terça-feira, 8 de maio de 2012

A propósito da Mediunidade

Por Sérgio Aleixo

Kardec começa dizendo, no n. 159 de O Livro dos Médiuns, que “toda pessoa que sente a influência dos espíritos, em qualquer grau de intensidade, é médium”. Não assegura, pois, que todas as pessoas sentem essa influência, do que se conclui que nem todos são médiuns. Afirma logo a seguir que “essa faculdade é inerente ao homem, por isso mesmo não constitui privilégio”, do que se pode supor agora que, sim, todos são médiuns. Depois, porém, segue dizendo que “são raras as pessoas que não a possuem pelo menos em estado rudimentar”, do que se volta a concluir que nem todos são médiuns, porque é médium a maioria do gênero humano, não todo o gênero de nossa espécie.


 
No entanto, a conclusão de Kardec é esta: “Pode-se dizer, pois, que todos são mais ou menos médiuns”, e disso se depreende que ele passa a desconsiderar a parcela mínima que não possui nem rudimentos de mediunidade, preferindo generalizar a faculdade. Adiante, contudo, torna a restringir a qualificação de médium, explicando que, “usualmente, se aplica somente aos que possuem uma faculdade mediúnica bem caracterizada, que se traduz por efeitos patentes de certa intensidade, o que depende de uma organização mais ou menos sensitiva.”


 
Esse é o texto do n. 159 de O Livro dos Médiuns. E fato é que, baseados tão só nele, poderemos dizer que todos somos médiuns ou, por outra, que nem todos o somos, e, ainda assim, sempre estaremos com relativa razão. Por outro lado, se usualmente são médiuns os que possuem uma faculdade bem caracterizada e, além disso, considerada a existência de raros indivíduos que nem mesmo num estado rudimentar a possuem, entendo que mais coerente é que se diga: não, nem todos somos médiuns.


 
Potencial mediúnico, claro, todos o temos. No entanto, tecnicamente, o crucial é que ele sempre dependerá da “disposição orgânica” que caracteriza toda condição de médium, [1]  disposição que não, definitivamente nem todos a temos. Por isso, Kardec leciona que “não se podem designar pelo nome de médium as pessoas que, nenhuma faculdade mediúnica possuindo, só produzem certos efeitos por meio da charlatanaria.”[2] O mesmo se verifica quando o mestre pondera: “Para que serviriam hoje médiuns pagos, desde que qualquer pessoa, se não possui faculdade mediúnica, pode tê-la nalgum membro da sua família, entre seus amigos, ou no círculo de suas relações?”.[3] Desde O Livro dos Espíritos, 450-a, aprende-se que a dupla vista, faculdade que também se presta a fatos mediúnicos, depende, sim, da organização física, pois “há organizações que se lhe mostram refratárias”. E a esta pergunta de Kardec: “A suspensão da faculdade não implica o afastamento dos espíritos que habitualmente se comunicam?”, respondem os espíritos: De modo algum. O médium se encontra então na situação de uma pessoa que perdesse temporariamente a vista, a qual, por isso, não deixaria de estar rodeada de seus amigos, embora impossibilitada de os ver. Pode, portanto, o médium e até mesmo deve continuar a comunicar-se pelo pensamento com seus espíritos familiares e persuadir-se de que é ouvido. Se é certo que a falta da mediunidade pode privá-lo das comunicações ostensivas com certos espíritos, também certo é que não o pode privar das comunicações morais.[4]

 
Tal foi a razão pela qual Kardec, querendo afastá-la da ideia de privilégio, disse que, sim, todos possuem mediunidade, embora também haja deixado claro que, não, nem todos têm a disposição orgânica para a sua manifestação. Na falta da mediunidade propriamente dita, não há, pois, comunicações ostensivas com os espíritos, a despeito de haver, entre nós e eles, comunicações morais, quando, persuadidos de que nos ouvem, lhes endereçamos pensamentos. Médium de fato, contudo, é aquele que se comunica com os espíritos, não só se dirigindo a eles, mas deles obtendo distinguida resposta.


 
Ao encontro deste entendimento, vem o fato de que a mediunidade é uma concessão; [5] isto é, radicada na constituição física do indivíduo, trata-se daquilo que permite ao seu perispírito, segundo Erasto, “uma força de expansão particular, que lhe suprime toda refratariedade”.[6] Ora! Se “médium” é a “pessoa que pode servir de medianeira entre os espíritos e os homens”,[7] sinal de que há a pessoa que não o pode, porque não tem a disposição orgânica específica para isso. Tendo vida psíquica, recebe pensamentos do além, embora não lhes distinga a origem. E eis aqui mais uma lição em que Kardec volta a mencionar como fato a ausência de mediunidade nalguns raros indivíduos: Os médiuns de efeitos físicos são particularmente aptos a produzir fenômenos materiais como os movimentos dos corpos inertes, ruídos, etc. Podem ser divididos em médiuns facultativos e médiuns involuntários. Os médiuns facultativos têm consciência do seu poder e produzem fenômenos espíritas pela própria vontade. Essa faculdade, embora inerente a espécie humana, como dissemos, não se manifesta em todos no mesmo grau. Mas, se são poucas as pessoas que não a possuem, ainda mais raras são as que produzem grandes efeitos como a suspensão de corpos pesados no espaço, o transporte através do ar e, sobretudo, as aparições.[8]

 
[...] Médiuns facultativos ou voluntários: os que têm o poder de provocar os fenômenos por um ato da própria vontade. (Ver n.° 160.) Por maior que seja essa vontade, eles nada podem se os espíritos se recusam, o que prova a intervenção de uma potência estranha. [9]

 
Portanto, como “a faculdade propriamente dita é orgânica”, [10] sua simples existência ou não existência no corpo físico de alguém é a condição sine qua non para a produção ou não produção, mediante sua pessoa, de qualquer fenomenologia mediúnica. Vale ponderar ainda que, se raros eram, no século 19, os que da mediunidade não possuíam sequer algum rudimento, na população de nossos dias, já menos raros certamente são esses indivíduos. Finalizo com este contundente ensino de Kardec: O mal é que muitos médiuns confundem a experiência, fruto do estudo, com a aptidão, que decorre apenas do organismo. Julgam-se elevados e mestres, porque escrevem com facilidade, rejeitam todos os conselhos e se tornam presa de espíritos mentirosos e hipócritas, que os apanham lisonjeando-lhes o orgulho.[11]


[1] O Livro dos Médiuns, 209, 174, 226 (1.ª).
[2] O Livro dos Médiuns, 196.
[3] O Livro dos Médiuns, 305.
[4] O Livro dos Médiuns, 220 (8.ª)
[5] O Livro dos Médiuns, 220 (14.ª) e 306.
[6] O Livro dos Médiuns, 236.
[7] O Livro dos Médiuns, Vocabulário Espírita.

[8]O Livro dos Médiuns, 160.
[9] O Livro dos Médiuns, 188.

[10] O Livro dos Médiuns, 226 (1.ª)
[11] O Livro dos Médiuns, 192.

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