Mostrando postagens com marcador Igreja Católica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Igreja Católica. Mostrar todas as postagens

sábado, 10 de novembro de 2012

O Sacerdote & O Espiritismo


Por Maria das Graças Cabral

Durante todo o trabalho de sistematização da Doutrina dos Espíritos, Allan Kardec, na condição de Codificador, se disponibilizou de forma efetiva a tirar dúvidas e fazer análises do que se escrevia e/ou falava a respeito do Espiritismo. Nunca deixou de dirimir as dúvidas daqueles que de forma sincera buscavam a compreensão da nova doutrina, estimulando o estudo sério e efetivo, e estabelecendo de forma clara os fundamentos e objetivos da mesma.

Nesse sentido travou vários diálogos com pessoas cujos propósitos eram os mais diversos. Desde os simples “curiosos” aos opositores contumazes. Entretanto, buscava primeiramente “captar” o verdadeiro propósito do inquiridor, pois não perdia seu tempo, com discursos improdutivos.

Na obra intitulada “O que É o Espiritismo”, Kardec tem por objetivo apresentar uma “iniciação preliminar” da Doutrina Espírita, através de respostas a “questões fundamentais” que lhe eram lançadas com frequência.

Daí organiza três capítulos sob a forma de diálogos, com três personalidades que se opõem ao Espiritismo. No primeiro capítulo seu inquiridor é um crítico, no segundo um cético e no terceiro um sacerdote católico.

No presente artigo faremos algumas considerações do diálogo desenvolvido com o personagem religioso, na condição de um dos mais contumazes opositores da Doutrina dos Espíritos, por ver nesta, uma ameaça à sua religião e aos seus dogmas.

Inicialmente Kardec antes de se propor a responder aos questionamentos que seriam feitos pelo sacerdote, deixa claro que não é seu propósito “convertê-lo” às ideias espíritas, acrescentando que o inquiridor terá a liberdade de repudiá-las ou aceitá-las, pois “o Espiritismo não cuida de impor-se a ninguém e que não veio forçar convicções”. (2001: p. 71)

Faz-se por oportuno a transcrição de um pequeno trecho, onde Allan Kardec assim se expressa:

“O Espiritismo não se impõe porque, como disse, respeita a liberdade de consciência. Compreende muito bem, por outro lado, que toda fé imposta é superficial e só oferece aparências de fé; nunca é a fé sincera. Expõe seus princípios aos olhos de toda a gente, de modo que possa cada um formar opinião com conhecimento de causa. Os que aceitam, leigos ou sacerdotes, fazem livremente porque o acham racionais. De nenhuma maneira, porém, abrigamos rancor contra os que não são do nosso parecer. Se existe uma luta aberta entre a Igreja e o Espiritismo, não fomos nós que a provocamos. Disso estamos convencidos”. (2001: p 72)

A partir de tais considerações trava-se um longo diálogo, sincero, às vezes ácido, mas muito esclarecedor para os quiserem adentrar ao estudo da Doutrina Espírita. O religioso de início se coloca asseverando que, “assistindo ao advento da nova doutrina” e sendo sabedor que esta traz princípios que “deve condenar, a Igreja tem certamente o direito de discuti-los e os combater”, prevenindo seus fiéis “contra o que considera errôneo”. (2001: p 72)

Kardec prontamente observa que a Igreja não se ateve apenas aos limites da discussão, mas foi além publicando escritos e fazendo sermões levantando a injúria, a calúnia, perseguindo e desfigurando maliciosamente os princípios da Doutrina. Ao que o sacerdote alega que a Igreja não poderia ser responsabilizada por “alguns membros menos educados”. O Codificador contrapõe “lembrando” que as agressões, calúnias e perseguições não partiram apenas dos fiéis, mas também e principalmente, dos “Príncipes da Igreja”.

Não obstante, o que realmente preocupa ao sacerdote é o fato de o Espiritismo não estar em todos os pontos concorde com a religião católica. A esse respeito, Kardec com muita coerência o adverte que todas as demais religiões podem dizer o mesmo, até porque, dentro das próprias religiões existem as divergências.

No que concerne às cisões que ocorrem no seio das religiões, faz-se por oportuno os esclarecimentos feitos pela professora Maria Ângela Vilhena quando assim se expressa:

“(...) a existência no interior das religiões de todo um complexo de crenças e práticas que guardam entre si maior ou menor grau de semelhanças, proximidades e distanciamentos. Às vezes, quando da predominância da diversidade interna, de afastamentos dos fundamentos tidos por alguns como sendo ortodoxos, formam-se grupos representativos de posturas antagônicas e concorrentes. Pode ocorrer que quando as críticas acirradas vão tornando o diálogo cada vez mais áspero e até mesmo impossível, entre seus membros surjam cismas e rupturas. Essa é uma das razões pelas quais, em situações-limite, das disputas aparecem cisões internas, exclusões e desmembramentos em subgrupos”. (2008: p. 13/14)

E acrescenta adiante:

“Pretende-se, assim, demonstrar que o campo religioso é um campo de disputas não apenas entre diferentes religiões, mas também que no interior da mesma religião formam-se dissensões, grupos disputantes, cada qual imbuído da pretensão da correta interpretação dos princípios doutrinários e práticas a eles correlatas”. (2008: p. 13/14)

Portanto, é fato que as discordâncias e dissenções existem entre as religiões constituídas, e muito comumente dentro de suas próprias hostes.  A título de exemplo a referida autora se reporta ao Judaísmo e suas várias vertentes, como ultra ortodoxa, conservadora, liberal, renovada, mística cabalística. O Budismo tibetano, o taoísta, o movimento Soka-Gakai, ou o da Perfeita Liberdade. O próprio Catolicismo também abriga várias tendências, como a Teologia da Libertação, os padres cantores que optam - segundo as palavras de VILHENA - pelo show-missa. E os Protestantes, que tem os que seguem a Igreja Renascer em Cristo, a Universal do Reino de Deus, ou a Pentecostal Brasil para Cristo. (2008: p. 15)

No que tange ao Espiritismo, preceitua a autora, que se encontram referências, “ao Espiritismo kardecista ortodoxo, ao movimento que alia a Umbanda ao Kardecismo, ou ainda ao Espiritismo catolicizado”. (2008: p. 15)

Diante das observações feitas por Kardec, o religioso prossegue seus questionamentos, pontuando como o “cerne da questão”, o fato de o Espiritismo defender certos conceitos combatidos pela Igreja, como a reencarnação, a presença do homem na Terra antes de Adão; nega a eternidade das penas, a existência do demônio, do purgatório e do fogo do inferno. Vale ressaltar também que a Doutrina dos Espíritos, tira a autoridade dos clérigos para perdoar pecados, pois estabelece que cada um é responsável pelos próprios atos, e não serão palavras ou rituais que irão modificar a situação espiritual de ninguém. (2001: p. 79)

Em resposta a tais argumentos, o Codificador assevera que “há muito tempo essas questões vêm sendo discutidas, e não foi o Espiritismo que as trouxe para o terreno dos debates”. E acrescenta que tais problemas fomentam controvérsias na própria teologia. (2001: p. 79)

Não obstante, o Mestre observa que o que mais importa, independentemente da crença, é que os seres humanos se tornem melhores, pois a prática do bem está pautada numa lei superior.

Daí, Kardec de forma clara e objetiva, que faz parte de sua personalidade e de seu discurso, assim se expressa:

“Creia, se lhe agrada, que não temos senão uma existência corporal. Isto não lhe impedirá de nascer aqui ou em outra parte, à sua revelia, se assim tiver que ser”.

“Creia que o mundo inteiro foi feito em seis vezes vinte e quatro horas, se tal for sua opinião. Isso não impedirá que a Terra ostente escritas em suas camadas geológicas, as provas do contrário”.

“Creia, se lhe apraz, que Josué deteve o movimento do Sol. Isso não impedirá que a Terra gire”.

“Creia que há apenas seis mil anos encontra-se o homem na face da Terra. Por isso, os fatos não serão impossibilitados de provar o absurdo da crença”.

“E que dirá o senhor se, um belo dia, quando menos esperar, a inexorável Geologia vier demonstrar, com vestígios incontestáveis, como já provou tantas outras coisas, a anterioridade do homem”?

“Creia na existência do demônio; creia em tudo o que quiser, se a crença nessas coisas puder torná-lo bondoso, humano e caritativo para com seus semelhantes”. (2001: p. 80)

Pode-se visualizar com que propriedade o Codificador estabelece os fundamentos da Doutrina dos Espíritos. Em seguida discorre resumidamente sobre reencarnação, penas eternas, e demônio, objetivando esclarecer seu interlocutor.

Não obstante, vale pontuar outro aspecto considerado pela Igreja Católica como uma afronta à sua dogmática. Trata-se da questão que se refere à comunicabilidade dos Espíritos.

O sacerdote afirma que a Igreja proíbe as comunicações com os Espíritos dos mortos, por serem contrárias à religião, e por estarem “formalmente” condenadas pelo Evangelho e por Moisés, que pronunciou a “pena de morte”, para aqueles que descumprissem tal determinação.

Kardec começa por esclarecer que a proibição de Moisés, era justificada pela necessidade do legislador hebreu fazer seu povo abandonar os costumes egípcios. Na realidade, as evocações eram meios de adivinhações, explorados pelo charlatanismo e pela superstição. Diante de um povo indisciplinado e endurecido, arraigado às práticas e crenças egípcias, estabeleceu a pena de morte em sua legislação, para que pudesse conter a população e alcançar seus objetivos. (2001: p. 84)

E daí contra argumenta que se a proibição de evocar os mortos procede da Divindade, como estabelece a Igreja, a pena de morte contra os deliquentes, seria também por ela ditada. E acrescenta que “se a Lei de Moisés é para a Igreja artigo de fé sobre certo ponto, por que não seria sobre todos? Por que recorrem a ela quando convém e a desprezam quando não convém? Por que não seguir todas as prescrições, entre as quais a circuncisão, que Jesus sofreu e não aboliu”?

Obviamente, há de se compreender que a Lei Mosaica traz nas tábuas do Sinai, os preceitos morais indestrutíveis. E numa segunda parte a legislação civil, que se adequava aos costumes da época, e do povo, como qualquer outra legislação que disciplina as relações sociais.

Não obstante, Kardec salienta que a Igreja não nega a comunicação dos bons Espíritos, tidos como “santos”, nem dos “demônios”, tão ou mais poderosos que aqueles! Observa-se um contra senso nessa proposição, pois se os que estão no “ápice da bondade” ou no “ápice da maldade” podem se manifestar aos encarnados, o que impediria a todos os outros terem a mesma capacidade e/ou oportunidade? Afinal, não estão todos na mesma condição de Espíritos? Por que essa “lei” só atingiria os extremos?...

Na realidade, assevera o Mestre a esse respeito, que as religiões, supondo-se na posse exclusiva da verdade absoluta, identificam como demoníaca toda e qualquer doutrina que não seja exclusivamente ortodoxa, ao seu ponto de vista...

Aliás, o Codificador de forma exaustiva em várias oportunidades afirma que os Espíritos não vêm para derrogar as religiões. Mas para revelar novas leis da natureza. Acrescenta que os religiosos devem observar se seus artigos de fé, seus dogmas, podem anular uma lei natural que é obra de Deus.

Finalizando, nada melhor do que as orientações do Mestre quando se dirigindo ao seu interlocutor, assevera que a “melhor maneira de uma pessoa adquirir conhecimentos sobre o Espiritismo é estudando a teoria”, pois os fatos virão depois naturalmente, e serão compreendidos.

Afinal, é através das obras propostas por Kardec, que vão desde O Livro dos Espíritos, passando pelo O Livro dos Médiuns, O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno, A Gênese, e A Revista Espírita, que segundo o próprio Codificador “é um curso de aplicação, pelos numerosos exemplos que oferece e os desenvolvimentos que encerra, sobre a parte teórica e a parte experimental”, que poderemos compreender “em parte” a grandiosidade e complexidade que envolve o nosso destino de Espíritos imortais, todos sob o comando de uma Lei Maior, da qual temos apenas uma pálida ideia.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

VILHENA, Maria Ângela. Espiritismos – Limiares entre a vida e a morte. Ed. Paulinas. 1ª edição. São Paulo/SP. 2008.

KARDEC, Allan. O Que é o Espiritismo. Ed. LAKE. 26ª edição. São Paulo/SP. 2001.

domingo, 4 de novembro de 2012

Os Religiosos Católicos Presentes na Doutrina Espírita


Por Maria das Graças Cabral

 

Muito comumente causa espanto aos neófitos da Doutrina dos Espíritos, encontrar nomes de veneráveis santos católicos, na condição de grandes Mestres da Espiritualidade, que trouxeram os fundamentos do Espiritismo.  

Nos Prolegômenos de O Livro dos Espíritos, além de grandes pensadores da humanidade do quilate de Sócrates e Platão, mencionam-se os nomes de santos da Igreja Católica tais como: São João Evangelista, Santo Agostinho, São Vicente de Paulo, São Luís, dentre outros religiosos que se manifestaram nas obras fundamentais espíritas.

Podemos citar Fénelon, destinado pela família para a carreira eclesiástica. Começou seus estudos no colégio dos Jesuítas em Cahors. Continuou os Estudos junto aos Jesuítas em Paris e manteve contatos com o seminário de Saint-Sulpice. (Fonte: http://www.geae.inf.br/pt/biografias/ - Acessado em 04/11/2012)

Outro religioso católico presente na codificação foi Lamennais, que nasceu em uma família burguesa. Foi um escritor brilhante, tornando-se uma figura influente e controversa na história da Igreja católica francesa. Com 34 anos de idade, Lamennais foi ordenado padre. Na condição de escritor fluente, político e filósofo, esforçou-se para combinar a política liberal com o Catolicismo Romano, após a Revolução Francesa. (Fonte: http://www.geae.inf.br/pt/biografias/ - Acessado em 04/11/2012)

Também sacerdote das hostes católicas foi Lacordaire, nascido em 12 de maio de 1802, numa cidade francesa perto de Dijon, tornou-se vigário da famosa Catedral de Notre-Dame, em Paris. A força da sua oratória atraía milhares de leigos para o culto. Em 1839 entrou para a Ordem Dominicana na França, trabalhando pela sua restauração, desde que a Revolução Francesa a tinha largamente subvertido. (Fonte: http://www.espiritismogi.com.br/biografias/- Acessado em 04/11/2012)

Constata-se nas mensagens de tais espíritos, esparsas nas obras fundamentais, um discurso bem próprio dos clérigos católicos. Veja-se a título de exemplo, um pequeno trecho de Santo Agostinho falando do “mal como remédio” da alma:

 “Vossa terra é por acaso um lugar de alegrias, um paraíso de delícias? A voz do profeta não soa ainda aos vossos ouvidos? Não clamou ele que haveria choro e ranger de dentes para os que nascessem neste vale de dores? Vós que nele viestes viver, esperai, portanto lágrimas ardentes e penas amargas, e quanto mais agudas e profundas forem as vossas dores, voltai os olhos ao céu e bendizei ao Senhor, por vos ter querido provar”!

E adiante acrescenta: “Se, no auge de vossos mais cruéis sofrimentos, cantardes em louvor ao Senhor, o anjo da vossa guarda vos mostrará o símbolo da vossa salvação e o lugar que devereis ocupar um dia”. (O Evangelho Segundo Espiritismo. Capítulo V. item 19) (grifo nosso).


Identifica-se claramente um sacerdote a falar aos fiéis das “penas” acerbas impingidas pelo “Senhor”, aos “pecadores” que vivem nesse “vale de dores”, utilizando-se de um vocabulário próprio do catolicismo, e que ainda se faz presente muito fortemente em seu discurso.

Não obstante, viajando no tempo e aportando no século XX, nos deparamos com os médiuns brasileiros, Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco, considerados os ícones do Espiritismo no Brasil e no mundo. E aí, mais uma vez observa-se a presença ostensiva de religiosos católicos à frente da divulgação da Doutrina Espírita.

No caso do conhecido médium Francisco Cândido Xavier, seu famoso mentor asseverava ter sido em sua última encarnação, o padre jesuíta Manoel da Nóbrega, que aos 27 anos, foi ordenado pela Companhia de Jesus (1544), fazendo-se pregador. Viajou por Portugal, Galiza e o resto da Espanha na pregação do Evangelho. Surpreendido com o convite do rei D. João III, embarcou na armada de Tomé de Sousa (1549). Chegaram à Bahia em 29 de março de 1549 e, celebrada a primeira missa, ter-se-ia voltado para seus auxiliares e dito: “Esta terra é nossa empresa.” (http://pt.wikipedia.org/- Acessado em 04/11/2012).

Quanto ao não menos famoso médium e divulgador mundial do Espiritismo, Divaldo Pereira Franco, assevera este, ter como mentora, a freira católica Joanna de Ângelis. Segundo o médium, Joanna “no século I, vivera como Joana de Cusa, uma das maiores colaboradoras da obra de Jesus, inclusive citada no evangelho como uma das mulheres piedosas, tendo sida queimada viva ao lado de seu único filho, juntamente com outros cristãos no Coliseu de Roma”. Em 12/11/1651 nascia no México Sór Juana Inés de La Cruz, tendo sida a maior poetisa da língua hispânica; muito competente em teologia, medicina, direito canônico e astronomia. Foi teatróloga, musicista, pintora e poliglota. Falava e escrevia, fluentemente, seis idiomas.

Em 11/12/1761 nascia em Salvador-Bahia Sóror Joana Angélica de Jesus que posteriormente tornou-se freira. Em 1822, em defesa da honra das jovens do seu Convento, foi assassinada por um soldado português, tornando-se mártir da independência do Brasil. Joanna de Ângelis também vivera no século XIII, de 16/07/1194 à 11/08/1253. Segundo a mentora, ficou conhecida como irmã Clara de Assis, fundadora da ordem feminina Franciscana. Mais tarde, em 15 de agosto de 1255 foi canonizada pelo papa Alexandre IV como Santa Clara de Assis. (Clara de Assis)”. (Fonte: http://pt.wikipedia.org/ - Acessado em 04/11/2012).

Diante do exposto, no que concerne aos Espíritos que participaram efetivamente na Codificação da Doutrina Espírita, observa-se em suas biografias, que não viviam a experiência religiosa numa condição de reclusos em monastérios. Pelo contrário, todos foram grandes filósofos, e/ou cientistas, que já pensavam e estudavam as questões cruciais da humanidade, envolvendo a moralidade humana, a educação, e os grandes conflitos sociais.

Desenvolviam teorias filosóficas que se adequassem ao catolicismo, formando entendimento religioso a ser acatado e adotado pela Igreja (instituição). Na realidade, objetivavam encontrar um “elo” que justificasse a vida com todas as suas complexas consequencias ao Deus e supremo criador, coadunando-se tais pensamentos com as “verdades” dogmáticas e bíblicas, adotadas pela Igreja Católica Apostólica Romana.

Não obstante, tais personalidades quando do retorno ao mundo espiritual, foram expandindo seus conhecimentos, mudando seus entendimentos, obviamente que orientados pelos grandes “Mestres da Espiritualidade”, e assim se prepararam para a grande empreitada de trazer à humanidade, nos albores do século XIX, as grandes revelações que estavam gravadas em nossos “arquétipos”, apropriando-me do termo junguiano, e que considerávamos sobrenatural ou fantástico.

Vieram provar a existência e imortalidade do Espírito e todas as suas consequências, respondendo ao clássico questionamento humano: - “Quem sou? De onde vim? Prá onde vou?” E dentro de suas respectivas áreas de conhecimento, foram desenvolvendo todo um grandioso trabalho que suplantou muitas das convicções que defendiam em encarnações transatas, na condição de encarnados.

Oportuno ressaltar, que a Doutrina dos Espíritos baseia-se no principio evolutivo para todos os seres da criação. Fica claro que este processo envolve tanto o aspecto intelectual como moral, e não está adstrito às experiências no corpo físico.  A Doutrina é farta em exemplos trazidos pelos testemunhos de Espíritos que se reportam aos seus estudos e observações feitos no mundo espiritual.

A esse respeito em O Livro dos Espíritos, quando trata do Mundo Espírita ou dos Espíritos, Kardec indaga aos Mestres Espirituais “de que maneira se instruem os Espíritos errantes”, e a resposta dada é a seguinte: - “Estudam o seu passado e procuram o meio de se elevarem. Vêem e observam o que se passa nos lugares que percorrem; escutam os discursos dos homens esclarecidos e os conselhos dos Espíritos mais elevados que eles, e isso lhes proporciona idéias que não possuíam”. (O Livro dos Espíritos – pergunta 227)

Daí entende-se porque, os Espíritos católicos avançaram mais rapidamente rumo ao conhecimento Espírita. Observe-se que já acreditavam na vida espiritual, embora com uma visão limitada de céu, purgatório e inferno. Acreditavam nas manifestações dos santos e demônios e nos milagres realizados pelos santos intercessores. Portanto, estavam mais preparados para entender à dinâmica que envolve o mundo material e o mundo espiritual.  

Por outro lado, não se identifica dentre os Espíritos religiosos da Codificação, pastores protestantes. A esse respeito, entende-se que diante de uma maior rigidez interpretativa da bíblia, da não aceitação radical da comunicabilidade dos mortos, onde só aceitam a manifestação do demônio, torna-se muito mais complexa a compreensão e aceitação da Doutrina Espírita.

Na realidade, o protestantismo está mais voltado ao Deus mosaico, e na busca pelo sucesso na vida material. Isto por entenderem, que a morte os levará a um estado de sono profundo até a chegada do Juízo Final. Por conseguinte, não oram pelos mortos nem admitem sua comunicabilidade. Aliás, só trabalham de forma efetiva com o exorcismo - que é a expulsão do demônio - pois segundo suas convicções, este procura seduzir a humanidade tomando a forma de pessoas queridas e veneráveis para conduzí-las ao inferno. Daí se mostrarem menos refratários à compreensão e aceitação dos princípios Espíritas.

Para finalizar far-se-á alguns comentários sobre os mentores religiosos dos médiuns Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco, na condição de divulgadores da Doutrina Espírita para o Brasil e o mundo. Observa-se que ao contrário dos Espíritos da codificação que vieram trazer os novos paradigmas para o Espírito humano, os referidos mentores, buscam introduzir aos princípios Espíritas alguns aspectos de suas convicções religiosas católicas.

Fácil compreender, pois o progresso de cada ser humano tem seu rítmo próprio. Portanto, não se daria tão rapidamente as mudanças de “vícios” religiosos arraigados, próprios de espíritos que passaram por várias encarnações vivenciando a dogmática religiosa católica, defendida e abraçada com profunda convicção. Observe-se que para estes não havia conflitos entre seus pensamentos e o que estava posto pela Igreja que serviam e amavam.

É fato que hoje se dizem espíritas e trabalham como divulgadores do espiritismo. Não obstante, sempre que podem, buscam distorcer aquilo que os incomoda na Doutrina Espírita, por entenderem em desacordo com as crenças religiosas que professaram por tantas encarnações e que ainda trazem gravadas em seus Espíritos, como convicções a serem respeitadas.

Em contrapartida, é óbvio que tais Espíritos encontram em seus médiuns um “campo de convicções religiosas” que se coaduna perfeitamente com seus interesses. Daí, a perfeita sintonia que permite sem o menor obstáculo, a divulgação espírita eivada dos rituais e credos iminentemente católicos.

Percebe-se esta forte presença, por exemplo, no “culto do evangelho no lar” - com a jarra de água para fluidificar, o caderno com os nomes dos que deverão receber a ajuda espiritual, a leitura do evangelho e de livros de mensagens de textos bíblicos – nada mais ritualístico e católico.

Portanto, diante das considerações acima expostas, pode-se entender porque o catolicismo ainda se faz tão presente no meio espírita. Porque ainda precisamos casar nas igrejas católicas, batizar nossas crianças, mandar rezar missa de sétimo dia para nossos mortos, levar flores para depositar aos pés das imagens de Nossa Senhora, Bezerra de Menezes, São Francisco de Assis, etc..

Porque ainda fazemos promessas e romarias para os santos. Porque procuramos usar a cor branca e cobrir com toalhas brancas as mesas de reunião mediúnica, como se cobrem os altares das igrejas católicas. Por isso fazemos as filas para receber passes e beber a água fluidificada, como fazíamos as filas para receber a comunhão nos templos católicos.

Efetivamente, são muitos os comportamentos atávicos que ainda estamos longe de nos libertar, por estarem incrustados em nossos Espíritos, em razão das inúmeráveis encarnações abraçando a Igreja Católica como a portadora da verdade inquestionável, a representante de Deus na Terra, e único laço de ligação entre o homem e o Criador.