domingo, 10 de junho de 2012

Uma análise do discurso de Kardec, em resposta ao questionamento: O Espiritismo é Religião?

(Sessão Anual comemorativa do dia dos Mortos - Sociedade de Paris, 1º de novembro de 1868)

 
 
Por Maria das Graças Cabral e Fátima Abreu

 
 
Para a análise do discurso de Kardec a respeito do questionamento se espiritismo é religião, faz-se por oportuno observar que este inicia falando da comunhão de pensamentos. De forma enfática assevera o Codificador, que ainda não apreendemos o alcance real do que seja esse mecanismo em sua plenitude.

 
Segundo Kardec: “Comunhão de pensamento quer dizer pensamento comum, unidade de intenção, de vontade, de desejo, de aspiração. Ninguém pode desconhecer que o pensamento é uma força”. Não uma força puramente abstrata, sendo necessário conhecer suas propriedades “e a ação dos elementos que constituem nossa essência espiritual, e é o Espiritismo que no-las ensina“.

 
Na realidade Kardec inicia a sua exposição sobre o tema, abordando a comunhão de pensamentos, por entender que a força da doutrina espírita, está justamente nesta união que conduzirá à evolução da humanidade terrestre, desenvolvendo toda a moralidade necessária ao bem comum. Ou seja, o pensamento sempre antecede à ação. Assevera Kardec que “é pela vontade que o espírito imprime aos membros e ao corpo movimentos num determinado sentido. Mas, se tem a força de agir sobre os órgãos materiais, quanto maior não deve ser essa força sobre os elementos fluídicos que nos rodeiam!”

 
Em seguida, encaixando a importância da união de pensamentos em uma assembléia, estabelece que “se todas (assembléias) forem benéficas os assistentes experimentarão um verdadeiro bem estar, e se sentirão à vontade; mas se se misturarem alguns pensamentos maus, produzirão o efeito de uma corrente de ar gelado num meio tépido”. Isto porque, para que as reuniões sejam benéficas e produtivas, os pensamentos devem estar harmonizados em um mesmo objetivo.

 
O mesmo ocorre com os grupos de estudos, necessários para o entendimento da Doutrina Espírita. Não olvidando da importância fundamental de um mergulho profundo na análise também de quem estuda. Porque para o Codificador “concebe-se que nas relações que se estabelecem entre os homens e os espíritos, haja, numa reunião onde reine perfeita comunhão de pensamentos, uma força atrativa ou repulsiva, que nem sempre possui o indivíduo isolado.”

 
Ainda a respeito da comunhão de pensamentos, nos alerta Kardec sobre a reciprocidade do bem comum como objetivo. Ou seja, o desejo do benefício comum neutraliza “a ação dos Espíritos maus”, advertindo ser uma tática para levar o homem ao isolamento, pois sozinho pode sucumbir ao passo, que se sua vontade for corroborada por outras vontades, poderá resistir, conforme o axioma: a união faz a força, axioma verdadeiro, tanto do ponto de vista moral, quanto do físico.”

 
Na realidade, o Mestre busca demonstrar que todas as religiões embora fundadas na comunhão de pensamentos, objetivam através da “forma” estarem “quites com Deus e com os homens.” Acrescenta que “cada um vai aos lugares de reuniões religiosas com um pensamento pessoal, por sua própria conta, e, na maioria das vezes, sem nenhum sentimento de confraternidade em relação aos outros assistentes; fica isolado em meio a multidão e só pensa no céu para si mesmo.”

 
Decepcionadas com essa realidade há pessoas que negam a utilidade das assembléias religiosas e, em conseqüência de seus templos, ou locais construídos para este fim. Não obstante, Kardec assevera que “falar assim é desconhecer a fonte e os benefícios da comunhão de pensamentos que deve ser a essência das assembléias religiosas; é ignorar as causas que a provocam.”

 
Diante de tais pensamentos, entende o Mestre que “o isolamento religioso assim como o isolamento social, conduz ao egoísmo.” E questiona: - “Qual o homem que poderá dizer-se bastante esclarecido para nada ter a aprender no tocante aos seus interesses futuros? Bastante perfeito para abrir mão dos conselhos da vida presente? Será sempre capaz de instruir-se por si mesmo? Não; a maioria necessita de ensinamentos diretos em matéria de religião e de moral, como em matéria de ciência.”

 
Kardec então nos estimula por meio do seu discurso, que independente do objetivo, o laço estabelecido por uma religião é essencialmente moral. “O efeito desse laço moral é o de estabelecer entre os que ele une, como conseqüência de vistas e de sentimentos, a fraternidade e a solidariedade, a indulgência e a benevolência mútuas. É nesse sentido que também se diz: a religião da amizade, a religião da família.”

 
Então com tais argumentos, o Mestre justifica a resposta do questionamento em tela: - O Espiritismo é uma religião? Oportuno lembrar quando da Introdução de O Livro dos Espíritos, Kardec se reporta à questão da pobreza do nosso vocabulário, quando uma mesma palavra é utilizada para exprimir idéias diferentes. O mesmo problema é atribuído à questão da palavra religião, que segundo o Codificador é inseparável da de culto, despertando uma idéia de “forma” que o espiritismo não tem.

 
Diante de tantos equívocos que permeiam a Doutrina Espírita, o uso de uma palavra que representa mais de uma idéia, no caso, a palavra religião, viria segundo Kardec a transformá-la em um culto místico. “Não tendo o espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual da palavra, não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor inevitavelmente se teria equivocado. Eis porque simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral.”

 
Daí, disserta o Codificador de como devem ser as reuniões espíritas, ressaltando que mesmo diante do recolhimento e das preces, estas não configuram assembléias religiosas. Esclarecendo: “Não se pense que isto seja um jogo de palavras; a nuança é perfeitamente clara, e a aparente confusão não provém senão da falta de uma palavra para cada idéia.”

 
Diante do exposto, o texto em questão é mais uma colaboração para o resgate do estudo das Obras Fundamentais da Doutrina Espírita, espelho do nosso entendimento como espíritos necessitados de uma melhor compreensão sobre o nosso processo evolutivo, que nos conduzirá certamente para a aceitação das diversidades.

 
Realmente, podemos concluir que Allan Kardec teve todo o cuidado de estabelecer para a doutrina espírita, o seu caráter de doutrina filosófica e moral, diferenciando dos conceitos usuais de religião. Como assevera o Codificador, a pobreza de vocabulário é que nos leva a tantas confusões interpretativas.


 
Concluindo:


1 - Kardec deixa claro da importância das assembléias de estudo observando-se a comunhão de pensamentos entre encarnados e desencarnados, buscando-se a unidade de objetivos e propósitos;


2 - Ressalta que a Doutrina Espírita não é religião por não adequar-se aos caracteres de uma religião, sendo considerada pelo Codificador como uma doutrina filosófica e moral.

5 comentários:

  1. Concordo com o texto, mas é difícil manter a comunhão de pensamentos com as casas espíritas desvirtuando as obras de Kardec. Com todo o respeito, como manter comunhão de pensamentos com expositores que dão palestras absolutamente lamentáveis, invertendo e deturpando a essência do espiritismo. A moda é falar de André Luiz, Joana de Ângelis e outros que, não osbtante o conteúdo moral, nem sempre trazem relatos tão precisos e confiáveis quanto os do codificador. Não sei se continuo o estudo na casa espírita ou se faço-o em casa.

    Um sincero abraço.

    ResponderExcluir
  2. Pois é caro companheiro(a), essa é a realidade de quase todas as casas espiritas. Por isso que Kardec na sua grande sabedoria sugeria a formação de pequenos grupos para estudo. Posso lhe dar uma sugestão: organize um grupo de pessoas interessadas no estudo das obras fundamentais. Defina os dias de estudo, e dependendo do caminhar do grupo vc poderá torná-lo uma sociedade de estudos espíritas. Dia de estudo e dia de mediúnica. Este é o meu projeto. Saí do grupo espírita que frequentei por muitos anos, em razão da mistificação que campeava, juntamente com a linha roustainguista... Estou formando um grupo de estudos (pequeno) e posteriormente alugarei um local, e formarei uma sociedade espíria obedecendo todas as sugestões e orientações kardecianas. Abraço.

    ResponderExcluir
  3. Obrigado pela dica, o que importa é o estudo e de preferência em grupo. Conheci a doutrina espírita por conta dos meus pais, mas já vi coisas absolutamente lamentáveis, não só por conta do que apontei em matéria de estudo,mas nas atitudes de companheiros de casa. Uma vez, só para se ter uma idéia, uma dirigente simulou uma incorporação apenas para chamar a atenção dos trabalhadores desafetos da casa e fazer, com o respaldo de uma suposta entidade superior, o que ela desejava pra não falar de atitudes muito infelizes como o desvio de alimentos das obras assistenciais. Outro dia tive uma palestra na qual se dizia que uma criança abusada por um pedófilo poderia ser por conta de uma dívida entre ambos, ou seja, lei de ação e reação. Eu não acredito que a espiritualidade seja tão insensata de colocar um ser indefeso, por mais que tenha um passado de erros, para ser molestado e torturado sexualmente por um doente. E é esse tipo de desvirtuamento da doutrina que eu abomino porque faz dos espiritismo uma doutrina insensível, alheia ao sofrimento e responsabilidade das pessoas. De toda a sorte, gostei muito do seu blog e continuarei a frequentá-lo.

    ResponderExcluir
  4. Boa tarde!! Sou leitor assíduo de seu blog, dentre outros. Tenho procurado alguma casa espírita onde haja um estudo sério e criterioso da codificação e com uma metodologia horizontal, sem chefes e "mentores", nem superficialidades e discussões rebaixadas que acabam sendo caldo de cultura para misticismos, cientificismos, etc. Sou de Fortaleza/CE. Vivenciei GEPE, ICE, Paz e Bem, CADE, e, por último, agora minha última tentativa (com um estudo sistemático a se iniciar em agosto de 2012),o Grão de Mostarda. Se puder me incluir em seu projeto, ficarei muito grato! Por paradoxal que seja, as discussões mais ricas que tenho tido sobre a doutrina tem sido com uns poucos ateus e céticos "comovidos" e sinceramente preocupados com aprofundamentos filosóficos e científicos. Nessas discussões, e até o momento, apenas nelas é que meu discernimento e raciocínio tem sido posto a funcionar e com muita luta tenho feito a defesa de nossa consoladora doutrina. Bem, isso me é insuficiente, pois meus esforços querem ampliação e otimização. Para que se tornem esforços de cada vez maior evolução moral rogo uma empatia que me faz falta com confrades espíritas capaz de produzir humildes frutos enquanto parte da imensa seara espírita... É isto, por enquanto. Como posso me integrar? - Maxwell Teixeira

    ResponderExcluir
  5. Caro companheiro, antes de mais nada, seja bem vindo ao blog Um Olhar Espírita.



    Várias pessoas já me procuraram pedindo indicação de um grupo espírita para frequentar, e honestamente, não indico nenhum, pois aqui no Ceará todos os CE's estão de uma forma ou de outra comprometidos com a linha roustainguista, e portanto profundamente místicos, incluindo obviamente a FEEC.



    Portanto, oriento o seguinte (pois é o que estou começando a fazer): Organize primeiramente um grupo de estudos das Obra Fundamentais. Depois, forme uma Sociedade de Estudos Espíritas, alugue um pequeno lugar e defina um dia para estudo, um dia prá mediúnica. Era essa a proposta de Kardec, ou seja, grupos pequenos voltados ao estudo sério do espiritismo, sem rituais, como por exemplo: filas de passes, de água fluidificada, de vibrações, etc.



    Por enquanto, ainda estou na 1ª fase, ou seja, organizando o grupo de estudo. Inicialmente somos quatro pessoas. Estou às ordens para qualquer outro esclarecimento. Abraço.

    ResponderExcluir