sábado, 27 de julho de 2013

Nem Espiritismo Laico, Nem Nova Religião

Por Dora Incontri
 
A posição de Kardec ainda não foi compreendida pela maioria e uma das provas disto está no debate ainda atual se o espiritismo é ou não é religião. Por um lado, estão os que se autodenominam espíritas laicos e que defendem a idéia de que Kardec jamais pensou o espiritismo como religião, mas apenas como ciência, filosofia e moral; do outro, estão os que defendem o chamado tríplice aspecto do espiritismo, ciência, filosofia e religião, mas agem e pensam como se o espiritismo fosse apenas mais uma religião. Estes constituem a maioria do movimento espírita brasileiro.
 
Analisemos a polêmica com cuidado, porque os dois lados têm suas razões e os dois lados cometem enganos. De fato, Kardec não quis estabelecer mais uma religião, no sentido comum do termo, (por isso, diz muitas vezes que o espiritismo não é religião), visto que o espiritismo não tem sacerdócio, templos, hierarquia institucional, dogmas de fé e nem rituais que o adepto deva seguir para dizer-se espírita. Qualquer pessoa que aceite os postulados espíritas e procure viver segundo a moral de Jesus pode se dizer espírita, mesmo que jamais tenha pisado num centro espírita ou assistido a uma reunião. Trata-se de uma convicção pessoal, de uma adesão livre, de que  ninguém está instituído para pedir satisfações ou exigir o cumprimento disto ou daquilo.
 
Nesse sentido, portanto, quando os espíritas laicos dizem que o espiritismo não é religião, estão certos. Mas seria melhor dizer: não é mais uma religião, nos moldes das religiões tradicionais.
 
Se Kardec promoveu esse desencantamento, essa crítica e esse esvaziamento hierárquico do universo religioso, guardou aquilo que lhe é essencial. O Livro dos Espíritos declara como a primeira das leis morais a lei de adoração a Deus. Essa adoração pode se manifestar no homem em forma de estudo das leis da natureza – portanto a ciência, como Kepler, Giordano Bruno, Newton e outros afirmaram, pode ser uma espécie de culto a Deus; e em forma de prática de amor ao próximo, na vida social, e, também e sobretudo, em forma de oração, de ligação afetiva do ser humano com a divindade. Ora, o amor ao próximo é a essência ética da maioria das religiões e a oração é um ato indubitavelmente religioso. Não há outra classificação para esse ato universal, por mais que o tornemos simples, espiritualizado, sem ritos, imagens, intermediações, templos, genuflexões ou gestos...
 
Além disso, é das religiões que nos vêm as experiências milenares de contato com a divindade, de manifestações mediúnicas e de revelações morais – grandes espíritos reencarnaram no seio das mais variadas religiões do planeta e exemplificaram uma ética elevada a partir da vivência religiosa. Assim, a religião é uma forma de ser e estar no mundo que não podemos simplesmente deixar de lado, porque constitui parte integrante da nossa consciência. Descendemos da divindade e foram as religiões que revelaram isso.
 
Portanto, falar em espiritismo laico – o que significa dizer um espiritismo destituído de qualquer ligação com o assunto religião – é um contrassenso e uma negação da obra de Kardec.
 
O laicismo nasceu no Ocidente como forma de protesto contra o domínio milenar da Igreja católica. Fala-se em escola laica, em Estado laico, como lugares institucionais que se consideram neutros do ponto de vista religioso e fora da tutela da Igreja. O espiritismo não é neutro em termos religiosos. Kardec critica, reavalia e recria a religiosidade humana, inaugurando uma nova forma de ser religioso, sem jamais negar essa dimensão do homem.
 
 
INCONTRI, Dora. PARA ENTENDER ALLAN KARDEC, ed. Lachátre, Bragança Paulista/SP, 1ª edição, 2004.


17 comentários:

  1. No meu entender, a ideia de ser melhor a religião que melhora o homem, deixa claro que o Espiritismo não se ocuparia de recriar uma religião, mas de trazer luz (de lucidez) ao que era encoberto pelo misticismo ou fanatismo.

    Sendo assim, entendo que uma pessoa possa ser espírita sem abdicar de suas crenças, desde que entenda os limites e diferenças claros entre elas.

    A meu ver, a Doutrina Espírita nos dá a base lógica e racional para entendermos espiritualidade e evolução sem os véus do sobrenatural e do maravilhoso, um dia necessários e naturais, no passado...

    Eu mesmo, como amante e estudioso do espiritualismo e do espiritismo, me aventuro em filosofias outras, onde identifico perfeitamente os acessórios e muletas psicológicas de seus processos, o que não me impede de apreciar os aspectos positivos e filosóficos que nelas encontro.

    Sobre isto, deixo trechos de "O Livro dos Espíritos":


    Capítulo X - Lei de Liberdade


    III - Liberdade de Pensamento


    833. Há no homem qualquer coisa que escape a todo o constrangimento, e pela qual ele goze de uma liberdade absoluta?

    — É pelo pensamento que o homem goza de uma liberdade sem limites, porque o pensamento não conhece entraves. Pode impedir-se a sua manifestação, mas não aniquilá-lo.


    835. A liberdade de consciência é uma conseqüência da liberdade de pensar?

    — A consciência é um pensamento íntimo, que pertence ao homem como todos os outros pensamentos.


    836. O homem tem o direito de pôr entraves à liberdade de consciência?

    — Não mais do que à liberdade de pensar, porque somente a Deus pertence o direito de julgar a consciência. Se o homem regula pelas suas leis a relação de homem para homem, Deus, por suas leis naturais regula as relações do homem com Deus.


    838. Toda a crença é respeitável, ainda mesmo quando notoriamente falsa?

    — Toda crença é respeitável quando é sincera e conduz à prática do bem. As crenças reprováveis são as que conduzem ao mal.


    839. Somos repreensíveis por escandalizar em sua crença aquele que não pensa como nós?

    — Isso é faltar com a caridade e atentar contra a liberdade de pensamento.


    842. Como todas as doutrinas têm a pretensão de ser única expressão da verdade, por que sinais podemos reconhecer a que tem o direito de se apresentar como tal?

    — Essa será a que produza mais homens de bem e menos hipócritas, quer dizer, que pratiquem a lei de amor e caridade na sua maior pureza e na sua aplicação mais ampla. Por esse sinal reconhecereis que uma doutrina é boa, pois toda doutrina que tiver por conseqüência semear a desunião e estabelecer divisões entre os filhos de Deus só pode ser falsa e perniciosa.

    ResponderExcluir
  2. Prezados,

    Creio que seria interessantes levantarmos algumas questões:

    Por que há tanto interesse em que o Espiritismo seja aceito como religião, no sentido COMUM/USUAL do termo?

    O Espiritismo ainda pode ser considerado como uma ciência?

    Antes de Jesus não existia moral/ética/bons costumes?

    Por que o Espiritismo TEM QUE SER cristão?

    São as religiões que levam o homem a se conhecer( autoconhecimento)? ou será a filosofia?

    Por que que há TANTA HIPOCRISIA nos seguidores das religiões?

    Temos que IMITAR alguém("santos" ou mesmo Jesus) ou devemos tentar nos conhecer para identificar nossas falhas e então tentarmos superá-las, no NOSSO TEMPO, SEM SALTOS e assim EVOLUIRMOS( jamais "reforma íntima")?

    Existe alguma finalidade em dizermos que o Espiritismo É uma religião?

    Kardec não foi claro sobre este assunto? Para mim, sim! Muito claro e objetivo!

    O Espiritismo BEM COMPREENDIDO cria LAÇOS( UNIÃO, FRATERNIDADE, COMPROMISSO, RESPONSABILIDADE, DEVER) entre aqueles que o COMPREENDEM e para com todos os demais seres.

    O Espiritismo se BEM COMPREENDIDO... NÃO DÁ MARGEM À HIPOCRISIA!

    O Espiritismo NÃO É religião.

    Hoje... também NÃO É nem mesmo ciência.

    Hoje EXISTE uma religião que se utiliza do termo CHANCELADO por Kardec, mas NÃO É Espiritismo. É a religião da FEB, o Espiritismo Cristão.

    A religião INDUZ a uma "transformação" superficial, de pura aparência, a HIPOCRISIA.

    Em se compreendendo o Espiritismo, NÃO HÁ COMO seguir religião alguma, pois NÃO HÁ sincretismo entre ambos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito esclarecedora suas analises .muito bom .Obrigado.

      Excluir
    2. Durante anos, como espírita, faço estas mesmas colocações acima e acredito, piamente, não haver necessidade de misturar espiritismo à religião. Até por que, Kardec nunca afirmou estar criando uma nova religião, com os aparatos das demais que conhecemos.

      O espiritismo não é religião. Mas podemos sim, vê-lo como o futuro de esclarecimentos para as religiões, ainda existentes.

      Excluir
  3. Muito bom, interessante e esclarecedora a publicação.
    Aliás, todo o conteúdo deste espaço no mundo "virtual" da rede mundial de computaores é extremamente reflexivo, coerente com a Doutrina Espírita e profundo com os necessários olhares interdisciplinares.
    O que me "chamou" - coloco desta forma - ao Espiritismo foi exatamente a chamada FÉ RACIOCINADA! O aspecto Filosófico e o Científico que podem perfeitamente caminhar(em) juntos na busca do progresso intelectual, moral e material da Humanidade. A religiosidade é importante exatamente porque tivemos as experiências milenares já explicitadas no "post" que nos revelam que, de fato, essencialmente há um Criador. Algo que nos transcende. E a espiritualidade nos mostra o caminho disso e a necessidade de vivermos em Harmonia.
    Mais uma vez, Parabéns!

    ResponderExcluir
  4. Deixo para leitura por parte dos amigos, palavras do próprio Kardec: "O sacerdote - O senhor faz não obstante, as invocações segundo uma formula religiosa?

    Allan Kardec - Anima-nos, certamente, um sentimento de religioso, nas evocações e em nossas reuniões. Não existe, porem, uma formula sacramental. Para os Espíritos o pensamento é tudo; a forma não vale nada. Nós os invocamos em nome de Deus porque cremos em Deus e sabemos que nada se cumpre neste mundo sem a Sua permissão e porque se Deus não lhes permitisse vir, não viriam. (...) Isto tudo o que prova? Que NÃO SOMOS ATEUS, O QUE DE NENHUM MODO IMPLICA EM QUE SEJAMOS RELIGIOSOS."

    Como vemos, Kardec deixa bem claro que ser adepto do espiritismo não implica em ser religioso, partidário da "religião espírita", como querem alguns.
    Mais adiante aduz:
    "Quem primeiro proclamou que o Espiritismo era uma religião nova, com seu culto e seus sacerdotes, senão o clero? Onde se viu, até o presente, o culto e os sacerdotes do Espiritismo?

    Se algum dia ele (Espiritismo*) se tornar uma religião, o clero é quem o terá provocado"

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Colocações de " O que é Espíritismo " de Kardec , Nem todos leram .Muito bom , Obrigado.

      Excluir
  5. Segue um link, http://espiritismocomprofundidade.blogspot.com.br/2011/08/o-espiritismo-e-cristao.html, com um EXCELENTE texto para reflexão sobre a questão: "O Espiritismo é Cristão?"

    ResponderExcluir
  6. Olá amigo tudo joia? que legal o seu blog..
    Serio mesmo.. conheci ele a pouco tempo e já estou gostando..
    Eu também tenho um blog espirita o> http://espiritismoespiritoverdade.blogspot.com.br/
    Meu objetivo e o mesmo que o seu.. divulgar a doutrina espirita.. Que tal agente fazer parceria depois?
    Parabéns pelo blog.. super informativo.

    ResponderExcluir
  7. Alguem acima escreveu por que o Espiritismo tem que ser Cristao? Eu pergunto, por que o Espiritismo deveria seguir outra filosofia? Poderia o Espiritismo ser Muculmano? Especialmente quando esta ideologia( Islao) , quando pesquisada em profundidade em seus livros pilares, se percebe que e uma ideologia disfarcada de religiao e prega violencia contra todas as outros seguidores de filosofias diferentes na TErra.

    ResponderExcluir
  8. 581 Os homens que são a luz do gênero humano, que o clareiam por seu gênio, têm certamente uma missão; mas entre eles há os que erram e, ao lado das grandes verdades, propagam grandes erros. Como se deve considerar a missão desses homens?

    Como enganados por eles mesmos. Estão abaixo da tarefa a que se propuseram.
    É preciso, entretanto, se dar conta das circunstâncias;
    os homens de gênio devem falar conforme os tempos, e um ensinamento que se considera errôneo ou infantil para uma época avançada podia ser suficiente para o século em que foi divulgado.

    O Livro dos Espíritos

    ResponderExcluir
  9. Religião é uma concepção puramente humana. Deus não criou religião e nem Jesus. O Espiritismo é a terceira revelação revelada pelos Espiritos Superiores e codificada por Kardec, para despertar os indivíduos quanto a realidade da vida...filosofia baseada na metodologia cientifica de cunho moral e ético.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Essa expressão "Espíritos Superiores". Superior em quê?

      Excluir
    2. "111. Segunda classe. Espíritos superiores. - Esses em si reúnem a ciência, a sabedoria e a bondade. A linguagem que empregam só respira benevolência; é invariavelmente digna, elevada e, muitas vezes, sublime. Sua superioridade os torna mais aptos do que os outros a nos darem as mais justas noções sobre as coisas do mundo incorpóreo, dentro dos limites do que é permitido ao homem saber. Comunicam-se de bom grado com os que procuram de boa-fé a verdade e cuja alma já está bastante desprendida das ligações terrenas para compreendê-la. Afastam-se, porém, daqueles a quem só a curiosidade impele, ou que são desviados da prática do bem por influência da matéria.

      Quando, por exceção, encarnam na Terra, é para cumprir missão de progresso e então nos oferecem o tipo da perfeição a que a Humanidade pode aspirar neste mundo."

      http://ipeak.net/site/estudo_janela_conteudo.php?origem=779&idioma=1

      Excluir
  10. Adorei ler o seu artigo, gosto sempre ler assuntos sobre este tema. Sou uma pessoa muito espiritual.
    Obrigada.

    ResponderExcluir
  11. Criar polemica em torno dessa discussão é mostrar que não compreendeu o insigne Codificador. Como está bem colocado pela DORA INCONTRI Os Espíritos da Codificação propuseram para todos os que buscam compreender a diferença entre religião e Religiosidade. O que o Espiritismo propõe é RESGATAR os ensinos de JESUS E SEU EVANGELHO. Penso que é isso que diferencia se o Espiritismo é ou não Religião

    ResponderExcluir
  12. Adorei o texto e os comentários tenho participado do espiritismo a 2 anos e tenho a convicção de que os espiritas tornaram o espiritismo uma religião, com rituais poucos mais com rituais, imagens de quadro de mentores em paredes como santos, isso é tão verdade que um dia limpando o quadro de Auta de Souza havia atrás dele vários papéis de pedidos, nisso fiquei pensativa, como as pessoas se comportam como religiosos apegados a esses rituais, perguntei a líder se o fato de termos uma oração inicial, uma leitura do evangelho e beber o copinho com água no final de qualquer reunião não seria um ritual? Pergunta ficou meio sem resposta - isso poderia sim ser um ritual? pois a pessoa precisa disso para sentir que o trabalho está sendo guiado pelos espíritos? Outra coisa as reuniões mediúnicas sempre devem ser feitas dentro do centro? isso não é estabelecer um templo como prática religiosa? Achar que a revelação de kardec ou codificação é superior a todas as religiões? algumas pessoas tem uma visão de sofrimento e vitimismo, isso não é ciência isso seria um resquício do catolicismo?uma visão cientifica ficaria com a psicologia buscar nos nossos comportamentos a solução dos nossos problemas, visto também na psicossomática e a medicina.
    Agradeço o momento de discussão é fico pensando em Kardec nos momentos atuais o que ele faria, afinal ele era um cientista e um professor, não religioso, será que separaria o espiritismo como apenas filosofia de vida e não religião.

    ResponderExcluir