sábado, 27 de agosto de 2011

Quem foi “Hippolyte Léon Denizard Rivail“, conhecido mundialmente como “Allan Kardec“?


Maria das Graças Cabral


Quem foi Allan Kardec, ou, quem foi Hippolyte Léon Denizard Rivail, que abriu mão de sua identidade, individualidade, atividades profissionais, para tornar-se Allan Kardec, o Codificador da Doutrina Espírita? Nos informam seus biógrafos que Hippolyte Léon Denizard Rivail nasceu na cidade de Lion na França, no início do séc. XIX, no dia 3 de outubro do ano de 1.804. Descendente de antiga família lionesa, católica, foram seus pais Jean-Baptiste Antoine Rivail, juiz, e Jeanne Louise Duhamel.

Realizou seus primeiros estudos em Lion e com a idade de dez anos, seus pais o enviaram para Yverdun, cidade suíça, a fim de estudar no célebre Instituto de Educação ali instalado em 1805 pelo professor-filantropo Johann Heinrich Pestalozzi, onde permaneceu até tornar-se pedagogo.

Lingüista insigne, falava alemão, inglês, italiano, espanhol e holandês. Traduziu para o alemão obras de autores clássicos franceses, especialmente os escritos de Fénelon (François de Salignac de la Mothe). Fundou em Paris – com sua esposa Amélie Gabrielle Boudet um estabelecimento semelhante ao de Yverdun. Escreveu gramáticas, aritméticas, estudos pedagógicos superiores; traduziu obras inglesas e alemãs. Organizou, em sua casa, cursos gratuitos de química, física, astronomia e anatomia comparada.

Membro de várias sociedades sábias, notadamente da Academia Real de Arras, foi premiado, por concurso, em 1831, com a monografia “Qual o sistema de estudo mais em harmonia com as necessidades da época?” Dentre as suas obras, destacam-se: Plano apresentado para o melhoramento da instrução pública (1828); Curso prático e teórico de aritmética (1829, segundo o método de Pestalozzi); e Gramática francesa clássica (1831).

Entretanto, segundo suas próprias palavras transcritas no livro Obras Póstumas foi no ano de 1854 que ouviu falar pela primeira vez em ‘mesas girantes’, quando assim se expressa: - “Encontrando-me um dia com o Sr. Fortier, magnetizador que eu conhecia, havia muito, e disse-me ele: - Sabeis que se acaba de descobrir no magnetismo uma singular propriedade? Parece que não somente as pessoas que se magnetizam, mas também as mesas que giram e andam à nossa vontade. - É com efeito singular - respondi-lhe - mas isso não me parece rigorosamente impossível".

"O fluido magnético, espécie de eletricidade, pode muito bem atuar sobre os corpos inertes e fazê-los mover. (...) Tempos depois, tornei a encontrar Fortier, que me disse: - Mais extraordinário do que fazer uma mesa girar e andar é fazê-la falar: perguntam e ela responde“.
- “Isso é outra questão - respondi-lhe - só acreditarei se vir ou se me provarem que a mesa tem cérebro para pensar, nervos para sentir e que pode tornar-se sonâmbula. Até então, permita-me que considere isso uma história fabulosa“.


Observamos em Hippolyte Rivail, o comportamento de um cientista racional, que não se deixava levar por relatos ou notícias bombásticas, quando não via fundamento lógico ou comprovação científica para o fenômeno. Entretanto, não se fechava à possibilidade de observação e análise objetivando firmar seu próprio convencimento, demonstrando que apesar de ser um homem de 50 anos de idade, tinha uma mente aberta ao acolhimento do novo, com toda a força e obstinação de um jovem!

Afirma que passado um ano do encontro com o Sr. Fortier, mais precisamente em princípios de 1855, encontra o Sr. Carlotti, seu amigo há vinte e cinco anos, pessoa de natureza ardente e enérgica, que lhe falou dos fenômenos que o preocupavam. Entretanto, assevera Hippolyte Rivail, que em razão da natureza um tanto quanto entusiasta do amigo, contando coisas surpreendentes, longe de o convencerem, aumentaram as suas dúvidas; até que algum tempo depois, em maio de 1855, foi à casa da Srª Roger, sonâmbula, em companhia de Fortier, seu magnetizador, e ali encontrou o Sr. Pâtier e a Srª Plainemaison, que lhe falaram no mesmo sentido que Carlotti, mas em outro tom, fazendo-o aceitar um convite para assistir às experiências que se realizavam na casa da Srª Plainemaison.

Aqui são as palavras de Rivail: - “Longe estava eu de firmar as minhas idéias, mas ali se deparava um fato, que devia ter uma causa. Entrevi, oculto naquelas futilidades aparentes, e entre aqueles fenômenos, de que se fazia um passatempo, algo de muito sério, talvez a revelação de uma nova lei, que fiz o propósito de descobrir“. E prossegue: - “Foi ali que fiz os meus primeiros estudos sérios sobre o Espiritismo, não tanto pelas revelações, como pelas observações. Apliquei a esta ciência o método experimental, não aceitando teorias preconcebidas, e observava atentamente, comparava e deduzia as conseqüências, dos efeitos procurava elevar-me às causas, pela dedução e encadeamento dos fatos, não admitindo por valiosa uma explicação, senão quando ela podia resolver todas as dificuldades da questão. Foi assim que procedi sempre em meus anteriores trabalhos desde os 15 anos“. (grifei)

Portanto, podemos identificar em Hippolyte Rivail um grande pesquisador, com uma visão que ia muito além das pessoas comuns. Enquanto que para a sociedade européia o fenômeno das ‘mesas girantes e falantes’ não passava de entretenimento, o Mestre Lionês conseguiu entrever um fenômeno muito mais complexo, de dimensões inimagináveis, que iria revolucionar dogmas religiosos, científicos e filosóficos, como também sua própria vida, tornado-o Allan Kardec, o Codificador da Doutrina dos Espíritos!

No que concerne à árdua missão que teve início com suas observações e estudos dos fenômenos espíritas, que levaram à publicação O Livro dos Espiritos, transcrevo a comunicação recebida, quando o Codificador fez a seguinte indagação em uma reunião mediúnica: - “Quais as coisas, que me podem fazer cair? Será a insuficiência da minha capacidade? Resposta. Não; mas a missão dos reformadores é cheia de tropeços e perigos. A tua é rude, previno-te, porque tens de revolver e formar o mundo inteiro. Não suponhas que basta publicar um livro, dois, dez, e ficar tranqüilo em casa; não! será preciso expor a tua pessoa.

Levantarás contra ti ódios terríveis; inimigos encarniçados conjurarão a tua perda; serás alvo da maledicência, da calúnia, da traição, até dos que te parecem dedicados; as tuas melhores instruções serão desprezadas e adulteradas; mais uma vez vergarás ao peso da fadiga; em uma palavra, haverá uma luta quase constante e o sacrifício do teu repouso, da tua tranqüilidade, da tua saúde, e até da tua vida, porque, sem isto, viverias mais tempo. 

Pois bem! Nem um passo para trás tu deves dar quando, em vez de um caminho juncado de flores, encontrares, sob teus pés, urzes, agudas pedras e venenosas serpentes. Para tais missões não basta a inteligência; é preciso, principalmente, para agradar a Deus, humildade, modéstia e desinteresse, porque Ele abate os orgulhosos, os presunçosos e ambiciosos. Para lutar contra os homens é preciso coragem, perseverança e inabalável firmeza; igualmente é preciso prudência e jeito para levar as coisas de modo a não comprometer os acontecimentos por medida ou palavras intempestivas; é preciso finalmente dedicação, abnegação e disposição para o sacrifício, pois vários já recuaram. Já vês que a tua missão é subordinada a condições, que só de ti dependem.” Espírito de Verdade.

Em 1º de janeiro de 1867, ou seja, dez anos e meio depois de haver recebido esta comunicação, Allan Kardec afirma que ela se realizou em todos os pontos, porque segundo seu testemunho, passou por todas as vicissitudes que lhe foram anunciadas.

E assim, quando da organização e publicação da primeira obra da Doutrina Espírita, intitulada O Livro dos Espíritos, publicado em 18 de abril de 1857, Hypolite Léon Denizard Rivail saiu definitivamente de cena, para que Allan  Kardec passasse a existir assumindo a grandiosa missão de Codificador da Doutrina dos Espíritos.

É aí que identificamos o espírito ético e humilde deste homem. Ciente que a obra desenvolvida era “dos Espíritos Superiores“ e não sua, e que Hypolite Léon Denizard Rivail já era um nome conhecido no mundo acadêmico e científico pelo grande número de trabalhos e livros publicados, seria facilmente atribuída a autoria da obra dos Espíritos, à sua personalidade. Portanto, para evitar tal possibilidade, preferiu abrir mão da sua identidade, e adotar o pseudônimo de Allan Kardec - o Codificador.

Em 1859 publica O que é o Espiritismo; em 1861 O Livro dos Médiuns; em 1864 O Evangelho segundo o Espiritismo; em 1865 O Céu e o Inferno, ou A Justiça Divina segundo o Espiritismo; em 1868 A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo. Além da Revista Espírita, órgão de estudos psicológicos, publicação mensal que teve início em 1º de janeiro de 1858.

Fundou em Paris, a 1º de abril de 1858, a primeira sociedade espírita regularmente constituída, com o nome de Societé parisiense des études spirites, cujo fim exclusivo era o estudo de tudo que pudesse contribuir para o progresso da nova ciência.

Sempre defendeu de forma valorosa, inteligente e lógica a Doutrina Espírita contra todos aqueles que tentaram agredi-la ou deturpá-la, pois sempre soube se posicionar dignamente e com grande propriedade frente aos detratores e opositores do Espiritismo! Isto porque, como muito bem preleciona J. Herculano Pires, “ninguém tem condições intelectuais e espirituais para superar Kardec - simplesmente pelo fato de que Kardec, não é um autor isolado, um solitário do pensamento, mas o Codificador, assessorado na Terra pelos companheiros de missão e assistido do além pelos espíritos do Senhor. A obra que nos deixou não é dele, como ele mesmo sempre afirmou, mas dos seus mestres espirituais. A Doutrina que nos legou não é o ’kardecismo’, mas o Espiritismo, ou seja, a Doutrina dos Espíritos.”

Voltou ao plano espiritual em 31 de março de 1869. Segundo biografia publicada pela Revue Spirite, morreu como viveu: trabalhando. Desde longos anos sofria do coração, que reclamava, como meio de cura, o repouso intelectual, com pequena atividade material. Ele, porém, inteiramente entregue às obras, negava-se a tudo o que lhe roubasse um instante das ocupações de predileção.

Portanto, diante desta breve narrativa, constatamos tratar-se Allan Kardec de um Espírito de escol, de uma moralidade inquestionável! Um intelectual, pesquisador obstinado, comprometido, disciplinado e humilde. Tinha ciência de sua enorme responsabilidade espiritual, e procurou atender às expectativas depositadas no seu trabalho, na condição de ’instrumento’ da Espiritualidade Maior, que com ele esteve lado a lado em todo o processo da codificação, até ser recebido amorosamente por toda a plêiade de trabalhadores da grande obra Espírita, quando do seu retorno à pátria espiritual!




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Kardec, Allan. OBRAS PÓSTUMAS. Editora Lake. 2.005, p. 17

3 comentários:

  1. Um resumo bem objetivo, que não deixa dúvidas sobre kardec. Bem no seu estilo responsável de escrever sobre a Doutrina. Um grande abraço.

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  2. Un abbracco da Italia http://spiritismo-italia.blogspot.it/

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