresenta na reunião mediúnica espírita identificando-se
como: - “Sou o Saci Pererê”, ou, “sou o Preto Velho”, ou ainda, “sou a Pomba Gira”,
obviamente, que se buscará saber quem ele é realmente, para que se possa analisar
a sua problemática. Não se deve jamais fomentar a “fantasia” de individualidades
que se apresentam como figuras folclóricas e/ou mitológicas.
Portanto,
o Espiritismo não exclui o atendimento a Espíritos de negros, índios ou pobres.
Muito pelo contrário, acolhe e respeita a todos. Não obstante, sendo uma
Doutrina filosófica e moral, não acolhe superstições e crendices. Na realidade,
a Doutrina Espírita busca esclarecer e educar o Espírito humano, conduzindo-o
para sua emancipação espiritual.
O
Espiritismo assevera que ninguém é anjo ou demônio. Somos todos Espíritos, criados
simples e ignorantes, em processo evolutivo, e que temporariamente utilizamo-nos
de corpos, e vivenciamos a maldade e a dor, por pura ignorância, no sentido de
ignorar, de desconhecer, de faltar habilidade para vivenciar a Lei de Amor.
Entretanto,
mais cedo ou mais tarde alcançaremos a condição de Espíritos Puros. Seremos Seres
Cósmicos livres do processo reencarnatório, expandindo todo o potencial de
bondade, de beleza e paz, em favor de todos os seres.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
VILHENA,
Maria Ângela. Espiritismos – Limiares entre a vida e a morte. Ed. Paulinas. 1ª
edição. São Paulo/SP. 2008.
KARDEC,
Allan. O Livro dos Espíritos. Ed. LAKE, 62ª edição. São Paulo/SP. 2001.






